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não havia nada em que o autor pudesse se basear para criar a plataforma. No entanto, havia ao seu lado uma equipe, e a atuação do autor só foi possível graças ao envolvimento de diversas instituições. Assim ele conta em seu site pessoal:

14 de fevereiro: eu e Cachorrão, Selma e Sérgio Morta Mello numa mesa.

Contamos o projeto. É chamado um cara que entendia. Dava para fazer a ferramenta.

Nos dois dias seguintes o Sérgio vende o projeto para o Terra. Minha vida nunca mais seria a mesma (PRATA, 2019).

Dessa forma, a empresa que ficou responsável pela plataforma foi a TV1 que, conforme consta no site, foi

concebida para apoiar as marcas a explorar todo o potencial da Era Digital, a TV1.com é referência em marketing e inteligência on-line desde 1995. Com foco em soluções de relacionamento e performance para desenvolver negócios inovadores, vamos além da comunicação, integrando criação, planejamento e tecnologia (GRUPO TV1, 2019).

Pouco mais de três meses após a ideia, com a plataforma desenvolvida pela TV1 e o projeto vendido ao Portal Terra, no dia 24 de maio de 2000, entrou ao ar o autor Mário Prata, que descreveu esse momento em seu site:

[...] entro no ar, nervoso, de manhã, cara de sono, fiz a barba, passei um pente no cabelo e me regulando para não enfiar o dedo no nariz. Do lado de lá, soube depois, 15.798 loucos, estavam plugados em mim. Internautas de mais de 50 países. Só do Japão, 98. Estados Unidos, mais de quatrocentos. Tudo brasileiro, é claro. Ao final do processo, seis meses depois, mais de 400 mil pessoas passaram pelo sete. Quase 800 mil palpites (PRATA, 2019).

Infelizmente, a plataforma utilizada não se encontra mais no ar (falaremos dela mais adiante), mas os dados a respeito da quantidade de internautas que acompanharam o processo nos chamam a atenção, além de dois objetos derivados (AMÂNCIO, 2018) que muito nos dizem sobre essa experiência: o lançamento de um segundo livro escrito pelos leitores que acompanhavam a escrita do Mário Prata, intitulado As Crônicas dos Anjos de Prata, nos anos 2000, e a criação de um site de crônicas feitas pelos internautas mais assíduos que participaram da produção de Os Anjos de Badaró. É importante salientar que entenderemos, aqui, o termo objetos derivadoscomo os produtos culturais que surgem e são efeito de uma publicação, orientando e alterando seu funcionamento e seus processos de circulação”

(AMÂNCIO, 2018, p. 20). Trataremos desses aspectos em tópicos subsequentes, porém, antes, é necessário analisar como foi feita a divulgação e compreender de que modo os meios de circulação engendraram a realização do projeto.

A experiência de produção do romance Os Anjos de Badaró não passou despercebida pela mídia brasileira e, tampouco, pela mídia internacional, ganhando publicação de destaque no jornal francês Libération. Nas palavras do próprio Mário Prata:

M: Foi um negócio tão louco que eu dei uma entrevista... Foi um cara do Libération, jornal de Paris, lá em casa, me entrevistar. Você viu? E o Fernando Morais morava em Paris, me telefonou e falou: “Rapaz, o Lula esteve aqui semana passada e saiu um quarto de página, você saiu em meia”. Entendeu? O El País também, deu na revista de domingo... (PRATA, 2018).

Por meio do site do próprio autor, (https://marioprata.net/), foi possível coletar imagens das notícias que circularam na época e, a partir delas, perceber a forma como esta experiência foi retratada pelos meios de circulação. Interessante observar que, apesar de ter sido noticiada pela mídia, depois, quando o livro impresso foi publicado, a importância dada ao processo de produção da obra foi ínfima, apenas uma menção na orelha do livro, alguns detalhes na ficha catalográfica e uma lista de nomes dos leitores que acompanharam o processo (figuras 3 e 4).

Figura 4: Ficha catalográfica do livro Os Anjo de Badaró, (PRATA, 2012).

Fonte: elaborado pela autora

Figura 5: Orelha do livro Os Anjos de Badaró, (PRATA, 2012).

Fonte: elaborado pela autora.

As imagens selecionadas são da versão mais recente do livro, lançada em 2012 pela editora Planeta. Ademais, na primeira versão, lançada nos anos 2000 pela editora Objetiva, as menções que aparecem são as mesmas, apenas estão em ordem diferente. Ou seja, em nenhuma das edições publicadas foi dada relevância ao modo como o livro foi produzido, algo que poderia, por exemplo, aparecer em destaque na capa.

Na figura 3, temos uma notícia circulada pelo jornal O Estado de São Paulo e trata- se de uma breve apresentação do projeto seguido de um convite para os leitores acompanharem a experiência online que havia começado há 4 dias (a notícia foi veiculada no dia 29 de maio e o projeto teve início no dia 24 de maio).

Figura 6: Notícia veiculada no jornal Estadão.

Fonte: https://marioprata.net/literatura-2/livros-adultos/os-anjos-de-badaro/mario-prata-escreve-livro-ao- vivo-na-web/

Na figura 4, o título nos chama a atenção: “Folhetim reinventado”. Foi assim que a revista Veja nomeou a experimentação. O autor Mario Prata já tinha experiência com a publicação em formato de folhetim20 e, de fato, a produção do livro Os Anjos de Badaró se assemelha a essas produções.

20 O livro James Lins, o playboy que não deu certo (1994) foi publicado em formato de folhetim no jornal Estado de S.Paulo.

Figura 7: Reportagem publicada na revista Veja.

Fonte: https://marioprata.net/literatura-2/livros-adultos/os-anjos-de-badaro/folhetim-reinventado/

Dando sequência às imagens, quanto à figura 5, trata-se de outra notícia do jornal O Estado de São Paulo no dia em que o livro impresso foi lançado. Observa-se que logo abaixo do título está escrito “Durante 6 meses, ele escreveu Os Anjos de Badaró com ajuda de internautas” (O Estado de São Paulo, 2000, grifo nosso). Como será exposto mais adiante, o autor relatou que não houve, necessariamente, uma ajuda dos internautas, eles não

determinavam o que ele deveria fazer ou não. Essa ressalva nos parece importante, pois, dizer que uma obra foi escrita com ajuda dos internautas tem um peso muito maior e dá a impressão de uma escrita colaborativa ou, até, do apagamento do autor, o que não aconteceu.

Figura 8: Notícia veiculada no jornal Estadão.

Fonte: https://marioprata.net/literatura-2/livros-adultos/os-anjos-de-badaro/mario-prata-lanca-hoje-comedia- policial-virtual/

Na figura 6, a notícia, também circulada pelo jornal O Estado de São Paulo, comenta um pouco da recepção da obra que, naquele momento, já havia sido lançada e conta um pouco da sinopse do livro. Um ponto que chama a atenção é notar quantas vezes o jornal em questão divulgou notícias a respeito desta produção.

Figura 9: Notícia veiculada no jornal Estadão.

Fonte: https://marioprata.net/literatura-2/livros-adultos/os-anjos-de-badaro/mario-prata-faz-rir-com-historias- de-detetive/

Por fim, a última notícia coletada trata-se do jornal francês Libération (figura 7) e evidencia a importância que foi dada à obra, inclusive no exterior. Segundo relatado pelo autor em entrevista, o jornal espanhol El país também divulgou uma notícia a respeito da obra, mas não foi possível resgatar imagens dessa publicação.

Figura 10: Notícia veiculada no jornal Libération.

Fonte: https://www.liberation.fr/ecrans/2000/07/01/le-spectacle-de-l-ecriture-en-direct_331756

A partir da coleta dessas notícias, podemos refletir sobre a atuação desses meios de circulação e como eles funcionam enquanto circuitos de consagração. Essa denominação, proposta por Bourdieu (1996), insere-se na teoria em que o autor irá desenvolver a noção de Campo intelectual. Não será nosso objetivo usar a teoria de Bourdieu (1996) como linha de frente para análise, porém, é preciso resgatar alguns conceitos, pois eles, em alguma medida, dialogam com o Sistema Literário proposto por Zohar (2013), o qual aqui usamos como base para análise. Assim, Lima (2010) sintetiza que, para Bourdieu,

o campo intelectual, campo de produção de bens simbólicos, dentre outros campos do espaço social, permite compreender um autor ou uma obra, ou ainda, uma formação cultural, em termos que transcendem a visão substancialista, não relacional (a que considera o autor ou a obra em si mesma) bem como a visão estruturalista (a que considera apenas os determinantes sociais da produção) (LIMA, 2010, p. 14).

Logo, criador e sua obra são determinados a partir de uma rede de relações sociais

nas quais a criação se realiza, como um ato de comunicação e pela posição que o criador ocupa na estrutura do campo intelectual – este irredutível a um simples agregado de agentes ou instituições isoladas. O campo intelectual, ao modo do campo magnético, constitui um sistema de linhas de força: os agentes e instituições estão em uma relação de forças que se opõem e se agregam, em sua estrutura específica, em um lugar e momento dados no tempo (LIMA, 2010, p. 14).

Desse modo, se a posição que o criador ocupa no campo intelectual é determinante para sua significação, entender a rede de sistemas envolvidos nesse campo é fundamental.

Em paralelo ao esquema desenvolvido por Zohar (2013), podemos perceber que é partindo justamente dessa noção proposta por Bourdieu (1996) que o autor se baseia para criar suas categorias. Quando há a inserção da instituição como elemento atuante desse sistema é a essas relações a que ele se refere:

A “instituição” consiste no conjunto de fatores implicados na manutenção da literatura como atividade sociocultural. É a instituição que rege as normas que prevalecem nesta atividade, sancionando umas e rejeitando outras. Potenciada por outras instituições sociais dominantes e fazendo parte delas, remunera e penaliza os produtos e agentes. Como parte da cultura oficial, determina também quem e quais produtos serão lembrados por uma comunidade durante um maior período de tempo (ZOHAR, 2013, p. 35).

No caso analisado, percebemos alguns movimentos dessa rede de sistemas consagratórios que determinam a produção de valor, uma vez que esse valor não é absoluto, é sempre relativo. Mario Prata, quando decidiu investir na experiência de produzir um romance online, já havia sido, previamente, reconhecido como autor e, a partir dessa consagração prévia, houve a consagração da nova experiência. Partimos da hipótese que, se essa obra não fosse escrita por ele, Mario Prata, a mídia impressa não teria atuado como reforço para sua validação. Uma pergunta importante é: quem define a instituição? E, por consequência, por que olhamos, no caso do romance Os Anjos de Badaró, para a mídia impressa como parte da instituição?

Em termos específicos, a instituição inclui pelo menos parte dos produtores,

“críticos” (em qualquer formato), casas editoriais, periódicos, clubes, grupos de escritores, corporações do governo (como gabinetes ministeriais e academias), instituições educativas (escolas de qualquer nível, incluindo as universidades), os meios de comunicações de massa em todas suas facetas etc (ZOHAR, 2013, p. 35).

Zohar define que a instituição não é um corpo homogêneo e que, dentro dela, existem lutas pelo domínio “de modo que em cada ocasião um ou outro grupo consegue ocupar o centro da instituição, tornando-se o grupo dominante” (ZOHAR, 2013, p.35). No caso do Sistema Literário, o autor acredita que diferentes instituições podem operar simultaneamente em diversas seções do sistema. Retomando Bourdieu (1996), Zohar destaca que a legitimação de um agente da instituição é definida, como proposto por Bourdieu (1996), pelo “campo de produção como sistema de relações objetivas entre os seus agentes ou as suas instituições e como lugar de lutas pelo monopólio do poder de consagração onde se engendra

continuamente o valor das obras e a crença nesse valor” (BOURDIEU apud ZOHAR, p.37, 2013). Dessa forma, entendemos que a instituição pode mudar com o tempo e também de acordo com qual posição essa obra, bem como esse autor, ocupam dentro do sistema. Como foi mencionado no início da dissertação, havia a intenção de se trabalhar com dois processos de construção de romances distintos, um feito por um autor consagrado e outro por uma autora que surgiu a partir de blogs literários e conquistou, dentro do ambiente virtual, leitores e fãs assíduos. Seria de grande valia contrapor esses dois casos, mas entende-se que a extensão desse trabalho, enquanto uma dissertação de mestrado, é um fator limitante. No entanto, cabe elucidar a maneira como essa instituição pode variar dependendo do que estamos analisando. Sendo assim, tendo em vista que a obra de Mario Prata foi escrita nos anos 2000 e tratando-se de um autor consagrado, as mídias impressas serviram como reforço para legitimação dessa nova obra. Não seria de igual importância, por exemplo, se essas mesmas notícias tivessem sido circuladas em blogs. Primeiro, porque, pensando no final do século XX e início do século XXI, os blogs ainda não tinham uma importância dentro do sistema para atuar enquanto legitimadores. Novamente, falamos de um circuito complexo de consagração. Agora, no caso da autora que surgiu em meio ao universo digital, sua consagração perante os leitores e fãs acontece, na maior parte das vezes, dentro desse próprio ambiente virtual. No entanto, é comum observar que, na maioria dos casos de autores que despontam na internet, há sempre uma busca pela publicação da obra em formato de livro impresso e, mesmo no caso do romance Os Anjos de Badaró, em que todo o processo foi feito digitalmente, o resultado final foi um livro impresso. Ou seja, ainda que os produtores e consumidores sejam atuantes do meio digital, o produto final busca um suporte de inscrição que o legitime enquanto literatura e, ainda hoje, esse suporte é o livro impresso. Esse é um ponto que nos chama atenção e que, dada a extensão da discussão, decidimos desenvolver em um capítulo à parte da dissertação para que possamos entender melhor como esse suporte atua no Sistema Literário e como a materialidade importa para definir o que é ou não, o que pode ou não, ser chamado de Literatura.

Embora já tenhamos discutido a atuação do autor Mario Prata enquanto um produtor bem alocado no mercado literário e sua relação com os sistemas consagratórios, deve-se observar com um pouco mais de cuidado o que Zohar (2013) entende por mercado e de que modo ele dialoga e, até, entrecruza-se com a instituição. Zohar (2013) define que

o “mercado” é o conjunto dos fatores envolvidos no comércio de produtos literários e na promoção de tipos de consumo. Isto inclui não só instituições abertamente dedicadas ao intercâmbio de mercados, tais como livrarias, clubes de leitura ou bibliotecas, como também todo os fatores que participam no intercâmbio semiótico

(“simbólico”) no qual estas estão envolvidas, junto com outras atividades relacionadas (ZOHAR, 2013, p. 35).

É muito claro perceber o mercado como o responsável pela venda do produto; no entanto, Zohar (2013) pontua que quem define a valoração do produto são os agentes da instituição, ou seja, o mercado literário não irá se autorregular como poderíamos supor: ele está intimamente dependente da atuação dos agentes da instituição. É comum os dois fatores se entrecruzarem em um mesmo espaço e um mesmo agente ora atuar como agente da instituição, ora como mercado. A fim de demonstrar essas atuações transitórias, Zohar (2013) aponta a escola

como um braço da ‘instituição’ por sua capacidade de vender o tipo de propriedades que o grupo/estabelecimento dominante (ou seja, a parte central da instituição literária) deseja vender aos estudantes. Os professores funcionam na realidade como agentes de mercado, ou seja, comerciantes. Os clientes que, quer queiram quer não, se transformam em algum tipo de consumidores, são os estudantes. As instalações que oferece a escola, incluídos os modelos de interação fixos, constituem na realidade o mercado strictu sensu. Não obstante, todos esses fatores em conjunto podem, para os fins de uma análise mais apurada, ser vistos como o ‘mercado’ (ZOHAR, 2013, p. 36-37).

A partir dessa ótica, percebe-se que a figura do autor Mario Prata, já consagrado e seguro da sua posição enquanto produtor dentro do Sistema Literário, teve sua obra reconhecida e pré-legitimada por agentes da instituição (como relatado, principalmente pelos meios de circulação), o que colaborou para um grande alcance dos futuros consumidores daquele produto. Cabe, agora, uma análise que observe como se deu a atuação desses leitores/consumidores e de que maneira eles se relacionaram com as outras instâncias do Sistema Literário.