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Edilete Aparecida Padilha I

No documento Scripta Alumni (páginas 141-148)

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RESUMO: Este trabalho focaliza a interpenetração dos discursos autobiográfico e ficcional, na obra Em liberdade de Silviano Santiago, cujo personagem Graciliano Ramos, recém- saído da prisão, escreve um diário sobre as experiências que teriam marcado o seu retorno às ruas do Rio de Janeiro. É nosso objetivo observar como Santiago utiliza as características da literatura diarística – relatos de eventos reais do dia-a- dia, textos fragmentários e digressivos, limitados apenas pela vontade livre de quem escreve – para abordar a dimensão histórica dos anos que se seguiram ao Estado Novo, de um modo que recusa o modelo realista tradicional, a fim de desconstruir as imagens do passado e do presente.

ABSTRACT: This paper focuses on the interpenetration of autobiographical and fictional discourses in Silviano Santiago’s work Em liberdade, whose character Graciliano Ramos, recently out of prison, registers in his journal the experiences that would have marked his return to the streets of Rio de Janeiro. It is our aim to observe how Santiago makes use of the characteristics of the genre – fragmentary and digressive records of daily factual events, whose limits are established only by the writer himself – in order to approach the historical dimension of the years following the regimen of Estado Novo, in a way that eschews the traditional realist model, in order to deconstruct past and present images.

PALAVRAS-CHAVE: Ficção e memória. Silviano Santiago. Diários. Em liberdade.

KEYWORDS: Fiction and memory. Silviano Santiago. Diaries. Em liberdade.

1 Trabalho orientado pela professora Dra. Mail Marques de Azevedo

Em liberdade, publicado em 1981 é um diário ficcional de Graciliano Ramos, que transita entre o discurso autobiográfico e a ficção. Forma confessional, o diário é um gênero literário que, além de ser uma tentativa de relato autobiográfico, é uma prática de escrita e de leitura que se mantém vigente através dos séculos, impulsionada por motivos historicamente diversos, sobretudo por ser uma produção voltada para o que há de melhor em nós, ou seja, a nossa singularidade.

O Graciliano ficcionalizado decide escrever um conto sobre o inconfidente Cláudio Manuel da Costa, que supostamente se suicidara enquanto prisioneiro da Coroa Portuguesa, e com isso mostrar o possível destino a que se expõe o intelectual brasileiro ao expor publicamente o desejo de uma sociedade mais justa. Nossa análise considera, assim, que esse desdobramento do conto dentro de outro conto, e o foco em primeira pessoa do diário auxiliam a função da memória na invenção ficcional, quando contrapõe a experiência do poeta mineiro à de outras vítimas da arbitrariedade dos governos de exceção, como Graciliano. Essa identificação cria a tensão entre presente e passado, ligando três momentos distintos, 1789, 1937 e 1981. Em suma, o trabalho considera como Em liberdade questiona a relação entre a memória histórica e a ficção, entre a criação imaginária e o suposto relato factual, na contraposição do passado ao presente.

Silviano apresenta uma ficção de um mundo possível, verossímil, o de Graciliano Ramos, recém-saído do cárcere. O Mestre Graciliano, o mais difícil e torturado dos romancistas brasileiros da década de trinta - como está narrado com riqueza de detalhes nas Memórias do Cárcere -, é preso na sua residência no dia 3 de março de 1936. Embarcam-no primeiro para Recife e depois para Manaus. Posteriormente, na colônia Correcional de Dois Rios, na Ilha Grande, passa pelas piores experiências carcerárias que um ser humano pode sofrer. Por iniciativa de amigos é finalmente posto em liberdade no dia 13 de janeiro de 1937. Ficou, assim, dez meses e dez dias na prisão. Sabemos que se trata de uma ficção de Santiago, mas deparamos com a nota do editor -o próprio Silviano - que descreve o caminho que os manuscritos de Graciliano percorreram até sua publicação.

Na verdade, muitos são os motivos para se escrever um diário. Philippe Lejeune, figura basilar na conceituação do gênero memorialista, principalmente da autobiografia, admite que manteve um diário nos seus anos de juventude por falta de alguém com quem pudesse conversar: “Em minha adolescência escrevia um diário porque não tinha ninguém com quem conversar. O milagre foi que tudo mudou. Meu interesse por diários se converteu em fator de socialização” (1996, p. 74).

Silviano dá voz a um Graciliano imaginário que sai da prisão e relata em um diário os primeiros dias de liberdade. O autor coloca em diálogo o poeta inconfidente Cláudio Manuel da Costa, o romancista Graciliano Ramos e ele mesmo. Essa identificação cria a tensão entre presente e passado, ligando três momentos distintos,

1789, 1937 e 1981. Este o foco deste trabalho que considera como Em Liberdade questiona a relação entre a memória histórica e a ficção, entre a criação imaginária e o suposto relato factual, na contraposição do passado ao presente.

Em seu diário, o personagem Graciliano fala do papel do intelectual brasileiro frente a regimes autoritários e intolerantes e como o escritor responde à repressão.

Indaga, perplexo, como pode se expressar quem foi torturado e silenciado? Discute o papel do escritor na sociedade e como a literatura pode ser utilizada no seu tempo para dialogar com a história e mostrar o papel importante da liberdade de crítica e de expressão, na nova realidade.

Graciliano Ramos, o escritor retratado nas Memórias do cárcere, representa a dignidade e a coragem e também a mensagem do escritor que lutou para manter sua integridade física e moral, e não se dobrou diante da ditadura, das perseguições e injustiças. A maior delas foi o próprio encarceramento, pois foi preso e solto do cárcere, sem ao menos saber o motivo, sem que houvesse qualquer acusação formal.

Em liberdade foi publicado no momento da anistia política, quando se multiplicam as vozes a favor da democratização no país, depois dos anos de exceção do governo militar. Nesse momento, como observa Silviano em texto de 1997, irá se processar uma grande modificação no estatuto dos estudos literários e culturais no Brasil. Na virada da década de 1970 para a de 1980, “a arte brasileira deixa de ser literária e sociológica para ter uma dominante cultural e antropológica”. A arte aparece ainda nas palavras de Silviano (1997, p. 2), não mais como manifestação exclusiva das belles lettres, mas como fenômeno multicultural que criava novas e plurais identidades sociais. Caía por terra tanto a imagem falsa de um Brasil integrado, imposta pelos militares através do controle da imprensa, quanto a idéia de uma coesão fraterna das esquerdas, conquistada nas trincheiras. A arte abandonava o palco privilegiado do livro para acontecer no cotidiano da Vida.

A questão do papel do intelectual na sociedade surge de maneira explicita com a evocação da Inconfidência Mineira, via Cláudio da Costa, sobre cuja morte por suicídio o Graciliano ficcionalizado decide escrever, depois de um sonho. O segundo destaque é o paralelo com o momento político do Brasil dos anos 70. Entendemos que esse paralelo é reiterado nas entrelinhas, quando a morte do poeta árcade e inconfidente tem as mesmas características do assassinato do jornalista Wladimir Herzog pela ditadura de Geisel. Para tanto, o diário faz o caminho que vai do presente de Graciliano Ramos ao passado de Cláudio Manuel da Costa, direção inversa à do livro, sobretudo quando se leva em conta o período da sua produção, pois o passado de Graciliano é lembrar-se do presente, fixado pela lembrança da morte do jornalista.

Graças ao jogo de realidade e imaginação, mediado pela impressão de verossimilhança, Santiago pode aproximar os dois tempos - o da representação, entre 1936 e 1937, quando o país está sendo levado à adoção de um regime autoritário, o Estado Novo

-e o da produção, próximo à época de publicação do texto, quando persiste o sistema policialesco que, de certa maneira, dá continuidade àquele implantado por Vargas nos anos 30, sem deixar de assinalar suas diferenças. As semelhanças induzem à reflexão sobre a situação do intelectual numa sociedade repressiva.

Assim, o diário ficcional de Silviano enfoca, através da lente do eu fictício, basicamente as discussões do passado e do presente que aparecem entremeadas à ficção, o que coloca em cena e, portanto, em debate, a memória e a imaginação.

A memória (imaginária) dos eventos cotidianos registrados no diário fictício é um retorno ao passado, reivindicatório, com o intuito de preservá-lo ou até reconstruí- lo. Nesse sentido entendemos melhor o fato de Em liberdade desvincular-se da representação autobiográfica, como também a sua opção pela forma-diário.

Em liberdade é, portanto, um diário ficcional que transita entre o discurso autobiográfico e a ficção. Segundo Philippe Lejeune o conceito de “pacto autobiográfico” é útil tanto para delimitar a fronteira entre autobiografia e ficção, como também para revelar a importância da leitura na hora de se considerar um texto como autobiográfico. O cerne do pacto de leitura entre leitor e autor, quanto à veracidade das informações, é a identidade entre personagem, narrador e autor, este identificado pelo nome impresso na capa do livro. Neste particular, Silviano Santiago chama a atenção do leitor para o caráter fictício do diário e de seu narrador, colocando em destaque o título da obra: Em liberdade. Uma ficção de Silviano Santiago.

Isto não impede, no entanto, que se utilize da forma diário, usada tanto em confissões íntimas, como em relatos objetivos e técnicos, para atingir seus objetivos de aproximar períodos semelhantes da historia do Brasil, caracterizados pela repressão daqueles que pensam, e lançar seu protesto contra os desmandos de governos autoritários. Afinal, Em liberdade é uma narrativa coerente e verossímil, e Graciliano Ramos poderia perfeitamente ter vivido as experiências relatadas, embora haja discrepâncias entre a narrativa e a cronologia de sua vida. O personagem Graciliano não teria condições de publicar seu diário, em 1981, uma vez que seu correspondente no mundo factual, Graciliano Ramos, o escritor, morreu em 1953.

Silviano Santiago assume a tarefa, em nome da dignidade do artista e para torná-la mais impactante, lança mão de narrativas autobiográficas.

Na definição de autobiografia, segundo Lejeune, encontramos os parâmetros que nos permitem analisar melhor os aspectos técnicos da narrativa de Em liberdade: “Relato retrospectivo em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, pondo ênfase em sua vida individual e, em particular, na história de sua personalidade” (1994, p. 50), o que serve também para distinguir a autobiografia de outros gêneros de narrativa de vida.

A própria definição de autobiografia indica que esta se diferencia do

diário íntimo na “perspectiva retrospectiva da narração” Nos diários, o relato dos fatos é retrospectivo, como nos demais gêneros que têm por base a memória de fatos vividos, porém a natureza da matéria manipulada pelo diarista difere da matéria do escritor das demais formas autobiográficas, pois nestas o assunto é conhecido pelo autor, tornando possível sua evocação. O mecanismo do escritor de diários mantém apenas uma conexão imediata com a realidade descrita, que não deixa, no entanto de ser retrospectiva.

Como é próprio nas narrativas do “eu”, o personagem-narrador usa a primeira pessoa em forma de autobiografia. No caso, para dar toda a historicidade desejada, há indicações de ano, mês e dias. Tudo e todos giram em torno do eu, e dele recebem iluminação. Por isso é possível concluir que Silviano Santiago, o autor, conhece intimamente o sujeito da suposta narrativa diarística que imagina. muito bem, a obra e a vida de Graciliano.

Imita o seu estilo com perfeição, “iludindo”, com facilidade, um leitor distraído e acostumado à leitura de Graciliano. Lançando mão da voz de um Graciliano imaginário que sai da prisão e decide relatar em um diário seus primeiros dias em liberdade, Silviano transporta para a ficção questões referentes ao engajamento do escritor e à relação entre escrita e censura. Em liberdade dissolve as fronteiras ficcionais. Sabemos que se trata de uma “ficção de Silviano Santiago”, mas logo nos deparamos com uma nota do editor – o próprio Silviano – que descreve o caminho que o suposto manuscrito de Graciliano Ramos teria percorrido até sua publicação.

Desloca-se o olhar, como modo de responder à censura. Como diz o narrador:

“Encontrar uma razão para deixá-las existir no papel e no livro: eis a questão. Fora de mim e para o outro. Para isso sempre foi preciso ‘fazer ficção’ das minhas palavras.

Ou não” (2000, p. 22). Silviano Santiago dá a palavra a Graciliano Ramos, e mergulha na experiência do outro, a partir de suas próprias vivências: “Deixar com que o outro entre no nosso mundo, enquanto entramos no dele” (2000, p.50).

A violência que Graciliano sofreu e relatou em Memórias do cárcere é revivida no contexto ditatorial da década de 70, daí o sentido que tem a escolha do escritor como porta-voz. Circunstâncias similares unem dois escritores de épocas diferentes. A partir do momento em que Silviano Santiago assume a voz de Graciliano Ramos, estabelece-se um pacto narrativo muito peculiar, em que se superpõem às vivências de um personagem real os pensamentos e considerações de um personagem imaginário, duplo do próprio Silviano. Em liberdade denuncia os riscos da ética do mártir – ética erguida sobre os “pilares da perseguição” – que põe o escritor na posição de herói vitimado. O estado de liberdade é pouco atraente comparado ao sofrimento do preso político.

No livro, o sonho é um recurso para enriquecer o diário. São montados com riqueza de conteúdo: carregam idéias e informações que constituem o grande

patrimônio do escritor de Alagoas. O sonho final é o mais importante de todos: a personagem central é o inconfidente Cláudio Manuel da Costa. No diário, a linguagem densa, enxuta e até mesmo seca do texto imita bem o estilo de Graciliano. E ainda o gosto pela frase curta, cortada e cortante.

Assim, o texto do diário é primoroso pela sua correção, estrutura clássica e talhe estilístico, à Graciliano Ramos. Não há, no texto, recorrência de vocabulário regionalista, o que é comum na obra autêntica do escritor alagoano. Este diário, inventado por Silviano Santiago, com um rigor de ponto-de-vista, e fundado em pesquisa e na realidade factual, constitui uma das mais audaciosas aventuras intelectuais de nossa literatura È inegável que Silviano Santiago criou, com perfeição e exatidão, uma obra de Graciliano Ramos: o conteúdo (os assuntos, o tema, as idéias, a ideologia...) e a forma (palavras, frases, estilo, talhe...) repetem, com extraordinária semelhança o grande autor de Memórias do cárcere. Por fora e por dentro, tem-se a impressão de ler Graciliano.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Um diário pode ser um registro com pretensão de verdade, uma busca de si mesmo, uma escrita narcísica, um texto hermético e uma ficção, sem deixar de ser, jamais, uma prática de escrita e de leitura que compartilha com seus leitores uma pulsão pela vida, pelo eu e pela permanência. O diário ficcional de Silviano enfoca, através da lente do eu fictício, basicamente as discussões do passado e do presente que aparecem entremeadas à ficção.

Percebe-se que a ficção coloca em cena e, portanto, em debate, a memória e a imaginação. A memória (imaginária) dos eventos cotidianos registrados no diário fictício é um retorno ao passado, reivindicatório, com o intuito de preservá-lo ou até reconstruí-lo. Em suma, nossa análise considera o título corresponde ao livro:

Em liberdade é a volta de Graciliano Ramos à convivência, libertado do pesadelo do Manaus e da Ilha Grande. É admirável a erudição, a sensibilidade e o talento de Silviano Santiago que lhe permite reconstituir o estilo, o vocabulário, a frase do autor de Vidas secas. Assim, esses desdobramentos de fatos e o foco em primeira pessoa do diário auxiliam a função da memória na invenção ficcional, quando contrapõem a experiência do poeta mineiro à de outras vitimas de arbitrariedade dos governos de exceção, como Graciliano. Essa identificação cria a tensão entre presente e passado.

Em suma, este trabalho considera como Em liberdade questiona a relação entre memória histórica e a ficção, entre a criação imaginária e o suposto relato factual, na contraposição do passado e presente.O romance de Silviano Santiago se vale da voz de Graciliano Ramos para reanimar uma discussão fundamental para o momento em que é publicado. Como deve o escritor responder à repressão? Como pode se expressar aquele que foi torturado e silenciado? Em liberdade denuncia os

riscos da ética do mártir – ética erguida sobre os “pilares da perseguição” – que põe o escritor na posição de herói vitimado. O estado de liberdade é pouco atraente comparado ao sofrimento do preso político. E o perigo está em que o escritor acabe se acomodando nessa posição, deixando de exercer o papel crítico que lhe cabe. O cerne da discussão é o lugar do escritor na sociedade, ou como a literatura pode se comprometer com o seu tempo, dialogando com a história e explorando sua capacidade de fazer surgir novas realidades.

REFERÊNCIAS

LEJEUNE, P. El pacto autobiográfico y otros estúdios. Madrid: Megazul-Endymion, 1994.

MIRANDA, W.M. Corpos escritos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo;

Belo Horizonte: Editora UFMG, 1992.

_______ . Graciliano Ramos. São Paulo: Publifolha, 2004.

RAMOS, G. Memórias do cárcere. 44 edição. Rio de Janeiro: Editora Record, 2008.

SANTIAGO, Silviano. Em liberdade: Uma ficção de Silviano Santiago. 4.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

I Mestranda em Teoria Literárura no Centro Universitário Campos de Andrade

MEMÓRIAS DO CÁRCERE: SUPERPOSIÇÃO DE FATO E

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