• Nenhum resultado encontrado

Filosofia da Educação

No documento CECHOM Curso de Pós - Univali (páginas 175-200)

9. ANEXOS

9.4. Filosofia da Educação

Segundo os autores de nossa bibliografia básica, como Tomaz Tadeu Silva e Paulo Ghiraldelli, a pedagogia da libertação de Paulo Freire ou a pedagogia dos conteúdos de Dermeval Saviani são pedagogias modernas. Modernas não no sentido que usamos diariamente, como sinônimo de novidade. Moderno aqui é a maneira adotada pela civilização ocidental desde a revolução francesa, no século XVIII, para pensar o mundo, apoiando-se na razão. Os teóricos da “Liberdade, Fraternidade e Igualdad e” (ideais iluministas) tinham certeza que o ser humano seria livre da ignorância através do conhecimento e por isso criaram a primeira enciclopédia, com todo o conhecimento adquirido pelo homem até então.

Bom, os livros estão aí, aos milhares nas bibliotecas, à disposição de quem quiser ser autônomo, quem quiser saber o que o potencial cérebro humano foi capaz de criar. Mas quantos % sabemos dos seus conteúdos? 50%, 30%, 20%, 10%, 1% ou nem isso? Quem liga? A verdade é que pouca gente hoje gosta de adquirir conhecimento, pois o saber não está em programas de entretenimento da TV nem em revistas de fofoca de artistas. O que deu de errado nas teorias modernas? Não contavam com a silenciosa revolução dos meios de comunicação, que mudaram a relação das pessoas com o mundo? E a razão? Sucumbiu à sedução consumista? Naufragou no shopping?

É por isso que os teóricos pós-modernos acham que a mentalidade que rege as pessoas hoje tem pouco de racional e acreditam que teorias precisam de uma revisão, pois não é certo iludir as pessoas. As teorias modernas já não dão conta de explicar a complexidade da sociedade, apesar de toda as suas boas intenções. Eles perceberam que, apesar da razão ser o maior diferencial entre nós e os animais, não nos guiamos unicamente por ela. Somos, isso sim, um poço de contradições, cheios de desejos nada edificantes, que ora dizemos uma coisa para depois agirmos de maneira diferente. Por isso os pós-modernos não levam as verdades absolutas a sério, pois logo logo vai surgir um fato novo que derrubará aquela certeza tão certa, já que o mundo está em construção.

Então, se a caravana não pára, é preciso seguir em frente. Como fazer isso? Dando as costas para o que não nos serve mais, para crenças como a que supõe o ser humano a

mais perfeita das criaturas da Terra que pode, através da sua consciência, conhecer toda a realidade e transformá-la, como achavam os iluministas franceses.

O pós-modernismo já não acredita que se possa generalizar, conhecer toda a realidade, até porque a realidade está permanentemente sendo construída. O pós-modernismo também não acredita que se possa transformar a realidade por um processo de conscientização.

Até porque não saberia dizer quais conteúdos são mais verdadeiros do que outros para que tomemos consciência deles. O pós- modernismo desconfiaria dessa tomada de consciência. Não acreditaria em categorias como ‘povo’, ‘pessoas’, ‘classe social’,

‘oprimido’, ‘injustiçado’. Pois elas são amplas demais. Oprimido em relação a que?

Injustiçado em relação a que? Pessoas? Quais pessoas? De onde elas falam? Quais suas histórias? O oprimido de repente pode ser poderoso também, se encher de poder ao chamar

o outro de opressor!

Então, adeus às teorias modernas. Àquelas que falam no homem oprimido pelo capitalismo ou pelas relações sociais desiguais. Essas teorias são tidas por metateorias ou metanarrativas porque narram ou contam a história de um jeito muito abrangente. Adeus à Pedagogia do Oprimido. Bye bye.

Não foi Saviani que narrou a filosofia como sendo uma atividade radical, rigorosa e de conjunto? Não foi Paulo Freire que acreditou num processo de conscientização, através do qual o homem chegaria à verdade da realidade tal como ela é? A educação pós-moderna não acredita que exista uma realidade tal como ela é. Vai dizer que a realidade foi produzida para ser assim. Pesquisa então como foi o funcionamento desta produção. O processo, não o resultado.

O pós não pergunta “por quê”, mas pergunta “como”, como funcionou para chegar nisso. O pós evita a qualquer custo as razões inconscientes, psicológicas. Evita as razões

escondidas. Não trabalha com as segundas intenções. Trabalha com as primeiras, as visíveis na linguagem. As relações de poder estão visíveis na linguagem, seja a nossa fala da sala de aula, seja a nossa fala do corredor, seja a nossa escrita na prova, seja a nossa escrita no jornal ou no power point das apresentações de slides.

Tudo tem muito sentido, a cor da tela, o som, a iluminação, tudo é linguagem e significa. Novelas, cartum político, outdoors, todos os artefatos. O pós dilui, derrete as fronteiras entre texto científico, livros e textos de massa. Para o pós, não existe nada natural. Tudo é inventado de um certo jeito, construído na sociedade diariamente, formando cultura. Como funciona esse jeito? Paulo Freire e Saviani também não acreditam na realidade desigual das pessoas como sendo naturais. Eles também acreditam que essa realidade foi produzida. Porém, eles explicam as desigualdades sociais apenas pelo lado econômico das relações sociais. E o pós acha que as relações econômicas são apenas uma das questões a ser analisada. E a nossa sexualidade, os nossos desejos, a nossa identidade?

Os pós-modernos investigam outras formas de poder. Perguntam, portanto, pelo funcionamento do poder ou da realidade. Por exemplo, perguntam como Paulo Freire tornou-se tão famoso no mundo?

Ele não falava em humanização, libertação e justiça social? Não queria um mundo mais justo? Mais humano? Mais democrático? Claro, como os nossos amigos iluministas.

Mas tem mais coelho nesse mato. Por exemplo, Paulo Freire, célebre comunista, foi bastante paparicado pela Igreja Católica que julgava o seu discurso humanizante e humanizador adequado para ela, a igreja. Mas como? Se a Igreja nunca gostou de discursos radicalmente de esquerda e sempre detestou o comunismo?

Agrada-lhe, porém, um certo discurso humanizante, espiritualizante. O discurso marxista de Paulo Freire foi sopa no mel para a Igreja. A Igreja financiou Paulo Freire no exílio, na época da ditadura militar, convidando-o a fazer palestras em várias universidades católicas da Europa para divulgar suas idéias. Assim ele ficou famoso no exterior. O fato de ter sido exilado foi mais um fator que aumentou a sua fama, fazendo dele um mito.

A sua pedagogia acabou virando metanarrativa, uma grande teoria que julga poder mudar o mundo. A pedagogia do oprimido fala na utopia, na esperança, é também chamada

pedagogia da esperança. Paulo Freire refere-se ao homem sendo um ‘ser mais’; acredita numa essência humana libertária, algo que pode libertar o homem da opressão; esse algo é o conhecimento da realidade, a conscientização dos problemas que a realidade apresenta.

Mas o pós-modernismo questiona esses problemas para que eles se apresentem assim. Desconfia deles antes de querer mudá-los. O pós não fala em progresso ou em melhorar o mundo através da tomada de consciência. Como se houvesse uma verdade já pronta para ser assimilada ou para que nos conscientizemos dela. Não. O pós questiona todos os processos de autoformação ou autodeterminação. Auto, auto, Alto lá! Que história é essa de auto determinação de Herbart? E essa autoconsciência de Paulo Freire?

De onde vem esses processos de olhar pra dentro de si? Se auto ver? Ver a própria consciência (autoconsciência) para ter mais consciência ou para consertar a consciência ? E essa autodeterminação, de onde vem isso? O que significa a gente se autodeterminar? Ser muito autodeterminado? Você já ouviu alguém falar que é autodeterminado? Aquela autodeterminação que Herbart espera dos alunos, que eles sejam autodeterminados a estudar, a memorizar, a progredir nos estudos. Você é autodeterminada?

Os garotos e garotas de Dewey também precisam ser bastante autodeterminados para construir um mundo democrático. E os meninos de Freire, haja

consciência para se libertarem da opressão! O pós-modernismo não acredita que possamos, mesmo ajoelhando e pensando muito, nos tornarmos autoconscientes de qualquer coisa. Aliás, o pós-modernismo acha que os processos de autoqualquer coisa são processos pastorais, de origem medieval, que pretende dar fórmulas para os seres humanos seguir e conquistar o céu.

Nietzche, um filósofo alemão do século XIX, já achava que se a igreja gostasse do ser humano, não tentaria mudá-lo, o transformando em outra coisa que não fosse ele mesmo. Ele desconfiava de tanta benevolência fraterna, num mundo dividido e regido por relações de poder. Ele foi a fonte de inspiração de muitos teóricos pós-modernos como Foucault e Lyotard, que estavam nos slides sobre pós-modernidade. O pós parece cruel, mas, na verdade, só quer tirar o véu da hipocrisia. Sem fazer o marketing de salvador da pátria, não apresenta soluções mágicas, mas apresenta o mundo como ele é, e não como deveria ser.

Os livros, o disquete, os slides de power point apresentados em sala de aula são artefatos culturais. Assim como o plano de ensino da disciplina também é um artefato cultural. O currículo também é um artefato cultural. A prova também é um artefato cultural.

As professoras acham que os artefatos querem ensinar algo a alguém, por isso as professoras preparam as aulas, discutem o assunto antes de entrar na sala, testam imagens para ilustrar o conteúdo. Pois há meninas que gostam de descobrir coisas novas e outras não, que negam que os novos tempos tenham mudado a pedagogia, como mudou todo o resto e evitam fazer associações mais arriscadas.

As professoras, pós-modernas como só elas, não julgam as alunas. Apenas as descrevem, visíveis pelas formas com que constroem seus trabalhos escolares, ou pelo jeito que respondem às perguntas da prova: algumas com palavras próprias, outras com palavras do texto... as professoras não fornecem um modelo de aluno para que elas sigam. Nem lhes fornecem os mesmos textos para que todas leiam as mesmas coisas. Mas no fundo, gostariam que as estudantes estudassem mais. As estudantes, talvez, também gostariam de estudar mais, mas, e a subjetividade pós-moderna deixa?

Vamos agora à teoria educacional pós-moderna (o mesmo autor da prova, Ghiraldelli).

Quais são os passos da educação pós-moderna?

Passo 1. O início do processo de ensino-aprendizagem segundo a postura pós-moderna se dá pela apresentação direta de problemas e situações problemáticas, ou mesmo curiosas e difíceis. Mas que tipo de problemas e situações problemáticas? Os problemas culturais, éticos, étnicos, de convivência entre gêneros, mentalidades e modelos políticos diferentes.

Esses problemas são apresentados por diversos meios: do cinema ao romance passando pelo conto, pelos gibis, pela música, pela poesia, teatro, cinema, publicidade, etc.

Na nossa aula, tentamos problematizar a questão da indústria do consumo que manipula nossos desejos e necessidades e nos ensina formas de ser feliz. Já comentamos sobre as mudanças ocorridas na família e na posição da mulher na sociedade, assim como a questão homossexual, que abordaremos com mais acuidade no segundo bimestre.

Passo 2. Na seqüência, o processo de ensino-aprendizagem visa relacionar as situações problemáticas e o problemas propriamente ditos com os problemas da vida cotidiana dos estudantes, dos seus avós e pais e, enfim, do seu grupo social ou familiar ou de amigos e até mesmo do seu país presente, passado e futuro. Aqui, o estudante é convidado a ser um personagem da narrativa contada no passo anterior e, ao mesmo tempo, um filósofo, isto é, segundo Nietzsche, um juiz dos desdobramentos internos da narrativa.

Muitas colegas, como a Viviane e a Noe, gostam de usar seus exemplos pessoais para discutir as questões apresentadas pelas professoras, e é por aí que a educação pós- moderna se constrói: com exemplos cotidianos, rotineiros, banais e profundos ao mesmo tempo.

Passo 3. Redescrição das narrativas nas quais os problemas estavam inseridos; isto através de outras narrativas, de ordem ficcional, histórica, científica e filosófica. O importante aqui é que o estudante perceba que essas narrativas que redescrevem aquelas não estão hieraquizadas epistemologicamente. Não há uma narrativa que aprende a realidade como ela é. Mas há, sim, em cada uma, jogos de linguagem distintos que estão aptos, pragmaticamente, para uma coisa e não outra. Se quero saber como uma nave espacial funciona um bom vocabulário é o dos físicos, mas se quero dizer para minha namorada como a nave atravessa os céus em uma noite estrelada creio que seria melhor um vocabulário ficcional seria pedante e inútil para o namoro a explicação física! Penso que aqui deveríamos ir de Júlio Verne! Mas o erro seria achar que no segundo caso estou no campo metafórico e no primeiro no campo literal e que ambos os campos estão nitidamente delimitados. Eles são vocabulários incomensuráveis, cuja distinção se dá pela utilização lingüística que o bípede sem penas faz deles.

Vamos beber de diferentes fontes e perceber suas nuances. Vamos descobrir que para cada intenção tem um texto adequado, e que um bom vocabulário e criatividade são fundamentais para fazer bonito. E que a linguagem não é um detalhe. É ali que tudo se concentra: paixão, saber, dor, crítica. Já falamos de programas de TV, anúncios publicitários, filme, desenhos, o que mais? Aceito sugestões.

Passo 4. Neste estágio o estudante é convidado, ele próprio, a propor sua narrativas de redescrição das narrativas em que estavam inseridos os problemas, e a discutir a pertinência delas com os colegas, com o professor e, enfim, com os livros e outros meios. Este é o momento de criação, de imaginação e, portanto, o auge do processo de criação de metáforas.

Está chegando a hora da gente chegar neste terceiro passo: a produção de narrativas. Vamos botar a cabeça pra criar, inventar, sem medo de errar?

Passo 5. Por fim, o que se tem é o recolhimento das idéias e sugestões vindas das narrativas e suas redescrições para a condução intelectual, moral e estética no campo cultural, social e político de cada um. Cabe aqui a ação política organizada, inclusive a ação política partidária. Mas é necessário lembrar que a própria formulação de uma narrativa e sua divulgação, a criação de uma nova metáfora que não só garanta direitos democráticos mas que invente outros direitos, já é uma ação política.

Aqui, o autor espera que os alunos façam alguma coisa desse conhecimento. Que partam para a ação. Que cada um seja um universo de possibilidades, senão originais, mas repaginadas para o novo milênio. Afinal, que educador não espera, inclusive os pós- modernos, que sua empreitada não seja em vão. Vamos encarar?

Bibliografia:

COLLODI, C. As aventuras de Pinóquio. São Paulo: Edições Paulinas, 1992.

GHIRALDELLI JR., P. O que é preciso saber em Filosofia da Educação e Teorias Educacionais. Rio de Janeiro: DPA, 2000.

NABOKOV, V. Lolita. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

RORTY, R. Contingency, Irony and Solidarity. Cambridge: Cambridge University Press, 1989.

Compreensão de Texto:

1- Por que a razão está desacreditada na teoria pós-moderna de educação? Dê exemplos cotidianos que reforcem sua opinião.

2- Por que a pedagogia moderna de Paulo Freire virou um paradigma? E por que a Igreja dava todo o apoio, apesar de ser totalmente avessa à esquerda, a qual participava Freire?

3- No que a teoria pós-moderna se diferencia das demais na questão dos passos a seguir?

4- O que você espera fazer pela educação tendo em vista as incertezas levantadas pelos teóricos pós-modernos? Qual o seu projeto profissional?

5- Que tipo de texto é atraente pra você? Pode ser texto escrito, falado, cantado. Que aspectos deste texto te atraem e como você poderia analisá-lo enquanto artefato cultural?

Comentário do site Isto é Gente

Nenhum a Menos

Vencedor em Veneza emociona com a história de uma professora

Neusa Barbosa

A aparente simplicidade da história pode enganar um

espectador mais apressado. Através da aventura singela de Wei (Wei Minzhi), adolescente de 14 anos transformada em professora-

substituta de uma aldeia, mergulha-se na estrutura social e política da China, dividida por conflitos entre o campo e a cidade, o arcaico e o moderno, de um modo surpreendentemente próximo ao do Brasil. Um menino (Zhang Huike) que abandona a escola e se perde nas ruas da cidade em busca de emprego lembra o Vinicius de Oliveira de Central do Brasil. Mas não é ele o herói deste ótimo filme. Que atire a primeira

pedra quem não se comover com a determinação da professorinha, incapaz de ser detida por pequenos ou grandes poderes para recuperar o aluno.

Vimos em nossos slides que o pós-modernismo não se afina muito com as definições das coisas pré-estabelecidas. O texto da última aula falava que o pós perguntava mais pelo funcionamento dos sujeitos, os processos que os constituem. O pós valoriza, portanto a noção de acontecimento e pergunta pelo funcionamento da coisa. Assim, não valem perguntas do tipo : ‘O que é um professor?’. O pós quer reinventar mundos, fazer tudo de novo, sempre e incessantemente. A sociedade nos dá representações prontas de homem, mulher, professor, artista, estudante de pedagogia, travestidas de identidades. Essa identidade é, no caso, uma configuração cristalizada, uma maneira de ser já definida que passa de mãe para filho, seja através da novela das oito, seja através de uma aula na universidade, seja através de um outdoor ali na esquina. Ou seja, através de artefatos culturais.

Se já tenho algumas definições do que é ser professor e de repente encontro um professor no corredor. Tenho dentro de mim expectativas de como esse professor deve se comportar e se ele furar os esquemas que tenho na cabeça, vou julgá-lo meio esquisito. Ao julgá-lo, eu construo para ele uma representação com a qual ele talvez não se identifique.

Assim, a nossa sociedade é extremamente violenta pela forma como prescreve e organiza a produção de sujeitos.

Segundo Moscovici, (JODELET, 2001) os meios de comunicação determinam fortemente o que pensamos acerca das coisas, especialmente no que se refere à condutas, através da opinião, atitude e estereótipo. A opinião é aquela visão parcial e pessoal que temos, mas que não tem um fundamento, é quase pretensioso. E o estereótipo é a imagem generalizada que se faz de tudo e de todos, presente, por exemplo, nas novelas de televisão, sempre com os mesmos personagens: a fofoqueira, a interesseira, a boazinha, o vilão, etc.

Os estereótipos prevalecem porque são fórmulas de aceitação fácil, baseada em clichês. Ou você nunca ouviu aquela velha história da pobre empregada que sobe na vida através de um casamento com um homem rico? Puro clichê televisivo. Como se a sociedade não estivesse em constante mudança, em processo.

Tanto o estereótipo, quanto o clichê e a caricatura (exagerar as características de modo cômico e/ou crítico) são baseados no senso comum, na idéia generalizada sobre as coisas. Tudo que a filosofia faz questão de fugir. A filosofia e a pós-modernidade quer ir além, desconstruindo representações cristalizadas. Por isso os produtos culturais pós- modernos desconstroem a imagem do amor perfeito, a família perfeita, o professor ideal, o macho viril, a mulher objeto. E aposta no diverso encontrado no cotidiano: a rotina do casamento, a negra intelectual bem sucedida, o bailarino não-gay, etc. Mostra que há um infinidade de modos de ser, sem moralismo e idéias pré-concebidas. Com final feliz ou não.

Como na vida.

Quando analisamos uma obra ou um autor, acontece a mesma tensão entre a essência do seu pensamento e o autor. Os autores ou os professores não podem ser analisados por nós como se tivessem uma idéia formada e acabada de si e do mundo.

Somos pessoas em processo. No sentido de estarmos acontecendo no mundo, nos relacionando socialmente e sendo interpelados diariamente pelos mais diversos produtos culturais. O filme Nenhum a Menos foi apresentado a vocês para refletirmos sobre nossa condição de educadores.

Que semelhanças e divergências encontramos sobre a figura do docente de

“Sociedade dos Poetas Mortos” e “Nenhum a Menos”? Aliás, como o diretor chinês buscou fugir dos estereótipos dos filmes sobre o docente e sobre os filmes asiáticos nessa obra? A professora chinesa, por exemplo, não é um exemplo de docente, nos moldes que vemos em outros filmes. Ela não tem nem formação na área, e não entrou nessa profissão por causa de um ideal humanitário, ela estava naquela situação por uma única razão: sobrevivência.

Fome Zero. Sua didática não era das mais avançadas, pudera, nem giz suficiente havia, quanto mais livros, tecnologia ou o que o valha. Um modo de ser no mundo longe do ideal, mas muito perto da realidade da maioria dos países do mundo. Ao ser descoberta pela mídia, no final de sua aventura na cidade grande, ela passa a ser existir num sentido macro, através da espetacularização de sua história, ela encontrou um lugar no mundo, encontrou legitimidade, um final feliz plausível.

Por exemplo, quando Graziela diz que nunca foi professora e não tem idéia de como será a sua prática profissional, achamos que de fato, não é necessário pensar o futuro de algo, pois o futuro não existe. Melhor é refletir o aqui e o agora. Como estou acontecendo como professora aqui e agora? O melhor lugar do mundo é aqui e agora (Gilberto Gil), nada mais pós-moderno. Por isso convidamos Graziela a se perguntar como está se preparando para ser professora aqui e agora, no acontecimento do curso de pedagogia. A pergunta do pós é: ‘Como e porque tenho sido o que tenho sido?’. Explica -nos Marcos Villela Pereira, professor de Pelotas (RGSul) em seu texto científico18:

A busca não está dirigida para responder à questão quem sou eu ou o que é ser professor, mas de outro modo, como me tornei o que estou sendo e como me tornei o que é ser professor. Ao invés de partir de uma construção no presente do indicativo (eu sou), parte-se do particípio e do gerúndio (tenho sido, estou sendo). Esta pequena mudança aparentemente inofensiva, é determinante da compreensão que vamos ter tanto do próprio processo de investigação (afinal, estamos no curso de pedagogia

18Pereira, M. V. Nos supostos para pensar formação e autoformação: a professoralidade produzida no caminho da subjetivação. In: Ensinar e apreder: sujeitos, saberes e pesquisa/ Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino (ENDIPE) – Rio de Janeiro, 2002. 2ª ed. P.23-41

No documento CECHOM Curso de Pós - Univali (páginas 175-200)