Ademais, não poderá ser aplicada de forma análoga em caso de feto anencefálico, em razão de alegação da inexistência de atividade cerebral, pois provado está que são casos distintos.
Se um dos princípios basilares do ordenamento jurídico brasileiro é o da igualdade, cuja melhor acepção é o tratamento igual aos iguais e desigual aos desiguais, na medida em que se verifica essa desigualdade, uma vez que em ambas as situações, o objetivo maior é preservar a dignidade da pessoa humana, seja garantindo-lhe o direito de viver dos anencéfalos, mesmo que embora brevemente. Estão condenados a uma vida curta, logo é justo que os deixe vivê-la.
Conforme o ordenamento pátrio atual, o que se pode auferir do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, esculpido no bojo da Carta Magna é que não deve haver opressão Moral a quem necessite de alguma coisa.
Nessa mesma linha de raciocínio, porém, sob a trágica experiência nazista, a Constituição Federal da Alemanha Ocidental – pós-guerra – traz em seu artigo 1° este Princípio, aduzindo que “A Dignidade do Homem é intangível. Respeitá-la e protegê-la é obrigação de todo o poder público16”.
A rigor, tal assertiva, deveria ser respeitada em todos os lugares do mundo, como uma consciência histórica da humanidade em relação aos seus valores fundamentais, em respeito a um sentimento nobre que o Homem carrega dentro de si – sua Dignidade – independente de um poder público, mas, em respeito a uma vida, ao amor próprio, ao amor ao próximo. Sob esse prisma, Paulo Macio Cruz (2003, p.155) nos informa:
A inclusão destes direitos do homem nos textos constitucionais teve uma consequência quase que imediata: a transformação de alguns princípios filosóficos em normas jurídicas. O conceito de direito humano ou direito do homem, é uma noção filosófica ou ideológica, noção esta que acata a ideia de que certos direitos são necessários para que se possa falar de ser humano e de dignidade humana. Já o reconhecimento jurídico destes direitos os transforma em normas vinculantes [...].
E, segue asseverando que “a importância da definição e a garantia dos Direitos Fundamentais fizeram com que, normalmente passassem a
16 Art. 1° da Constituição Federal da Alemanha, primeira parte: o teor do texto original é o seguinte: “Art. 1° (Schuktz der Menschenwurde). (1) Die Wurde dês Menschen ist unantastbar.
Sie zu achten und zu schutzen ist Verpflichtung aller ataatlichen Gewalt”. Tradução do governo alemão, publicada pelo departamento de imprensa. Informação do Governo Federal, Bonn.
Wiesbadener Graphische Betriebe Gmbh, Wiesbaden, 1983, p. 16.
ser incluídos na chamada parte dogmática das Constituições, no começo das mesmas, antes até do outros aspectos, como os da organização dos Estados”.
Sob o prisma do Princípio da Dignidade Humana, o que se pretende demonstrar é que este Princípio fundamental possui de modo especial uma posição de destaque, servindo como diretriz em nossa Constituição.
(SARLET, 1998, p.101)
Neste sentido Harbele (1997, p.36) preceitua que o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana deve ter uma interpretação aberta na sociedade, pois, vivemos num Estado Democrático de Direito, e “a democracia não se desenvolve apenas no contexto de delegação de responsabilidade formal do Povo para os órgãos estatais”, mas também, por meio de formas refinadas de mediação do processo público e pluralista da política e da práxis cotidiana, especialmente mediante realização dos Direitos Fundamentais”. Dessa visão, Flademir Jerônimo Belinati Martins (2005, p.89) compartilha:
O princípio da dignidade da pessoa humana deve ser objetivo de uma interpretação pluralista que se lhe permita realizar de acordo com as necessidades reais e concretas da pessoa humana e não apenas a partir de um plano meramente abstrato.
Vê-se, pois, que o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana tem força normativa imediata, sendo decorrentes deste, todas as demais garantias e direitos do indivíduo. Assim, o que se observa segundo Sirvinkas (2005, p.169) é que: “todos os demais valores consignados na Constituição Federal gravitam em torno desse princípio matriz. Ingo Wolfgang Sarlet (1988, p.60) entende por Princípio da Dignidade da Pessoa Humana:
A qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, nesse sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer aro de cunho degradante e desumano, como venha a lhe garantir as condições existenciais mínimas para
uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa e co-responsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos17.
Tomando por referência o que foi exposto, percebe-se que o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana impõe limites ao Estado em sua atuação. Com percuciência, Ingo Sarlet explica essa limitação de tarefas estatais e seu objetivo. Veja-se:
O Princípio da Dignidade da Pessoa Humana impõe limites à atuação estatal, objetivando impedir que o poder público venha a violar a dignidade pessoal, mas também implica (numa perspectiva que se poderia designar de programática ou impositiva, mas sem por isso destituída de plena eficácia) que o Estado deverá ter como meta permanente, proteção, promoção e realização concreta de uma vida com dignidade para todos.
Com efeito, seguem nessa esteira as ensinanças de Pérez Luño (1995, p.318), quando assevera:
A dignidade da pessoa humana constitui não apenas a garantia negativa de que a pessoa não será objetivo de ofensa ou humilhações, mas implica também, um sentido positivo, o pleno desenvolvimento da personalidade de cada indivíduo.
Nessa senda, Carmem Lúcia Antunes da Rocha (1999, p.
34) afirma que o princípio da Dignidade da Pessoa Humana “vincula e obriga todas as ações políticas públicas”. Assim, percebe-se:
Não restam dúvidas de que todos os órgãos, funções e atividades estatais encontram-se vinculados ao princípio da Dignidade que se exprime tanto na obrigação por parte do Estado de abster-se de ingerências na esfera individual que sejam contrárias à
dignidade pessoal, quanto no dever de protegê-la (a dignidade pessoal de todos os indivíduos) contra agressões oriundas de terceiros, seja qual for à procedência.
De mesma sorte, Sarlet (1988, p.111) sustenta-se que o Princípio em relevo “não apenas impõe um dever de abstenção (respeito), mas também condutas positivas tendentes a efetivar e proteger a dignidade dos indivíduos”. Seguindo nessa linha de raciocínio, observa-se ainda, que “a concretização do programa normativo do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana incumbe de edificar uma ordem jurídica que atenda ás exigências do Princípio”. Na lição de Jesús Pérez González, cita-se: Em outras palavras – aqui considerando a dignidade como tarefa -, o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana impõe ao Estado, além do dever de respeito e proteção, a obrigação de promover as condições que viabilizem e removam de viverem com dignidade.
Enfim, com todo exposto, o que se visa é conseguir atingir o objetivo da aplicação efetiva das normas de direitos humanos em sociedade, para levar ao mundo à Paz e a justiça social, mormente no que diz respeito à proteção e respeito à vida humana.