O Direito Internacional Humanitário tem suas origens no século XIX, quando por volta de 1859 nasceu a Cruz Vermelha, durante a batalha de Solferino. Jean Henri Dunant, em uma de suas viagens a Itália se deparou com um cenário sangrento, após uma batalha entre França e Áustria, onde cerca de quarenta mil soldados jaziam no campo sem qualquer tipo de auxílio ou atendimento médico. Impactado, Dunant, com o apoio da população local, se dedicou por vários dias aos cuidados com os feridos. Ao retornar para Genebra escreveu o livro ―Lembranças de Solferino‖, no qual descrevia os horrores que presenciou, gerando grande repercussão na comunidade européia. Nasce então a ideia da criação de uma sociedade privada, que atuaria nos conflitos de forma neutra, a fim de amparar os feridos: a cruz vermelha ou crescente vermelho.(BORGES, 2006, p.20)
A partir de então diversos tratados internacionais foram firmados ao longo do tempo em busca de batalhas menos sangrentas, impondo limitações aos conflitos, até que em 26 de outubro de 1945 a Carta das Nações Unidas foi ratificada, nascendo ali a organização que buscaria um novo tipo de relação entre as nações fundadas na solidariedade.(UNDRR, 2009)
Embora a gestão de riscos e prevenção dos desastres integre o Direito Internacional Humanitário, as origens dessa temática, ou melhor dizendo, da conscientização acerca dessa realidade é bem mais recente.
Durante a década de sessenta, a Assembleia Geral da ONU adota as primeiras medidas relativas a desastres graves, lidando com eventos como terremoto de Buyin-Zara atingiu o Irã terremoto em Skoplje, Iugoslávia, um furacão na América central, editando as Resoluções nº 1753, 1882, 1888, 2034 e 2378.
Não existia ainda uma ideia sobre prevenção de desastres, apenas uma preocupação em fornecer ajuda humanitária para os vitimados por catástrofes, bem como para a reconstrução das áreas afetadas.
É nessa mesma visão que segue a década de setenta, em que a ONU busca ampliar a assistência para casos de desastres naturais. Através da Resolução 2717 a AG dá os primeiros passos em direção a uma política de gestão de riscos e elabora recomendações para o planejamento pré-desastre, em nível nacional e internacional, bem como a definição de mecanismos para lidar com as situações de desastre de forma célere, incluindo pesquisas com vistas a determinar as causas de desastres iminentes e desenvolvimento de sistemas de alerta precoce.
Em 1971 foi criado o Gabinete de Assistência em Catástrofes das Nações Unidas (UNDRO), que tem como principal objetivo auxiliar no fornecimento de assessoria aos governos sobre planejamento pré-desastre.
A partir daí a ideia da gestão de risco e prevenção de desastres passa a ser disseminada e ganhar força. Inúmeros estudos apontam para perdas e danos causadas pelos desastres, causas, sistemas de alerta e diversas tecnologias passam a ser desenvolvidas e aprimoradas.
Fonte: WCCD, 2018.
Em 1990 é iniciada a década de prevenção e redução de desastres naturais (IDNDR), proclamada através da Resolução 44/236, cujo principal objetivo é a criação de uma cultura global de prevenção, dando início a uma série de mobilizações internacionais para conscientizar as nações acerca da necessidade de implementação de estratégias de gestão de desastres. Em maio de 1994 foi realizada a Conferência Mundial em Yokohama, Japão, e adotado um plano de ação, endossado pela resolução 49/22.
Dentre os eventos de mobilização internacional, em 1997, no Brasil, organizações não governamentais e o Movimento Internacional da Cruz Vermelha, denominado Projeto Esfera, elaborou um conjunto de normas mínimas universais em situações especiais de repostas humanitárias. O documento ―Carta Humanitária e Normas Mínimas de Resposta Humanitária em Situação de Desastre‖, é organizado em quatro capítulos técnicos do manual:
Figura 9 - Acordos celebrados para gerenciamento de desastres
abastecimento de água, saneamento e promoção da higiene; seguridade alimentar e nutrição;
alojamento, assentamentos humanos e artigos não alimentícios; ações de saúde.(SPHERE, 2012)
Em 1999 foi realizado um Fórum para o encerramento da década e instituído o UNISDR, atualmente UNDRR, Escritório das nações unidas para redução de riscos de desastres.
No ano 2000 é inaugurada a década em que a ONU passa a tratar os desastres a partir das vulnerabilidades. O Tsunami ocorrido no Oceano Índico em 2004 reforçou a necessidade de um tratamento adequado dos desastres, fazendo com que os estados membros da ONU se reunissem em Kobe, Japão, na prefeitura de Hyogo a fim de organizar a Conferência Mundial de redução de desastres de 2005, onde foi elaborado o Marco de Hyogo 2005 a 2015, que traça as cinco prioridades para o tratamento dos desastres e redução das perdas. A partir de então a UNDRR criou a campanha construindo cidades resilientes, que será abordada mais a frente na presente pesquisa.
Em 2012 o Brasil sediou a conferência mundial Rio+ 20, a qual discutia as medidas a serem inseridas na agenda da ONU após 2015.
O marco de Sendai para Redução do Risco de Desastres 2015-2030 (Estrutura de Sendai) foi o primeiro grande acordo resultante da agenda de desenvolvimento pós-2015:
A Estrutura de Sendai trabalha de mãos dadas com os outros acordos da Agenda 2030, incluindo o Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas, a Agenda de Ação de Adis Abeba sobre Financiamento para o Desenvolvimento, a Nova Agenda Urbana e, finalmente, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Foi endossado pela Assembleia Geral da ONU após a Terceira Conferência Mundial das Nações Unidas sobre Redução de Risco de Desastres (WCDRR) de 2015 e defende:
A redução substancial do risco de desastres e perdas em vidas, meios de subsistência e saúde e nos bens econômicos, físicos, sociais, culturais e ambientais de pessoas, empresas, comunidades e países.
Reconhece que o Estado tem o papel principal de reduzir o risco de desastres, mas essa responsabilidade deve ser compartilhada com outras partes interessadas, incluindo o governo local, o setor privado e outras partes interessadas. (UNDRR, 2015)
As discussões e pesquisas iniciadas na Rio+20 foram concluído Durante a UNGA 2015 e finalmente foi pactuada a Agenda 2030, com foco no desenvolvimento sustentável e . vigência de 2016 a 2030, é dividido em 4 partes: Visão e Princípios, Quadro de Resultados, Meios de Implementação, Acompanhamento e Revisão.
De fato, toda a mobilização do direito internacional humanitário quanto a prevenção e tratamento dos desastres é extremamente recente e se torna, a cada dia, mais importante.