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Entrevistas qualitativas com torcedores

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 68-74)

1.4 Metodologia

1.4.1 Entrevistas qualitativas com torcedores

Em minha pesquisa, abordo a relação entre masculinidade e emoção no contexto do futebol, através dos discursos emotivos presentes nas memórias de torcedores. Para apreender esses discursos, optei pela realização de entrevistas qualitativas, semi-estruturadas e em profundidade, com torcedores dos principais clubes do Rio de Janeiro: Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco. Diante da amplitude que o futebol alcança como fenômeno cultural no Brasil, esse recorte se mostrou significativo, delimitando o universo da pesquisa ao cenário do futebol carioca.

A escolha desses clubes levou em consideração sua condição como times

“grandes” ou “tradicionais”, o que indica sua participação na elite do futebol brasileiro e sua relevância para a formação de identidades de grupo que tendem a se reproduzir entre diferentes gerações de torcedores. Esses clubes possuem algumas das maiores torcidas do país, além de um grande número de títulos, foram protagonistas em momentos importantes da história do esporte no Brasil e apresentam grande peso político, econômico e simbólico no contexto do futebol nacional e, até mesmo, internacional. Pelo fato de serem “grandes”, o “engajamento emocional” de seus torcedores tende a ser mais intenso, dada a sua participação em jogos e competições de destaque e sua inserção em cadeias de rivalidade ativas com outras equipes. Essas rivalidades mobilizam as emoções de seus torcedores cotidianamente, produzindo alegrias, tristezas, frustrações, etc.

A caracterização desses clubes como “tradicionais” aponta ainda para o cultivo de memórias comuns entre diferentes gerações de torcedores. Ao se apresentarem como tradicionais, esses clubes reivindicam uma condição de prestígio e grandeza assentada num passado de glórias. Como afirma Damo (2002), o compartilhamento de memórias, que reconstituem esse passado de modo sempre parcial e idealizado, é um dos instrumentos fundamentais para a constituição da

“identidade clubística”. Os torcedores partilham lembranças dos grandes títulos, dos gols mais marcantes, dos grandes ídolos, das derrotas mais dolorosas e, assim, constroem um patrimônio coletivo de memórias.

O aprendizado dessas memórias – ou seja, do passado do clube – desde a infância consiste numa etapa fundamental do processo de socialização de novos torcedores. Conhecer a história do “clube do coração” tem um caráter quase obrigatório para a formação do torcedor e para o seu reconhecimento na avaliação daqueles que participam desse meio. Essas memórias coletivas aos poucos se transformam também num elemento da relação afetiva mantida por cada torcedor com seu “clube do coração”. Além disso, cada torcedor passa a vivenciar novos

“momentos marcantes” ao longo de sua trajetória, os quais podem ser incorporados à memória coletiva, mas sempre recebem a marca das impressões pessoais em seu registro subjetivo.

Portanto, essas memórias futebolísticas têm um caráter coletivo, mas apresentam também uma dimensão individual e subjetiva. Na relação com seu

“clube do coração”, os homens vivenciam experiências emotivas marcantes, que ficam registradas sob a forma de memórias cuja importância pode mesmo transcender o contexto do futebol, remontando a importantes laços familiares e de amizade, por exemplo. Assim como a história de um clube pode ser construída através de uma narrativa parcial e coerente, os torcedores também costumam elaborar suas trajetórias pessoais a partir das memórias relativas aos momentos mais marcantes vivenciados por eles na relação com o clube pelo qual torcem. São essas memórias, as quais podemos considerar eminentemente emotivas, que buscamos como uma via de acesso para a investigação das experiências emocionais vivenciadas pelos homens no contexto do futebol.

Para captar essas memórias, optei pela realização de entrevistas qualitativas, semi-estruturadas e em profundidade, como foi dito acima. Esse método é

caracterizado pela utilização de um roteiro flexível de perguntas, que contém apenas as questões fundamentais da pesquisa, como uma forma de orientar a interação do entrevistador com o entrevistado. A ordem das perguntas e sua formulação podem sofrer alterações, assim como também podem surgir novas perguntas ao longo das entrevistas. Uma das grandes vantagens da utilização dessa técnica é a possibilidade de desenvolver a pesquisa sob a forma de uma conversa informal com o entrevistado, o que se mostrou muito relevante numa pesquisa com torcedores de futebol, num contexto fortemente marcado pela jocosidade.

Em minha pesquisa, procurei fazer com que os entrevistados discorressem em detalhes sobre as memórias mais marcantes vividas por eles no âmbito do futebol, elaborando suas trajetórias como torcedores. Não se pode negar o caráter contextual dessas memórias, na medida em que elas foram elaboradas no contexto reflexivo das entrevistas. De certo modo, toda entrevista se baseia num exercício de memória, pois o entrevistado é convidado a reconstituir e narrar eventos ocorridos num momento anterior ao da pesquisa, organizando os acontecimentos de modo significativo, através de uma narrativa que lhes confere um encadeamento coerente.

No entanto, isso não torna mais “artificiais” as memórias colhidas por meio de entrevistas, na medida em que o caráter contextual está sempre presente em todo processo de reconstituição de lembranças.

Para os propósitos dessa pesquisa, foi realizado um total de 10 entrevistas, respeitando-se o princípio metodológico da saturação. As entrevistas foram realizadas entre os meses de junho e novembro de 2013. As identidades dos entrevistados foram protegidas, com a utilização de nomes fictícios.

Quanto à distribuição dos pesquisados pelo clube de sua preferência, foram entrevistados 3 torcedores do Flamengo, 3 torcedores do Fluminense, 2 torcedores do Botafogo e 2 torcedores do Vasco. Não houve qualquer preocupação em se alcançar uma distribuição de entrevistados por clube que fosse proporcional ao tamanho real de suas torcidas – daí o maior número de tricolores do que o de vascaínos entre os entrevistados, por exemplo.

Os entrevistados foram selecionados a partir de indicações de terceiros, que incluíram inicialmente pessoas pertencentes à minha rede de contatos e, em seguida, indicações feitas pelos próprios entrevistados. O perfil desses entrevistados foi composto por homens a partir dos 18 anos de idade, que gostassem de futebol e

torcessem por algum dos quatro clubes “grandes” do Rio de Janeiro – ou seja, que se mostrassem interessados pelo esporte em seu cotidiano e considerassem o envolvimento afetivo com seus clubes como algo relevante.

Nesse processo de seleção, não foram levados em consideração aspectos como raça ou classe. A participação ou não em torcidas organizadas também não foi considerada como um fator fundamental para a inclusão ou exclusão dos torcedores no universo da pesquisa. Entre meus entrevistados, apenas uma pessoa declarou ter sido integrante de uma torcida organizada durante o período da adolescência, minimizando a importância dessa experiência no relato de suas memórias.

Quanto ao perfil sócio-econômico dos entrevistados, podemos considerá-los majoritariamente como indivíduos de classe média, localizados entre as classes C e B, de acordo com os critérios de classificação do IBGE (renda familiar de R$ 9.700, no máximo). Dentre eles, encontramos diferentes ocupações: estudante, professor universitário, funcionário público, auxiliar administrativo, etc. A maioria possui formação escolar até o nível superior. Os torcedores selecionados para as entrevistas residiam ainda em diferentes bairros e regiões da cidade: Bangu, Barra da Tijuca, Méier, Engenho Novo, Vila Isabel, São Cristóvão, Jardim Botânico e Copacabana.

Quanto às características etárias do grupo pesquisado, podemos destacar que metade dos entrevistados encontra-se numa faixa de idade entre 24 e 28 anos, e a outra metade encontra-se numa faixa compreendida entre 49 e 63 anos. Esse fator se mostrou relevante para a seleção dos entrevistados, tendo-se buscado certo equilíbrio entre esses dois grupos etários. A busca dessa proporcionalidade teve como objetivo abarcar diferentes gerações de torcedores, compreendendo experiências vivenciadas em diferentes momentos do futebol brasileiro e da história de cada clube, além de tornar possível o contato com diferentes experiências de socialização entre os torcedores mais jovens e os mais velhos.

A pesquisa sobre emoções masculinas no contexto do futebol colocou-me em contato com um objeto familiar. Afinal, além de pertencer ao sexo/gênero masculino, gosto de futebol e costumo acompanhar o esporte em meu cotidiano. Mais que isso, torço por um clube específico, o Flamengo, e mantenho com ele uma importante ligação afetiva e de identidade. Minha experiência pessoal como torcedor deve ser tomada, portanto, como um dos motivos que me levaram à constituição do tema

dessa pesquisa, que consistiu num exercício de observação do familiar, nos termos de Gilberto Velho (2008).

As emoções proporcionadas pelo futebol apresentam-se, de fato, como o motivo principal de meu interesse pelo esporte, como ocorre a qualquer torcedor. No entanto, ao mesmo tempo, mantenho com o futebol uma atitude que pode ser qualificada como reflexiva e ambivalente. Em outras palavras, sempre me causaram certo estranhamento e curiosidade – como se faz necessário à construção do conhecimento antropológico – algumas contradições inerentes a esse esporte, como a relação tantas vezes discutida entre futebol e identidade nacional, a relação entre futebol e raça, ou ainda, a relação entre futebol e masculinidade, abordada nessa pesquisa.

A investigação de uma questão familiar pode trazer algumas dificuldades e desvantagens para a construção do conhecimento científico, pois o pesquisador enfrenta o risco da hiper-imersão, ou seja, a possibilidade de que o envolvimento pessoal com seu objeto de pesquisa venha a comprometer a objetividade necessária para o desenvolvimento de seu estudo. Esse risco parece ainda mais acentuado no contexto do futebol, onde todas as ações seriam presumivelmente marcadas pela parcialidade e emotividade.

Por outro lado, essa familiaridade também pode se constituir numa vantagem, contribuindo mesmo para o desenvolvimento da pesquisa. Conhecendo o objeto, o pesquisador pode estabelecer premissas e identificar questões relevantes para seu estudo, podendo ainda elaborar com mais facilidade as perguntas que serão realizadas aos seus entrevistados. Na presente pesquisa, minha experiência pessoal como torcedor serviu como base para a elaboração das questões iniciais do roteiro de perguntas utilizado nas entrevistas. Além disso, pude comparar as trajetórias de meus entrevistados com a minha trajetória pessoal, como uma forma de identificar recorrências ou novas questões que surgiam em seus relatos.

Na interação com os entrevistados, estabeleceu-se o rapport necessário ao bom desenvolvimento da pesquisa. Em todos os casos, os entrevistados me identificaram, ao mesmo tempo, como pesquisador e como torcedor, dirigindo-se a mim de modo informal e jocoso em diversos momentos. No início das entrevistas, eles procuravam saber por qual time eu torcia, como se quisessem saber se me tinham como um aliado ou como um adversário, o que certamente influenciava que

tipos de memórias eram relatados por eles, bem como o modo (provocativo ou

“diplomático”) de contá-las. De minha parte, eu procurava deixá-los “à vontade” para falar mal do Flamengo, quando os entrevistados torciam por outros clubes, e procurava não interferir excessivamente em seus relatos, contando minhas próprias experiências, quando os entrevistados eram flamenguistas.

Além disso, procurei fazer com que os entrevistados me fornecessem o maior nível de detalhes em suas memórias, sempre que possível, pois ao me reconhecerem como um torcedor, eles deixavam de desenvolver alguns de seus relatos, por terem a expectativa de que eu soubesse exatamente o evento (gol, título, etc.) ao qual eles estavam se referindo. De fato, devido ao seu caráter coletivo, muitas vezes esses eventos também faziam parte das minhas memórias, mas a mim interessava que eles narrassem suas impressões pessoais sobre esses acontecimentos.

Abaixo, seguem as perguntas que compuseram o roteiro utilizado nas entrevistas. Essas perguntas abarcaram o processo de escolha do “clube do coração”, as lembranças da primeira ida ao estádio de futebol, as experiências marcantes de títulos e gols “inesquecíveis”, o comportamento dos torcedores durante os jogos, bem como discursos sobre a importância e o tipo de relação mantida com o clube.

Roteiro de perguntas:

1.Qual o seu time? Por quê? Desde quando?

2.Você recebeu a influência de alguém para torcer por esse time?

3.Você se lembra da primeira vez em que foi a um estádio de futebol? Conte como foi?

4.Você costuma acompanhar os jogos do seu time? Costuma ir aos estádios?

5.Como você costuma se comportar durante os jogos? Percebe alguma alteração em seu comportamento?

6.Você se considera um torcedor fanático?

7.O que você sente pelo seu time?

8.Você já chorou alguma vez pelo seu time, ou por algo ligado ao futebol?

9.Qual a sua memória mais marcante como torcedor?

Você tem uma boa memória para futebol? E para outras coisas?

Na seqüência, faço um breve resumo bibliográfico sobre a relação entre memória e identidade, baseando-me nas obras de Maurice Halbwachs e Michael Pollak, tendo em vista a importância dessa questão para a discussão central desenvolvida nessa pesquisa.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 68-74)