Neste capítulo, examino as memórias futebolísticas consideradas mais marcantes pelos entrevistados ao longo da pesquisa. Pelo que podemos depreender de seus depoimentos, essas lembranças estão ligadas aos grandes jogos, títulos, vitórias e derrotas vivenciados por eles em suas trajetórias como torcedores. Analiso como essas memórias se organizam, qual a sua importância para a constituição da figura do torcedor apaixonado, e como elas auxiliam a organização da experiência dos torcedores para além do contexto do futebol.
Segundo Arlei Damo (2002), o compartilhamento de memórias é um dos elementos que possibilitam a formação da “identidade clubística” e a constituição dos times de futebol como “comunidades imaginadas de sentimentos”. Os torcedores de um clube compartilham padrões de comportamento, sentimentos e visões de mundo, que a seu ver os singularizam como um grupo específico, diferenciando-os dos torcedores de outros clubes. Cada grupo, ou melhor, cada clube e torcida, tem seu próprio patrimônio coletivo de lembranças, que consiste numa visão comum sobre o passado, e diz respeito não apenas a eventos específicos, mas principalmente ao modo particular como esses eventos são interpretados e vivenciados.
Como afirma Halbwachs (2011), a memória é uma construção coletiva. Trata- se de uma reconstituição do passado, que se realiza de modo seletivo e fragmentário. Assim, em meio aos diversos eventos que poderiam compor a totalidade virtual da história de um clube, a memória coletiva se forma a partir daqueles que parecem mais significativos e favoráveis para a composição de sua identidade. Nesse sentido, a narrativa da memória-identidade futebolística, reproduzida nas falas dos torcedores, prioriza os grandes títulos e vitórias conquistados por um clube. Isso pode ser observado no depoimento de Bernardo, 49 anos, que torce pelo Botafogo:
Tem aquela final do Botafogo e Flamengo, o Botafogo foi campão em 89, que é 21 anos sem conquistar um título, né? O jogo mais marcante... E aquela final, que foi aqui contra o Santos, do Brasileiro, que a final foi em São Paulo, né? Nós ganhamos de 2 a 1. Foram os dois melhores jogos, realmente [...]. Teve mais, outros jogos também bons, importantes, mas...
do Peñarol, né? [...] Teve outras decisões, tal, mas esses três foram os mais importantes. [...] Lembro do jogo, da emoção, a jogada do gol... o outro em que o Paulinho Criciúma botou uma bola na trave, quase que, não entrou, quase que seria 2 a 0, é... o do Peñarol, aquela de estar perdendo, virar o jogo, é, e... e depois, não, teve o empate, depois foi pros pênaltis, né, uma emoção maior ainda. E o do campeonato brasileiro, a gente começou perdendo, aquela virada, o gol do Túlio...
Bernardo destaca três títulos conquistados pelo Botafogo na lista de suas memórias mais marcantes enquanto torcedor. Em seu depoimento, ele procura descrever alguns detalhes dos jogos referentes a essas conquistas para sugerir a importância pessoal dessas lembranças. De modo semelhante, Wagner, 54 anos, aponta como sua memória mais marcante o primeiro título brasileiro conquistado pelo Vasco, em 1974, num jogo que ele pode presenciar pessoalmente no estádio do Maracanã:
Cara, quando o Vasco foi campeão brasileiro pela primeira vez em 74... pô, o Maracanã hoje, se botar 60 mil, dizem que tá lotado, pô. Em 74, Vasco e Cruzeiro, 2 a 1 Vasco, último gol do Jorginho Carvoeiro, pô, tinha 150 mil pessoas no Maracanã, cara. É a mesma coisa, 150 mil pessoas... Hoje em dia não dá, não, tem que ser 50 mil, 40 mil, 10 mil... eu acho um absurdo você limitar. Vasco e Flamengo era torcida pra 120 mil, 130 mil pessoas, não tinha menos do que isso, não. Fora os penetras que pulavam o muro, pulavam aquilo... entendeu? Então, é a coisa, que... Vasco e...
Vasco e Cruzeiro, primeiro título do Vasco, realmente mexeu muito. Eu tava na geral. [...] lembro o gol do Jorginho Carvoeiro, aquele último lá... pô, o Cruzeiro quase empatou, porque o Andrada tava machucado.
Eu lembro, lembro bastante coisa desse jogo, entendeu? O Luiz Carlos jogando, o Zanata jogava, entendeu? É, chamavam ele até de carregador de piano, era um meio de campo.
Ao recuperar essa lembrança, o entrevistado procura matizá-la com detalhes que a compõem a partir de suas impressões pessoais. Ele destaca, por exemplo, o fato de ter assistido a esse jogo na antiga geral do Maracanã, menciona o grande público presente no estádio e relembra o nome do autor do gol do título. Por sua vez, o rubro-negro Ademir, 55 anos, destaca alguns títulos conquistados pelo Flamengo, principalmente no período em que Zico era o principal jogador da equipe:
Na fase Zico, Adílio, Andrade, Junior, pô nós tivemos vários jogos marcantes. Até mesmo porque nós íamos pro Maracanã com a certeza que o Flamengo ganhava, né? Isso aí era... enfim, certo, entendeu? Então, a gente sempre ia, “não, Flamengo campeão hoje”. Então, teve um Fla x Flu que o Leandro fez um golaço do meio de campo, entendeu? Uma coisa, assim, excepcional. Aquele jogo foi muito bom, tem a falta do Pet contra o Vasco, que o Flamengo também foi campeão carioca. Aquilo é inesquecível, entendeu? Não só pros flamenguistas, como pros vascaínos
também, porque jamais eles vão esquecer. Esses jogos, assim, são bem marcantes. E, na Era Zico, tiveram vários. [...] Eu lembro também do primeiro título que o Flamengo ganhou, em 80, do Atlético-MG. Maracanã lotado, aquela casa cheia, o Atlético tendo a vantagem do empate, o Nunes me faz aquele gol no finalzinho lá do segundo tempo, pô, pra fazer tudo que é flamenguista passar mal no Maracanã. Aquilo é... coisa, assim, também inesquecível. Um outro título que o Flamengo ganhou do Santos também, que o Santos tinha toda a vantagem, e quando veio jogar aqui, quando chega aqui, Zico acabou com o jogo, Nunes sempre fazendo gol também. É emoção que a gente vive, entendeu? Vive e não esquece.
O entrevistado classifica esses jogos como “inesquecíveis”. Em outra passagem, ele procura demonstrar que se lembra de cor da escalação da equipe do Flamengo que marcou sua experiência como torcedor na década de 1980: “Ahhh, lembro! Era Leandro, Mozer, Manguito, Júnior, Andrade, Adílio, Zico, Tita, Nunes e Lico... e Raul no gol”. As memórias marcantes relatadas pelos entrevistados correspondem, antes de tudo, às lembranças dos momentos mais emocionantes vivenciados por eles enquanto torcedores. Ou seja, a emoção é o elemento que parece presidir a constituição dessas memórias futebolísticas, configurando um modo específico de formação de lembranças nesse contexto. Isso também pode ser encontrado no depoimento de Fernando, 28 anos:
Cara, eu num sei, mas... eu achava que era uma coisa minha, só, mas depois que eu comecei a perguntar pros outros isso, você acaba não entendendo por que disso, que é até um pouco contraditório. Mas quando você pensa, assim, pô, você fala, assim, “pô, qual o gol que você comemorou mais, o do Angelim ou o do Pet?” Porra, todo mundo comemorou o do Pet. Pô, o do Angelim foi muito mais importante, né? O Flamengo foi campeão brasileiro. Porra, do Pet foi campeonato carioca, beleza. Mas, brother, ninguém sabe por que, quando fala assim, “ah, gol importante do Flamengo”. Teve até pesquisa na globo.com, recentemente.
Porra, gol do Pet ganhou com varadas de distância. Agora, pô, por quê?
Não sei. Não, não sei dizer por que. Mas, assim, eu também, eu tenho a lembrança mais, mais, viva, assim, em mim... olha que foram 8 anos de diferença, né? O gol do Pet e pro gol do, do Angelim. Mas eu tenho uma lembrança mais viva. E se eu pudesse classificar, porra, qual gol você ficou mais feliz, quando comemorou, gol do Pet ou do Angelim?
Porra, do Pet. [...] Do Angelim também, pra cacete, mas... eu acho que o do Pet foi mais emblemático, assim. Por quê? Num sei...
O entrevistado menciona o gol marcado por Petkovic na final do campeonato carioca de 2001 como sua memória mais marcante. Ele compara a emoção sentida nessa ocasião com aquela proporcionada pelo gol de Ronaldo Angelim, que resultou na conquista do campeonato brasileiro de 2009. Apesar de esta última conquista ser teoricamente mais importante, por tratar-se de uma competição nacional, a
felicidade sentida com o gol de Petkovic teria sido maior, o que torna essa lembrança mais vívida e mais especial na hierarquia de memórias do entrevistado. É importante notarmos que Fernando procura cotejar sua experiência com a de outros torcedores, o que revela a dimensão social e interativa do processo de constituição de memórias. No trecho abaixo, ele nos oferece alguns detalhes de sua experiência em cada uma dessas ocasiões, com o objetivo de ilustrar a importância desses títulos para a formação de suas memórias futebolísticas:
Pô, gol do Pet, cara. Sei lá, você vê o gol, você, eu lembro onde eu tava:
em casa, sentado no sofá, eu e meu pai, a gente não acreditou que tinha sido gol, a gente ficou em silêncio uns cinco segundos, assim... depois a gente foi gritar na varanda. O gol do Angelim, contra o Grêmio, é... eu vejo o gol, eu lembro que eu falava, porra, eu tava no Maracanã, eu tava justamente do lado da baliza, assim, eu tava nas cadeiras, do lado, aqui...
do gol. Vi esse gol, porra, de pertinho... fui parar umas três cadeiras na frente, abraçando gente, porra, que eu nunca vi na vida.
O entrevistado afirma que se lembra exatamente de onde estava em cada uma dessas ocasiões e descreve em detalhes sua reação após os gols. Ele diz, em outra passagem, que costuma pesquisar na internet e assistir aos vídeos referentes a esses e a outros momentos marcantes de sua trajetória como torcedor:
Ah, eu vejo sempre, eu vejo, eu gosto. Eu num sei por que, às vezes dá saudade, assim, de você ver... um vídeo que você nunca viu, um outro ângulo, ou você buscar as matérias desse dia, assim, quando o Flamengo foi campeão, tal. Eu gosto, faço, faço isso sim. [...] Sempre que eu posso, eu dou umas, umas... xeretadas na internet, assim, né, pra ver, porque, às vezes, você acaba esquecendo alguns detalhes, né? Então... Às vezes, eu gosto de ver com outras narrações, né? Tipo o gol do Pet, pô, tem, tem no youtube, tem lá a narração do Luiz Penido, do José Carlos Araújo, do... Luís Roberto, tem de um cara árabe, tem, pô, tem várias, assim, aí você vai vendo. Eu gosto de ficar perdendo meu tempo às vezes.
Fernando declara que sente saudades desses momentos, recorrendo aos vídeos disponíveis na internet, como uma forma de revivê-los. Segundo Eduardo Lourenço (1999), a saudade é um sentimento que diz respeito à relação humana com o tempo ou, mais precisamente, com o passado. Nesse sentido, ela costuma ser confundida com outras emoções definidas a partir da mesma relação, como a nostalgia e a melancolia. Para esse autor, no entanto, enquanto a nostalgia e a melancolia seriam acompanhadas pelo sofrimento causado pela impossibilidade de
recuperação do passado, a saudade seria acompanhada pelo prazer de poder revivê-lo simbolicamente através da memória.
Os vídeos assistidos por Fernando também o ajudam a completar seu quadro de memórias, pois adicionam novos detalhes e informações ao conjunto de lembranças sustentado por ele num dado momento. Isso ocorre porque a memória não é estática, assim como não o é o passado que se busca recuperar por meio dela. Na verdade, ao invés de recuperar objetivamente o registro de um acontecimento do passado, o que a memória faz é reconstituí-lo de modo sempre contextual e de acordo com as condições e exigências do presente. A utilização de vídeos da internet para a rememoração de momentos marcantes também pode ser encontrada na entrevista de Roberto, 26 anos:
Um, um que eu gosto muito de ver o vídeo é do brasileiro de 92. Eu era, eu era nascido, mas, bom... eu não lembro de nada. Tinha quatro anos, não lembro de nada. E aí foi, que é o gol do Júnior, o gol do Júnior de falta.
Cara, eu gosto muito de ver aquele, aquele gol. Eu gosto muito da comemoração, que ele sai correndo, assim, socando, socando o ar, assim, como se fosse um garoto. O cara tinha, sei lá, 40 anos, quase. Gosto muito daquele... e é em cima do Botafogo, né, cara? É sempre bom. É um título que eu gosto de ver, e... porra, eu gosto de ver o de 81. O de 81 é clássico.
O mundial de 81... mas é estranho, porque o vídeo é meio estranho, fazia muito sol no dia, você não consegue ver a bola direito, assim... e o Galvão Bueno narrando. É estranho, assim, cara, que você fica... Mas eu vi esse vídeo já várias vezes com o meu pai, aí o meu pai conta a história de que o Flamengo chegou em Tóquio, e aí o time do Liverpool fazia aquela coisa de
“Ah, Flamengo, quem é Flamengo?! Esse timeco sul-americano aí...”, num sei que lá. Com 30 minutos de jogo, tava 3 a 0 Flamengo, um show de bola, né? Então, é, porra... e é o título mundial do Flamengo, né, cara? Então, é bom de ver, é bom de ver. Principalmente juntar com as histórias que o meu pai conta, assim, é bom.
Roberto menciona dois títulos conquistados pelo Flamengo, num tempo em que ele ainda não era nem mesmo nascido. Os vídeos disponíveis na internet permitem, no entanto, que esses acontecimentos sejam incorporados às suas memórias pessoais como torcedor. O entrevistado ainda volta a mencionar a importância das histórias contadas por seu pai – elemento abordado no primeiro capítulo de análise – como um fator de mediação fundamental para a constituição de sua experiência. Na seqüência, Roberto destaca sua preferência por vídeos referentes a momentos realmente vivenciados por ele:
É engraçado, mas eu gosto de ver vídeos pra relembrar momentos que eu vivi. Eu não gosto, assim, eu não tenho o costume de ver vídeos, sei lá, vídeo do carioca de 78, gol do Rondinelli contra o Vasco de cabeça. Num tenho... assim, vejo, vejo, acho até maneiro, principalmente se eu tiver com alguém que tenha vivido do lado, aí eu acho maneiro. Mas eu gosto de ver os vídeos que eu estava, assim, os vídeos que eu vivi o momento, pra relembrar. Gosto de ver o vídeo do gol do Pet de 2001, sei lá, o vídeo da, do Flamengo campeão da Mercosul, sabe? Copa do Brasil... aí eu gosto de ver, gosto de ver muito esses vídeos. Passo horas e horas.
Aí, sei lá, às vezes eu passo horas e horas vendo um Flamengo e Paraná num campeonato brasileiro de 2008, sei lá, gol do Obina, que tirou o Flamengo do rebaixamento, sei lá... por que? Porque eu lembro, falo “pô, maneiro esse jogo”, aí vou ver pra relembrar e tudo, que é meio que, que eu volto ali àquele, àquele momento.
Assistir a esses vídeos na internet permite que o entrevistado retorne, de algum modo, a momentos especiais vivenciados por ele no passado. O mecanismo da memória consiste justamente na possibilidade de voltar simbolicamente no curso do tempo. Roberto afirma ainda que a importância desses vídeos reside no fato de eles mexerem com suas emoções:
Cara, muito, muito. Eu, eu até hoje, quando vejo o gol do Ronaldo Angelim de 2009, aquela... o gol com aquela narração do Luís Roberto, pô cara, dá uma... vem uma, vem uma, dá pra lacrimejar um pouquinho, assim, cara.
Dá pra, dá pra, dá pra ficar emocionado, assim. Ele falando que o Angelim quase perdeu a perna e tal, e agora faz o gol da, da, da... ele é meio, ele é meio exagerado, né? Pô, cara, mas me emociona muito, cara, me emociona muito. Eu, quando eu vejo, por exemplo, Copa Mercosul, em cima do Palmeiras, gol do Lê. Esse, que o Lê começa a chorar, coloca a mão no rosto, assim, e começa a chorar... também dá uma coisa, assim, do tipo “porra, esse é meu time!”, sabe? Assim, uma coisa tipo “ahhhh!”. Eu fico emocionado com essas paradas de futebol. E aí eu, eu quando vejo, fico... principalmente se é um jogo que eu, assim, que eu tava no Maracanã, alguma coisa assim, aí eu... ainda, ainda me emociona mais, assim. Quando eu vejo aquele gol de pênalti do Cássio contra o Fluminense... aquele que a bola bate e volta, né?
A relação entre memória e emoção também pode ser encontrada na entrevista de Leandro, 28 anos, que torce pelo Fluminense. O entrevistado destaca a importância dos vídeos encontrados na internet para a formação de suas memórias futebolísticas, principalmente em virtude do péssimo desempenho de seu time no início de sua trajetória como torcedor – como dissemos em outro capítulo, o Fluminense chegou a disputar a terceira divisão do campeonato brasileiro nesse período. Esses vídeos foram um dos mecanismos que possibilitaram a Leandro voltar ao passado do clube, num movimento representado por ele como uma
espécie de fuga em direção às glórias que sustentavam o status do Fluminense como um “time grande”:
Quando eu era criança, o time do Fluminense era muito ruim... é, eu precisava esca... é, escapar pro passado, né? Na verdade. Eu precisava procurar glória em algum lugar no passado, enfim, pra ver aquele time, um time grande. Porque, na prática, o Fluminense não era, não tava sendo um time grande. O Fluminense era um time pequeno mesmo. Caindo, três rebaixamentos, um atrás do outro, então eu pesqui... estudava muito, gosto de ler e tal. Pesquisava a história do Fluminense, os títulos, tal... eu sei te falar, aqui, todos os títulos do Fluminense, cariocas, de 64 pra cá, entendeu? Falar um por um, qual, contra quem, enfim... Porque, mais por causa dessa época mesmo.
Devido a essa fuga em direção ao passado, o entrevistado afirma que passou a conhecer melhor a história de seu “clube do coração”. Nesse sentido, ele menciona um vídeo em especial, chamado “Fluminense, 106 anos”, que consiste numa compilação de imagens relativas aos principais títulos conquistados pelo Fluminense, desde sua fundação até o ano de 2008. Ao comentar a importância desse vídeo, Leandro nos oferece uma memória detalhada sobre o gol do título marcado por Assis, contra o Flamengo, na final do campeonato carioca de 1983:
Pô, o gol do Assis, né, que ele faz no Flamengo em 83 é uma coisa foda, porque... se você se liga, é que nego, nego só vê o gol do Assis no final, mas, nego não se liga no seguinte, o Flamengo tava no ataque naquela jogada, o empate era do Flamengo, né? O Flamengo tava atacando, o Flamengo tinha um time melhor... me lembro que aquele era o auge do Flamengo. O Flamengo tava atacando, aí o jogador do Fluminense fez a falta no cara, o juiz não deu, aí ainda marcou o impedimento. Aí o cara passou pra um outro, o juiz marcou um impedimento que não tinha do Flamengo... tipo, meio que roubaram o Flamengo. Aí só que ele pega, ele bate rápido pro Deley, aí o Deley, na lateral direita, ele simplesmente, do nada, ninguém entende, ele faz um lançamento longo... de repente, o Assis aparece na cara do Raul. Aí ele vai, aí ele toca, assim, do lado do Raul...
ele nem toca tão bem, tão forte, ele toca meio devagar, e ela passa bem perto do braço do Raul, assim, e entra, devagar, assim... acho que ela para até antes do, do fundo da rede. Cara, é um gol tão bizarro, que a comemoração do Assis, ele não acredita. Tipo, ele, ele fica maluco, assim, ele bate na cabeça, ele balança. Tipo, ele olha pro céu, tipo, cara, ele não acredita no que ta acontecendo. Gol de barriga, a mesma coisa...
É impressionante o nível de detalhes dessa memória “de segunda mão”
oferecida pelo entrevistado. No fim desse trecho, ele menciona ainda o “gol de barriga” marcado por Renato Gaúcho, também contra o Flamengo, na final do campeonato carioca de 1995. Nas palavras do entrevistado, essa teria sido sua memória mais marcante enquanto torcedor, pois teria contribuído para consolidar a
escolha do Fluminense como “clube do coração”. Ele destaca ainda que essa lembrança não teria sido marcante apenas para ele, pois consistiria numa espécie de memória coletiva:
Pode ser uma viagem meio autocentrada, mas eu não acho, não... Eu acho que aquele Fla x Flu do gol de barriga foi um negócio que marcou meio que muita gente, até das outras torcidas. Que todo mundo que conversa, o cara lembra exatamente onde tava, como é que foi, enfim... aquele momento foi um negócio impressionante, porque, eu lembro que aquele jogo, tava um envolvimento absurdo em torno daquele clima de Fla x Flu, e centenário...
Pô, o Fla x Flu é um jogo que tem 100, é um clássico que tem 100 anos, e esse é considerado o maior da história. E os velhos, que viram muita coisa, nem discutem. Meu avô, que tinha 80 anos, falou “cara, realmente esse jogo foi um negócio...”. Então, foi uma experiência que me deu um, acho que um gás pra agüentar as dificuldades que vieram depois, entendeu? Mas, é isso, assim, de experiência mais marcante.
Mais uma vez, o valor da memória individual se constitui a partir da comparação com as lembranças trazidas por outros torcedores, com destaque para os mais velhos. A importância do título de 1995 também é destacada pelo tricolor Vítor, 28 anos:
O título de 95 foi o início de tudo. E... e pra mim, e pra, pra essa minha geração, ele foi quase como um, um, alguma coisa como “a gente vai te dar essa alegria, pra você segurar a onda nos próximos anos”, entendeu?
Porque, foi o que, foi parecido. Assim, foi relativamente cedo pra, pras minhas lembranças como torcedor. Eu torcia, sabe, desde três anos, desde 93 e... por ser no centenário do Flamengo, daquela maneira como foi também, assim, acho que aquele jogo é marcante.
[...] É engraçado que tem alguns títulos que você não viu, mas que parece que você viu. Porque, assim, o... o de 83 do Assis, eu nasci em 86, obviamente eu não vi. Mas o... isso pertence tanto ao meu mundo, que parece que é um título marcante na minha vida. [...] E, assim, como se eu tivesse visto aquilo, entendeu? Esse “recordar é viver”. Mas assim, eu não vi, eu não participei daquilo. [...] Eu tenho algumas histórias de 95, de algumas lembranças, assim, o muito do não ter vivido, mas com, com... que parece que, assim, são intimamente ligadas, que parecia que eu tava lá. Assim, até 83, enfim. Por gostar muito do Fluminense, muitos títulos eu, eu... eu conheço a história muito bem, entendeu? Assim, então... assim, parece que eu vivi aquilo. Assim, eu falo, sei lá, do... do, pô, do gol do Flávio no, no Fla x Flu de 69, né? [...]
Enfim, como se eu tivesse vivido aquilo. [...] Eu falo como se eu, eu tivesse vivido aquilo, e é engraçado isso de um título.
O entrevistado nos fala sobre a sensação de ter visto, participado e vivenciado títulos conquistados pelo Fluminense em épocas nas quais ele ainda nem