2.4 A FUNDAMENTALIDADE DO DIREITO AO AMBIENTE EQUILIBRADO E A
2.4.1 O M EIO A MBIENTE E QUILIBRADO COMO D IREITO F UNDAMENTAL E DE T ERCEIRA
Segundo a majoritária doutrina, quer nacional, quer estrangeira, reconhece-se o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado inserido no rol dos direitos fundamentais, identificando-o ainda como de terceira dimensão (ou geração)240. Não diferente é o posicionamento do Supremo Tribunal Federal:
A QUESTÃO DO DIREITO AO MEIO AMBIENTE ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO – DIREITO DE 3ª GERAÇÃO – PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE – O DIREITO À INTEGRIDADE DO MEIO AMBIENTE – TÍPICO DIREITO DE TERCEIRA GERAÇÃO – CONSTITUI PRERROGATIVA JURÍDICA DE TITULARIDADE COLETIVA, REFLETINDO, DENTRO DO PROCESSO DE AFIRMAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS, A EXPRESSÃO SIGNIFICATIVA DE UM PODER ATRIBUÍDO, NÃO AO INDÍVIDUO IDENTIFICADO EM SUA SINGULARIDADE, MAS, NUM SENTIDO VERDADEIRAMENTE MAIS ABRANGENTE, A PRÓPRIA COLETIVIDADE SOCIAL – ENQUANTO OS DIREITOS DE 1ª GERAÇÃO (DIREITOS CIVIS E POLÍTICOS) – QUE COMPREENDEM AS LIBERDADES CLÁSSICAS, NEGATIVAS OU FORMAIS – REALÇAM O PRINCÍPIO DA LIBERDADE E OS DIREITOS DE 2ª GERAÇÃO (DIREITOS ECONÔMICOS, SOCIAIS E CULTURAIS) – QUE SE IDENTIFICAM COM AS LIBERDADES POSITIVAS, REIAS OU CONCRETAS – ACENTUAM O PRINCÍPIO DA IGUALDADE, OS DIREITOS DE 3ª GERAÇÃOQUE MATERIALIZAM PODERES DE TITULARIDADE COLETIVA ATRIBUÍDOS GENERICAMENTE A TODAS AS FORMATAÇÕES SOCIAIS, CONSAGRAM O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE E CONSTITUEM UM
240 Nesse sentido, a título exemplificativo. BARROSO, Luis Roberto. O direito constitucional e a efetividade de suas normas: limites e possibilidades da constituição brasileira. 8.ed. atual. Rio de Janeiro: Renovar, 2006. p.98, BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. p.522- 523 e BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. p.25.
MOMENTO IMPORTANTE DO PROCESSO DE DESENVOLVIENTO, EXPANSÃO E RECONHECIMENTO DOS DIRITOS HUMANOS, CARACTERIZADOS, ENQUANTO VALORES FUNDAMENTAIS INDISPONÍVEIS, PELA NOTA DE UMA ESSENCIAL INEXAURIBILIDADE – CONSIDERAÇÕES DOUTRINÁRIAS. TRIBUNAL PLENO, Rel. Min. Celso de Mello, DJU 17.11.95, p. 39206. Mandado de Segurança n. 22164/SP241.
O art. 225, ainda no caput declara o direito de todos ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Embora deslocado do art. 5º, vários fundamentos justificam a sua fundamentalidade. Em primeiro lugar, haja vista a abertura dada pelo disposto no art. 5º, par. 2º da CRFB/88, possibilitando a inclusão de outros direitos e garantias decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados ou dos tratados em que o Brasil faça parte.Em segundo, considerando a afirmação do direito ao ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental no princípio 1º da Declaração de Estocolmo, de 1972, reforçado pelo princípio 1º da Declaração do Rio de Janeiro, de 1992, documentos internacionais dos quais o Brasil figurou como parte signatária, servindo de inspiração para a inclusão do direito na CRFB/88242. Em terceiro, diante da incumbência delegada tanto ao Estado quanto à coletividade dos deveres de preservação e proteção imposta pelo art. 225, em favor das atuais e futuras gerações243.
A formalização jurídica do direito ao meio ambiente enquanto direito fundamental, ocorre com a consagração dos chamados “novos direitos”244, assim considerados o direito à solidariedade, o direito à paz, o
241 SILVA, José Afonso da. Fundamentos constitucionais da proteção do meio ambiente. Interesse Público- ano 5, no. 19, maio/junho de 2003. Porto Alegre: Notadez, 2003. p.48.
242 MEDAUAR, Odete. O ordenamento ambiental brasileiro. in KISHI, Sandra Akemi Shimada;
SILVA, Solange Teles da; SOARES, Inês Virgínia Prado. Desafios do direito ambiental no século XXI. p. 699.
243 LEITE, José Rubens Morato. Dano ambiental: do individual ao coletivo extrapatrimonial. p.91.
244 Com uma perspectiva de análise focada na tutela jurídica dos direitos, Paulo de Tarso Brandão apresenta, aos denominados “novos direitos”, um conceito mais dinâmico daquele tradicionalmente oferecido pela doutrina, incluindo na expressão “novos” todos os direitos que se manifestam para assegurar determinada tutela, “constituindo-se num conceito aberto, em
desenvolvimento dos povos, com o qual deverá o meio ambiente equilibrado andar de “mãos dadas”, conforme Bonavides:
Dotados de altíssimo teor de humanismo e universalidade, os direitos da terceira geração tendem a cristalizar-se neste fim de século enquanto direitos que não se destinam especificamente à proteção dos interesses de um indivíduo, de um grupo ou de um determinado Estado. Têm primeiro por destinatário o gênero humano, mesmo num momento expressivo de sua afirmação como valor supremo em termos de existencialidade correta. Os publicistas e os juristas já os enumeram com familiaridade, assinalando-lhe o caráter fascinante do coroamento de uma evolução de trezentos anos dos direitos fundamentais. Emergiram eles da reflexão sobre temas referentes ao desenvolvimento, à paz, ao meio ambiente, à comunicação e ao patrimônio comum da humanidade245.
Conforme o doutrinador germânico Robert Alexy, o direito ao meio ambiente traduz um exemplo de "direito fundamental como um todo", na medida em que pode se manifestar em sede de diferentes formas de tutela de direitos fundamentais. Assim, o direito ao meio ambiente como direito fundamental da terceira geração pode referir-se ao direito/dever de o Estado: 1) omitir-se de intervir no meio ambiente (direito de defesa); 2) de proteger o cidadão contra terceiros que causem danos ao meio ambiente (direito de proteção); 3) de permitir a participação do cidadão nos procedimentos relativos à tomada de decisões sobre o meio ambiente (direito ao procedimento); e finalmente, 4) de realizar medidas fáticas tendentes a melhorar o meio ambiente (direito de prestações de fato)246.
Diferentemente dos chamados direitos da primeira dimensão (direitos individuais e políticos), identificados como garantias do indivíduo diante
permanente e constante mutação”. BRANDÃO, Paulo de Tarso. Ações constitucionais: novos direitos e acesso à justiça. Florianópolis: Habitus Editora, 2001. p.23 e 33.
245 BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. p.523.
246 ALEXY, Robert. Teoria de los derechos fundamentales. Madrid: Centro de Estúdios Constitucionales, 1997. Título Original: Theorie der grundrechte. p.429.
do poder do Estado, e dos direitos da segunda dimensão (direitos sociais, culturais e econômicos), caracterizados pelo dever de prestações positivas do Estado em favor do indivíduo, o direito ao meio ambiente, como integrante dos direitos fundamentais da terceira dimensão (direitos de solidariedade) consiste num direito-dever não apenas do Estado, mas também da sociedade (da mesma forma indiscriminadamente titularizada) de preservá-lo e defendê-lo como tal, em níveis procedimental e judicial.
2.4.2 O Direito ao Meio Ambiente Equilibrado e seu Enquadramento como