A confecção do instrumento de pesquisa – questionário – teve por finalidade atender os objetivos do presente estudo quanto ao capital social da ONG pesquisada que foi analisar os indicadores de capital social sob a ótica dos públicos interno e externo.
O questionário proposto foi composto através da análise bibliográfica do tema e, principalmente, do material proposto por Grootaert et al (2004), para pesquisas desenvolvidas pelo Banco Mundial, fundamentado nas informações tiradas de quatro estudos desenvolvidos e pesquisados pelo autor, conforme cronologia a seguir:
• The Tanzânia Social Capital Survey – coleta de dados de membros de associações e confiança, e relacionando isto ao acesso a serviços e tecnologia para agricultura. (NARAYAN; PRITCHETT, 1999).
• The Local Level Institutions Study – foram coletados dados comparados do capital social estrutural na Bolívia, Burkina Faso e Indonésia. As análises foram focadas no papel do capital social em dar forma ao bem-estar do lar e pobreza, acesso ao crédito e ação coletiva. (GROOTAERT; VAN BASTELAER, 2001).
• The Social Capital Initiative – patrocinou 12 estudos sobre o papel do capital social em projetos setoriais e no processo de criação e destruição do capital social. (GROOTAERT; VAN BASTALAER, 2002a, 2002b).
• The Social Capital Survey em Ghana e Uganda – coletou dados de grupos e redes, bem-estar, engajamento político, sociabilidade, atividades comunitárias, violência e crime e comunicação. (IBÁÑEZ; LINDERT; WOOLCOCK, 2002).
O objetivo do questionário proposto por Grootaert et al (2004) foi prover um núcleo central de questões de pesquisa para todos os interessados em gerar dados quantitativos das várias dimensões do capital social como parte de uma ampla pesquisa. Cada questão incluída no documento foi desenhada a partir dos trabalhos de pesquisa descritos no parágrafo acima. Algumas questões foram adaptadas pela autora, para o estudo em organizações, uma vez que o questionário original foi desenhado para a pesquisa em comunidades.
Após esta etapa chegou-se ao questionário localizado no apêndice A, utilizado para coleta dos dados dos estratos determinados da organização do Terceiro Setor. O instrumento continha perguntas semi-abertas e fechadas, sendo estruturado com perguntas norteadoras da investigação.
De acordo com Grootaert et al (2004), os acadêmicos concordam que capital social não é uma entidade única, mas é melhor definido como sendo multidimensional. O questionário teve como base o conceito de capital social como freqüentemente definido em termos de grupos, redes, normas e confiança que as pessoas têm entre eles para propósitos produtivos. Por isso, o instrumento foi desenhado para capturar esta multidimensionalidade, explorando se e como as pessoas participam da ONG, através dos (a) grupos e redes, a natureza e a extensão de suas contribuições com outros membros da ONG. A pesquisa também explora (b) as percepções dos respondentes sobre confiança em outras pessoas e organização que fazem parte das suas vidas, como também as normas de cooperação e reciprocidade que permeiam o trabalho em grupo para a solução dos problemas. Essa diferença entre (a) e (b) refere-se, respectivamente, ao capital
social estrutural e cognitivo.
O questionário foi desenvolvido com base em seis seções, de acordo com Grootaert et al (2004), sendo divididas em: (1) grupos e redes; (2) confiança e solidariedade; (3) ação coletiva e cooperação; (4) informação e comunicação; (5) coesão social e inclusão e, (6) acréscimo de força e ação política, conforme quadro abaixo:
SEÇÃO VARIÁVEIS PERGUNTAS RELACIONADAS
A GRUPO E REDE DE RELACIONAMENTO Q1 – Q8 Grupo
Rede de Relacionamento
Q1 – Q4 Q5 – Q8
B CONFIANÇA E SOLIDARIEDADE Q09 – Q11
Confiança
Solidariedade
Q0901 – Q0902 – Q0904, Q1001 – Q1011
Q0903 e Q11
C AÇÃO COLETIVA E COOPERAÇÃO Q12 – Q15
Ação Coletiva Cooperação
Q12 e Q13 Q14 e Q15
D INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO Q16
E COESÃO SOCIAL E INCLUSÃO Q17 – Q18
Coesão Social Inclusão
Q17 Q18
F ACRÉSCIMO DE FORÇA E AÇÃO
POLÍTICA
Q19 – Q22 Acréscimo de Força
Ação Política
Q19 e Q20 Q21 e Q22
G INFORMAÇÕES PESSOAIS Q23 – Q26
Quadro 3: Seis indicadores do capital social Fonte: Elaborado pela autora, 2006
Cada indicador foi pesquisado através de questões que foram agrupadas por melhor definirem, de acordo com a literatura, as variáveis de pesquisa, expostas no quadro abaixo.
Seção A – Grupo e Rede de Relacionamentos
Quantas vezes nos últimos 12 meses qualquer membro da sua família participou de atividades na organização.
Ex.: encarregando-se de reuniões ou fazendo grupos de trabalho?
Como você se tornou parte desta organização?
Quantos dias de trabalho você doou a organização nos últimos 6 meses?
Qual é o principal benefício de se juntar a esse grupo?
Pense sobre os membros dessa organização, eles são em maioria do mesmo (a)... Responda 1 para Sim e 2 para Não
Essa organização interage ou trabalha com outros grupos com objetivos similares, na cidade/vizinhança?
Essa organização interage ou trabalha com outros grupos com objetivos similares, de fora da cidade/
vizinhança?
Essa organização interage ou trabalha com outros grupos com objetivos diferentes, na cidade/vizinhança?
Seção B – Confiança e Solidariedade A maioria dos colaboradores que estão na organização podem ser confiáveis.
Nesta organização, tem que ficar alerta com os outros pois é provável que querem tirar vantagem de você.
A maioria das pessoas desta organização estão dispostas a ajudar se você precisar.
Nesta organização, as pessoas geralmente não confiam uma nas outras para emprestar ou pedir dinheiro emprestado.
Pessoas da sua etnia (raça) ou que falam a mesma língua, pertençam a mesma classe social, mesma religião.
Pessoas de outras etnias (raças) ou que falam outras línguas, ou que fazem parte de outra classe social, mesma religião.
Lojistas.
Funcionários da prefeitura.
Funcionários do governo estadual/federal.
Polícia.
Professores.
Enfermeiras e Médicos.
Funcionários da organização.
Psicólogos.
Terapeutas pastorais.
As pessoas na sua organização ajudaram as outras pessoas no último mês?
Seção C – Ação Coletiva e Cooperação
Nos últimos 6 meses, você trabalhou com outros membros desta organização para algo que traria benefícios para todos, na organização?
Quais foram as últimas atividades que você fez nos últimos 06 meses? Sua participação foi voluntária ou convocada?
Qual a proporção de pessoas na organização que contribuem com tempo ou dinheiro em torno de um objetivo comum da organização. (Exemplo: encontro de famílias).
Suponha que aconteça algo não muito bom para alguém na organização, como uma doença séria, ou a morte de um parente. Qual a probabilidade de algumas pessoas do próprio cerne se unirem e ajudarem?
Seção D – Informação e Comunicação Por onde você recebe informações sobre os trabalhos desenvolvidos por esta ONG?
Seção E – Coesão Social e Inclusão
O quanto forte é o sentimento de ficar junto ou próximo às pessoas dentro da sua organização? Assinale com X uma única resposta.
Na sua opinião, esta organização geralmente é pacífica ou marcada por violência?
Seção F – Acréscimo de Força e Ação Política O quão feliz você se considera dentro da organização?
O quanto de controle você acha que tem para tomar decisões que afetam as suas atividades diárias dentro da organização? Você se sente...
Nos últimos 12 meses, quantas vezes as pessoas dessa organização se juntaram para fazer pedidos ao governo ou aos líderes políticos em benefício da organização?
Algum desses pedidos teve sucesso?
Seção G – Dados Pessoais Escolaridade
Estado Civil Faixa Etária Sexo
Quadro 4: Indicadores e seções do questionário
O questionário proposto reflete as percepções dos membros do grupo – estrutural – e as percepções subjetivas de confiança e normas – cognitivo – que compõem a dimensão do capital social e são abordadas nas seções dos grupos A e B. A forma como o capital social opera está contida nas seções C e D, e as seções E e F referem-se às áreas maiores de aplicação ou resultados. O Grupo G retrata os dados pessoais dos pesquisados.
3.2.1 Aplicação do questionário
A aplicação do questionário foi iniciada em novembro de 2005, através do pré-teste, em 10% da população de outra organização, pois de acordo com Barbetta (2001, p. 33) foi um procedimento necessário “para detectar possíveis falhas que tenham passado despercebidas na elaboração”. Além disso, o pré-teste possibilitou também detectar perguntas ambíguas, respostas não previstas, falta de variabilidade de respostas em alguma pergunta etc. Foi utilizado, também, para estimar o tempo de aplicação do questionário. O pré-teste serviu para possibilitar as modificações nas questões, quando se fez necessário, e ajustar as questões para cada categoria (BARBETTA, 2001).
Após a aplicação do pré-teste, as alterações foram efetuadas e foi marcada uma reunião com os responsáveis pela ONG. Nesta reunião foi apresentada uma cópia do questionário para que pudesse ser avaliado. Desta reunião, algumas informações foram alteradas para que internamente o questionário tivesse um perfeito entendimento. Após as alterações solicitadas, uma cópia do questionário foi enviada por e-mail para aprovação final. Cada grupo de respondentes teve um procedimento diferenciado de coleta dos dados. No caso dos beneficiados, foi aplicado internamente na própria ONG. Para os funcionários e voluntários foi enviado via e-mail e via correio. Os doadores receberam por e-mail, assim como os dirigentes.
Na etapa seguinte, foi agendado um dia para a aplicação com os beneficiados para que fosse aplicado com todos, na mesma data e local, uma vez que eles possuem atividades externas e de horários diferenciados. Essa aplicação ocorreu em janeiro de 2006, na sede da ONG, em Blumenau, durante uma manhã.
Os questionários dos funcionários foram enviados por e-mail, no início de fevereiro, por solicitação da direção, uma vez que eles poderiam preenchê-los em horários mais convenientes e sem a necessidade de parar a organização num período específico para aplicação. Na primeira aplicação, alguns funcionários não responderam os e-mails, segundo seus relatos por estarem de férias ou por esquecimento. Novamente entrou-se em contato com a direção que permitiu que
fossem enviados questionários via correio para que os funcionários que não participaram da primeira remessa pudessem responder também a pesquisa. Esse envio aconteceu na segunda quinzena de março e os questionários preenchidos foram coletados na própria ONG, pela pesquisadora, na primeira quinzena de abril.
A direção da ONG também disponibilizou a relação dos doadores e dos voluntários para que fosse desenvolvida a pesquisa com esses públicos. A listagem fornecida contemplava 50 doadores entre pessoas jurídicas e físicas e 02 voluntários.
Os questionários dos doadores foram enviados via e-mail e dos voluntários foram deixados na própria ONG, uma vez que os dois doadores possuíam horários diferenciados de voluntariado na organização.
O envio do instrumento para os doadores obedeceu algumas etapas. Na primeira etapa, ligou-se para toda a relação e o público foi informado sobre a pesquisa que seria desenvolvida e seus objetivos. Após o telefone, o instrumento foi enviado anexado em um e-mail que também continha uma carta que reforçava a importância da resposta para o desenvolvimento do estudo, conforme apêndice B.
Após o envio, foram aguardados 15 dias para o retorno do questionário, o que não aconteceu. Mais uma vez fora enviado o instrumento e a carta via e-mail e não houve nenhum retorno. Ligou-se mais uma vez para todos os doadores e foi enviado, pela terceira vez, o e-mail com o anexo e a carta. Na terceira tentativa houve 03 respostas, sendo 01 questionário preenchido e 02 respostas negativas, salientando que não iriam participar da pesquisa por falta de conhecimento da ONG.
Na quarta tentativa, 02 doadores enviaram o questionário preenchido. E, na última tentativa, de número cinco, mais 03 doadores responderam. O que finalizou 06 respondentes do grupo doadores após 05 tentativas durante 03 meses da aplicação do instrumento.
A relação dos dirigentes foi fornecida também pela ONG e os questionários foram enviados por e-mail, após ligação inicial da ONG e da pesquisadora, informando sobre a pesquisa que seria desenvolvida. Foram necessários 03 tentativas para se obter retorno.