No Brasil, verifica-se o aumento do número de gravi- dez na faixa etária dos 10 aos 15 anos, que corresponde às duas primeiras fases da adolescência, acarretando uma maior vulnerabilidade aos riscos gravídicos2, ao se considerar o de- senvolvimento corporal. Nessa idade, o número de gestações vem aumentando e não segue a tendência de queda do resto da população (ALTMANN, 2007). Um grupo grande de ado- lescentes brasileiras apresenta uma segunda, terceira ou até quarta gestação sem planejamento, com frequência alta de re- petição ocorrendo após pequeno espaço de tempo entre elas (ALMEIDA; MAIA, 2015).
O fenômeno da gravidez não planejada nesse período traz a reflexão sobre o aborto provocado, que, apesar de proi- bido por lei no Brasil, é realizado na adolescência. Por sua proibição, o estudo claro sobre o tema não é fácil, sendo, as estatísticas, baseadas em estimativas e estudadas com sub- notificações. Estudos mostram que são altos os números de abortos inseguros, principalmente entre as mulheres em si- tuação de pobreza, que recorrem ao aborto clandestino como forma de “planejamento familiar”, verificando-se elevada taxa de complicações pós-aborto (BRASIL, 2006).
Assumir ou não uma gravidez, assim como o exercício de uma vida sexual ativa com o uso de métodos contraceptivos, são situações de crescimento e aprendizado de responsabili- dades e autonomia para as adolescentes. A maneira como as adolescentes brasileiras enfrentam as primeiras suspeitas de
2 Risco gravídico é a vulnerabilidade a agravos físicos, psíquicos e sociais a que estão expostos a gestante e o feto.
gravidez associa-se a duas situações: uma dependente do re- lacionamento prévio com os pais (da possibilidade de diálogo entre gerações e da atitude dos pais em relação à sexualidade) e outra do relacionamento existente entre os parceiros envol- vidos (CORREIA; MAIA, 2009).
O aborto provocado é problema de saúde na América Latina, e as estatísticas sobre mortalidade, relacionadas com hospitalizações, assinalam-no como uma das principais causas de morte de mulheres no Brasil. A mortalidade decorrente do aborto, na maioria das vezes, ocorre entre mulheres solteiras ou separadas, o que revela desigualdades dos efeitos danosos da clandestinidade e criminalização do aborto, que alcança uma parte mais vulnerável da população: mulheres jovens, pobres, negras, com baixa escolaridade e com menor acesso às informações necessárias (MARTINS; MENDONÇA, 2005).
O número de abortamento espontâneo não é diferen- te de uma população para outra, no entanto os percentuais referentes aos abortos induzidos são divergentes entre os países e os diversos grupos sociais e étnicos. Nos locais onde o ato é legalizado, os registros são mais confiáveis do que nos lugares onde o ato é ilegal. Países desenvolvidos apresentam uma diminuição nos números de gravidez e abortamento pro- vocado na adolescência; países em desenvolvimento, todavia, mostram alta prevalência de abortos e baixo uso de métodos contraceptivos nessa fase (SEDGH; HENSHAW; SINGH; ÅHMAN;
SHAH, 2007).
Mesmo nos países onde os métodos contraceptivos estão facilmente disponíveis, como no Brasil, o número de gravidez não planejada é alto e parte delas termina em abortamento provocado. São várias as razões que levam uma mulher a pro- vocar um aborto e geralmente estão associadas com a idade, o fator socioeconômico e o número de filhos. As adolescentes o praticam porque são ainda estudantes, dependentes eco- nomicamente dos pais, ou porque foram abandonadas pelos companheiros (DINIZ; CORRÊA; SQUINCA; BRAGA, 2009).
Pattis (2000) afirma que o aborto em si não existe, o que existe são as pessoas que abortaram. Este fenômeno multifa- cetado exige um olhar especial para poder se escutar tudo o que as pessoas praticantes de tal ato têm a revelar. Sabe-se que, apesar da ilegalidade do aborto trazer consequências para a saúde das mulheres, ela pouco impede sua prática, sendo os riscos dessa clandestinidade mais frequentes entre as mulheres menos favorecidas financeiramente, entre as adolescentes e entre aquelas que não têm acesso fácil aos re- cursos médicos e a uma saúde reprodutiva adequada (PERES;
HEILBORN, 2006).
O aborto destaca duas questões: uma sobre a legiti- midade – visto que geralmente é reprovado em princípio e tolerado na prática – e outra relacionada à sua generalidade e visibilidade – conhecido e frequente, o aborto é raramen- te representado. Diferenças sociais e econômicas no Brasil mostram trajetórias diferentes para adolescentes: se por um lado uma parcela da população fica excluída de seus direitos, outros grupos mais favorecidos economicamente apresentam
um prolongamento da juventude com o aumento do tempo de estudo e a manutenção da coabitação com os pais e atraso da autonomia financeira. Isto pode se refletir na situação de risco em relação ao aborto provocado.
Quando não estão devidamente preparadas, as adoles- centes buscam no abortamento uma saída para a situação de conflito em que se encontram. A anticoncepção de emergên- cia ou a pílula do dia seguinte, como é leigamente conhecida, é disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde brasileiro e uti- lizada com o objetivo de prevenir a gravidez indesejada em situações excepcionais. As adolescentes, todavia, usam este recurso de forma indevida, rotineiramente, em substituição a outros métodos anticoncepcionais.
Diversos são os motivos apontados por adolescentes para praticarem o aborto. A razão mais encontrada em um estudo com adolescentes dos 12 aos 18 anos, realizado em Maceió, entre estudantes de escolas públicas e privadas, foi o medo da reação dos pais quando soubessem da gravidez, sendo este o motivo único ou associado a outros como: ser muito nova, filho cedo limita a vida, companheiro não ter acei- tado nem a gravidez, nem o filho (CORREIA et al., 2011).
A inadequação dos serviços de saúde para atender às adolescentes bem como o desconhecimento destas sobre os aspectos relacionados à sua saúde reprodutiva são aspectos relevantes neste contexto quando se pensa na prevenção aos riscos do abortamento provocado. Agregados a esses aspectos, o exercício irregular das relações sexuais e a alternância dos
ciclos menstruais, geralmente irregulares na faixa etária dos 12-15 anos, fazem com que algumas jovens tenham dificuldade em admitir que estejam grávidas antes do primeiro trimestre de gravidez. Este avanço na idade gestacional leva a uma situa- ção maior de risco, caso a adolescente opte pelo aborto.
Deduz-se que, pelo fato de estarem frequentando uma escola, é possível que tenham recebido informações sobre os aspectos preventivos para a saúde reprodutiva, questão que exige uma reflexão sobre a eficácia dessas informações para evitar a gravidez não planejada e o consequente abortamento que aparecem no estudo de Correia et al. (2011). A influência da desigualdade social nesse quesito foi comprovada pelo maior número de abortos provocados estarem nas escolas públicas.
Adolescentes que contam com o apoio dos pais e com a possibilidade de diálogo com eles sobre sexo começam a vida sexual mais tarde e, caso engravidem, conseguem, por meio do diálogo com os responsáveis, tomar uma atitude mais ade- quada a sua situação, o que leva a diminuição de traumas e riscos que o aborto provocado acarreta, além da manutenção da gravidez e do não abandono da escola.
A menor frequência de citações do aborto nas escolas particulares pode ser devida, em parte, à dificuldade em falar sobre a sexualidade e os aspectos que a envolvem, fato que pode ter ocorrido nessas escolas. Sabe-se que, quanto maiores forem as censuras internas e os tabus sobre o tema – como é o caso dessa temática estudada –, maiores serão os entraves para sua verbalização (CORREIA et al., 2011).
A adolescente ainda está aprendendo a assumir respon- sabilidades; logo, assumir a tomada de decisão é difícil, o que é verificado através dos motivos citados para o abortamento.
Poucas adolescentes são capazes de assumir o abortamento por não desejarem a gravidez, enquanto que a maioria delas expõem motivos relacionados ou associados à reação de outras pessoas no tocante a sua gravidez, quando aparecem as figuras dos pais e companheiros como elementos impor- tantes nesse contexto.
Destaca-se a importância do papel do pai e o peso da sua influência na decisão da adolescente em manter ou não a ges- tação. Isso comprova a relevância dos estudos sobre gênero masculino, uma vez que a concepção, apesar de ser constan- temente atribuída apenas à responsabilidade da mulher, é um ato realizado a dois: homem e mulher.
O aborto é uma violência em relação à maternidade, os sentimentos de culpa que advêm de sua provocação, o luto e o corpo ferido abalam uma mulher. Medidas preventivas e esclarecedoras devem acontecer em âmbito doméstico e escolar, a fim de que traumas físicos e psicológicos não impeçam o adequado desenvolvimento e a saúde reprodutiva das adolescentes.