Pisa no chão, pisa manero, Quem não pode com a formiga
Não assanha o formigueiro (Canção do Povo Xucuru-Kariri)
Pensar, refletir sobre a história das mulheres, significa pensar acerca visibilidade das demandas históricas e políticas das mulheres. Assim, ao alçarmos a busca por essa questão, tornar-se imprescindível historicizar os movimentos feministas e pensar em sua relação com a visibilidade política das mulheres.
Utilizar a nomenclatura ‘feminismos’ e não ‘feminismo’, é uma opção deste trabalho.
Não podemos pensar em um movimento feminista único, unificado pelo pressuposto de ser um movimento que envolve todas as mulheres da mesma forma, em torno das mesmas demandas, ou ainda como um movimento que significa que o ‘ser mulher’ automaticamente determina um envolvimento ou militância no feminismo. Assim, afirmamos aqui a pluralidade destes movimentos sociais em torno da condição feminina.
Entendemos que buscar compreender a relação entre a invisibilidade da violência doméstica contra mulheres, ou melhor, entender a invisibilidade dessa violência significa buscar as raízes históricas, não apenas da violência contra mulheres, significa historicizar também como e quando essa violência passa a ser vista e quais os determinantes dela. Nestes termos, levantamos a hipótese que a organização política das mulheres no âmbito dos movimentos feministas se articula de forma direta com essa visibilidade e publicização da violência contra mulheres e da violência doméstica contra mulheres.
A realidade tem mostrado que, ao mesmo tempo em que são criados mecanismos para coibir e punir a violência doméstica contra mulheres, também passa a existir um significativo aumento no número de denúncias, nos convidando a refletir se o que de fato existe atualmente é uma maior ocorrência de maior número de denúncias deste tipo de violência. É importante lembrar que denunciar não significa necessariamente que ocorra a punição dos agressores, nem que vá necessariamente ocorrer a redução da violência contra mulheres.
Contraditoriamente, quando tratamos de violência doméstica contra mulheres, constatamos
que ela permaneceu uma violência invisível, ou seja, ainda não sabemos com exatidão no Brasil, qual sua extensão, gravidade e números da violência doméstica contra mulheres.
Daí é importante pensar sobre essa aparente contradição: como podemos ter um maior número de denúncias e ao mesmo tempo manter a invisibilidade da violência doméstica contra mulheres? No Brasil com a Lei 11.340 de 7 de agosto de 2006, a Lei Marai da Penha, cujo objetivo é enfrentar esta forma de violência, essa contradição se tornou mais palpável.
Se, de um lado, temos a lei criar os mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica contra mulheres, de outro lado a mesma lei não consegue por si só alcançar seus objetivos, pois embora em sua elaboração traga aspectos históricos das demandas politicas das mulheres, a mesma não se efetiva plenamente.
A Lei Maria da Penha não alcança a realidade histórica das mulheres, embora em alguma medida consiga, sem dúvida, dar voz à violência doméstica contra mulheres de forma que até então não existia no Brasil. Porém, a violência doméstica contra amulheres não se trata de uma questão a ser enfrentada apenas no campo jurídico, mas de uma busca do enfrentamento das desigualdades entre mulheres e homens em todos os campos da vida social que afetam as mulheres e proporcionam um campo fértil para as violências e de forma mais contundente, para a violência doméstica contra mulheres, na medida em que essa violência se manifesta de diferentes maneiras: violência física que pode ser a lesão corporal leve, grave ou gravíssima; violência psicológica, que pode ser por, exemplo a tortura mental de mulheres; a violência sexual, estupro dentro do casamento; violência patrimonial.
Trago essas reflexões a partir do que diz a Lei Maria da Penha porque é preciso pensar que violência doméstica embora tipificada como crime é uma violência que acarreta outros crimes já tipificados no Código Penal Brasileiro, mas que não eram vistos como crimes quando ocorridos no âmbito doméstico contra mulheres.
No Brasil, mulheres sempre estiverem em situação de violência doméstica, sofrendo crimes tipificados no Código Penal, mas vistos como crimes de menor potencial ofensivo por serem praticados contra mulheres e no âmbito doméstico. Partindo dessa análise, a busca por respostas para essa questão traz mais questionamentos, principalmente sobre qual o lugar das mulheres na história para que seus corpos e mentes fossem violentados e isso fosse aceito como algo que faz parte do ser mulher e nos impõe buscar compreender como mulheres ao longo da história conseguiram possibilitar que essa situação fosse vista do ponto de vista jurídico e social.
Destarte, pensar a invisibilidade da violência contra mulheres no estado de Alagoas, exige pensar o Estado que age através da pressão dos movimentos feministas, que denunciam,
politizam e publicizam essa violência. Assim, pode-se afirmar que no Brasil, a visibilidade da violência doméstica contra a mulher tem características duas características fundamentais. A primeira delas é que sua visibilidade está diretamente ligada aos movimentos feministas dos anos 1970 e 1980. A segunda característica da violência doméstica contra mulheres no Brasil é que é uma violência contraditoriamente ainda invisível. Falamos sobre violência doméstica contra mulheres, sabemos o que significa, são realizadas campanhas, mas ainda não temos ideia do que realmente acontece com as mulheres nesse âmbito. Com advento das redes sociais, principalmente, a violência doméstica passou a ser amplamente discutida, o que significou um enorme avanço, mas no campo dos serviços de atendimento ás mulheres em situação de violência ainda temos muito o que conquistar. Por exemplo das 5.665 cidades brasileiras apenas 397 tem DEAMS segundo IBGE (2013).
Existem DEAMS em todas as capitais brasileiras e a maior parte das capitais pesquisadas (19 – 70%) tem apenas uma unidade instalada e em funcionamento. No Rio de Janeiro (RJ) e Teresina (PI) encontram-se três DEAMS, enquanto a população de Salvador (BA), Maceió (AL) e Natal (RN) conta com duas unidades destas especializadas, respectivamente. (OBSERVATÓRIO DA LEI MARIADA PENHA, 2010, p.19)
Em Alagoas por exemplo as DEAMS não funcionam nos fins e semana, assim como os serviços oferecidos pela Política de Assistência Social, com exceção da Casa Abrigo que é acionada apenas através das Delegacias de Plantão e por telefone que fica com a Coordenadora da Casa.
A invisibililização da violência doméstica contra as mulheres parece um paradoxo, na medida que podemos afirmar que uma violência cada mais discutida que tem diferentes mecanismos no Brasil para coibir essa violência, mas até que ponto de fato estamos vendo as mulheres em situação de violência doméstica? Até que ponto de fato essa violência é visível quando o mesmo país que tem uma lei específica para combater essa violência é pais que não possibilita que seja de fato estruturada uma rede de atendimento Ás mulheres em situação de violência doméstica, é o pais que não realiza notificação ou sistematiza dados sobre a violência doméstica contra mulheres. A invizibilização não é ausência de conhecimento sobre essa violência, não está no fato de que existem campanhas sobre o tema. A invisibilidade está justamente na ausência de um combate essa violência. A invisibilidade está no descumprimento da Lei Maria da Penha diante da quantidade Juizados específicos para violência doméstica, que segundo o Observatório da Lei maria da Penha (2010, p. 1) o Brasil tem hoje 26 Juizados em 19 capitais distribuídos da seguinte forma;
Região Norte 3 Belém, Macapá e Manaus; Região Nordeste 7 Fortaleza, Maceió, Natal, Recife (2) Salvador e São Luis: Região Centro Oeste 8 Brasília (4), Campo Grande, Cuiabá (2) e Goiânia; Região Sudeste 6 Belo Horizonte (2), Rio de Janeiro (2), São Paulo e Vitória Região Sul 2 Curitiba e Porto Alegre.
Partimos do pressuposto que os movimentos feministas não alcançam, por sua natureza e igualmente, todos os espaços. Pois, se coloca também o movimento de mulheres que não se caracteriza pela luta constante contra a violência, por exemplo. Quando pensamos estes aspectos no estado de Alagoas nos deparamos com algumas questões importantes. Neste sentido, pensar os movimentos feministas como movimentos não homogêneos e que se constroem a partir de mulheres, nos direciona a entender as lutas políticas das mulheres em sua diversidade.
Assim, trataremos da história dos movimentos feministas no Brasil da ‘primeira e segunda fase ou onda’ para entendermos que seus momentos históricos não são estanques, mas articulados e que, em cada momento histórico, os movimentos feministas podem ter maior ou menor intensidade e suas bandeiras de luta se mantém independentemente das
‘fases’ e ‘ondas’, numa clara explicação da profunda historicidade dos movimentos feministas.
2.2 Feminismos no Brasil: ondas, fases e a temática da violência doméstica contra as