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Efeitos de curto e de longo prazo dos MDDs

3.2 A VARIÁVEL INDEPENDENTE

3.2.1 Efeitos de curto e de longo prazo dos MDDs

voto, a confiança que os cidadãos têm nos partidos e Parlamento, além da avaliação presidencial, sejam impactados pelos mecanismos de democracia direta.31

Gráfico 4

Percentual de respostas de aprovação presidencial

Apenas MDDs nacionais foram selecionados porque os estaduais são mais difíceis de mapear e porque, considerando que os cidadãos geralmente possuem níveis baixos de informação política e que a maior atenção da mídia é para o âmbito nacional, as pessoas respondem às questões dos surveys pensando mais na esfera nacional, o que dificulta uma análise dos estados (DYCK; LASCHER, 2009).

Como Zaller (1992, p.79-80) já havia descoberto, as preferências políticas da população têm uma propriedade fundamental: “a tendência das pessoas a serem ambivalentes (talvez até de forma inconsciente) e lidar com essa ambivalência tomando decisões com base nas ideias que estão mais salientes”. Para os casos estudados aqui, é mais pro- vável que os cidadãos lembrem do processo de votação de um MDD, da campanha e do papel que as instituições e o Presidente tiveram ao responder às pesquisas de opinião quando suas avaliações foram cole- tadas não muito tempo após as votações. Por essa razão, o efeito da ocorrência do MDD é esperado nas survey aplicadas depois das con- sultas populares. Um estudo, inclusive, demonstrou crescimento maior na percepção de eficácia política externa dos cidadãos na primeira se- mana de campanha, indicando que o aumento real dá-se por tomarem conhecimento da existência do MDD (MENDELSOHN, CUTLER, 2000).

Sabe-se que, pelo menos no que diz respeito ao estímulo à parti- cipação eleitoral, o efeito de curto prazo dos MDDs — mobilização par- tidária nas campanhas, saliência das iniciativas populares, homogenei- dade partidária, heterogeneidade da rede social individual dos eleitores e atalhos fornecidos pela elite no ambiente informacional que envolve a votação — é muito maior do que o de longo prazo, relacionado com a teoria da democracia participativa, isto é, o empoderamento dos cida- dãos expostos regularmente a um ambiente educativo (DYCK, SEA- BROOK, 2010). Essa ideia pode ser estendida para outros efeitos nos cidadãos, como sua confiança nas instituições e aprovação presiden- cial.

Entretanto, como as pessoas parecem precisar de mais de uma experiência para aprender como funciona o processo de um MDD e para apreciar participar deles (MORRELL, 1999),32 assim como os ato-

32 As percepções de curto prazo do processo participativo foram influenciadas majoritariamente pelo fato dos cidadãos terem votado no que foi aprovado ou não, mas fazerem parte de muitos processos afetou positivamente suas avaliações em geral.

res envolvidos podem aprender como desempenhar melhor seus pa- péis conforme vão participando desse tipo de processo, é razoável que um segundo MDD realizado no próximo ano não encontre o escore desse tipo de votação naquele país zerado, mas com alguma pontua- ção que represente a experiência acumulada com MDDs.33

Vatter (2009), por exemplo, construiu um índice para aprimorar a classificação das democracias de Lijphart que incorpora a democracia direta. Ele considerou o uso de MDDs nos últimos dez anos, a previsão constitucional dos diferentes tipos de MDDs, e se é necessária maioria qualificada ou quórum específico para que a decisão do MDD seja váli- da.

A justificativa de contar dez anos a partir de quando a survey foi aplicada é que se fosse considerado um período mais longo, muitos cidadãos não teriam participado dos MDDs por que eram jovens para votar e vários outros teriam esquecido a experiência. Além disso, Bowler e Donovam (2002) não encontraram diferença significativa entre considerar os MDDs ocorridos nos últimos 12 anos ou desde que MDDs passaram a ser realizados.34

Dessa forma, a variável que diz respeito à ocorrência do MDD é di- ferente de zero em apenas 11,9% dos casos, enquanto que os valores da variável MDDs cumulativos (isto é, do número de MDDs ocorridos na última década) são diferentes de zero em 50,1% dos casos. Entre es- ses, 24,6% são assinalados com apenas 1 MDD no seu histórico, 8,4%

com 2 MDDs, 8,1% com 3. O restante, entre 4 e 6 MDDs, variam de 2,3% e 4,1%. Essa variável foi ponderada e centrada, assim, a interpre- tação dos modelos é possível quando a variável de ocorrência binária de MDDs também é adicionada, pois não há situação em que o número cumulativo de MDDs seja zero e haja ocorrência de um MDD.Entretan- to, se o número acumulado de MDDs é algo em torno da média usada para centrar a variável (1), interpretar a ocorrência se torna viável.

33 Ao longo de 15 anos de surveys anuais do LB, constatou-se que “cuando hay elecciones en un país el apoyo a la democracia sufre un empujón, que en la mayor parte de las veces es pasajero” (INFORME, 2010, p.41). O efeito dos MDDs pode ser semelhante. Esses números, no entanto, “se ajustan rápidamente al año anterior al nivel 'natural' de ese país” (Idem, 2009, p.20).

34 Tratar a variável como dummy também apontou efeito significativo, porém menos consistente.

Considerando os outros aspectos dos MDDs, Ladner e Brandle (1999), no entanto, não encontram correlação entre a ocorrência de MDDs bottom-up e as previsões constitucionais dos cantões suíços. Na realidade, uma correlação entre previsão e uso não é necessariamente esperada no casodesses tipos específicos de MDDs, já que somente a ameaça de um MDD pode modificar o que é aprovado pelo Legislativo (MATSUSAKA, 2008).

Além disso, na AL, em alguns casos primeiro se decide realizar um MDD para depois aprovar lei que o respalde,35 até que um caso ocorra é difícil dizer se a lei não é “letra morta” (ALTMAN, 2012), boa parte da legislação da região é recente e os casos não são tantos,36 previsão constitucional e uso estão correlacionados, de forma que foi escolhido deixar de fora as previsões constitucionais.

Ladner e Brandle (1999) encontraram pouca evidência da relação entre o “preço” da democracia direta (assinaturas, dias de coleta, etc.) e o uso dos MDDs. Na AL, na mesma linha, o país que mais usa iniciati- vas populares e referendos, o Uruguai, é o que exige o maior número de assinaturas para convocá-los.

Por fim, quanto à questão da inclusão de critérios de participação mínima nos MDDs, embora a existência destes critérios possa levar a soluções mais consensuais, porque é necessário que um número maior de pessoas esteja envolvido, essas exigências tornam a ameaça de um bottom-up menos efetiva, o que faz com que as posições de alguns atores deixem de ser seriamente consideradas nas negociações ocorri- das no Parlamento (HUG, TSEBELIS, 2002). Assim, se estes critérios fossem incluídos no índice, teriam que ter pontuações diferentes em cada tipo de MDD.

Ainda, mesmo que a existência desses limites pareçam forçar uma maior participação por parte do eleitorado, alguns atores políticos, como organizações não-governamentais ou partidos, podem se envolver em campanhas de boicote para apoiar o lado da discussão que perderia no voto. Dessa forma, ao invés de prevenir distorções de resultados devido ao baixo comparecimento eleitoral, ou seja, a adoção de políticas res- paldadas apenas por uma minoria, às vezes, efeitos perversos são gerados (ALTMAN, 2010).

35 Como o plebiscito facultativo do Presidente Mesa na Bolívia.

36 Uma média de dois por ano, em um conjunto de dezesseis países.

Aguiar-Conraria e Magalhães (2009), examinando os requerimen- tos de quórum em MDDs na Europa descobriram que o quórum mínimo não é alcançado precisamente porque existe: acaba por aumentar a abstenção em mais de 10 pontos percentuais. Além disso, no casos em que um grupo inteiro não vota, normalmente os conservadores, isto faz com que o voto não seja mais secreto, introduzindo formas de pressão (AGUIAR-CONRARIA, MAGALHÃES, 2010), como ocorre na Colômbia.

Assim, como o efeito do quórum é bastante complexo, sendo in- clusive comum na realidade latino-americana a obrigatoriedade do voto, seria necessário maior aprofundamento no tema para encontrar a me- lhor maneira de incluir esses aspectos com implicações diferentes para diferentes tipos de MDDs.