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M ENSURAÇÃO DA PERFORMANCE DO REGIME

O apoio específico ao desempenho do regime, foco deste estudo, está relacionado com a avaliação dos processos participativos demo- cráticos e dos direitos políticos (DALTON, 1999). A proxy mais usada para medir o desempenho do regime é a questão referente à satisfação com a democracia (LAGOS, 2003; LINDE, EKMAN, 2003; KARP, BAN- DUCCI, BOWLER 2003, HENDERSON, 2004). Esta é a pergunta mais utilizada na história dos estudos de opinião pública, aplicada por diver- sos barômetros em 90 países do mundo.

Na AL, a satisfação com o regime alcança seu ponto mais alto em 2009, com 44%. Em 2010, esse percentual se mantém, confirmando a tendência de alta desde 2001, quando era de 25% (INFORME, 2010).

Alguns autores concluem que essa pergunta avalia democracia como um valor e como satisfação com o governo conjuntamente. Ou- tros, que é apenas um indicador de apoio às atividades do governo de turno. Há quem afirme que mede confiança no sistema ou na estrutura informal do regime. Outros dizem que esta pergunta fica a meio cami- nho das atitudes em relação às estruturas formais e às autoridades.

Ainda, outros afirmam que captura vários níveis do apoio político, e que se trata de um item ambíguo. Há clara evidência dessa última constata- ção. Se não se sabe exatamente o que uma questão mede, ela não tem validade ou utilidade teórica (CANACHE; MONDAK; SELIGSON, 200123).

Uma ilustração desse problema é o fato de os cidadãos dos países governados pela esquerda classificarem melhor sua democracia. Se a compreensão de democracia está contaminada pela ideologia, o que se está levando em conta é o posicionamento dos governantes (INFOR- ME, 2009).

Segundo Norris (2011), a performance do regime pode ser dividida em desempenho de:

23 Mais conhecimento político é associado com considerar avaliações do sistema para responder à pergunta, enquanto que menos conhecimento político está relacionado com considerar o desempenho das autoridades.

1) arranjos institucionais, especialmente aqueles que compartilham o poder e determinam a possibilidade de ser parte do processo de to- mada de decisão apesar do candidato ou partido do cidadão ter sido eleito ou não.

2) processo, uma das variáveis dependentes dessa pesquisa, sig- nifica o julgamento em relação aos procedimentos democráticos fun- damentais por meio das expectativas dos cidadãos.

3) políticas públicas, avaliadas pelo alcance de certos resultados esperados.

Ainda que dados sobre que aspecto da performance do regime é mais importante para os cidadãos da AL não estejam disponíveis, Hib- bing e Theiss-Morse (2001) descobriram que as percepções dos ameri- canos de falta de accountability têm mais a ver com o processo — a maneira como as decisões são tomadas — do que com as políticas. Ou seja, a distância entre o processo percebido e o desejado é maior do que a distância entre as políticas públicas percebidas e as deseja- das. Uma porção ampla acredita que os eleitos têm demasiada influên- cia nas tomadas de decisão. Além disso, a probabilidade de seguir as leis mesmo quando elas vão contra as crenças pessoais não está rela- cionada ao descontento com as políticas, mas com os procedimentos democráticos. Nesse sentido, a utilização de MDDs mostra-se impor- tante, porque modifica o modo como os processos de tomada de deci- são dão-se no regime.

Aqui, nesse estudo, a satisfação com os processos democráticos de participação é medida com uma questão que utiliza termos de inter- pretação mais universais, sobre a eficácia do voto como instrumento de mudança. A percepção da responsividade governamental normalmente é medida através da concordância com a ideia de que pessoas têm voz em relação ao que o governo faz (BOWLER; DONOVAN, 2002). Nesta pesquisa, ela será avaliada por meio da concordância com a afirmação de que o voto pode mudar as coisas, já que o voto é a “voz” mais co- mum dos cidadãos em uma democracia.

2.6.1 MDDs e a responsividade governamental

O conceito de “percepção de eficácia política” compreende a sen- sação de que a ação política individual tem, ou pode ter, impacto no processo político, na mudança política e social (CAMPBELL et al,

1954). Isto é, que vale a pena que o cidadão cumpra com os deveres políticos. O conceito foi primeiramente utilizado para ajudar a explicar as variações na participação eleitoral.

Este conceito pode ser decomposto em “eficácia política interna” e

“eficácia política externa”. Esta se relaciona às teorias sobre persistên- cia do sistema e aquela, às teorias da democracia participativa (BALCH, 1974). A primeira compreende características individuais, ha- bilidades e recursos próprios para influenciar o sistema político; a se- gunda é uma questão compartilhada e diz respeito à responsividade do sistema (CRAIG, MAGGIOTTO, 1982). Os cidadãos julgam, então, sua própria capacidade de participar e o quanto eles influenciamde fato o governo. A eficácia externa afeta a confiança política e o apoio ao sis- tema (BOWLER; DONOVAN, 2002).

Stutzer e Frey (2006) estudaram os efeitos das possibilidades de participação em MDDs na crença da efetividade política nos cantões suíços. Para tanto, utilizaram a questão: “quanta influência você pensa que alguém como você tem sobre as políticas do governo?”. Eles des- cobriram que as pessoas acreditam que têm mais influência política nas jurisdições em que existem mais chances de participação política.

Smith e Tolbert (2004) apontam alguns subprodutos educativos das iniciativas populares nos estados dos EUA. Enquanto o contexto eleitoral mostrou-se importante em relação ao comparecimento para votar e ao engajamento dos cidadãos (o efeito era significativo nas elei- ções intermediárias e não competitivas), a influência das iniciativas sobre a percepção de responsividade governamental também foi en- contrado nas eleições gerais dos anos 1990. Em outro estudo, com os mesmos dados, Hero e Tolbert (2004) também encontraram evidência de que cidadãos em estados com uso frequente de democracia direta são mais propensos a perceber que o governo é responsivo a suas demandas.

Bowler e Donovan (2002), também nos EUA, com dados de 1992, descobriram que maior exposição à democracia direta no âmbito dos estados (considerando o número de MDDs iniciados pelos cidadãos desde que cada estado adotou o procedimento e tratando seu efeito como cumulativo) faz com que os cidadãos tenham atitudes mais posi- tivas sobre como o governo responde a eles. Cidadãos residentes em estados que utilizam bastante iniciativas eram em torno de 11% mais propensos a afirmar que pessoas como eles têm voz em relação ao que

o governo faz e que aqueles que ocupam cargos públicos se preocu- pam com o que os cidadãos pensam. A principio, não há evidências de que exista algum ponto de saturação das iniciativas populares, além do qual os cidadãos tenham diminuída a sensação de responsividade go- vernamental.

Na mesma direção, observando os 31 dias de campanha oficial da consulta popular do Canadá sobre o Acordo Constitucional de Charlot- tetown em 1992, Mendelsohn e Cutler (2000) descobriram um aumento de cerca de 10% na percepção de eficácia política externa dos cida- dãos na primeira semana de campanha, o que fez eles considerarem que o aumento real dá-se pela simples ciência da existência do MDD. É interessante notar que esses resultados não estão relacionados com a aprovação do governo de então, que era extremamente impopular.

A relação entre MDDs e a percepção dos cidadãos sobre a res- ponsividade governamental não foi explorada ainda na AL e, portanto, será objeto de estudo nos próximos capítulos. Na realidade, essa rela- ção ainda não teve uma abordagem que incluísse diversos países. Os estudos comparativos foram realizados apenas entre estados de um mesmo país em outras regiões do mundo.

Segue a exposição das outras dimensões do apoio político, de al- guns dados empíricos que ajudaram na construção das hipóteses já apresentadas e de estudos que foram feitos tentando conectar de al- guma forma partidos, Parlamento e Presidente com os MDDs.

2.7 Confiança nas instituições e aprovação das