RESUMO: O objetivo deste trabalho é duplo. Primeiramente, examinar as características de A autobiografia de Alice B. Toklas como exemplo sui generis de narrativa de vida, que Philippe Lejeune classifica como “testemunha fictícia”, uma autobiografia em terceira pessoa, em que a identidade autor-narrador- personagem, indicada como essencial pelo teórico, adquire contornos inusitados, que serão discutidos em paralelo com a autobiografia convencional. Num segundo momento, o texto é examinado como indicador do processo criativo e do estilo experimental de Gertrude Stein, que representa na literatura o vanguardismo de Picasso e Matisse na pintura. Pretende-se, portanto, traçar, a partir do texto de Stein, paralelos entre seu processo de composição e as características das novas correntes artísticas a que os pintores dão origem – o cubismo e o fauvismo.
ABSTRACT: The aim of this paper is twofold.
Firstly, it examines the characteristics of The Autobiography of Alice B. Toklas as a sui generis example of life narrative, that Philippe Lejeune classifies as
“fictitious witness”: a kind of third-person autobiography, in which the same identity distinctly shared by author, narrator, and protagonist, posited by Lejeune as essential in actual autobiography, acquires unprecedented contours, which are discussed in comparison with conventional autobiography. Secondly, the Autobiography is examined as an indicator of Gertrude Stein’s creative process, which represents the literary counterpart of Picasso’s and Matisse’s avant-garde painting. Thus, parallels are drawn from the analysis of the text between Stein’s process of composition and the new artistic currents that derive from the works of the two painters, namely, cubism and fauvism.
PALAVRAS-CHAVE: Testemunha fictícia. Modernismo. Gertrude Stein.
KEYWORDS: Fictive witness. Modernism. Gertrude Stein.
1 Trabalho orientado pela professora Dra. Mail Marques de Azevedo
Philippe Lejeune se refere à autobiografia como “relato retrospectivo em prosa que uma pessoa faz de sua própria existência, com ênfase em sua vida individual e, em particular, na história de sua personalidade” (1986, p. 50). Segundo Miranda, a questão da autobiografia se coloca para Lejeune
a partir de uma análise no nível global da publicação do contrato implícito ou explícito do autor com o leitor, o qual determina o modo de leitura do texto e engendra os efeitos que, atribuídos a ele, parecem defini-lo como uma autobiografia. Esta é considerada um modo de leitura, um efeito contratual historicamente variável, tendo-se em vista a posição do leitor e não o interior do texto ou cânones de um gênero. (1999, p. 29-30)
O pacto autobiográfico, portanto, para Lejeune, é uma espécie de acordo ou contrato entre quem lê, que acredita estar diante de revelações verdadeiras e confiáveis, e quem escreve, que se compromete em manter a verdade dessas revelações. Para que isso aconteça deverá haver a identificação entre autor, narrador e protagonista.
A formação do pacto é auxiliada por dados paratextuais: título, subtítulo, críticas, comentários do editor, resenhas, conhecimento da obra do autor e outros. A identidade comum do autor – narrador – personagem (figurando o nome do autor na capa do livro), aliada a classificações como “memórias”, “relato” e outras semelhantes, possibilita ao leitor identificar o texto como autobiográfico e firmar o pacto.
A Autobiografia de Alice B. Toklas, supostamente escrita por Alice Toklas, companheira de Gertrude Stein por vinte e cinco anos, oportuniza a Stein o relato em terceira pessoa do questionamento da grande modernista sobre questões pessoais, o desenvolvimento da sua obra e a vida que levou junto aos artistas e escritores com quem conviveu, e que freqüentavam seu estúdio, na deslumbrante Paris do período de 1907 a 1932.
A obra é dividida em sete capítulos, que enfocam os vários períodos da vida de Stein, nem sempre em ordem cronológica. O período de 1903 a 1907 foi o da grande efervescência do mundo artístico; de 1907 a 1914 relatam-se os tempos vividos durante a guerra e a participação de Stein e Toklas junto aos feridos, o que lhes valeu uma condecoração do governo francês; de 1914 a 1932, os encontros com os artistas recomeçaram, agora com o acréscimo de novos nomes de participantes de movimentos modernistas. É nessa época que surge Ernest Hemingway, a quem Stein se refere com extremos de elogios e censura.
Durante todo esse tempo, Stein continuava a produzir sua obra literária, parte da qual conseguiu imprimir. A esse respeito, a suposta autobiógrafa, Alice Toklas, comenta o grande prazer que Gertrude Stein sentia em suas caminhadas por Paris ao observar seus livros expostos em vitrines das livrarias parisienses.
Na época, Paris, a “Cidade Luz”, era o centro da intelectualidade e das artes
e Gertrude Stein costumava reunir em seu ateliê artistas famosos, ou a caminho da fama, como Juan Gris, Pablo Picasso, Henry Matisse, Braque, Marie Lorencin e escritores americanos expatriados (a quem chamou de “geração perdida”) – Ezra Pound, Sherwood Anderson, Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Stein fazia questão de congregar todas essas pessoas e falava com orgulho do seu ateliê e de si mesma como sendo famosos e conhecidos além das fronteiras da França.
O ateliê ficou logo cheiíssimo. Quem eram todos os que ali estavam? Havia grupos de pintores e escritores húngaros, pois um húngaro qualquer apareceu lá por acaso e tratou de espalhar a notícia pela Hungria inteira. Em qualquer lugar vilarejo onde existisse um rapaz ambicioso, mal ouvia falar no número 27 da Rue de Fleurus e desde então não se pensava noutra coisa senão em chegar lá. E uma porção de fato chegava. Andavam pela casa, de todos os tamanhos e feitios, em diversos graus de riqueza e miséria, alguns muito simpáticos outros simplesmente rudes.” ...
“Havia também alemães aos montes.” ... “E ainda havia uma razoável quantidade de americanos.
(STEIN, 2006, p.17)
A voz narrativa é de Alice Toklas, companheira fiel de Gertrude Stein durante vinte e cinco anos e secretária eficiente, a quem cabe a tarefa de fazer companhia às mulheres dos artistas e escritores que compareciam às reuniões e jantares, enquanto Stein conversava com os homens:
Antes de me decidir a escrever este livro sobre os meus vinte e cinco anos com Gertrude Stein, muitas vezes dizia que ia escrever “As mulheres de Gênios com quem já Sentei”. Já sentei com tantas. Sentei com mulheres que nem eram casadas com gênios que nem eram gênios de verdade.
Sentei com mulheres legítimas de gênios que não eram gênios de verdade. E sentei com mulheres de gênios, de quase gênios, de projetos de gênios, em suma sentei muitas vezes e durante muito tempo com várias mulheres e com mulheres de vários gênios. (2006, p. 18)
Na conclusão, fica esclarecido o artifício que o leitor já percebera há muito tempo, quando a suposta autobiógrafa, Toklas, declara que Gertrude Stein, impaciente com sua lentidão, decidira ela mesma escrever o livro.
A obra desafia, portanto, os parâmetros da autobiografia que Philippe Lejeune define tão cuidadosamente: o emprego da primeira pessoa, num relato de vida que fornece as indicações para que o leitor aceite as informações do autor, isto é, algo que permita identificar o protagonista da história e seu narrador com o autor, cujo nome figura conspicuamente na capa do livro.
Para Lejeune, a obra A Autobiografia de Alice B. Toklas é um exemplo da presença da testemunha fictícia, ou seja, a inserção da ótica de um terceiro para elaborar uma imagem do sujeito da autobiografia. (1986, p. 50). A primeira pessoa encobre uma terceira, em um tipo de escritura no qual o autor elabora pontos de vistas favoráveis sobre si mesmo.
A Autobiografia fornece, assim, assunto para um excelente estudo do pensamento de Lejeune, no que se refere a autobiografia, pacto autobiográfico e testemunha fictícia.
O pacto autobiográfico, para Lejeune, é uma espécie de acordo ou contrato entre quem lê, que acredita estar diante de revelações verdadeiras e confiáveis, e quem escreve, que se compromete em manter a verdade dessas revelações. Para isso deverá haver identificação entre autor, narrador e protagonista.
Em termos, A autobiografia de Alice B. Toklas é um comentário sobre a figura de Gertrude Stein, no cenário da literatura do período. A personagem-narradora aponta Three Lives como o marco que encerra a literatura do século XIX e inicia o modernismo na literatura do século XX. Stein era individualista, narcisista e nada modesta em sua auto-avaliação. Considerava seu estilo único, e original tudo o que escrevia ou fazia.
The Making of Americans devia ser a história de uma família, e era, mas quando cheguei a Paris já estava se “transformando na história de toda a humanidade, de todos os seres humanos passados, presentes e futuros.” (2006, p. 60)
Como ela própria diz, na velada autobiografia, através de Alice Toklas, desde jovem gostava muito de ler e reler as obras ou escritos que lhes chegavam às mãos.
Foi leitora voraz de autobiografias. Dizia que para ela só existia uma única língua, o inglês. Declarava sua preferência em estar no meio de pessoas que falavam outra língua e sentir-se só com seus olhos, consigo mesma e seu inglês:
Eu sinto é com os olhos, e para mim não faz diferença a língua que ouço, eu não ouço línguas, ouço timbres de voz e ritmos, mas com os olhos vejo palavras e frases e para mim só existe uma única língua, o inglês.” (2006, p.74-75)
É adepta apaixonada daquilo que os franceses chamam de métier e sustenta que se pode ter apenas um, tal como acontece com as línguas. O seu métier é escrever, e a sua língua é o inglês.
(2006, p. 81)
Seu estilo de vanguarda, no entanto, representava um obstáculo para o leitor médio e era-lhe difícil encontrar editora que quisesse publicar seus livros. Diante de recusas e estranheza de editoras, contratou um editor para imprimir Three Lives.
Acrescentou, na seqüência, que o editor que antes recusara publicar a obra – e só concordou com a publicação quando Stein resolveu bancá-la –, diante do sucesso da obra, retornou com elogios e cumprimentos. Sobre seu estilo, que causava estranheza nos meios literários, costumava dizia:
Não se cansam de repetir, comenta, que o meu estilo é uma vergonha, mas sempre vivem me citando e tem mais, sempre me citam literalmente, enquanto daqueles a quem dizem admirar eles nunca citam. (2006, p. 75)
Em Harvard, quando estudante, desenvolvera com um colega, após uma série de experiências, a escrita automática sob a orientação de Münsterberg:
O resultado de suas experiências, que Gertrude Stein anotou e saiu publicado na Harvard Psychologycal Review, foi o primeiro trabalho que teve editado. É muito interessante ler, porque o método de escrever que depois seria desenvolvido em Three Lives e em The Macking of Americans
já se faz sentir. (2006, p.82)
A obra The Making of Americans é muito extensa, com mais de mil páginas, de difícil leitura devido ao estilo complexo de escrita: deixa de lado a pontuação convencional e aumenta, no decorrer da narrativa, a extensão das frases. Com essa obra, segundo comentários críticos, ela pretendia igualar-se ao James de Ulisses e ao Marcel Proust de Em busca do tempo perdido:
A essa altura já estava planejando o seu longo livro The Making of Americans e vivia às voltas com as suas frases, aquelas frases, aquelas frases inacabáveis que precisavam ser redigidas com exatidão. Frases, não só palavras, mas frases e mais frases sempre foram a paixão da vida inteira de Gertrude Stein. (2006, p. 45)
A vertente cubista da pintura encontra reflexos no estilo literário de Gertrude Stein, pelo uso da repetição com ligeiras variações, que tinha a finalidade de captar a existência fugidia, com a finalidade de apreender a instantaneidade e a realidade dos objetos da percepção. Alcançava, assim, o efeito de converter o dinâmico em estático, o temporal em espacial. Segundo Frederick J. Hoffman, Stein percebia a experiência e os objetos através da captação de uma mudança gradual, onde cada detalhe preserva sempre o momento anterior, modificando-se aos poucos (1963, p.
27). A repetição era uma tentativa da linguagem de reproduzir a realidade:
Por falar no emblema de uma rosa é uma rosa é uma rosa, fui eu que encontrei a frase num dos manuscritos de Gertrude e insisti em usá-la com timbre do papel de cartas, nas toalhas de linho das refeições e em tudo quanto foi lugar que permitiu que usasse. Fiquei toda contente com a minha façanha. (2006, p. 144)
Nesse período, Gertrude Stein caminha com uma gama enorme de escritores e artistas, em sua maioria jovens entusiastas.
A observação e a construção levam à imaginação, quer dizer, garantem o dom da imaginação. É a lição que tem a dar a muito escritor novo.... Os novos, em geral, depois de aprenderem tudo o que podem, acusam-na de ter orgulho desmedido. Ora, lógico, diz ela. Já se deu conta de que na literatura inglesa contemporânea é a única no gênero. Sempre soube e hoje diz. (2006, p. 81-82) As paredes do seu ateliê eram cobertas pelas obras de artistas que, muito logo, seriam famosos. Foi a primeira a expor em seu estúdio obras de Picasso, Matisse, Cèzanne e muitos outros. Desenvolveu uma amizade fortíssima e duradoura com Pablo Picasso, então um jovem pintor quase desconhecido. Um dos trechos mais interessantes da Autobiografia relata as sessões de pose para o retrato de Gertrude Stein:
Não demorou muito para Picasso começar a pintar o retrato de Gertrude Stein, hoje tão célebre.
...Seja como for, aconteceu, e ela posou noventa vezes para esse retrato feito por ele. (2006, p. 49) (...) Estava chegando a primavera, e as sessões de pose também chegaram ao fim. De repente, um dia, Picasso pintou a cabeça inteira. Não consigo mais ver você quando olho, declarou irritado.
E assim o quadro ficou como estava. Ninguém se lembra de ter ficado decepcionado ou aborrecido com esse desfecho da longa série de sessões de pose. (2006, p. 57)
Picasso concluiu a obra sem a presença de Gertrude Stein. Pintou seu rosto em formato triangular, com linhas fortes, deixando de lado as formas reais, arredondadas, para internar-se no já iniciante movimento modernista.
O retrato de Alice Toklas prenuncia o raiar do estilo cubista amplamente desenvolvido por Picasso e Braque na primeira década do século XX. Braque fazia parte do círculo de Stein que apresentou a Picasso, surgindo entre eles forte amizade.
Picasso foi o precursor da arte cubista ao ter pintado, com características nascentes do estilo, a obra “Senhoritas D’Avignon”. Através de repetição de linhas e formas o cubismo procurava registrar no plano a tridimensionalidade. A obra mostra a representação de quatro mulheres nuas, prostitutas, em cujas imagens o cubismo aparece na deformação das figuras sem comprometimento com o realismo. As frutas em primeiro plano simbolizam a efemeridade da vida. Em sua obra literária, Stein, também trabalhou com a repetição e o aprisionamento do fugidio, por meio das palavras.
Na longa luta com o retrato de Gertrude Stein, Picasso passou da fase dos arlequins, o encantador período inicial italiano, para a luta intensiva que iria acabar no cubismo. Gertrude Stein havia escrito a história da negra Melanctha, a segunda das Three Lives, que seria o primeiro passo definitivo para encerrar a literatura do século XIX e iniciar a do século XX. ( 2006, p. 58)
Entre as grandes amizades de Stein está Henry Matisse, o criador da nova escola do colorido, das cores puras e linhas simples, o fauvismo, que em breve imprimiria sua marca em tudo, chegando aos nossos tempos. Sua obra Le Bonheur de Vivre, marcou o início do modernismo fauvista:
Foi nesse quadro que, pela primeira vez, concretizou nitidamente a sua intenção de deformar o desenho do corpo humano para harmonizar e intensificar a gama de todas as cores básicas misturadas só com o branco. Usou o desenho retorcido como se faz com a ressonância em música ou com o vinagre ou com o vinagre ou com o limão na cozinha, ou com as cascas de ovos para clarear o café.
Para mim é inevitável buscar comparações na cozinha, pois gosto muito de comer e cozinhar e sei o que estou dizendo. Seja como for a idéia era essa. Cézanne descobriu a graça de deixar coisas inacabadas e distorcidas por uma questão de necessidade;
com Matisse aconteceu o mesmo mas foi deliberado. ( 2006, p. 44-45)
Embora a família Matisse passasse dificuldades, tanto o pintor quanto sua esposa eram pessoas animadas de espírito forte e muita energia. Na seqüência, Matisse vendeu suas obras e se tornou riquíssimo. Na Autobiografia, Stein, conta detalhes dos Matisse e da sua interferência na negociação de um quadro, que foi a alavanca do enriquecimento do artista.
Stein, Picasso, Matisse foram todos contestadores, em suas linhas de representação artística, dos conceitos de um período, cujo fim já vinha sendo
anunciado e superado pelo movimento modernista da vanguarda européia.
A Autobiografia de Alice B. Toklas é também fruto da contestação, uma narrativa autobiográfica que, ao invés de falar sobre a nominada da capa – Toklas – dedica todo o seu espaço a Gertrude Stein, para concluir com a grande revelação de que esta fora efetivamente a grande narradora da sua vida, utilizando-se da voz da companheira.
Já faz algum tempo que muita gente, inclusive editores, vem pedindo que Gertrude Stein escreva a sua autobiografia e ela sempre respondeu, de maneira nenhuma (...). Começou a brincar comigo dizendo que eu devia escrever a minha. Pense só, dizia, quanto dinheiro você não ia ganhar. Aí começo a inventar títulos para a minha autobiografia: “Minha Vida com os Grandes”, “Mulheres de Gênios com quem Já Sentei”, “Meus Vinte e Cinco Anos com Gertrude Stein”. (...) Depois começou a ficar séria dizendo, mas séria mesmo, você devia escrever a sua autobiografia. Finalmente prometi que, se encontrasse tempo durante o verão, escreveria. (...) Faz umas seis semanas que Gertrude Stein disse: está querendo me parecer que você nunca vai escrever a tal autobiografia.
Sabe o que eu vou fazer? Vou escrevê-la para você. Vou escrevê-la com a mesma simplicidade com que Defoe escreveu a autobiografia de Robinson Crusoe. E ela escreveu, e é isto aqui. (2006, p. 261-262)
Segundo Cida Golin, Gertrude Stein era “seduzida pelas biografias e pela transposição da realidade de um sujeito para o plano ficcional e do discurso” (1997, p.
83). A manipulação de gêneros, como no caso da autobiografia, foi um dos traços que fizeram de Stein uma das referências básicas do modernismo na literatura mundial.
A Autobiografia de Alice B. Toklas despertou interesse desde sua publicação e deve ter intrigado os leitores, pois não apresentava os elementos convencionais para identificação do autor. Entre as obras de Gertrude Stein é a de leitura mais acessível ao leitor não iniciado no estilo experimental de uma das grandes artífices do modernismo. Entretanto, o experimentalismo ainda está presente no uso que faz da autobiografia, subvertendo sua principal característica, a identificação do eu que narra com o autor de sua própria história de vida. A grande revelação, feita apenas nas últimas linhas do livro, de que Gertrude Stein é de fato a narradora, cuja voz se confunde com a de sua companheira, Alice Toklas, evidencia a competência de quem consegue brincar com os instrumentos de sua arte.
REFERÊNCIAS
AZEVEDO, Mail Marques de. O relato autobiográfico na literatura norte-americana:
dos fundadores às minorias étnicas. SIGNÓTICA. Goiânia: UFG, v. 16, n. 1, p. 97- 118, jan./jun. 2004.
LEJEUNE, Philippe. El Pacto Autobiográfico y otros estúdios. La poética de La Autobiografia. Cap.I. Madrid: Megazul. Eudymior. 1986.
MIRANDA, Wander M. Corpos escritos. São Paulo: Edusp, 1999.
REMEDIOS, Maria Luiza Ritzel. Literatura confessional. Gertrude Stein: a plasticidade do sujeito. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1997.
STEIN, Gertrude. A autobiografia de Alice B. Toklas. Trad Milton Persson. Porto Alegre: L&PM, 2006.
I Mestranda em Teoria Literárura no Centro Universitário Campos de Andrade