Salienta-se que as informações que estruturam este capítulo são resultado de pesquisas feitas nos sites das organizações e nos documentos selecionados para análise. Estruturou-se este capítulo da seguinte forma: contextualização sobre as redes que compõem as organizações Banco Mundial (seção 3.1) e ONU (na seção 3.2) divida nas subseções: UNESCO, UNICEF e Comissão de Educação da ONU (nas seções 3.2.1, 3.2.2 e 3.2.3), e as redes políticas que as organizações estabelecem no âmbito das relações externas com os experts (profissionais e organizações) e entre si para elaboração do discurso da crise de aprendizagem (detalhadas no Capítulo 4).
Quadro 10 – Grupo Banco Mundial: instituições e suas relações com atores políticos GRUPO BANCO MUNDIAL
Objetivo geral: “acabar com a pobreza extrema no decorrer de uma geração e promover a prosperidade compartilhada” (BANCO MUNDIAL, 2020d, n.p.).
Sigla/Ano
de fundação BIRD
1944 IFC
1956 IDA
1960 ICSID
1966 MIGA
1988
Como atua?
Assistência, consultoria, financiamentos, influência de políticas por meio de intercâmbio de conhecimentos, gestão de dívidas e de ativos, venda de
“produtos financeiros”:
empréstimo, consultoria e gestão da dívida pública ou de ativos.
“Mobilização” de
investimentos, consultoria e venda de produtos e aumento da lucratividade em empresas do setor privado.
Gerencia o fundo para países pobres gerado pelo BIRD. Faz empréstimos com juros baixos aos países pobres que não conseguem aceder aos empréstimos do BIRD.
Realiza consultorias e treinamentos.
“Arbitragem”, mediante pagamento, de disputas entre investidores internacionais e governos de países.
Gerencia o investimento entre países, a movimentação de mercados internacionais e articula projetos executados pela IDA.
Como se relaciona com atores políticos dos
países?
(1) 189 países membros: os países com renda média são divididos em
“clientes”, países “acionistas”,
“países pobres com capacidade de crédito”, “países mutuários em necessidade” (sem capacidade de pagar as taxas de crédito do BIRD).
(2) Número não definido de empresas e investidores do setor privado denominados “parceiros”.
(1) 185 países membros divididos em “países clientes”;
“países investidores”.
(2) Número não definido de
“Empresas clientes”,
“investidores de longo prazo”,
“clientes”, “stakeholders”
(acionistas).
(1) 173 países “acionistas”,
“países acionistas supervisores”; “países mutuários”, “países doadores”.
(2) Número não definido de
“parceiros” do setor privado.
(1) 154 “estados” membros divididos em “estados signatários” e “estados contratantes”.
(2) Número não definido de investidores do setor privado.
(1) 182 países membros divididos em 157 “países em desenvolvimento” e 25
“países industrializados”, dentre esses e aqueles, muitos países são “acionistas.
(2) Número não definido de
“investidores do setor privado” e “credores do setor privado”.
Propósitos Desenvolver a economia de países. Desenvolver o setor privado. Empréstimos e consultorias para países pobres.
Mitigar riscos e desacordos comerciais.
Movimentação do mercado internacional pela “criação de mercados”, lançamento de
“padrões de performance” e estratégias.
Fonte: Elaborado pela autora, em 2020, com dados coligidos nos sites das organizações selecionadas: BIRD (2020), IFC (2020), IDA (2020), ICSID (2020) e MIGA (2020).
Nota: Todas as palavras e termos escritos entre aspas (“”) são citações diretas dos sites.
comumente conhecido, não é apenas uma instituição financeira, mas, sim, um grupo de instituições financeiras que, de formas diversas, trabalham em torno de um objetivo que parece ser o verdadeiro centralizador dessas instituições: atuar no desenvolvimento da economia de países e de empresas parceiros. A data de fundação das instituições, em sua ordem, possibilita compreender a reestruturação do grupo à medida que as necessidades de mercado foram surgindo: 1) financiamento para reestruturação dos países – BIRD, 1944; 2) chamada de novos clientes e novos parceiros: abertura para que o setor privado atue também como investidor ou financiador – IFC, 1956; 3) segunda chamada para novos clientes e clientes para os novos parceiros: prestação de serviços econômicos para países pobres – IDA, 1960; 4) arbitragem entre as disputadas econômicas que surgiram das relações econômicas diversas – ICSID, 1966; 5) gerenciamento com foco na movimentação do mercado internacional – MIGA, 1988. A forma como acontece a relação das instituições com atores políticos dos países, no Grupo Banco Mundial, possibilita compreender que, para acabar com a pobreza dos países e estimular a prosperidade, na perspectiva do Grupo, é preciso que sejam estabelecidas parcerias entre governos e setor privado, sejam lançados padrões globais de desenvolvimento e performance de busca pela inovação, que o setor privado seja fortalecido e que se amplie a oferta de mão de obra qualificada para esse mercado e, sobretudo, que a prosperidade é uma consequência do aumento da movimentação econômica dos países.
A relação do Grupo com os atores políticos dos países acontece por meio de parcerias com governos, Organizações não governamentais (ONGs), organizações privadas, instituições, instituições privadas, investidores e empresas para venda de produtos, suporte técnico, serviços de consultoria, assessoria, pesquisa de políticas, análise de políticas e financiamentos que acontecem por meio de agenciamento do BIRD ou do IDA e suas redes de conexões entre atores de diversos países. Além disso, o Grupo patrocina, hospeda e participa de conferências e fóruns que tratam de desenvolvimento de clientes e suas economias; compartilha com clientes os conhecimentos adquiridos com os projetos aplicados, a fim de apresentar um mapeamento mundial de resultados; trabalha com governos de países para que estes possam fornecer resultados mensuráveis que os tornem aptos para a participação no mercado mundial; e dá segurança aos investidores, por meio das estratégias e serviços prestados pela MIGA (BANCO MUNDIAL, 2019a).
No Quadro 11, a seguir, destacam-se a abrangência de atuação e as estratégias neoliberais adotadas por essas instituições.
Quadro 11 – Grupo Banco Mundial: abrangência e estratégias neoliberais para atratividade de clientes GRUPO BANCO MUNDIAL
Abrangência: Envolvimento em projetos nacionais e globais que atuem frente à extração de recursos naturais para geração de fonte de energia (estruturação de usinas e extração de petróleo), saneamento de água, serviços de saúde, ampliação da indústria da agricultura e reformas na Educação Básica; Estratégias de governança sobre seus clientes para aplicação de estratégias que otimizem sua atuação no mercado; Influência no clima de negócios internacionais pela atuação frente às disputas políticas econômicas entre países e setor privado; Promoção e/ou condução de reformas em governos e em instituições privadas (BANCO MUNDIAL, 2020d).
INSTITUIÇÃO BIRD IFC IDA ICSID MIGA
Estratégias neoliberais para
atratividade de clientes
Estabelece uma relação de clientela com o governo dos países.
Impulsiona e “conduz”
reformas nos governos com incentivo para aumento da “participação do setor privado”.
Divulga problemas da economia dos países e lança estratégias e produtos para superá-los.
Posiciona-se como um veículo de transferência de conhecimento global.
Estabelece uma relação de clientela com o governo dos países.
Dedica-se exclusivamente ao setor privado.
Gera impacto econômico e social nos países pelas parcerias com o setor privado (e seus interesses).
Mobiliza recursos de diferentes parceiros para execução de projetos políticos.
Apoio ao setor privado.
Oferta de um “Mecanismo de Resposta a Crises” aos países pobres.
“Desenho de políticas”.
Oferta treinamentos diversos para o governo dos países mutuários.
Lança estratégias de governança.
Atua nas relações de investimentos entre governos e setor privado.
Reafirma a ideia de que é uma “instituição
independente e apolítica”.
Atua na “dissuasão” de ações de governos que atrapalhem projetos a serem executados pelas demais instituições do grupo.
Faz consultorias de reformas em governos e empresas pró o
conhecimento de mercado e aplicação de
“melhores práticas internacionais para gestão”.
Fonte: Elaborado pela autora, em 2020, com dados coligidos nos sites das organizações selecionadas: BIRD (2020), IFC (2020), IDA (2020), ICSID (2020) e MIGA (2020).
Nota: Todas as palavras e termos escritos entre aspas (“”) são citações diretas dos sites.
caráter multilateral por atender tanto a objetivos do setor público quanto do setor privado.
Diferentemente do que é apresentado no site das instituições do grupo, evidencia-se que são estreitas as relações que elas estabelecem umas com as outras, como é o fato do BIRD e da IDA que compartilham da mesma equipe de funcionários e de a MIGA ser a instituição que gerencia projetos da IDA. Em relação às estratégias neoliberais de atratividade aos clientes expostas a partir da leitura crítica sobre os sites, observa-se que os focos de atuação do grupo se centram predominantemente em orientações do ponto de vista econômico-financeiro, vinculados à prestação de serviços educacionais, tais como consultorias e assessorias.
Além das instituições citadas, o Grupo Banco Mundial conta com o apoio do Grupo Independente de Avaliação (IEG), que avalia o desempenho do Grupo e a implementação de programas nos países; e com o Painel de inspeção, que avalia pedidos de investigação sobre serviços prestados aos países, atua na resolução de problemas entre o Grupo e os governos dos países. Por esse motivo, pesquisadores, tal como Pereira (2010), defendem que a organização é composta, na verdade, por sete instituições.
Os sites das instituições que compõem o Grupo Banco Mundial possibilitam evidenciar as relações de parceria – para implementação de projetos, para realização de pesquisas, para realização de eventos e para a elaboração do discurso da crise de aprendizagem – com atores do setor privado e/ou organizações não governamentais que, por sua vez, se relacionam ao setor privado. Nesse sentido, Pereira (2010) contribui para o entendimento de que essas relações constituem redes políticas ao pontuar que
[...] o Banco age, desde as suas origens, ainda que de diferentes formas, como um ator político, intelectual e financeiro, e o faz devido à sua condição singular de emprestador, formulador de políticas, ator social e produtor e/ou veiculador de ideias em matéria de desenvolvimento capitalista, sobre o que fazer, como fazer, quem deve fazer e para quem fazer. (PEREIRA, 2010, p. 29).
Esses e outros ‘atributos’ colocam a organização em uma condição de atuação política em destaque no cenário mundial, que se utiliza de debates e de interesses sobre bens comuns, como é o caso da educação, para defesa de reformas articuladas por suas redes. Nessa perspectiva, essas redes de relações são estratégicas, pois possibilitam que a organização possa manter-se como detentora da experiência mundial e centralizadora das discussões sobre desafios políticos, mantendo ainda o título de uma organização independente.
Desenvolvimento. Desde então, os relatórios objetivam retratar como a economia mundial se encontra, a partir de pesquisas realizadas por suas empresas parceiras ou extraídas dos projetos em ação nos países. O conteúdo dos documentos consiste basicamente em: divulgação de padrões de vida, índices de bem-estar econômico e social e métricas sobre a educação, nomeados pela organização, desde 1980, como indicadores de desenvolvimento (ARENAS; TRUJILLO, 2020). Especialmente, para o contexto educacional, o Grupo lançou em 2018 seu primeiro relatório com olhar voltado
“unicamente” para a educação mundial (BANCO MUNDIAL, 2018b). Nesse relatório e nos anteriores, a educação recebeu análises a partir de dois indicadores: número de matrículas e índices de alfabetização, chamados, pelo grupo, de “resultados da aprendizagem”. Na seção a seguir, é apresentada a rede de atores políticos que compõe a ONU.