3 SEXUALIDADE E AFETO NA ESCOLA
Este capítulo visa à compreensão da sociabilidade dentro do ambiente escolar, da iniciação sexual e afetiva e das experiências ao longo das trajetórias da sexualidade na adolescência. Desse modo, descrevo a sociabilidade dos adolescentes sob o prisma de gênero abordando os aprendizados da sexualidade e as interações como a paquera e a conquista. Por último, por ser a escola um espaço de informação e de controle da sexualidade, também analiso como esse assunto é tratado pelos diversos profissionais nos diferentes espaços institucionais, como o pátio e os espaços formais de aprendizagem, e as formas como a instituição lida com as questões que envolvem o namoro e o “ficar” dentro da escola.
As grades do portão permitiam que qualquer pessoa visualizasse e fizesse algum tipo de contato com os alunos, assim, da mesma forma que facilitava pais, mães, avós irem vigiar seus filhos e netos, também colaborava para o acesso dos namorados, namoradas, “ficantes”14 e “crushes”15, que comumente levavam lanches, doces, conversavam e trocavam beijos pelas grades.
O déficit de professores nos horários observados fazia com que o pátio tivesse grande movimentação de alunos e alunas, o que dava a sensação contínua de recreio. O barulho era uma constante, conversas, gritos e risadas e, entre as diversas vozes que ecoavam, era possível notar as mãos que gesticulavam libras e colegas que, mesmo não sabendo essa linguagem, achavam formas de dialogar e brincar. Reuniam-se para jogar uno, baralho, dançar, cantar, tocar violão, brincar de bola, ora com bolas de verdade, ora com “bolas” improvisadas. Também havia provocações, fofocas, xingamentos, empurrões e escutava-se falar de brigas que às vezes eram mostradas através de vídeos que circulavam nas redes sociais.
O fone de ouvido era um acessório unânime, sempre plugado aos celulares, que, além de ser o meio para ouvir as músicas, eram usados para troca de mensagens, ligações, fotos e vídeos. O uso de celulares era tão frequente, que parecia não ser algo proibido na escola. Foi utilizado inclusive no momento de apresentação de trabalhos orais, durante a atividade em sala de aula que participei.
A música era algo forte no cotidiano. O som do violão era muito presente tanto no pátio quanto em salas de aula, o instrumento tocado por moças, por rapazes e por professores durante a aula. Ainda que raro, também ouvia o som de pandeiro e violino, o que atraia mais adolescentes às rodas. As músicas eram dos mais variados estilos, funk, sertanejo, rock, música popular brasileira e gospel. Nos dias em que o assunto era a tristeza, o pesar por um relacionamento findado ou uma paquera não correspondida, moças e rapazes compartilhavam comigo as músicas de quando se está na “merda”, declamavam trechos, cantavam ou tocavam nos celulares para que eu escutasse.
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14 O “ficar” pode ser compreendido como um encontro ocasional, é um relacionamento despertado por uma atração ou interesse que resulta a troca de carícias, beijos podendo ter ou não relações sexuais (JUSTO, 2006).
15 “Crush” é um termo usado pelos adolescentes para definir a pessoa por quem está interessado, paquerando.
Alunas e alunos transitavam pelos diferentes espaços, alguns ficavam sozinhos, outros em duplas, outros em pequenos ou grandes grupos. Sentavam-se e deitavam-se um no colo do outro, geralmente as meninas entre elas, alguns meninos usufruíam do colo das garotas, o que não ocorria entre os próprios garotos. Os toques corporais entre os meninos eram mais frequentes nas brincadeiras ou nos jogos esportivos.
A ausência de uma figura de autoridade que supervisionasse o pátio o tornava um ambiente mais permissivo e, devido a sua grande extensão territorial, era fácil se esconder dos olhos dos adultos. O namoro era frequente na escola, havia casais heterossexuais e, em menor frequência, homossexuais, os quais eram principalmente casais de meninas, já os casais de meninos não circulavam pelo pátio. As manifestações públicas de afeto eram diferentes conforme a orientação sexual, as meninas andavam de mãos dadas e raramente se abraçavam. Entretanto, casais heterossexuais se abraçavam, beijavam, sentavam no colo e as mãos passavam pelo corpo um do outro.
Inicialmente apostei que os banheiros e as paredes, através dos escritos em torno da sexualidade - como declarações amorosas, xingamentos, rivalidades e conflitos - fossem dar pistas de um “modo de funcionar” das relações afetivo- sexuais, por via de um provável controle exercido pelos próprios adolescentes.
Assim, eu poderia ter indícios de como possíveis violências e humilhações se revelavam no contexto do campo etnográfico, mas, para minha surpresa, havia poucos escritos e a Direção pintava a escola de tempos em tempos no intuito dessa ação desestimular as pichações.
O refeitório também podia ser um local em que eles teriam oportunidades de paquera e aproximações, mas eles não se detinham no local por muito tempo, comiam rapidamente e saiam. A merenda era distribuída em horários diferentes, conforme o ano de escolaridade, assim, enquanto um grupo formava fila para a entrada no refeitório, alunas e alunos que não participariam daquele momento da refeição transitavam pelo local, às vezes para falar com colegas, outras vezes para paquerar.
A quadra esportiva se apresentou como um local que favorecia as paqueras, pois, além de ficar distante dos olhos das funcionárias, permitia que adolescentes exibissem seus corpos de outras formas. Garotas e garotos paravam do lado externo e observavam aqueles que estavam jogando, faziam gestos, apontavam,
comentavam e riam. Do lado de dentro da quadra, alunas e alunos que não estavam participando da atividade, iam até as grades para conversar ou saiam da quadra para cumprimentar, muitas vezes com abraços de modo sedutor.
Existia uma diferença comportamental clara entres os turnos, os adolescentes que estudavam à tarde eram tidos como mais problemáticos, comportamento que era associado à imaturidade decorrente da pouca idade. As funcionárias recorrentemente se queixavam deles, como demonstra a fala a seguir: “eles são tudo mais estranhos, mais bagunceiros e mais brigões”. Esta visão também era generalizada entre os alunos mais velhos, fato que interferia nas interações sociais entre alunos do ensino médio e fundamental.
Em uma conversa sobre o convívio com alunos de ensino médio, Cora (14 anos, branca, 8º ano) relatou que alunas e alunos do ensino fundamental eram tidos como crianças o que os tornavam alvo de deboches e provocações, circunstância que a deixava irritada: “eles são muito chatos, se acham os adultos, superiores e que a gente é criança”. Serem interpretadas como crianças, além de soar como uma inferiorização, era compreendido como um aspecto negativo para a paquera com os meninos do ensino médio.
Parecia existir uma espécie de hierarquia entre o curso Ventania e os demais segmentos de ensino. O curso Tempestade era novo na escola e, também por ser profissionalizante, começou a ser inserido em eventos que antes, tradicionalmente, contavam apenas com a participação do curso Ventania, como a quadrilha na festa junina, o desfile de 7 de setembro e a Feira das Nações. O que atribuía às alunas do curso Ventania um lugar de destaque e constantemente havia reclamações de que elas eram muito “metidas” e se achavam “poderosas” na escola, queixas realizadas principalmente por meninas. Além disso, elas eram frequentemente procuradas pelos meninos, o que ocasionava ciúme nas moças e brigas entre casais em que os namorados eram vistos conversando com essas alunas.
Quanto às professoras e professores, eventualmente usavam o pátio para desenvolver atividades de aula, como por exemplo, exercícios lúdicos. No intervalo de uma aula e outra, esses profissionais cruzavam o pátio para troca de sala ou retornar à sala dos professores. Nesse trânsito, poucos estabeleciam contatos com os estudantes e alguns sempre eram abordados por alunas e alunos.
A respeito da minha inserção naquele espaço de sociabilidade, após me tornar familiar, os diálogos se ampliavam cada vez mais: moças e rapazes gostavam
de contar sobre os acontecimentos da semana; conversar sobre livros, filmes, séries, projetos e sobre os “crushes”, etc. Curiosamente quando entrávamos no assunto de relacionamentos afetivos, as histórias que surgiam era em torno das desilusões:
“essa aqui tem muita coisa pra te contar, só decepção, aquela ali é ‘sete’ tá nem aí, essa é ‘catorze16’”; “Vixi, tá vendo aqui, tudo chifruda, tudo já levou chifre. Essa aqui terminou porque o namorado traiu, mas já voltou, mó otária”.
As observações do espaço, aliadas aos diálogos e histórias ouvidas, auxiliaram na compreensão acerca das interações afetivo-sexuais dos adolescentes;
a relação entre estudantes e funcionárias, professoras e professores e o modo como a escola lidava e controlava a sexualidade.