No esquema proposto por Zohar (2013), foi destacado que nem sempre os consumidores de literatura consomem apenas textos integrais, mas, também, fragmentos literários “digeridos e transmitidos por variados agentes culturais e integrados no discurso diário. Fragmentos de velhas narrações, alusões e frases feitas, parábolas e expressões cunhadas, todo isto e muito mais constitui o repertório vivo depositado no armazém de nossa cultura” (ZOHAR, 2013, p. 33). Destaca-se a importância do repertório como parte integrante do Sistema Literário. O repertório seria
o conjunto de regras e materiais que regem tanto a confecção como o uso de qualquer produto. Estas regras e materiais são indispensáveis para qualquer procedimento de produção e consumo. Quanto maior seja a comunidade que confecciona e usa dados produtos, tanto maior deve ser o acordo sobre semelhante repertório (ZOHAR, 2013, p. 37).
É importante pontuar que não é necessário exatamente o mesmo repertório por parte dos consumidores e do produtor, mas, sim, que haja um alinhamento mínimo para que seja possível a apreensão do produto. Para analisar o que destacamos como produtos secundários na construção do romance Os Anjos de Badaró, e também perceber de que modo o repertório se mostra necessário nos processos de constituição da obra, nos encaminharemos para o último tópico da análise proposta, que se refere à estruturação da plataforma utilizada durante a escrita do romance.
Figura 23: Página inicial da plataforma.
Fonte: Arquivo pessoal do autor Mario Prata.
As informações sobre o site foram relatadas detalhadamente pelo próprio autor durante a entrevista, mas, posteriormente, a partir das capturas de tela do site WayBack Machine foi possível acessar alguns desses links e experimentar um pouco do ambiente digital. Olhando, primeiramente, para parte inferior do site, podemos visualizar cinco categorias diferentes. São elas: “Crônica da Semana”, “Dica do Prata”, “Professor M d’Argent”, “Madame Samara” e “Bobagera”. Todos esses links eram administrados pelo próprio Mario Prata que, em alguns casos, assumia algum personagem, como o caso do Professor M d’Argent e a Madame Samara (figuras 24 e 25). No entanto, muitos internautas acreditaram que, de fato, eram outras pessoas que estavam escrevendo e mandavam perguntas, pediam conselhos, criando um espaço descontraído e intimista entre os leitores que acompanhavam dia a dia a produção do romance:
M: E tinha uma Madame Samara, que dava conselhos. E muita gente escrevia sério pra Madame Samara. Perguntas assim: “Como fazia para ter orgasmos múltiplos?”, sabe? E a Madame Samara explicava tudo, entendeu? Quem era um pouquinho inteligente percebia que aquilo era uma brincadeira, fazia parte de uma brincadeira.
E tinha quem levava a sério, eu não podia fazer nada (PRATA, 2018).
Figura 24: Madame Samara. Captura de tela WayBack Machine dia 18 de outubro de 2000
Fonte: elaborado pela autora
Figura 25: Madame Samara. Captura de tela WayBack Machine dia 18 de outubro de 2000
Fonte: elaborado pela autora
Interessante notar que, muitas vezes, o pacto ficcional não era feito por parte dos leitores. Aqueles que compartilhavam de um determinado repertório e já conheciam, previamente, a figura do autor Mario Prata, sabiam que tais seções do site, na verdade, tratavam do que estamos chamando de produtos secundários e se relacionavam, de certa maneira, ou à obra que estava sendo construída ou ao próprio autor e à sua trajetória enquanto escritor. Inclusive, aos que já eram familiarizados com as produções de Mario Prata, foi possível entender a referência de algumas seções, como no caso o personagem M d’Argent, que, na verdade, se tratava de um pseudônimo utilizado pelo autor no começo dos anos 70 no jornal Última Hora para assinar uma coluna sobre horóscopo.
Brevemente, a “Crônica da Semana” era o espaço em que o autor publicava uma crônica semanal de assuntos variados, além daquelas que saiam no jornal O Estado de São Paulo e na revista Época; a “Dica do Prata” era reservado para dicas gerais, como um livro ou um filme; o “Professor M d’ Argent” ficava responsável pelo horóscopo da semana (Figura 22); a “Madame Samara”, conforme apontado, dava conselhos aos leitores; e o Bobagera, era um espaço de descontração para publicar piadas e fatos engraçados do cotidiano. No lado superior esquerdo, havia três links (“o autor”, “crônicas” e “a obra”) e uma caixa de busca. A aba “O autor” apresentava uma biografia de Mario Prata; “Crônicas”
era a seção que dava acesso a outras crônicas escritas pelo autor; e “A obra” era uma prévia apresentação da obra Os Anjos de Badaró.
Figura 26: Captura de tela do site WayBack Machine
Fonte: elaborado pela autora
No lado superior direito, temos “O romance”, “Ver webcam”, “Capítulos prontos” e
“Fórum”. Um pouco abaixo, encontramos “Disquetes”, “Fichas” e “Glossário”. Os três primeiros itens são autoexplicativos. Sobre o acesso aos capítulos prontos, Mario Prata relata que muitos internautas criaram o hábito de imprimir cada parte para ir compondo a obra final;
no entanto, em muitos momentos, o autor precisava revisar esses textos para revisar alguma parte ou corrigir alguma falha de continuidade e isso gerava um desconforto entre os leitores:
M: Eles ficavam meio desorientados, porque eu falava assim: “Olha, eu vou ter que mexer”. Eu me lembro de um personagem que eu tirei, porque estava inútil.
Sei lá, no oitavo capítulo. Aí eu reescrevi tudo. Reescrevi toda a parte onde entrava esse personagem, entendeu?
L: E como os leitores ficaram quando você fez isso?
M: Eles ficaram meio assim... Mas eu falei: “Escuta, mas vocês não estão querendo saber como se faz um livro? É assim! Esse personagem não rendeu, não está rendendo, não sei o que fazer com ele, eu vou tirar, entendeu? Falha minha!” Então tinha coisas assim, eu reescrevia (PRATA, 2018).
Fica evidente, mais uma vez, que a ideia romântica da obra sendo concebida pelo que Barthes (2004) chama de autor-Deus, de maneira perfeita e acabada, permanece no imaginário dos leitores que, ao conhecerem, de fato, como um romance é construído, sentem um estranhamento.
Dando sequência às seções, a aba “Fórum” que aparece na imagem foi trocada, posteriormente, por “Palpites”, como pode ser visto na Figura 01. Tal troca nos parece bastante significativa, pois, a princípio a ideia do fórum era ser um espaço de interação entre os leitores, mas, ao longo do processo, acabou se tornando um espaço, sobretudo, para os internautas opinarem sobre a escrita do romance. Já as abas “Disquetes” e “Fichas” são referências relacionadas à própria obra, pois uma das personagens, como foi mencionado no início desse trabalho, havia deixado disquetes com informações que auxiliariam na investigação da sua morte e as fichas eram descritivos das prostitutas que eram agenciadas pelo personagem principal, Ozanan Badaró. Nesse sentido, tais produtos secundários se relacionavam diretamente com a obra e com a sua significação.
Ao analisar a plataforma, ainda que de maneira superficial, pois não é possível, atualmente, acessá-la efetivamente, um questionamento emergiu: dentro do Sistema Literário proposto por Zohar (2013), o que devemos chamar de produto dado tudo o que aqui foi exposto? O produto seria apenas o livro impresso? E por qual razão foi decidido que a publicação seria em formato tradicional de um livro impresso e deixaria de lado (ou com
menções ínfimas) tanto os produtos secundários quanto os objetos derivados? Tais questionamentos engendraram a escrita do último capítulo dessa dissertação, em que se propõe uma reflexão acerca do livro impresso e das motivações para que esse formato continue, ainda hoje, atuando como um legitimador da literatura.
4 DOS PERGAMINHOS À TELA DO COMPUTADOR E DA TELA DO
COMPUTADOR AO CÓDEX: O CAMINHO INVERSO DO CASO OS ANJOS DE BADARÓ
O demônio é o livro, ler é estar possuído. Mas tal leitura, que faz gemer ou gritar, agitar-se ou paralisar-se, não é simplesmente a hipérbole da leitura confusa, em que o ledor parece estar fora do mundo, habitado pelo livro que percorre e que fala por sua boca numa linguagem incompreensível? (CHARTIER, 1996, p. 211).