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4.1 Alagoas: mulheres e história

4.1.2 Mulheres negras

Para contornar o problema da falta de mulheres nos mocambos, os palmarinos adotaram a prática dos sequestros. Mulheres escravas eram procuradas nas senzalas e, muitas vezes, levadas forçadas para os quilombos. Com mulheres negras livres, libertas, mestiças e até mesmo com aquelas indígenas poderiaacontecer o mesmo.

Em Palmares, a partir de 1630, a falta de mulheres já não era o principal problema.

O crescimento interno da população palmarinaestabeleceu um equilíbrio numérico entre homens e mulheres nos mocambos. Lá elas podiam trabalhar tanto nas plantações, como no fabrico de farinha e em outras atividades produtivas. Nos quilombos, as mulheres também participavam das batalhas contra os

“reescravizadores”. Tornavam-se também importantes líderes religiosas. Em várias ocasiões entravam em transe e adivinhavam o local, a direção e o momento do ataque das tropas anti-mocambos. Também durante as rápidas evacuações dos mocambos podiam ter a função de esconder o máximo possível de grãos e sementes em suas cabeças e fugirem para o interior da mata. Seria através destes que os quilombolas reorganizariam suas economias em outras paragens. (SCHUMAHER, 2004, p.29).

A violência contra mulheres esteve sempre presente na formação social e econômica de Alagoas, seja a partir dos bangüês, seja a partir da construção de liberdade posta pelo Quilombo de Palmares. A violência de gênero na vida das mulheres não é algo novo ou recente, mas tem raízes históricas e culturais que se mantém no estado de Alagoas, não como algo inerente apenas a Alagoas ou ao nordeste brasileiro, mas como um importante aspecto histórico próprio do processo de colonização do Brasil.

Figura 4 – Foto do Cordel biográfico que conta a história de Acotirene, que foi uma matriarca do Quilombo dos Palmares respeitada como conselheira para casos rotineiros e de batalha34

Fonte: ARRAES, 2017, p.1

34 Disponível em: <http://jaridarraes.com/cordel/>. Acesso em: 15/09/2017.

A história das mulheres negras alagoanas é uma história também não contada, uma história invisibilizada, mesmo diante do Quilombo dos Palmares, que também remonta a violência contra mulheres dado que Palmares tinha a prática do sequestro de mulheres.

Para contornar o problema da falta de mulheres nos mocambos, os palmarinos adotaram a prática dos sequestros. Mulheres escravas eram procuradas nas senzalas e muito vezes levadas forçadas para os quilombos. Com mulheres negras livres, libertas, mestiças e até mesmo com aquelas indígenas poderia acontecer o mesmo (SCHUMAHER, 2004, p.28).

A violência sofrida pelas mulheres negras dentro e fora das senzalas pois não é possível entender a senzala ou Casa Grande como espaço doméstico dessas mulheres. Assim, a herança da resistência das mulheres negras permanece em Alagoas, através das comunidades remanescentes quilombolas: “Embora seja o segundo menor da federação, o estado de Alagoas abriga atualmente 68 comunidades quilombolas certificadas pela Fundação Cultural Palmares, distribuídas em 35 municípios” (ALAGOAS, 2015, p. 13).

A maioria das 68 comunidades quilombolas alagoanas estão localizadas, nas regiões do Agreste e Sertão, ou seja, no semiárido alagoano, região que é o alvo de investigação desta tese. As comunidades quilombolas estão distribuídas da seguinte forma:

Tabela 1 – Disposição das comunidades quilombolas alagoanas

MUNICÍPIO COMUNIDADES REGIÃO

01 Água Branca Lagoa das Pedras SERTÃO

02 Água Branca Barro Preto SERTÃO

03 Água Branca Serra das Viúvas SERTÃO

04 Água Branca Cal SERTÃO

05 Água Branca Pov. Moreira de Baixo SERTÃO

06 Anadia Jaqueira LITORAL/MATA

07 Arapiraca Carrasco AGRESTE

08 Arapiraca Pau D’arco AGRESTE

09 Batalha Cajá dos Negros SERTÃO

10 Belém Serra dos Bangas AGRESTE

11 Cacimbinhas Guaxinim AGRESTE

12 Canapi Mundumbi SERTÃO

13 Canapi Sítio Alto de Negras SERTÃO

14 Canapi Tupete SERTÂO

15 Carneiro Sítio Lagoa do Algodão SETÂO

16 Delmiro Gouveia Povoado da Cruz SERTÃO

17 Igreja Nova Sapé SERTÂO

18 Igreja Nova Palmeira dos Negros SERTÂO

19 Igací Sítio Serra Verde AGRESTE

20 Japaratinga Macuca LIOTRAL

21 Jacaré dos Homens Alto da Madeira SERTÂO 22 Jacaré dos Homens Povoado Porção SERTÂO

23 Jacaré dos Homens Povoado Baixa SERTAO

24 Jacaré dos Homens Povoado Ribeiras SERTÂO

25 Monteirópolis Paus Pretos SERTÂO

26 Major Isidoro Puxinanã SERTÂO

27 Olho D’Água das Flores Aguazinha SERTÂO

28 Olho D’Água das Flores Guarani SERTÃO

29 Olho D’água das Flores Gameleiro SERTÃO 30 Olho D’água do Casado Alto da Boa Vista

31 Pariconha Burnio SERTÃO

32 Pariconha Melancias SERTÃO

33 Pariconha Malhada Vermelha SERTÃO 34 Passo do Camaragibe Bom Despacho LITORAL/MATA

35 Passo do Camaragibe Perpétua LITORAL/MATA

36 Piranhas Sítio Laje SERTÃO

37 Piaçabuçu Pixaim BAIXO SÂO FRANISCO

38 Pão de Açúcar Chifre do Bode SERTÂO

39 Pão de Açúcar Poço do Sal SERTÂO

40 Penedo Tabuleiro dos Negros BAIXO SÂO FRANISCO

41 Penedo Oiteiro BAIXO SÂO FRANISCO

42 Poço das Trincheiras Jorge SERTÃO

43 Poço das Trincheiras Alto do Tamanduá SERTÃO

44 Poço das Trincheiras Jacu SERTÃO

45 Poço das Trincheiras Mocó SERTÃO

46 Palmeira dos Índios Povoado Tabacaria AGRESTE

47 Palestina Vila Santo Antônio SERTÂO

48 Palestina Santa Filomena SERTÂO

49 Santa Luzia do Norte Quilombo LITORAL/MATA

50 Santana do Mundaú Filús LITORAL/MATA

51 Santana do Mundaú Jussarinha LITORAL/MATA

52 Santana do Mundaú Mariana LITORAL/MATA

53 São José da Tapera Caboclo SERTÃO

54 São José da Tapera Cacimba do Barro SERTÃO 55 Senador Rui Palmeira Serrinha dos Cocos SERTÃO

56 Taquarana Mameluco AGRESTE

57 Taquarana Lagoa do Coxo AGRESTE

58 Taquarana Poços do Lunga AGRESTE

59 Taquarana Passagem do Vigário AGRESTE

60 Teotônio Vilela Abobreiras LITORAL/MATA

61 Teotônio Vilela Birrus LITORAL/MATA

62 Traipu Belo Horizonte AGRESTE

63 Traipu Uruçu AGRESTE

64 Traipu Mumbaça AGRESTE

65 Traipu Lagoa do Tabuleiro AGRESTE

66 Viçosa Gurgumba LITORAL/MATA

67 Viçosa Sabalangá LITORAL/MATA

68 União dos Palmares Muquém LITORAL/MATA

Fonte: Secretaria de planejamento e Gestão do Patrimônio Alagoas

Essas comunidades totalizam atualmente 6.889 famílias (Fonte, ano). Nos chama aatenção o fato da concentração de comunidades quilombolas no semiárido estar distante de União dos Palmares onde está localizado o Quilombo de Palmares. Das 68 comunidades existentes, apenas uma comunidade ainda não tem certificação. Em relação à situação sócioeconômica, segundo o estado de Alagoas (2015), a maioria das famílias estão cadastradas no Programa Bolsa Família (PBF), através do Cadastro Único (CadUnico), que pressupõe que os/as usuários/as tenham renda percapta de inferior a oitenta reais:

No universo de quilombolas alagoanos cadastrados no CadÚnico, verifica-se que 75% destes possuem renda familiar per capta de até R$77,00, ou seja, são considerados extremamente pobres. A Tabela nº 02 também revela que 11,9% destes são considerados pobres. Dessa forma, tem-se que 86,9% desta população está dentro da linha de pobreza e pobreza extrema (ALAGOAS, 2015, p.18, grifo do autor)

Nesse universo, a herança do processo abolicionista brasileiro se mantém, ou seja, um processo que que deu a “liberdade” à população negra escravizada a partir do contexto da meritocracia livre e “igualdade” com o branco colonizador.

Em relação à violência contra mulheres e à violência doméstica conta mulheres quilombolas em Alagoas, não encontramos dados específicos, ou seja, não identificamos a existência de um estudo que trate dessa especificidade. A realidade das mulheres negras remanescentes das comunidades quilombolas em situação de violência doméstica em Alagoas não é uma situação sobre a qual tenhamos números, embora o Brasil saiba que mulheres negras em termos estatísticos sofrem mais violência que as mulheres brancas, como discutimos anteriormente.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 130-134)