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Do insight à materialização do projeto

3 ANÁLISE DO CASO OS ANJOS DE BADARÓ

da autonomia estética do criador quando o escritor demonstra demasiado conforto e integração satisfeita às leis do mercado.

A autora complementa dizendo que, muitas vezes, a “cooptação do escritor é encarada com receio, pois é associada a uma consequência imediata: o desleixo da qualidade estética”

(AZEVEDO, 2013, p. 2). Para além dessa ideia de queda da qualidade, é fundamental compreender, atualmente, o autor enquanto produtor e parte de um sistema econômico. Essa noção de produtor é evocada tanto no esquema de Zohar (2013) quanto nas proposições de Canclini (2016b). Quando colocamos o autor diante daquilo que Zohar chama de Sistema Literário, aceitamos que esse autor é parte de um mercado e que ele não atua sozinho nesse sistema. Dessa forma, entendemos que o autor enquanto produtor não é uma figura una e independente. Essa é nossa primeira consideração. Para Canclini (2016b), quando os sociólogos e filósofos

[...] substituem a questão o que é arte por quando há arte, remetem-nos de imediato para o conjunto de relações sociais entre artistas, instituições, curadores, críticos, públicos e até empresas e dispositivos publicitários que constroem o reconhecimento de certos objetos como artísticos” (CANCLINI, 2016b, p. 48-49).

Podemos compreender que “a partir da redefinição do artista como produtor (Benjamin e construtivistas) trabalha-se considerando o processo de produção-circulação- consumo.” (CANCLINI, 2016b, p. 49). O autor, atuante no processo de produção, é dependente dos meios de circulação e do consumo/mercado para que essa obra seja significada e legitimada. No caso do romance Os Anjos de Badaró (2000), veremos, por exemplo, que a mídia impressa atuou de maneira significativa para a legitimação dessa experiência de produção online. Por conseguinte, essa atuação está diretamente relacionada à figura do autor Mario Prata, que já havia sido alocada no mercado literário enquanto produtor e, previamente, legitimado. Percebemos que há um movimento circular em que um fator depende e impulsiona para que esse Sistema Literário funcione. Na mesma perspectiva de Canclini, Even-Zohar (2013) entende que

esses produtores não estão confinados a um só papel na rede literária, mas podem, e de fato são empurrados a participar de um conjunto de atividades que, em certos aspectos, podem tornar-se parcial ou totalmente incompatíveis entre si. Não nos encontramos meramente com “um produtor”, ou tão só com um grupo de

“produtores” individuais, mas com grupos, ou comunidades sociais, de pessoas envolvidas na produção, organizadas de diferentes formas e, em todo caso, não menos interrelacionadas umas com outras que com seus consumidores potenciais.

Como tais, constituem parte tanto da instituição literária como do mercado literário (ZOHAR, 2013, p. 32).

A partir dessa ideia de autor-produtor, é possível notar que a relação de Mario Prata com o mercado editorial é, para ele, muito clara. Há uma intenção declarada de explorar o

novo mídio a partir das novas possibilidades financeiras que este pode oferecer. Diferente daquilo que Bourdieu apresentou, nesse caso, parece existir um posicionamento muito tranquilo e confiante do autor enquanto um produtor e parte desse mercado, sem que isso diminua a qualidade ou a legitimação do seu trabalho. Como foi pontuado, o autor não estreou na literatura com essa experiência online, sua consagração aconteceu muitos anos antes e esse parece ser o ponto chave da discussão. A legitimação prévia do autor permite que ele se posicione dessa forma sem que haja o questionamento do seu trabalho. A pesquisadora Luciene Azevedo, em seu artigo Daniel Galera. Profissão: escritor (2013), levanta uma discussão similar para analisar a trajetória do escritor Daniel Galera. No entanto, ela observa, justamente, essa tentativa do autor de se colocar distante do mercado, ainda que ele tenha se empenhado arduamente em promover-se enquanto escritor:

[...] quando é preciso manifestar-se abertamente sobre o tema, ele aparece sempre denegado, recuperado em clave romântica, reproduzindo quase exatamente a veemência da afirmativa feita por Mário de Andrade [...]: “uma postura em relação à literatura que afirmo até hoje [...] é a de não ver a literatura muito como um ofício, no meu caso, ou como a minha profissão. Porque não é para isso que ela serve, para mim.” (Rascunho, 2012). Aqui, o subtexto é o reconhecimento dos riscos de expor a autonomia literária às injunções do regime econômico, esquivando-se de “dar à literatura o fardo de ser o meu sustento, sabe? Para poder escrever o que eu quisesse sempre[...]” (Rascunho, 2012) (AZEVEDO, 2013, p. 7).

Se compararmos o posicionamento de Galera e de Mario Prata, podemos notar uma diferença significativa. Para entender o porquê de isso acontecer, devemos compreender quem são esses autores dentro do Sistema Literário. Daniel Galera é um autor que está sendo consagrado atualmente e está construindo e entendendo as relações dentro desse campo intelectual, o que não acontece mais com Mario Prata, autor que já passou pelo processo de consagração e é reconhecido tanto pela instituição quanto pelos leitores. Logo, ele não precisa se preocupar, como Galera, em ter ou não a qualidade da sua obra questionada caso assuma um interesse econômico a partir de suas publicações. Perceberemos, ao longo dessa discussão, que, assim como proposto por Bourdieu para explicar o campo intelectual e suas ruas regras, o Sistema Literário é um grande emaranhado de relações e só compreendendo todo esse sistema é que se torna possível fazer uma análise profícua de um caso como esse, visto que não olharemos apenas para a obra em si, para o produto final. Uma possibilidade metodológica de análise descartada foi, justamente, olhar apenas para a obra final. A análise do romance Os Anjos de Badaró não revelaria todas as relações que são fundamentais e constitutivas para a concepção dessa obra tal como ela foi feita.

Dando continuidade ao processo de construção da plataforma e já com os objetivos definidos, foi preciso pensar na parte técnica, o que era um desafio ainda maior, uma vez que

não havia nada em que o autor pudesse se basear para criar a plataforma. No entanto, havia ao seu lado uma equipe, e a atuação do autor só foi possível graças ao envolvimento de diversas instituições. Assim ele conta em seu site pessoal:

14 de fevereiro: eu e Cachorrão, Selma e Sérgio Morta Mello numa mesa.

Contamos o projeto. É chamado um cara que entendia. Dava para fazer a ferramenta.

Nos dois dias seguintes o Sérgio vende o projeto para o Terra. Minha vida nunca mais seria a mesma (PRATA, 2019).

Dessa forma, a empresa que ficou responsável pela plataforma foi a TV1 que, conforme consta no site, foi

concebida para apoiar as marcas a explorar todo o potencial da Era Digital, a TV1.com é referência em marketing e inteligência on-line desde 1995. Com foco em soluções de relacionamento e performance para desenvolver negócios inovadores, vamos além da comunicação, integrando criação, planejamento e tecnologia (GRUPO TV1, 2019).

Pouco mais de três meses após a ideia, com a plataforma desenvolvida pela TV1 e o projeto vendido ao Portal Terra, no dia 24 de maio de 2000, entrou ao ar o autor Mário Prata, que descreveu esse momento em seu site:

[...] entro no ar, nervoso, de manhã, cara de sono, fiz a barba, passei um pente no cabelo e me regulando para não enfiar o dedo no nariz. Do lado de lá, soube depois, 15.798 loucos, estavam plugados em mim. Internautas de mais de 50 países. Só do Japão, 98. Estados Unidos, mais de quatrocentos. Tudo brasileiro, é claro. Ao final do processo, seis meses depois, mais de 400 mil pessoas passaram pelo sete. Quase 800 mil palpites (PRATA, 2019).

Infelizmente, a plataforma utilizada não se encontra mais no ar (falaremos dela mais adiante), mas os dados a respeito da quantidade de internautas que acompanharam o processo nos chamam a atenção, além de dois objetos derivados (AMÂNCIO, 2018) que muito nos dizem sobre essa experiência: o lançamento de um segundo livro escrito pelos leitores que acompanhavam a escrita do Mário Prata, intitulado As Crônicas dos Anjos de Prata, nos anos 2000, e a criação de um site de crônicas feitas pelos internautas mais assíduos que participaram da produção de Os Anjos de Badaró. É importante salientar que entenderemos, aqui, o termo objetos derivadoscomo os produtos culturais que surgem e são efeito de uma publicação, orientando e alterando seu funcionamento e seus processos de circulação”

(AMÂNCIO, 2018, p. 20). Trataremos desses aspectos em tópicos subsequentes, porém, antes, é necessário analisar como foi feita a divulgação e compreender de que modo os meios de circulação engendraram a realização do projeto.