2.4 A FUNDAMENTALIDADE DO DIREITO AO AMBIENTE EQUILIBRADO E A
2.4.2 O D IREITO AO M EIO A MBIENTE E QUILIBRADO E SEU E NQUADRAMENTO COMO
do poder do Estado, e dos direitos da segunda dimensão (direitos sociais, culturais e econômicos), caracterizados pelo dever de prestações positivas do Estado em favor do indivíduo, o direito ao meio ambiente, como integrante dos direitos fundamentais da terceira dimensão (direitos de solidariedade) consiste num direito-dever não apenas do Estado, mas também da sociedade (da mesma forma indiscriminadamente titularizada) de preservá-lo e defendê-lo como tal, em níveis procedimental e judicial.
2.4.2 O Direito ao Meio Ambiente Equilibrado e seu Enquadramento como
Trata-se, portanto, de limitação material explícita no processo de decisão política tendente não só à abolição como também à redução ou mitigação de tais direitos249.
Questão que se coloca em exame é saber se o direito ao meio ambiente sadio integra o rol dos direitos ditos intocáveis pelo poder constituinte originário, qualificando-se, desta forma, como cláusula pétrea, merecendo especial proteção ante as constantes investidas legislativas. Por uma leitura gramatical da redação do texto constitucional citado, obrigatória seria a conclusão no sentido da exclusão de todos os direitos coletivos e difusos, considerando as suas peculiares distinções em relação aos chamados direitos individuais.
Entretanto, não se pode dispensar uma melhor, mais ampla e adequada interpretação da norma jurídica com o precípuo objetivo de melhor alcançar a real intenção do legislador na sua elaboração dentro de todo um contexto normativo mais complexo e interconectado. Nestes termos, Miguel Reale:
é preciso interpretar as leis segundo seus valores lingüísticos, mas situando-as no conjunto do sistema. Esse trabalho de compreensão de um preceito, em sua correlação com todos os que com ele se articulam logicamente, denomina-se interpretação lógico-sistemática250.
Robert Alexy salienta que há diferença entre norma e texto normativo, uma vez que a norma jurídica é algo mais que um texto literal, sendo determinada também pela realidade social, pois “a concepção da norma como constituída apenas lingüisticamente seria a mentira vital de uma compreensão meramente formalista do Estado de Direito251”.
249 SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das normas constitucionais. 7. ed. São Paulo:
Malheiros, 2007. p.176.
250 REALE, Miguel. Lições preliminares de direito. 5.ed. São Paulo: Saraiva, 1978. p. 275.
251 ALEXY, Robert. Teoria de los derechos fundamentales. p. 74. La concepcion de la norma como constituída sólo lingüísticamente seria la mentira vital de una comprensión meramente formalista del Estado de Derecho (tradução livre).
Nessa linha de raciocínio, ganha importância a necessidade de se recorrer a outros métodos existentes no campo da hermenêutica jurídica
“para atingir as variações lingüísticas propiciadas pelo texto. Elementos históricos, sistemáticos, lógicos e teleológicos deverão ser sopesados para, cientificamente, tornar precisos e bem definidos os conceitos normativos.”252 Destaca, ainda, Hamilton Alonso Júnior, com muita propriedade, que a Constituição Federal, em seu art. 60, par. 4º e inc. IV, ao incluir os direitos fundamentais no rol dos direitos alçados à condição de cláusula pétrea, não quis apenas proteger os direitos e as garantias individuais, tendo o legislador constituinte dito menos do que pretendia:
A pesquisa do conteúdo normativo segue critérios científicos, é dentro deste espectro que se afirma haver imprecisão dos limites do poder reformador do ar. 60, IV, da CF, quando literalmente (e apenas literalmente) parece proteger tão-só os direitos e garantias individuais253.
Defende o Autor, desse modo, que se adote uma interpretação sistêmica para a identificação completa do rol dos direitos fundamentais salvaguardados no texto constitucional. Para tanto, basta recorrer às diretrizes expostas no preâmbulo do texto constitucional, segundo o qual, para a instituição do Estado Democrático brasileiro, faz-se necessário assegurar-se o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional254.
Assim, arremata o autor que
Negar proteção pétrea ao direito difuso do meio ambiente é afrontar a Lei Maior com negativa de proteção aos demais direitos
252 ALONSO JÚNIOR, Hamilton. Direito fundamental ao meio ambiente e ações coletivas. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2006. p.48.
253 ALONSO JÚNIOR, Hamilton. Direito fundamental ao meio ambiente e ações coletivas.
p.48.
254 ALONSO JÚNIOR, Hamilton. Direito fundamental ao meio ambiente e ações coletivas.
p.48.
fundamentais (individuais), porquanto não há como cindir a íntima correlação do direito à vida, à saúde, de desenvolvimento sustentável, dentre outros, com a necessidade de um ambiente sadio. Impossível dissociar. A dignidade humana, v.g., de morar e trabalhar, transcende o possuir casa ou emprego. [...] Não há como separar a proteção do direito a um meio ambiente equilibrado dos demais, como também é impraticável ver o direito social ao trabalho garantido em sua plenitude se as condições de segurança e saúde do trabalhador não são propícias255.
Complementa esse pensamento, a mudança do enfoque sacramentado pela clássica concepção liberal dos direitos fundamentais de que a todo direito fundamental, como categoria dogmática, haverá de corresponder um direito subjetivo individual que lhe é inerente.
Conforme abordado no item 1.5, com a passagem do Estado Liberal para o Estado Social de Direito, incorpora-se dentre as funções do Estado o dever não apenas de abstenção e respeito aos direitos subjetivos dos indivíduos, mas também o exercício de novas funções em uma dimensão objetiva – desvinculada de direitos subjetivos individualmente considerados – outorgando- lhe, de forma genérica, deveres de prestação de direitos (ex: direitos sociais como a educação, saúde, moradia, meio ambiente sadio do trabalho)256.
Amparado, pois, em uma nova dimensão exclusivamente objetiva, os direitos fundamentais, para assim serem considerados, não necessariamente haverão de vincular-se a um direito subjetivo individual. Desse modo, consolida-se uma nova estrutura de direitos fundamentais independentemente da perspectiva subjetiva257, cuja percepção objetiva transcende a dimensão de proteção da esfera individual, autorizando-se a norma de direito fundamental à proteção dos chamados interesses coletivos, resultando
255 ALONSO JÚNIOR, Hamilton. Direito fundamental ao meio ambiente e ações coletivas. p.
48.
256 BELO FILHO, Ney de Barros. A dimensão subjetiva e a dimensão objetiva da norma de direito fundamental ao ambiente. In Revista Magister de Direito Ambiental. no. 10, fev-març/2007. p.
6.
257 BELO FILHO, Ney de Barros. A dimensão subjetiva e a dimensão objetiva da norma de direito fundamental ao ambiente. p. 6.
abarcado o meio ambiente ecologicamente equilibrado, como direito difuso não passível de individualização, no rol dos direitos fundamentais.
Decorre daí não apenas um fortalecimento na proteção dos direitos coletivos, como também a limitação, em relação a estes, dos direitos fundamentais em sua perspectiva individual quando contrapostos ao interesse da comunidade, servindo aqueles de parâmetro, destarte, para o controle da constitucionalidade das leis e demais atos normativos estatais258.
Finalmente, José Rubens Morato Leite avança nessa compreensão, destacando que o redimensionamento da importância dos direitos fundamentais, com a superação do Estado de Direito Liberal alargou a esfera de proteção dos direitos fundamentais, reconhecendo-se a sua utilidade à proteção e concretização de bens cuja importância passa a ser reconhecida no seio social, não mais sob o aspecto meramente individual. Desse modo, com o reconhecimento da fundamentalidade do direito ao ambiente e sua inclusão nos textos constitucionais passa a aparecer ora positivamente sob uma dimensão objetiva, ora numa dimensão subjetiva, conjugando-se assim ambas as dimensões. E, por essa nova percepção, destaca o Autor que
A dimensão objetivo-subjetiva é a mais avançada e moderna, porquanto repele a proteção ambiental em função do interesse exclusivo do homem para dar lugar à proteção em função da ética antropocêntrica alargarda. Pugna essa concepção pelo reconhecimento concomitante de um direito subjetivo do indivíduo e da proteção autônoma do ambiente, independentemente do interesse humano. Trata-se da configuração mais completa. São exemplos dessa configuração as Constituições da Colômbia, da Espanha e do Brasil259.
258 SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. p.170.
259 LEITE, José Rubens Morato. Sociedade de risco e estado. In CANOTILHO, José Joaquim Gomes e LEITE, José Rubens Morato (Org.) Direito constitucional ambiental brasileiro.
p.194.
Consolida-se, pois, na perspectiva objetivo-subjetiva, a fundamentação teórica da fundamentalidade da proteção ao meio ambiente equilibrado imperceptível sob o enfoque do Estado de Direito Liberal clássico.
Importa observar que esta qualificação premia as normas ambientais constitucionais previstas nos art. 225 e 170, inc. VI - estas em sintonia com o art. 5º, par. 2º - voltadas a assegurar o direito a uma sadia qualidade de vida, por tanto essencial à dignidade humana, dando-lhes caráter de irrevogabilidade no ordenamento jurídico constitucional pátrio por força do disposto no art. 60, par. 4º, inc. IV, da CRFB/88 e possibilidades de maior concretização.
2.4.3 O Meio Ambiente Equilibrado como Direito e como Dever Fundamental