2.2 Estratégias metodológicas
2.2.2 Entrevistas e seus múltiplos processos de afetamento
Um rapaz, em especial, foi o que exigiu maior cuidado, pois, através de uma brincadeira maliciosa, pareceu fazer um convite para sair. Semanas após esse episódio, fui alertada pela bibliotecária que ele estava interessado em mim. Como essa situação ocorreu no início das entrevistas, consequentemente, diminuiu o tempo em que ficava no pátio, gerando um distanciamento automático dos alunos e das alunas.
Durante o trabalho de campo, surgiu o uso do termo “relacionamento abusivo”, tanto por alunas quanto por profissionais. Tal termo também foi mencionado nas primeiras entrevistas. Sentindo necessidade de compreender se a escolha desse termo estava sendo acionado para nomear as violências, foi incluída na entrevista a pergunta sobre já ter vivido um relacionamento abusivo e/ou ter sido abusivo.
Foram convidados para as entrevistas uma moça e um rapaz de cada modalidade do ensino médio, que já tivesse estabelecido algum tipo de contato com a pesquisadora através da convivência no pátio, com exceção de uma moça, que foi indicada por um dos entrevistados, devido ao desconhecimento de uma interlocutora que estivesse dentro do perfil de idade. Embora a maior parte dos rapazes entrevistados seja negro e das moças, branca (autodeclaração), ressalto que essa escolha não foi intencional, mas em virtude da não proximidade com outros adolescentes que tivessem idades entre 18 e 24 anos.
Durante o estabelecimento dos contatos para participação no estudo, foram explicados seus objetivos, métodos, riscos e benefícios. Foi solicitada autorização para a gravação da entrevista. Devido à aparente preocupação dos adolescentes com a escola ter acesso à gravação e/ou aos relatos, foi reforçado diversas vezes o sigilo e a garantia de confidencialidade das informações e de que maneira elas seriam utilizadas. Ademais, adverti que poderiam desistir da participação a qualquer momento.
As entrevistas foram realizadas na própria unidade escolar, em datas previamente combinadas com os adolescentes conforme a disponibilidade de horário frente ao quadro de aulas. A Direção concedeu uma sala para realizar as entrevistas, porém, por ser conjugada com o arquivo da escola, na primeira entrevista houve diversas interrupções.
Na inviabilidade de prosseguir as próximas entrevistas naquele espaço, foi agendada a sala de vídeo. Contudo, ainda assim, em uma das entrevistas, fomos solicitados a nos retirar da sala, no meio do processo, para a realização de uma reunião. A conclusão da interlocução deu-se em uma sala anexa à biblioteca. Local acordado diretamente com a bibliotecária e utilizado para as demais entrevistas.
Alguns adolescentes ficaram nervosos e ansiosos; um rapaz solicitou ver as perguntas antes de iniciar a entrevista. O gravador foi um elemento intimidador, eles continham as palavras e houve questionamento através de mímicas ou uma voz
muito baixa sobre o que podia falar, se podia dizer palavrão. Algumas histórias já tinham sido contadas em outro momento com muito mais riqueza de detalhes, o que reforça o poder inibidor do gravador. Ao desligá-lo, alguns voltaram a ter uma fala mais tranquila e descontraída. De modo geral, os rapazes demonstraram maior tensão durante a entrevista.
A situação da entrevista suscitou diversas reações a partir das narrativas: o anúncio do choro depois da leitura do termo de consentimento livre; falas e expressões que transbordavam dor; lágrimas; silêncios e riso nervoso. Algumas histórias foram difíceis de ser concluídas e procurei deixar os entrevistados à vontade para prosseguir ou não com seu relato. De modo particular, um adolescente trouxe um relato de forma descontraída, mas com dúvidas se o que viveu era uma violência, ele expressava-se de modo como se esperasse uma resposta. Semanas após a entrevista, duas moças relataram que ficaram “mexidas” ao falar sobre suas histórias por tratarem de lembranças que ainda lhes causam dor.
Por fim, é preciso levantar mais alguns pontos desafiadores nesse processo de pesquisa, o campo de tensão e inquietação pessoal que foram gerados através dos diálogos no pátio e na escuta das histórias durante as entrevistas. Nesses momentos, pensava ser o lado profissional querendo agir, pois é difícil se desvencilhar do fazer diário. Mas hoje acredito que os sentimentos gerados ao longo da pesquisa, fossem no contato com os adolescentes ou os estranhamentos e reflexões na área profissional, só foram possíveis pelo fato de eu ter sido afetada como pessoa.
Como afirma Parreiras (2017, p.17), não há como sair intacto da pesquisa de campo, “especialmente quando as vivências tocam em pontos sensíveis, como por exemplo, lidar com narrativas de violência, abuso, dor, exploração”. À luz de Fravet- Saada (2005), ser afetada pelo campo abre uma comunicação com os interlocutores, que é involuntária, sem intencionalidade, verbal ou não, e permitir esses afetamentos é possibilitar os estranhamentos no campo e os questionamentos de nosso conhecimento.
A seguir, um breve histórico dos adolescentes entrevistados e uma tabela de identificação de todos os interlocutores mencionados nesta dissertação.
Perfil dos entrevistados
• William: autodeclara-se negro, tem 18 anos, cursa o 3º ano do ensino médio profissionalizante (curso Ventania). É evangélico, reside com a família (pai, mãe e dois irmãos) em um bairro de classe baixa e com forte presença do tráfico de drogas. Namorou algumas vezes. Teve experiência de um beijo com um rapaz, mas declara não sentir atração ou desejo por pessoas do mesmo sexo. As queixas principais em seus relacionamentos foram o “excesso” de ciúmes das parceiras, que desencadeava em discussões com ele e com suas amigas. William relatou ter uma postura mais passiva diante dos desentendimentos, tendia a se silenciar ou a tentar acalmar a parceira. O jovem afirma ser tímido e não costuma dividir seus problemas.
Em algumas situações de conflitos com a ex-namorada, recorreu a amigos e ao pai para solicitar conselhos. Na escola, costumava circular sozinho ou em dupla, mantinha-se mais quieto nas rodas de conversa.
• Ana: autodeclara-se negra, tem 20 anos e cursa o 2º ano do ensino médio profissionalizante (curso Ventania). É evangélica e, na ocasião da entrevista, residia com a família paterna (pai, madrasta, duas irmãs e um irmão) em um bairro de classe baixa. Até os 16 anos, ela morou com a família materna (mãe, avó e três irmãs), mas, após desentendimentos com a genitora que levaram a agressões físicas em espaços públicos, foi morar com o pai. Ana teve uma experiência de namoro e um noivado. Relatou sentir atração por moças, mas não teve experiências homoafetivas, e se identifica como heterossexual. Em ambas experiências de namoro, foi “traída”, viveu conflitos que desencadearam agressões físicas mútuas, isolamento do grupo de amigos devido a ciúmes, e se queixa de violência psicológica praticada pelo noivo. Embora ela relate tentar dialogar diante dos conflitos, em algumas cenas narradas, Ana disse reagir com agressão física contra o outro ou contra si mesma. A jovem relata ter suporte principalmente de amigas e da madrasta. Na escola, costumava passar os momentos de aula vaga e de intervalo dentro da sala de aula, porém, quando estava no pátio, tinha uma postura mais falante, sempre acompanhada. Interrompeu os estudos por alguns anos devido à necessidade de trabalhar.
• Guilherme: autodeclara-se negro, tem 18 anos e cursa o 1º ano do ensino médio profissionalizante (curso Tempestade). É católico não praticante, reside com a família (pai, mãe e irmão) no centro da cidade. Relata algumas experiências de
namoro. Menciona sentir atração por rapazes e já teve uma experiência de “ficar”
com um deles, porém suas práticas erótico-afetivas são com moças. Os conflitos relatados aconteceram com meninas com quem “ficou” e foram em decorrência de ciúmes, ele teve fotos íntimas exibidas pessoalmente para um grupo de amigas de uma “ex-ficante”. O rapaz relata perder a paciência com facilidade, brigar e xingar as moças. Ele identifica essas ações como violência. Guilherme relata resolver suas questões sozinho, não tem o hábito de procurar os amigos para pedir conselhos e, quando o faz, se sente mais à vontade com as moças e por vezes recorre à mãe. Na escola, está sempre rodeado de pessoas, circula em diferentes grupos, tem fama de
“ficar” com muitas garotas da escola e está constantemente pelo pátio. Já reprovou alguns anos na escola, pois, tinha o hábito de faltar às aulas para namorar.
• Lígia autodeclara-se branca, tem 18 anos e cursa o 1º ano do ensino médio profissionalizante (curso Tempestade). É espírita não praticante, reside com a família paterna (pai, madrasta, irmã e genitora da madrasta) em um bairro popular da cidade. Anteriormente morava com a mãe, mas, devido a conflitos, resolveu residir com o pai. A moça aponta dificuldade na relação com o pai, que se agravou quando ele descobriu que ela era lésbica (autodeclaração), o que também não é bem aceito pela mãe. Na ocasião da entrevista, Lígia tinha terminado um namoro há poucos dias. A jovem teve experiências de namoro com meninos e com meninas, mas afirma que, desde que entendeu sua “orientação sexual”, tem-se relacionado com mulheres. Relata situação de coerção sexual e constantes discussões em decorrência de ciúmes. Ela se considera tranquila e disse resolver os problemas através do diálogo, mas também relatou reações com agressão física. Embora relate resolver seus problemas sozinha, chegou a citar a irmã, que tem como a principal conselheira, e amigos. Na escola, ela é comunicativa e relaciona-se com diferentes grupos de alunos.
• Carlos autodeclara-se pardo, tem 19 anos e cursa o 3º ano do ensino médio. Diz não ter religião, mas a família é evangélica. Reside com a família (pai, mãe e uma irmã) em um bairro de classe popular. O rapaz não possui bom relacionamento com a família em decorrência de divergências de opiniões e da alta cobrança para se adequar aos comportamentos exigidos pela família, como por exemplo, ser mais reservado. Na ocasião da entrevista, estava namorando pela primeira vez, relação que durava há dois anos. Menciona já ter tido dúvidas acerca de sua sexualidade, mas ter compreendido ser heterossexual. Não relatou situações
de violência no namoro ou em relações de “ficar”, também não menciona episódios em que foi agressivo com as moças. Carlos disse recorrer à namorada e a um amigo quando precisa de conselho ou ajuda, sendo o amigo o mais solicitado. Na escola, ele é comunicativo, fala com muitas pessoas, tem uma postura de liderança e diz ser o “presidente do grêmio”, o que o fazia ser intermediário dos alunos com a gestão da escola.
• Ingrid autodeclara-se branca, tem 19 anos e cursa o 3º ano do ensino médio. É evangélica não praticante e reside com a família materna (mãe, padrasto e irmã). O pai reside em outro município e aponta ter um relacionamento próximo com ele, menciona que a relação com a mãe é distante. No momento da entrevista, ela se relacionava há 1 ano com um rapaz, mas não nomeava de namoro. Ingrid relata ter experiências afetivo-sexuais com moças. As principais queixas no relacionamento foram com o atual parceiro, relatou diversas brigas em função de ciúme, isolamento do grupo de amigos, episódio de agressão física e coerção sexual. Ingrid reagia às brigas, discutindo, gritando e devolvia as agressões físicas vividas. Relata ser muito introspectiva com seus problemas pessoais; não tem o costume de recorrer a amigos por falta de confiança, porém aponta um amigo como conselheiro de algumas situações. Distinto dos demais entrevistados, não conto com observações sobre a sociabilidade da moça na escola, pois não a conheci através do campo, ela foi indicada por um rapaz para participar da entrevista.
Tabela 1 – Identificação das/os adolescentes da pesquisa (com os quais se estabeleceram interações mais frequentes durante a observação participante, incluindo alguns que concordaram em participar na entrevista).
Nome Raça* Idade Escolaridade/
Turno
1º Contato e diálogos posteriores
Experiência afetivo- sexual
Prática ou vivência de violência no relacionamento afetivo-sexual 1 Cora Branca 14 8º ano/ tarde Apresentada pelos
amigos.
Conversas através da circulação no pátio.
Relatos em diário de campo.
Prática de “ficar”.
Nunca namorou.
Não há experiências com parceiras do mesmo sexo.
Relatos de violência no relacionamento
afetivo-sexual de terceiros.
2 Débora Negra 14 7º ano/ tarde Apresentada pelos amigos.
Conversas através da circulação no pátio.
Relatos em diário de campo.
Prática de “ficar”.
Namorava na ocasião da pesquisa.
Não há experiências com parceiras do mesmo sexo.
Relato de prática de violência no próprio relacionamento e sobre relação de terceiros.
3 Clara Branca 15 8º ano/ tarde Adolescente fez contato a partir de uma brincadeira.
Conversas através da circulação no pátio.
Relatos em diário de campo.
Práticas de “ficar” e namorar.
Práticas sexuais.
Experiências com parceiras do mesmo sexo.
Relato de violência no próprio relacionamento afetivo-sexual e de terceiros.
4 Fernanda Branca 14 8º ano/ tarde Apresentada pelos amigos.
Conversas através da circulação no pátio.
Relatos em diário de campo.
Práticas de “ficar” e namorar.
Não há experiências com parceiras do mesmo sexo.
Relata situações de brigas e términos de relacionamento.
5 Bruno Pardo 15 8º ano/ tarde Adolescente fez contato a partir de uma brincadeira.
Conversas através da circulação no pátio.
Relatos em diário de campo.
Práticas de “ficar”.
Adolescente pouco falava sobre suas práticas.
Não há relatos sobre o próprio
relacionamento.
6 Patrick Negro 17 1º ano/ manhã Contato via diálogo em conjunto com funcionárias no portão da escola.
Conversas através da circulação no pátio.
Relatos em diário de campo.
Práticas de “ficar” e namorar.
Práticas sexuais.
Experiências com parceiros do mesmo sexo.
Relatos de vivência de violência no próprio relacionamento afetivo-sexual.
Amigas e amigos relataram casos de violência praticada pelo adolescente.
7 Roberto Negro 17 3º ano/ manhã Abordagem feita pelo adolescente na quadra esportiva.
Conversas através da circulação no pátio.
Relatos em diário de campo.
Namorava na ocasião da pesquisa.
Relata conflitos no próprio
relacionamento.
8 Ingrid Branca 19 3º ano/ manhã Apresentada por um rapaz.
Entrevista gravada.
Práticas de “ficar” e namorar.
Práticas sexuais.
“Ficava” há 1 ano no momento da entrevista.
Experiências com parceiras do mesmo sexo.
Relatos de prática e vivência de violência no relacionamento afetivo-sexual.
9 Carlos Pardo 19 3º ano/ manhã Abordagem feita pelo rapaz ao se aproximar do grupo.
Conversas através da circulação no pátio.
Relatos em diário de campo.
Entrevista gravada.
Práticas de “ficar” e namorar.
Práticas sexuais.
Namorava há 2 anos no momento da entrevista.
Experiência de um beijo com parceiro do mesmo sexo.
Não há relato de prática e vivência de violência no
relacionamento afetivo-sexual.
10 Aline Branca 18 3º ano/ manhã Apresentada por amigos em rodas de conversa.
Um único contato.
Relatos em diário de campo.
Práticas de “ficar” e namorar.
Práticas sexuais.
Relato de vivência de violência no
relacionamento afetivo-sexual.
11 André Branco 15 1º ano curso Ventania/
Integral
Abordagem feita pelo adolescente.
Conversas através da circulação no pátio.
Relatos em diário de campo.
Práticas de “ficar”. Não há relatos de conflitos ou violência.
12 Ana Negra 20 2º ano curso Ventania/
Integral
Moça apresentada por um amigo.
Conversas através da circulação no pátio.
Relatos em diário de campo.
Entrevista gravada.
Práticas de “ficar”, namorar e noivado.
Práticas sexuais.
Relata atração, mas não há experiências com parceiras do mesmo sexo.
Relatos de prática e vivência de violência no relacionamento afetivo-sexual.
13 Nina Negra 17 3º ano curso Ventania/
Integral
Contato via diálogo em conjunto com funcionárias no portão da escola.
Conversas através da circulação no pátio.
Relatos em diário de campo.
Práticas de “ficar”, namorar.
Namorava há 5 anos na ocasião da pesquisa.
Relato de briga em que tenta agredir o namorado.
14 William Negro 18 3º ano curso Ventania/
Integral
Apresentado por uma amiga.
Conversas através da circulação no pátio.
Relatos em diário de campo.
Entrevista gravada.
Práticas de “ficar”, namorar.
Práticas sexuais.
Experiência de um beijo com parceiro do mesmo sexo.
Relatos de prática e vivência de violência no relacionamento afetivo-sexual.
15 Guilherme Negro 18 3º ano curso Tempestade/
Integral
Abordagem feita pelo rapaz quando
assistíamos um ensaio de dança (trabalho escolar).
Conversas através da circulação no pátio.
Relatos em diário de campo.
Entrevista gravada.
Práticas de “ficar”, namorar.
Práticas sexuais.
Atração e uma
experiência com parceiro do mesmo sexo.
Relatos de prática e vivência de violência no relacionamento afetivo-sexual.
16 Lígia Branca 18 3º ano curso Tempestade/
Integral
Apresentada por amigos em rodas de conversa.
Conversas através da circulação no pátio.
Relatos em diário de campo.
Entrevista gravada.
Práticas de “ficar”,
namorar ambos os sexos.
Práticas sexuais.
Identifica-se como homossexual.
Relatos de prática e vivência de violência no relacionamento afetivo-sexual.
*Hétero classificação
3 SEXUALIDADE E AFETO NA ESCOLA
Este capítulo visa à compreensão da sociabilidade dentro do ambiente escolar, da iniciação sexual e afetiva e das experiências ao longo das trajetórias da sexualidade na adolescência. Desse modo, descrevo a sociabilidade dos adolescentes sob o prisma de gênero abordando os aprendizados da sexualidade e as interações como a paquera e a conquista. Por último, por ser a escola um espaço de informação e de controle da sexualidade, também analiso como esse assunto é tratado pelos diversos profissionais nos diferentes espaços institucionais, como o pátio e os espaços formais de aprendizagem, e as formas como a instituição lida com as questões que envolvem o namoro e o “ficar” dentro da escola.