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Clima onírico. Foco de luz sobre Beth que está deitada em um pequeno sofá. Em off, a voz de Celeste, mãe de Beth, contando uma história para adormecer a filha.

CELESTE – Elizabeth era uma rainha forte por natureza. Certa vez enormes embarcações inimigas tentavam invadir seu pequeno reino. Elizabeth não tinha como se defender. Seu exército era pequeno e seu jeito de governar, diferente de todos os outros. Uma mulher em um mundo onde os homens decidiam tudo...

Mas quando tudo parecia perdido os ventos agiram em seu favor. Uma tempestade furiosa tomou conta das águas inglesas, fazendo naufragar os grandes navios espanhóis. Os novos ventos pintaram a Inglaterra de dourado e a rainha seria mais reverenciada do que nunca. Vida longa à rainha e um sono bem comprido e gostoso para minha menina. Boa noite...

O despertador toca e Beth acorda sobressaltada. Sobre a cabeceira, um bilhete da mãe. Fica um instante em silêncio. Espreguiça e ainda sonolenta, lê:

BETH – “Filha, precisei sair mais cedo hoje. Tem arroz e feijão na geladeira, é só esquentar e fritar um ovo. O dinheiro da passagem tá em cima da mesa da sala.

Beijos da mãe”. (Levanta-se e começa resmungar) Caraca, tô em cima da hora.

Tomara que não tenha tanto engarrafamento hoje. Ninguém merece passar tanto tempo no ônibus... (Dando tapinhas no próprio rosto) Acorda Beth!

Apaga-se o foco de luz em Beth. Novo foco revela um cômodo onde o avô de Antônio guardava os pertences mais queridos. Um pequeno espaço no qual se amontoavam mobília, livros e ideias. Um rádio de válvulas e um aparelho de som embutidos num enorme móvel de madeira clara, gritavam no meio daquele cenário composto tanto tempo atrás. Ainda funcionavam, embora com algum chiado. No entanto, a lembrança do avô também estava ali, sussurrada a cada ruído da antiga maquineta, e então aquilo também soava como música aos ouvidos de Antônio. Música que se multiplicava nas coleções de discos de vinil repletas de clássicos e sucessos da época. As paredes eram tomadas por fileiras de livros dos mais variados gêneros e estilos. Numa pequena bancada, vidraria de laboratório, caneta tinteiro e antigos cadernos de couro. No telhado, uma claraboia através da qual se via o céu, seus caprichos e personagens flutuantes:

uma lua crescente, outra embaçada, um sol que se esconde, outro que aparece, estrelas promíscuas, nuvens translúcidas ou uma infinidade de azuis... Antônio já tinha entendido que ali era um lugar onde muito podia ser visto, fosse olhando para dentro ou para fora. Daí seu amor por aquele canto. Lá podia lembrar do avô. É lá estava Antônio, esparramado no chão, olhando para o céu. A campainha toca. É Beth. Cumprimentam-se com dois beijos no rosto.

ANTÔNIO – Demorou, Beth. E que cara de sono...

BETH – Ah, não enche... Eu acordei em cima da hora, mas o pior mesmo é esse trânsito. Tudo parado. Também, da Freguesia até a Lagoa, mesmo com tudo livre é muito chão. Nossa...

ANTÔNIO (em certo tom de deboche) – Ah, mas você vem apreciando a paisagem, ou então sonhando com a rainha Elizabeth I (ri).

BETH – Cara, eu sonhei de novo com ela.

ANTÔNIO – Jura? Que novidade!!

BETH – Eu sei que parece fixação...

ANTÔNIO (interrompendo) – Parece...

BETH (interrompendo) – Caraca... Eu cresci ouvindo as histórias que minha mãe contava sobre ela e...

ANTÔNIO (interrompendo) Já sei! Beth, desde que eu te conheço ouço a história sobre sua mãe, que adora biografias e é fissurada pela Elizabeth I, e escolheu seu nome em homenagem a ela e blá blá blá...

BETH – Mas não é só isso, se você pensar bem ela era fantástica. Uma mulher que sozinha, naquela época, defendeu um país pequenininho do mundo todo.

Não tem como não se impressionar.

ANTÔNIO (debochando) – Nossa, tô impressionado. Quando você crescer você

vai querer ser igual a ela. (Ri) BETH – Deixa de ser bobo.

ANTÔNIO – Não é essa daí que nunca casou, que dizia que o marido dela era a Inglaterra?

BETH – É sim, mas e daí? Isso não diminui em nada o que ela foi.

ANTÔNIO – Não, mas esse papo de que ela ia se dedicar só ao trabalho e não ia namorar nem um pouquinho, deve ser coisa pra inglês ver.

BETH – Ai, Antônio, não é nada disso. Ela nunca casou, mas quem disse que ela nunca ficou ou namorou alguém?

ANTÔNIO – Sei...

BETH – Além disso, ao contrário do que você deve pensar, namorar não é a coisa mais importante na vida de uma garota não, tá?! Ela tinha outras coisas bem mais importantes pra fazer.

ANTÔNIO – Ou ela era bem mais feia do que aparece nas pinturas da época e aí, mesmo sendo rainha, ninguém quis encarar, daí inventou essa história de que ela ia se casar com um país.

BETH (Rindo e abraçando Antônio) – Caraca, você é chatinho, heim?! (olhando em volta) Nossa, que lugar irado esse. (observando tudo) Super antigo... Quanto livro!!! (olhando para o aparelho de som) E esse som? É um som, não é? Parece um móvel. Funciona? Funciona, né?

ANTÔNIO – É bom que você pergunta e você mesma responde. Tem certeza que quer conversar comigo?

BETH (rindo) – Deixa de ser implicante.

ANTÔNIO – Funciona sim. Aqui era o quarto do meu vô.

BETH – Que maneiro... Se eu soubesse que era tão legal tinha vindo aqui antes.

ANTÔNIO – Eu sempre te convidei. Aqui é meu canto preferido da casa. Quando ele morreu, pedi pra minha mãe não mudar nada do lugar. Assim ela fez, só a Suzete que passa aqui de vez em quando e dá uma limpada. Por mim nem precisava. Não é maneiro?

BETH – Cara, show... (olhando pra cima) que doideira essa claraboia no teto...

ANTÔNIO – Dá pra ficar viajando olhando o céu...

BETH – Sua especialidade, né? E, por acaso, você precisa de muito pra viajar?

Tá sempre imaginando coisa, criando histórias...

ANTÔNIO – Não sou eu que viajo demais, Beth, você é que viaja de menos.

BETH (em tom de ironia) – É né? Três horas de viagem da zona norte até a zona

sul, todo santo dia, pra chegar na escola, não tá bom pra você não?

ANTÔNIO – Vem você de novo com esse papo. Não tô falando disso.

BETH – Ah, já sei! Muito fácil falar, Antônio. No fundo, você é um filhinho de papai.

É só olhar em volta.

ANTÔNIO – Que é isso, Beth?!

BETH – Sabe quantos livros tem na minha casa toda, além da coleção de biografias da minha mãe? Nem metade do que tem só nesse seu quarto. E os discos? Conto nos dedos. É filhinho de papai sim, Antônio. Garotinho zona sul.

ANTÔNIO – E daí? Eu ia ser mais legal se fosse teu vizinho?

BETH – E daí, Antônio, que a gente é muito diferente. Você acha, por exemplo, que é uma tranquilidade eu sair lá do brejo onde eu moro pra chegar na escola.

Cansa, sabia?

ANTÔNIO – Eu sei que é longe. Já fui lá.

BETH – É, mas eu vou lá todo dia. Meu caminho liga pelo menos dois mundos completamente diferentes. Você tem essa claraboia aí pra apreciar o infinito, eu tenho a janela do ônibus pra ver a paisagem ir mudando a cada pedaço do caminho. Já ouviu falar em abismo social?

ANTÔNIO – Nossa, você tá nervosa hoje, heim?! A gente é diferente sim, mas a gente é amigo e isso que importa.

BETH – Diferença é bom, Antônio, mas desigualdade é outra coisa. É, mas tô cansada mesmo...

ANTÔNIO – É... Se acalma. Senta aí...