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Extensão do favoritismo

No documento fm a política distributiva da coalizão bh (páginas 91-96)

Gráfico 13 – Favoritismo regional entre ministros políticos e não-políticos

Não ocupou cargo eletivo Ocupou cargo eleitivo

0.0 0.4 0.8 1.2

Efeito causal médio (Reais per capita)

DDD DiD

Nota – Os pontos indicam o efeito causal médio do favoritismo (i.e., quando ministro e prefeito atuam no mesmo estado) sobre as transferências discricionárias recebidas pelos municípios, por ano e em reaisper capita. Intervalos de confiança, calculados comclusterpara os municípios, indicados nas linhas horizontais.

3.4.2 Ministério e regiões

Igualmente importante é saber onde o favoritismo regional ocorre. Em quais pastas ele é mais ou menos prevalente? E em quais regiões do país? Responder a essas perguntas importa porque, primeiro, permite delimitar se o efeito do favoritismo é geral, independentemente da área de investimentos; e, segundo, porque esclarece se ele é puxado por ministros oriundos de alguns poucos estados. Sendo particular a uma pasta ou outra, a um estado ou outro, o favoritismo não seria geral.

Empregando novamente termos multiplicativos, investigo essas duas questões.

No Gráfico14, apresento o efeito do favoritismo por ministério. Logo de início, é possível ver que uma pasta, a Integração Nacional, se destaca em meio às demais. O efeito marginal, nesse caso, é de quase R$ 7per capitapor ano, uma enorme quantia mesmo com o intervalo de confiança incluindo valores possíveis entre 2 e 11.5. Independente disso,

que já ocupou cargo eletivo (ii) e favoritismo de ministro que nunca ocupou cargo eletivo. Os resultados são praticamente idênticos.

Gráfico 14 – Efeito do favoritismo regional por ministério

Saúde Justiça Ciência Transportes Indústria Defesa Cultura Trabalho Esporte Agricultura MDA Cidades Educação MDS Meio Ambiente Turismo Integração

-5 -2 1 4 7 10

Efeito causal médio (Reais per capita)

DDD DiD

Nota – Os pontos indicam o efeito causal médio do favoritismo (i.e., quando ministro e prefeito atuam no mesmo estado) sobre as transferências discricionárias recebidas pelos municípios, por ano e em reaisper capita. Intervalos de confiança, calculados comclusterpara os municípios, indicados nas linhas horizontais.

vale lembrar que essa é a pasta responsável por inúmeros investimentos no Nordeste, que vão desde a transposição do Rio São Francisco, iniciada durante o segundo governo Lula, até o financiamento de iniciativas contra a seca. Dentre os ex-ministros da pasta, além disso, há uma lista de políticos do Nordeste: Ciro Gomes, do Ceará; Geddel Vieira Lima e João Santana, da Bahia; Fernando Bezerra, de Pernambuco. Isso tudo dificulta detectar quando investimentos regionais da pasta cumprem objetivos programáticos ou

ambições pessoais dos ministros. Quando confrontado com o fato de ter privilegiado Pernambuco com mais de R$ 25 dos 29 milhões destinados à prevenção de desastres naturais pela Integração, por exemplo, Fernando Bezerra (PSB) alegou em comissão do Congresso Nacional que isso nada mais era do que "[...] uma decisão tomada com avaliação técnica", arrolando estatísticas oficiais para justificá-la.10

No Turismo e no Meio Ambiente o efeito do favoritismo é maior do que o estimado para a amostra completa, chegando a três vezes mais. Apesar de ambas as pastas terem atuação teoricamente mais ampla, são conhecidas por investirem de forma regionalizada, principalmente no Nordeste e Norte, de onde saíram boa parte dos seus titulares.11Por fim, levando em conta a estimativa DDD, mais robusta, também é possível ver que o efeito do favoritismo é positivo em outras duas pastas, MDS e Educação; e minimamente diferente de zero em outras três, Agricultura, MDA e Esporte. Nos demais ministérios, o efeito do favoritismo ou é nulo ou bastante negativo, como na Saúde – o que poderia tanto decorrer do perfil dos ministros, normalmente da área, ou da institucionalização dos programas da pasta, especialmente dos vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS).

O quadro esboçado por esses resultados, portanto, é o de que o efeito do favo- ritismo seria específico de algumas pastas com atuações regionais. Para examinar até que ponto essa leitura é correta, o Gráfico15 mostra a heterogeneidade do efeito do favoritismo por região do país. Nitidamente, o efeito substantivo encontrado anterior- mente só aparece no Nordeste, de cerca de R$ 2.80per capita. No Sudeste o efeito é zero e, no Centro-Oeste, a incerteza das estimativas não permite refutar a possibilidade dele ser, inclusive, negativo. Em favor do favoritismo, é possível incluir o Sul, com efeito de cerca de R$ 0.70per capitae que só é diferente de zero se assumirmos um P-valor de 0.1. Por outro lado, ainda resta um efeito negativo robusto, de quase R$ 5.00per capita, encontrado na região Norte que pode derivar também do perfil de alguns ministros específicos.

Esses achados ajudam a dimensionar a extensão da prática do favoritismo regional pelos ministros. Embora seja frequentemente assumido como algo dado no debate público e por analistas da política brasileira (e.g., Ames,2002), o fato é que o favoritismo é bastante limitado quando se leva em conta as pastas e as regiões onde ocorre. Em um

10 Disponível em: Bezerra: critérios técnicos basearam repasses para PE, Revista Veja. Acesso em:

18/12/2018.

11 No caso do Turismo, Maranhão, Alagoas e Rio Grande do Norte tiveram, desde 2000, cinco ministros.

Gráfico 15 – Efeito do favoritismo regional por região do país

Norte Sudeste Sul Centro-Oeste Nordeste

-9 -7 -5 -3 -1 1 3 5

Efeito causal médio (Reais per capita)

DDD DiD

Nota – Os pontos indicam o efeito causal médio do favoritismo (i.e., quando ministro e prefeito atuam no mesmo estado) sobre as transferências discricionárias recebidas pelos municípios, por ano e em reaisper capita. Intervalos de confiança, calculados comclusterpara os municípios, indicados nas linhas horizontais.

extremo, é possível dizer que, em 7 de 17 pastas, ministros direcionam mais recursos para seus estados de atuação, com a qualificação importante de que isso incide sobre Nordeste e Sul. Em outro extremo, que parte mais da magnitude do efeito do favoritismo, ele é prevalente em três ou quatro ministérios e apenas no Nordeste. Voltando a mesma tecla, essa parece a descrição de políticos como Geddel Vieira Lima, mas também o de outros que assumiram Integração e Turismo, considerados "políticos de cabeça antiga" por burocratas em Brasília.12

Como expôs uma das pessoas entrevistadas durante meu trabalho de campo13, a regra no gabinete parece ser outra: a de ministros tentarem levar seus programas a todas as regiões porque é do interesse deles expandir a capilaridade de suas pastas – o que é atrativo para partidos que possuem bases eleitorais pulverizadas pelo território.

Não é apenas na análise quantitativa que o caráter excepcional do favoritismo aparece,

12 Entrevista N. 5.

13 Entrevista N. 1.

portanto.

No documento fm a política distributiva da coalizão bh (páginas 91-96)