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HISTÓRICO DA CORRETAGEM NO BRASIL

A profissão de corretor de imóveis no Brasil é bem antiga, vindo desde o tempo da colonização54.

As intermediações ganharam força e avançaram quando a coroa portuguesa desembarcou no Rio de Janeiro. Nessa época, a família real foi alojada em três prédios no centro da cidade, desalojando o Vice-Rei, Condes e as irmãs Carmelitas. Os demais agregados se espalharam pela cidade em residências confiscadas da população55.

De acordo com Gildásio Lopes Pereira56, em seu livro intitulado “Seleta do agenciador imobiliário”, este afirma:

53 BORTOLEZE. Adriane Gonçalves. A evolução da profissão de corretor de imóveis no Brasil [monografia do curso de gestão imobiliária]. p. 4

54 RAPOSO, Alexandre. Situações jurídicas da profissão de corretor de imóveis. 2 ed. São Paulo: editora Imobiliária. 1995. p. 8

55 http://veja.abril.com.br/200607/p_114.shtml, acesso em 10 de abril de 2008

56 http://www.cofeci.gov.br/pagInternas/profissao/inicio.php?secao=02, acesso em 10 de abril de 2008

O Rio de Janeiro era um pequeno burgo de ruas estreitas, cobertas de mato e iluminadas a candieiro de óleo de baleia.

Mal podia acolher a Família Real. Quando a numerosa caravana ali chegou, viu-se que não havia moradia para ela.

Então, o próprio Príncipe-Regente mandou requisitar as casas de residência dos habitantes da cidade. Enxotava os moradores e mandava pintar as fachadas das casas as letras maiúsculas 'PR' (Príncipe Real) que os despejados traduziam como 'Ponha-se na Rua', ou 'Prédio Roubado.

Sobre tal época, o historiador Boris Fausto57, comenta:

A vinda da família real portuguesa deslocou, definitivamente, o eixo da vida administrativa da colônia para o Rio de Janeiro, mudando, também, a fisionomia da cidade. Entre outros aspectos, esboçou-se ai uma vida cultural. O acesso aos livros e uma relativa circulação de idéias foram marcados distintivos no período. Em setembro de 1808, veio a público o primeiro jornal editado na colônia; abriram-se também teatros, bibliotecas, academias literárias e científicas para atender aos requisitos da Corte e de uma população urbana em rápida expansão. Basta dizer que, durante o período de permanência de Dom João IV no Brasil, o número de habitantes da capital dobrou de cerca de 50 mil a 100 mil pessoas.

Há entre os manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro uma representação não datada dos moradores da cidade contra a subida dos alugueis; provavelmente dos primeiros anos da nova era58:

Dizem os moradores desta cidade, que pela injusta ocupação dos franceses em Portugal, passando grande parte de Vassalos de Vossa Alteza Real a esta cidade, onde se veio estabelecer a metrópole do Reino, tirarão os proprietários dos prédios urbanos deste sucesso, e do desarranjo em que estavam pretexto, para fazer subir os aluguer a hum preço excessivo, correspondente a sua desmedida e irregular

57 FAUSTO, Boris. História do Brasil. ed. São Paulo: editora da Universidade de São Paulo:

Fundação do Desenvolvimento da Educação, 1998. p. 125

58 MALERBA, Jurandir. A corte no exílio: civilização e poder no Brasil as vésperas da independência (1808-1821). São Paulo: Companhia das letras, 2000. p. 282.

ambição, de sorte que alguns dobraram o preço em que antes andava cujo procedimento foi ainda mais escandalozo, depois da Lei da imposição da Décima, porque pra illudirem a Sábia Providência, que a mesma lei tornou da igualdade desta impozição, fazem tão excessiva e intolerável aos inquilinos, que em lugar de 10’’ por cento, que pagão, exigem 50’’ 60’’ e alguns tem chegado ao dobro [...].

Muitos se aproveitaram da situação em que o rei requisitou a maioria dos imóveis pra seu séqüito; segundo os próprios moradores nesse documento, tendo era agravado com a presença dos ingleses, que inflacionavam ainda mais o mercado pagando qualquer preço pedido59.

Com esse crescimento da cidade do Rio de Janeiro, a necessidade de moradia era premente. Começou a nascer, então, uma nova profissão, a de agente de negócios imobiliários.

No início, conforme o Conselho Federal dos Corretores de Imóveis (COFECI)60 eram comerciantes locais que passavam a ter seus rendimentos aumentados com a intermediação imobiliária, ou então leiloeiros que se especializaram nesse ramo.

Ainda conforme o COFECI, esses agentes imobiliários passaram a utilizar os anúncios nos jornais, que perdura até os dias atuais, para divulgar suas ofertas e a sola dos sapatos para identificar os vendedores e deles adquirir a autorização para a venda.

O desenvolvimento das cidades fez com que a comercialização de imóveis, por intermédio dos anúncios em jornal, se tornasse constante, passando a existir como forma de vida, como profissão.

59 MALERBA, Jurandir. A corte no exílio: civilização e poder no Brasil as vésperas da independência (1808-1821). p. 283

60 http://www.cofeci.gov.br/pagInternas/profissao/inicio.php?secao=03

Como não existiam cursos de formação relativos à área, a escola da vida acabou formando os primeiros profissionais, que passaram a viver exclusivamente da intermediação imobiliária.

A cidade do Rio de Janeiro começa a mudar radicalmente a sua forma urbana, as mudanças são substanciais tanto na aparência quanto no conteúdo da cidade. Impõem-se não só novas necessidades materiais que atendam aos anseios de uma nova classe social como também, facilitem o desempenho das atividades econômicas, políticas e ideológicas que a cidade passa a exercer61.

Importante lembrar que não foi somente o Rio de Janeiro que se desenvolveu. No Brasil, na segunda metade do século XIX, ocorreram transformações econômicas e sociais. A produção do café cresceu, o tráfico negreiro foi extinto, imigrantes europeus começaram a chegar no país, iniciou-se o desenvolvimento industrial brasileiro e a escravidão foi abolida. Essas mudanças acabaram diversificando e modificando a organização social do país62.

Já nas últimas décadas do século XIX, foi a vez da classe média brasileira crescer. Ela era formada basicamente por médicos, advogados, padres, militares, estudantes, funcionários de escritórios e bancos e outros profissionais liberais. 63

Graças a esse desenvolvimento, o mercado imobiliário expandiu e tornou-se uma atraente e progressiva fonte de investimentos, fazendo com que a profissão de corretor de imóveis fosse fortemente defendida. Um de seus maiores defensores foi o deputado federal Ulisses

61 SANTOS, Helena Mendes dos. Um tipo de habitação popular no centro do Rio de Janeiro: a

"Avenida Modelo”. Acesso em 12 de dezembro de 2007.

http://www.rj.anpuh.org/Anais/2004/Simposios%20Tematicos/Helena%20Mendes%20dos%20Sa ntos.doc

62 PILETTI, Nelson. História & vida integrada. Editora Ática. São Paulo: 2002. p. 187

63 PILETTI, Nelson. História & vida integrada. p. 188

Guimarães, o qual apresentou, em 1951, o projeto de lei à Câmara dos deputados, assim justificando seu entendimento64:

O corretor de imóveis, tal como de fundos públicos, mercadorias, navios, etc. é hoje, nos centros organicamente evoluídos e diferenciados, indispensável para a organização econômica do mundo dos negócios, sem o qual não poderiam ser conduzidos eficientemente. No Brasil, onde ainda é rudimentar a organização econômica, só há quinze anos é que fundaram os dois primeiros sindicatos do Rio e São Paulo. O volume das operações imobiliárias nesses dois grandes centros, onde mais sensivelmente se fazia utilidade e mesmo a necessidade do corretor especializado no trato de operações desta natureza, é que possibilitou esta regulamentação.

Esta lei veio para tratar de uma necessidade, tendo em vista não só a defesa dos interesses profissionais e morais do corretor, como também e principalmente, a dos interesses das partes que mais participam das operações.

Com a fundação dos Sindicatos tivemos a possibilidade de constatar a profunda anarquia reinante neste setor da vida econômica. Refiro-me à anarquia que resulta das lacunas existentes na legislação em geral e, sobretudo, da instabilidade profissional, criando um ambiente de insegurança para as transações imobiliárias de maior vulto e principalmente para as que recorrem às subscrições populares65.

É preciso que seja regulamentada a profissão do corretor de imóveis. Esta regulamentação deve ter em vista estabelecer condições morais, profissionais e gerais, estabelecendo e criando a responsabilidade profissional. Nesse sentido, prevê em seus artigos 1º, 2º e 4º a emissão de carteiras de identidade, mediante a exibição do certificado de habilitação

64 http://www.cofeci.gov.br/pagInternas/profissao/inicio.php?secao=09, acessado em 19 de dezembro de 2007

65 http://www.cofeci.gov.br/pagInternas/profissao/inicio.php?secao=09, acessado em 19 de dezembro de 2007

profissional e idoneidade moral, sujeitos, nos expressos termos dos artigos 1º, 16º e 17º, à orientação e fiscalização do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio.

No capítulo da especialização profissional, ao lado das atribuições do corretor, veda expressamente o abuso na especulação da compra e venda de imóveis. São disposições essas do mais elevado alcance. A identificação do corretor de imóveis, fixando-lhes suas atribuições e estabelecendo as condições morais e profissionais que precisa preencher para o exercício da profissão, é uma necessidade, tendo em vista não só a defesa de seus interesses econômicos, como também de seus clientes.

Indivíduos sem qualquer título de idoneidade moral e profissional, sem escritório onde tratar de seus negócios, emboscados no fisco, inculcam-se de um dia para outro corretor de imóveis, trazendo não raros prejuízos ao verdadeiro corretor e às partes que nele confiam. O mau conceito que eles justificam estende-se igualmente sobre toda uma classe que, dentro da lei vigente, não exerce poder fiscalizador sobre seus associados66.

Os corretores não podem pretender apenas direito a ter, exclusivamente, o pagamento das comissões, senão também e, sobretudo, responsabilidades, assim como tantas outras profissões já regulamentadas.

Daí a necessidade urgente de regulamentação da profissão, delimitando a capacidade dos agentes, os círculos das operações, a forma e modo de execução do encargo, garantias, deveres e responsabilidades do intermediário. Se os há (e felizmente em grande número) de sisuda e inatacável correção, existe também uma escória de zangões e atravessadores perigosos.

66 http://www.cofeci.gov.br/pagInternas/profissao/inicio.php?secao=09, acessado em 19 de dezembro de 2007

Não pretendem os corretores, porém, um regime fechado de privilégios, incompatível com os postulados da ordem econômica do país, mas um regime da mais franca concorrência entre indivíduos ciosos de seus direitos e deveres, que possam concorrer pela sua formação moral e intelectual para o desenvolvimento dos negócios e elevação da classe no conceito público. Não estão assim impedidos de exercer a profissão de corretor de imóveis todos os brasileiros e estrangeiros em exercício, sem distinção de sexo, em pleno gozo de seus direitos civis e políticos, de comprovada habilitação profissional e idoneidade moral. Apenas o exercício da profissão tem que ser fiscalizado. Por isso, considerando que o vulto das transações imobiliárias representa hoje fator de grande importância na vida econômica nacional, pelos capitais investidos na compra, venda e financiamento de imóveis67. Assim, e levando em considerações os elementos a seguir apresentados, foi aprovada em agosto de 1962, a primeira lei de regulamentação da profissão do corretor de imóveis.

Considerando que o vulto das transações imobiliárias determinou o desenvolvimento do comércio, de importantes indústrias à elas direta ou indiretamente ligadas, nas quais inúmeros profissionais empregam suas atividades;

Considerando que ao Governo compete orientar e amparar todas as atividades e esforços que representa, interesses para a coletividade;

Considerando que o Governo tem sempre procurado regulamentar o exercício das profissões logo que se faz sentir a influência de cada uma delas na vida da nação, com o objetivo de sistematizar as atividades dos indivíduos de modo a permitir a todos os cidadãos, devidamente habilitados e credenciados, o exercício legal da profissão que escolherem;

67 http://www.cofeci.gov.br/pagInternas/profissao/inicio.php?secao=09, acessado em 19 de dezembro de 2007

Considerando que a ação do corretor de imóveis tem hoje influência especial sobre as transações imobiliárias, não só coordenando a oferta e a procura e participando eficazmente dos planos de loteamento de terrenos e, principalmente, de incorporações de grandes edifícios, como também através de fatores indiretos decorrentes de sua própria formação moral e intelectual;

Considerando que o ritmo das transações imobiliárias tem sido perturbado pela intromissão de grande número de intermediários eventuais que não exercem usualmente e com proficiência a atividade profissional de corretor de imóveis;

Considerando que esta facilidade de multiplicação de intermediários eventuais tem redundado em prejuízo para o público, particularmente para os vendedores e compradores de bens imóveis e, em geral para a grande massa de cidadãos que não têm casa própria, de vez que a valorização fictícia dos imóveis é quase sempre obra e efeito de intermediários eventuais, que assim tem ocorrido para o desnivelamento do padrão de vida nas grandes cidades, além de causarem entraves à realização das transações, devido à insegurança que sentem compradores e vendedores, em face de credenciais dos intermediários;

Considerando, finalmente, que a necessidade de regulamentação da profissão de corretor de imóveis foi perfeitamente sentida pelas Classes Produtoras Nacionais e consignada nas recomendações de sua II Conferência, sobre a necessidade de caracterizar e individualizar perfeitamente as figuras jurídicas do representante comercial e do Corretor de Imóveis, a fim de que sejam dadas às suas atividades os respectivos estatutos e garantias“.

Com o passar dos anos e o empenho de vários deputados, entre eles Ulisses Guimarães, em 27 de agosto de 1962 foi aprovada a lei 4.116. Porém, mais tarde esta lei foi revogada e a situação dos corretores só foi resolvida com a edição da lei 6.530 de 12 de maio de 1978.

Esta, portanto, é a legislação que rege os preceitos básicos da intermediação imobiliária no Brasil.

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