básica geral e humanística. Há também as diferenças entre saber especializado e popular, entre sonhos, viabilidade e dever social.
Mas chegamos a um ponto em que recuar signifi ca não participar e, por consequência, não transformar. E essa ideia não cabe no repertório brasileiro.
melhoria das condições de vida de que se tem registro histórico.
Foi a Idade de Ouro tanto do capitalismo como do socialismo e de sistemas mistos.
A era mercadocêntrica começou em torno de 1975, com os governos militares, e se confi rmou depois com os governos de Reagan, nos EUA, e de Thatcher, na Grã-Bretanha, propagan- do-se por todo o mundo nas asas da crise do ciclo estadista, da globalização fi nanceiro-informática, do predomínio do capital fi nanceiro sobre o produtivo, da revolução ideológica neolibe- ral e do colapso do mundo comunista. As políticas públicas da época são bem conhecidas: abertura da economia, redução do papel do Estado, confi ança ilimitada na empresa privada e no mercado, privatização de empresas e serviços públicos, libera- lização e desregulação dos mercados, especialmente fl exibiliza- ção do mercado de trabalho.
Em sua expressão internacional, a concepção mercadocên- trica se apoia e promove a globalização, tanto como fenômeno objetivo e real como em sua dimensão normativa de proposta ideológica. Essa fase coincide com a gigantesca expansão das corporações transnacionais e do sistema fi nanceiro privado in- ternacional. Claramente, não só de incrementos do PIB vivem as pessoas. Na América Latina e no mundo em geral, os resultados são muito preocupantes: crescimento econômico insufi ciente e altamente volátil, enorme concentração de divisas e de poder econômico, aguda e crescente desigualdade, perda dos bens, serviços e espaços públicos, com forte exclusão social, pobreza e grave deterioração ambiental. A democracia, aparentemente a principal conquista política, também se desvirtuou e está severa- mente ameaçada em muitos países.
Figura 8.1: O contraste entre luxo e lixo vivendo lado a lado é uma das marcas da era mercadocêntrica.
Fontes: www.sxc.hu/photo/871003 e www.sxc.hu/photo/709844
A via mais comum de exclusão social ainda é a do mer- cado. O desemprego e a fl exibilização das relações de trabalho permanecem como centro das atenções, e as nações ricas, ou o centro – termo usado pelas Ciências Sociais para designar o nú- cleo do poder mundial –, já não escondem o pavor de tornar-se um dia algo similar aos países em desenvolvimento.
Embora exista uma visão otimista diante da economia globalizada e competitiva, o que predomina atualmente é uma expectativa desfavorável, já que o que se globaliza não são as oportunidades, mas a distinção cada vez mais drástica entre os que participam dessa economia e os que estão à margem dela.
A grande questão é se, para reduzir esses efeitos tão impactan- tes, existe a chance de uma era sociocêntrica, situação em que a sociedade coloque o mercado a serviço da cidadania.
Figura 8.2: Pode-se prever que jovens desempregados, após longo perí- odo de insucesso no mercado, partam para a briga, desistindo de espe- rar por soluções normais. Uma coisa é lidar com a ignorância popular, mais facilmente domesticável, outra é lidar com gente mais bem prepa- rada, que já experimentou o sabor do bem-estar.
Fontes: www.sxc.hu/photo/909053, www.sxc.hu/photo/1198416, www.sxc.hu/pho- to/1269437, www.sxc.hu/photo/1287062, www.sxc.hu/photo/1314902, www.sxc.hu/
photo/1030721
Para compreendermos a dinâmica da gestão social, neces- sitaremos retomar alguns conceitos básicos que ditam a relação de Estado e sociedade e capital e trabalho. Os contornos da crise econômica mundial apontam para um regionalismo aberto para o mundo. Surge o perfi l de um capital que não é mais produzido a partir da massa de mais-valia gerada pela economia interna das nações, mas sim pela distribuição da mais-valia mundial em retração por meio de estruturas globais de perdas e ganhos, vin- culadas exclusivamente às velhas economias nacionais, que são os países poderosos.
O Estado perde terreno, porque a globalização encurta seu raio de ação, e ele detém menos recursos, por conta da redução de empregos e arrecadação de impostos sobre os salários. Co- meça a perder o controle sobre os processos sociais concernen- tes à população e ao território, tornando-se dependente de uma localização privilegiada. Por um lado, são desmontadas estru- turas de produção, fornecimento e serviços que haviam durado décadas, transformando várias regiões em verdadeiros desertos.
Por outro, a favelização, a disseminação da barbárie e o domínio de máfi as coloca em xeque as funções do Estado.
Não parece que estamos folheando o jornal das cidades brasileiras ou argentinas? Mas é bom lembrar que esse contexto é próprio das chamadas grandes nações, economicamente fortes.
Um traço novo na exclusão social é que não é mais típica e exclu- siva do Terceiro Mundo, mas visita o Primeiro Mundo com vigor sem precedentes.
Mas, ao contrário do que parece, o Estado não encolheu.
Na verdade, ele se expandiu, só que dentro da economia de mer- cado, que revela, ironicamente, uma relação de reciprocidade en- tre ambos, notada nos diversos fatores da sua atuação, como:
• máquina legislativa permanente;
• tratamento dos problemas sociais e ecológicos crescen- tes, causados pela economia de mercado, que trata a natureza apenas como mercadoria;
• gerenciamento da infraestrutura (rodovias, energia etc.);
• empresários produtores de mercadorias mais fortes na
“modernização tardia”;
• políticas de subsídio e protecionismo.
O Estado não possui meios primários de regulação, mas depende do mercado, isto é, do dinheiro. O dinheiro é o meio universal que abrange o polo estatal e o mercado, é o respon- sável pela sujeição dos homens à rentabilidade econômica.
Mas, mesmo este sistema híbrido de Estado e mercado já não serve, porque não é capaz de integrar socialmente as pessoas em todo o mundo. Especula-se sobre as potencialidades do Terceiro Setor como alternativa à incapacidade de inclusão do modelo Estado + mercado. Mas é prudente não declarar o Terceiro Setor como novo paradigma de reprodução social, porque ele também é assombrado pelo mercado. Domar o mercado no sentido estri- to de privilegiar a cidadania é impraticável.
Mais-valia
Nome dado por Karl Marx à diferença entre o valor produzido pelo trabalho e o salário pago ao trabalhador, que seria a base do lucro no sistema capitalista. Marx chama a atenção para o fato de que os capitalistas, uma vez pago o salário de mercado pelo uso da força de trabalho, podem lançar mão de duas estratégias para ampliar sua taxa de lucro: estender a duração da jornada de trabalho mantendo o salário constante – o que ele chama de mais-valia absoluta – explora- dora extrema da força de trabalho; ou ampliar a produtividade física do trabalho pela via da mecanização – o que ele chama de mais- -valia relativa – mais voltada para o uso intensivo do conhecimento do trabalhador no processo produtivo, liberando força de trabalho à medida que é substituída por esquemas informatizados.
Atividade
Atende ao Objetivo 1
1. Assinale E para orientação Estadocêntrica, M para mercado- cêntrica e S para sociocêntrica nos itens a seguir:
( ) Globalização fi nanceira.
( ) O sistema híbrido de Estado e mercado já não serve, porque não é capaz de integrar socialmente as pessoas.
( ) O Terceiro Setor é o atual paradigma de reprodução social.
( ) A fase de maior crescimento econômico e melhoria das con- dições de vida de que se tem registro histórico.
( ) O capital não é mais produzido pela mais-valia da economia interna das nações, e sim pela distribuição da mais-valia mundial em retração por meio de estruturas globais de perdas e ganhos.
Resposta Comentada (M) Característica da era fundamentalista do mercado.
(S) Ao notar esta ocorrência, emerge a demanda pelo que mais adiante conheceremos como gestão social.
(S) Há quem aposte no Terceiro Setor como a saída para os proble- mas sociais.
(E) Esta foi a fase de ouro do capitalismo, o pós-guerra, que reer- gueu as grandes nações.
(M) Característica do mercado globalizado: a força de trabalho dá lugar ao conhecimento do trabalhador.