Luz. Beth e Antônio estão em meio a uma feira imunda, lotada de comerciantes que vendem toda a sorte de produtos. Porcos, gansos e alimentos frescos são comercializados aos berros, em becos estreitos nos quais se misturavam às carcaças de animais apodrecidas e monturos. O cheiro fétido é insuportável.
Estão à beira do rio Tâmisa. Por lá trafegavam grandes veleiros cargueiros e pequenas embarcações. O rio parecia viçoso e poder-se-ia romancear flotilhas e um galote real navegando naquelas águas supostamente repletas de linguados, camarões e trutas, não fosse o mau cheiro que fazia pensar onde todo aquele povo lançava seus dejetos.
FEIRANTE 1 (em off) – Olha a cegonha fresca!!!
BETH – Meu Deus!!! Ai... mas que lugar é esse, Antônio? Que cheiro horrível!!!
FEIRANTE 2 (em off) – Figos, cerejas e damascos!!!! Quem vai??
ANTÔNIO (hesitante) – Sei lá Beth, eu falei pra você não abrir o armário.
FEIRANTE 3 (em off) – Ervilha!!! Olha a ervilha!!!
BETH (desesperada) – Que sujeirada. Muito caído esse lugar!!! Gente, tem até carcaça de bicho morto!
FEIRANTE 4 (em off) – Oh delícia de ganso!!!
Dois adolescentes elisabetanos se aproximam, mas não veem Beth e Antônio.
Estes, ao avistarem os elisabetanos, se escondem atrás de um pequeno arbusto.
De lá, observam o diálogo entre Mary e Paul. Eles estão carregando, cada qual, sacos com fezes dentro.
PAUL – Oi Mary.
MARY – Oi Paul. Tá indo ao monturo?
PAUL – Claro, hoje meus sacos tão cheios.
MARY (fazendo cara de nojo) – Percebi... Mas precisava trazer isto tudo?
PAUL – Fazer o quê? Você sabe que se a gente não traz o cocô nosso de cada dia pro depósito oficial, a gente é multado. Não viu o John? Foi tentar fazer um monturo no quintal da casa dele e tomou uma baita multa.
MARY – Que porcalhão também!!!
PAUL – Ué, esta cidade é uma imundice mesmo. É bosta pra tudo quanto é lado!
E a bicharada na feira? Tudo cagando e mijando ao ar livre. Até parece que você não sabe! Essa é nossa boa e velha Londres, Mary. Não tá reconhecendo não?
MARY (colocando a mão nos ouvidos) – Ah eu sei, mas não precisa entrar em detalhes e ficar falando toda hora. Isso é mais informação do que precisa o ouvido de uma garota.
PAUL – Tá, tá bom, mas se você quer esquecer é melhor tapar o nariz em vez dos ouvidos. (Saem)
Em meio a toda aquela sujeirada, um rio desvia o curso da atenção de Beth e Antônio. É o Tâmisa, que apesar do cheiro desagradável, cintilava a seu jeito.
BETH – Gente, eu não tô acreditando. Aquilo era saco com cocô? Que nojo!!
ANTÔNIO – Vida real, Betinha... Você ouviu? Estamos em Londres.
BETH – Londres? Imunda desse jeito?
ANTÔNIO – Bom, pelo menos sabemos onde estamos. Falta saber que tempo é esse.
BETH (querendo ver outra coisa) Ai, olha o rio. Que lindo... Imagina uma rainha com aquelas roupas de gola, vestidos de veludo cheios de fru-fru e um cortejo enorme atrás dela. Já imaginou?
ANTÔNIO – Eu tô é imaginado aqui que esse rio deve servir também de depósito de tudo quanto é coisa.
BETH – Tipo o quê?
ANTÔNIO – Tipo o conteúdo dos sacos dos nossos amigos, Beth.
BETH – Ai, comentário totalmente desnecessário. Depois sou eu que sou pé no chão demais, que viajo de menos.
ANTÔNIO – Não tá mais aqui quem falou.
BETH (repreendendo) – Acho bom.
ANTÔNIO (açucarando) – Quer saber, também acho muito bom ficar aqui com você, mesmo não sabendo direito que lugar é esse (olhando o céu) Ih, tá anoitecendo...
BETH (desconversando) – Mas como é que a gente vai voltar pra casa?
Anoitece. Blackout.
CENA IV – QUANDO ALMAS DE OUTROS MUNDOS SE ENCONTRAM Luz. Em outra viela de Londres está Paul, que ao pé de uma janela, chama, sussurradamente, pela amiga Mary.
PAUL – Mary, anda logo! Vai acabar ficando tarde demais.
MARY – Já vou.
PAUL – Mas vem logo!
MARY – Shh... Fala mais baixo! Quer acordar todo mundo?
Entra Mary travestida de homem.
MARY (com voz feminina) – Tô prontinha pra cair na noite. (Dando pequenos gritinhos) Vamos, vamos!
PAUL – Só falta mudar o jeito de falar. Tem que falar grosso, que nem homem.
Assim, tipo eu.
MARY (debochando e com voz masculina) – Hum, que medo... Tem que cuspir no
chão também?
PAUL – Fica tirando onda, mas não pode sair sozinha não. Precisa de mim pra conhecer as ruas de Londres depois que a noite cai.
MARY – Por enquanto, Paul. Me aguarde. O mundo ainda vai perceber que a gente é gente e então vamos poder frequentar a escola e sair na hora que a gente bem quiser, assim como vocês, garotos.
PAUL – Vocês não. Você sabe muito bem que só os garotos ricos vão pra escola.
Eu mesmo nunca coloquei os pés lá.
MARY – Dá pra perceber.
PAUL – Também, ficar o dia inteiro enfurnado na escola e ainda receber castigo toda vez que eles acham que a gente fez alguma coisa errada, tô fora. Prefiro ajudar meu pai nas colheitas.
MARY – Mas pelo menos se aprende a ler, Paul. Ler sobre coisas que a gente nunca viu, já pensou?
PAUL (em tom de deboche) – Que interessante...
MARY – É sim, Paul, é um jeito de descobrir o mundo, conhecer coisas novas e as velhas também.
PAUL – É, mas enquanto se colhe o que plantou, também se aprende muito.
MARY – Ah... Tá bom, mas não é a mesma coisa. Tem muito mais coisas entre o campo e a escola do que pode imaginar sua cabecinha de ervilha.
PAUL – Tô nem aí pra essa conversa. E hoje, qual é a boa? Vamos no “pega-o- urso”. Fico só pensando naquela arena bem grandona. A multidão gritando, torcendo... E o urso lá no meio bem nervoso, todo descontrolado, berrando que nem um desgraçado. (Gargalhando) Aí, quando ele tiver no ponto, a gente solta a cachorrada atrás dele e é sangue pra todo o lado.
MARY – Ah não... Hoje eu queria uma coisinha assim... Mais delicada.
PAUL – Tá vendo? Esse bigode aí não quer dizer nada mesmo. Muito mulherzinha. Assim não vai dar pra gente continuar saindo junto não...
MARY – Não é nada disso, mas a gente já foi no “pega-urso” esta semana. Eu queria mesmo ir ao sanatório pra rir daquela gente louca. Adoro fazer isso. Eu sempre vou entrando como não quer nada e fico lá olhando, morrendo de rir!
PAUL – É... Também é divertido...
MARY – Uma vez eu cheguei lá e tinha um doido que dava três tapinhas na testa e depois enfiava o dedo na goela... (Ri) E aquela mulher? Lembra daquela vez que uma mulher, com cabelão avermelhado, ficava girando com um espelho e
quando ela conseguia se enxergar, ela começava a gritar? (Ri) Ai, ai... Isso é melhor que passar o tempo olhando ursos e cachorros se matarem.
PAUL (debochando) – É verdade, e é uma delicadeza da sua parte ficar rindo daquele pessoal. (Sério) Sabia que, parece, que essa doida que você tá falando aí morreu.
MARY – Jura? Ai me deu até um arrependimento de falar dela assim. Como é que você sabe disso?
PAUL – Ouvi falar...
MARY – Por quê? Ela não era muito velha. Ela era mais ou menos da nossa idade né?
PAUL – É, mas agora não vai ser mais (Ri) MARY – Pára de debochar...
Um estrondo interrompe a conversa. Beth que, acompanhada de Antônio, assistia ao diálogo dos jovens elisabetanos atrás de um pequeno arbusto, perde o equilíbrio e cai, ficando no campo de visão de Paul e Mary. Apavorados, eles pensam se tratar do espectro da louca.
PAUL – Socorro! É a doida.
MARY – Eu falei pra você parar de falar besteira. (Para Beth) Não chega perto!
PAUL – Ri agora.
Beth fica atônita. Antônio entra logo em seguida. Mary e Paul gritam novamente.
PAUL – Ela não tá sozinha. Trouxe uma cambada de doidos com ela.
BETH – Calma, eu posso explicar. (Segura o braço de Mary)
PAUL (desesperado) – Não chega perto mim. Eu juro que não rio de gente doida não, meu negócio e rir dos ursos. Quem ri de gente maluca é ela aqui. (aponta para Mary)
MARY – Calma, Paul. Espera um pouco (Toca Beth, apalpando seu rosto). Você tá bem viva, mas é um bocado estranha. E você também (se referindo a Antônio.
Aproxima o nariz da nuca de Beth e Antônio) E o cheiro deles é diferente do nosso. E as roupas? Que roupas são essas? Que jeito estranho de se vestir. O que tá acontecendo?
BETH – Bom, seu jeito de se vestir é meio esquisito também. Pra que esse bigode pintado aí na sua cara? E essas calças largas?
MARY (desconfiada) – Se eu não me disfarçar de menino, como posso sair à noite? Acho que não é muito difícil entender isso. É alguma novidade pra vocês?
ANTÔNIO – É sim.
BETH – Aliás, muita novidade ao mesmo tempo. Falando nisso, qual é o tempo de vocês? Parece bem diferente do nosso...
MARY – Do que vocês estão falando? Que história é essa de nosso tempo, o tempo de vocês. O tempo é um só: estamos em pleno século XVI e não me parece difícil entender porque estou vestida de menino.
BETH – Século XVI?
ANTÔNIO – Ah, agora to começando a entender... Mas o mais complicado é entender qual a graça que vocês veem em rir de malucos e de ursos ameaçados por cachorros ferozes. Que sem noção...
PAUL – Depois sou eu que tenho cabecinha de ervilha.
MARY (com ironia) – No “nosso tempo”, amiguinho, aliás, qual é seu nome mesmo?
ANTÔNIO – Antônio
MARY – Pois é Antônio, isso pra gente é normal. É nosso dia a dia. A gente se diverte assim. Tá achando muito estranho? Estranho pra mim é seu nome: A-N-T- Ô-N-I-O. Isso lá é nome? (Para Beth) E o seu, querida?
BETH – Elizabeth, mas todo mundo me chama de Beth.
MARY (em tom de deboche e alguma surpresa) – Ah... Esse nome já soa mais familiar. (Para Paul) Ela tem o nome da nossa rainha, mas já o apelido é coisa de plebeia.
PAUL (para Mary) – Viu, Mary, eles tão vivos, mas são doidos. Viu? A gente não tava totalmente errado.
MARY – Não, Paul... Você não tá entendendo. Esta noite vai ser bem mais agitada do que a gente pensava.
Blackout
CENA V – O FUTURO SE LÊ EM TODAS AS MÃOS...
MARY (para Beth e Antônio) – Deixa eu ver as mãos de vocês dois. (Beth e Antônio oferecem as mãos e Mary analisa com alguma rapidez) São macias e limpas. Vocês não trabalham no campo como nós?
ANTÔNIO – Não.
BETH – A gente nem trabalha.
PAUL – Ah não? Vocês não ajudam ninguém não? Ganham tudo de mãos beijadas?
BETH – A gente só estuda e depois que se formar, aí sim, a gente vai exercer uma profissão.
MARY (encantada e invejosa) – Como assim, você vai à escola? Você sabe ler?
BETH (surpresa com a pergunta) – Claro que sei!
MARY – Como “claro”?
BETH – Você não sabe?
MARY – Claro que não. Hello!!! As garotas aqui não vão pra escola. Ô Beth, em que mundo você vive, heim?
BETH (para Mary e Paul) – Agora é minha vez. Deixa eu ver a mão de vocês (pegando as mãos dos dois). São ásperas. Nossa, as unhas são tão encardidas (eles retiram as mãos, irritados). Desculpa, não quis ofender eu só tô dizendo o que vi.
PAUL – Escuta aqui, ô garota, tá querendo tirar onda com a nossa cara?
ANTÔNIO (tomando a defesa de Beth) – Não, claro que não. É que tudo aqui é novo pra gente.
MARY – Novo? Novo por quê? Ai, mas quanta confusão. Que conversa sem sentido. De onde vocês são, gente? Diz logo. Parece até que vieram de outro mundo. Tô começando a achar que vocês são assombração mesmo.
BETH – Do futuro.
MARY – O quê?
BETH – É, do futuro. A gente veio do futuro.
MARY – Ah, tá... Já vi que não dá pra conversar com vocês.
ANTÔNIO – É verdade o que ela tá falando. Eu coloco minha mão no fogo por ela. Pode acreditar.
MARY – Mãos quentes, coração frio. Eu não confio em você.
PAUL (à Mary) – E se a gente ficasse só um pouco e tentasse ouvir o que eles têm pra falar?
MARY – Eu lavo minhas mãos. Se você quiser ficar, Paul, você fica. Eu vou embora.
PAUL – Então também vou.
Paul e Mary viram as costas e fazem menção de sair
BETH (pegando nas mãos de Paul) – Espera. Me dá sua mão.
ANTÔNIO (pegando nas mãos de Mary) – Espera, por favor. A gente vai explicar tudo pra vocês. Por que e como a gente chegou até aqui. (Paul e Mary hesitam) BETH – Por favor...
Blackout