4.2. Análise do material coletado
4.2.8 Horizontalidade, informalidade e protagonismo
falta de propósito do trabalho e na sua ineficiência168. Também diante das consequências deletérias do sistema penitenciário para a vida das pessoas encarceradas, de suas famílias e de seus amigos, na medida em que não cumpre sua função ressocializante169, e pela compreensão, na associação com a empiria de educar punindo na socioeducação, de que o paradigma punitivo é limitado170.
Apenas pontualmente verificou-se o discurso deslegitimante da prisão de forma mais pronunciada. Nesse aspecto, é interessante relevar que a crítica não foi feia apenas a partir das premissas abolicionistas171, mas abordada mesmo ante à compreensão de que não seria necessária a associação entre minimalismo e justiça restaurativa: “Isso [prisão] não é bom para a sociedade, isso é, para mim, a maior falácia do direito penal, de que as pessoas têm que ser isoladas para elas poderem fazer bem para a sociedade, isso não existe.” (e.10, serviço público).
Diante do desconforto de considerável parte da amostra em validar teorias abolicionistas e minimalistas, apesar do reiterado discurso de crise e insatisfação com o sistema penal tradicional, pragmaticamente, não parece uma estratégia de convencimento adequada a menção expressa a tais teorias como uma premissa restaurativa, particularmente para fins de apresentação e execução de projetos que dependerão de derivação, já que são assuntos sensíveis e que podem gerar mais resistência e preconceito à adesão do novo paradigma proposto do que simpatia.
decorrente da devolução do conflito às partes é indispensável para que se compreenda os limites e as possibilidades para uma justiça restaurativa brasileira. Seja pela ausência da ritualística já conhecida, seja pela diminuição do poder de decisão acerca de como será resolvido o conflito, cuida-se de uma pequena revolução copernicana na prática dessa burocracia de nível de rua.
O problema, particularmente as relações interpessoais de autoridade, parece uma questão lateral, menos explorada na teoria, ainda que diante do valor não-dominação, mas foi muito mencionado na perspectiva prática e gerou inquietação entre os entrevistados. É possível que tal assimetria entre teoria e reflexão prática se justifique pela influência, na produção teórica brasileira, da literatura estrangeira a respeito do tema, especialmente de países centrais172, locais em que as relações de verticalidade e de autoridade talvez não reverberem na cultura e na sociedade como no Brasil, de modo que não seja uma preocupação tão relevante em tais formulações teóricas.
Para tratar do tema, no questionário e nas entrevistas, foi utilizado o termo horizontalidade, de semântica conhecida pelos participantes do curso como um modo de evitar posições de autoridade dentro do processo restaurativo, que pode ser ilustrado com a abolição do uso da palavra doutor para se referir a autoridades e advogados.
O questionário abordou o ponto de forma ampla. Uma primeira proposição se referia à horizontalidade e à menor formalidade como uma dificuldade para a implementação da justiça restaurativa, afirmativa reconhecida como verdadeira por 18 respondentes (13 concordando totalmente e 5 parcialmente). Com uma concordância discretamente maior de 22 pessoas (8 totalmente e 14 parcialmente) foi a asserção de que a perda do protagonismo dos operadores do direito poderia ser entendida também como uma dificuldade para a adesão ao modelo (vide gráficos 3 e 4).
Apenas uma parcela das pessoas que responderam ao questionário, portanto, identificou como um problema a repercussão, nas práticas profissionais, da devolução do conflito às partes. Por outro lado, nas entrevistas, perguntou-se aos participantes se eles consideravam difícil para o operador do direito dispensar formalidades e regras. O que se descobriu foi que, no geral, há uma consciência de que são costumes de difícil modificação.
O contexto institucional foi retratado, tanto por servidores, quanto por membros e advogados, como uma estrutura muito hierarquizada, formal e elitista. Um meio de muita
172 Países como Estados Unidos, Nova Zelândia e Austrália.
vaidade, permeado pela crença de que o direito poderia resolver todos os problemas sociais, o que implicaria, inclusive, o rechaço à busca por respostas interdisciplinares para os conflitos.
Sobre o exercício da horizontalidade, a maioria dos servidores públicos (técnicos/analistas) entrevistados relataram que haveria uma dificuldade de exercê-la em relação aos seus superiores hierárquicos (procuradores da república/juízes), muito em razão dessas formalidades já estarem incorporadas no quotidiano, por anos de instituição: “Posso chamar de você, de amigão, de ‘parça’, mas vai ser ‘Dr. parça’, não consigo. E não é por uma questão de respeito, é porque ficou arraigado isso. Ficou preso” (e.7, serviço público). Por outro lado, servidores públicos que possuíam algum tipo de experiência com justiça restaurativa tenderam a perceber que seria possível a diminuição de relações hierárquicas.
As perguntas sobre o tema provocaram reflexões entre as pessoas entrevistadas a respeito da necessidade da verticalidade e formalidade no meio jurídico. Foram apresentadas ponderações interessantes que descortinaram a percepção de que essas relações de autoridade não são completamente esvaziadas de sentido para a unidade de análise, pelo menos na realidade experimentada atualmente, guiada pelo paradigma punitivo.
Apontou-se que a verticalidade e as formalidades serviriam para dar uma certa segurança na condução dos processos, “mas é uma segurança de tentar impor um distanciamento dentro daquela mis en scene que seria o processo [...], como barreira, como defesa” (e.15, serviço público)173, inclusive em situações de ausência do Estado, em que a única forma de impor respeito seria o uso da figura da autoridade. Nesse sentido, narrou pessoa entrevistada, que, apesar de optar por dialogar com a sociedade civil em audiência pública sem a presença do aparato policial de segurança, já precisou recorrer à sua posição de autoridade para garantir a segurança de todas as pessoas presentes no encontro174.
Verticalidade e formalidade também seriam uma demanda de parte dos jurisdicionados em relação aos profissionais que defendem seus interesses, no sentido de que um advogado ou um membro do Ministério Público com postura mais formal poderiam trazer maior confiabilidade e impor mais respeito no exercício de suas funções. Aliás, foi apontada a necessidade instrumental da figura da autoridade para a implementação da justiça restaurativa, em termos de chancela e fidúcia do modelo, da criação de uma “rede de apoio” de
173 “Eu não tenho essas frescuras [...], mas dentro do gabinete você tem que manter uma compostura porque você atende gente” (e.14, serviço público/membro).
174 “ [...] a audiência pública virou um flamengo e fluminense, galera gritando de um lado, gritando do outro [...]
e, quando eu vi o empurra-empurra, eu entrei no meio daquilo ali e eu falei: ‘vão ter que bater no(a) procurador(a)' e falei, olha, tem uma autoridade aqui, isso que vocês estão fazendo pode se configurar crime, para segurar a onda, que não tinha polícia, não tinha nada” (e.13, serviço público/membro).
autoridades, dentro de instituições marcantemente hierarquizadas, para a apresentação da nova proposta175. Sem o interesse e o apoio das autoridades, não há justiça restaurativa na atual conjuntura.
Quanto ao modelo restaurativo, foi marcante a percepção de que as dinâmicas tradicionais de verticalidade e de autoridade não poderiam ser reproduzidas no bojo de processos restaurativos. Tal vedação seria uma forma de evitar sua colonização pelo paradigma punitivo e garantir que a ritualística e a posição ocupada pelos seus operadores não acarretasse algum tipo de desconforto às partes envolvidas no conflito176. Em suma, houve uma compreensão pronunciada de que: “O facilitador é aquele que gerencia todo o processo, mas sem a posição de autoridade, porque eu acho que, tendo autoridade, acaba ferindo a horizontalidade.” (e.17, serviço público).
Apenas uma pessoa entrevistada não rechaçou completamente a verticalidade e as formalidades na aplicação justiça restaurativa. Atribuiu à figura da autoridade a qualidade de instrumento para viabilizar a justiça, no sentido de garantir uma convergência de consensualidade, propondo a compreensão de que a autoridade deveria ocupar um lugar de líder177 e que o adequado não seria extinguir o título, mas descolonizá-lo178.
Embora posição isolada e que vai de encontro às formulações teóricas restaurativas, a opinião é interessante na medida em que estabelece uma ponte entre a teoria e o que seria possível na prática, considerando a realidade do que se admite em termos de implementação da justiça restaurativa: o Poder Judiciário como fiador e regulador do modelo e a convivência dos paradigmas punitivo e restaurativo.
Dessa compreensão decorre a conclusão de que os processos restaurativos têm origem e fim dentro das dinâmicas do modelo de justiça penal tradicional e, portanto, seriam atravessados por sua verticalidade e formalidade. O modelo tradicional seria, como regra, o locus onde se iniciaria o processo restaurativo, com a derivação, e seria sempre o destino final
175 “[...] é importante que tenha uma pessoa, uma autoridade, porque é essa autoridade que abre as portas para a gente ter acesso. [...] Se você tem uma figura de uma autoridade com você, o diálogo sai mais fácil, ele flui melhor, eu percebo isso porque ainda as instituições são hierarquizadas (e.10, serviço público)”.
176 “Acho que ter uma posição de autoridade, acho que só serve para você demonstrar o quanto órgão é poderoso.
Um procurador já me falou que quando a gente fala que é procurador da república, as pessoas têm medo. Mas eu acho que quando a gente fala que é servidor público para uma pessoa que está chegando na justiça restaurativa, a gente tem uma autoridade, entendeu?” (e.3, serviço público).
177 “Se ela [autoridade]se coloca de fato como uma autoridade vertical, nós temos um problema, mas se ela se coloca como um líder que irá facilitar a vida das pessoas que ali estão, nós não temos problema nenhum.” (e.4, serviço público/membro).
178 “O certo é descolonizar o título [doutor], saber que o lugar de fala da autoridade é um lugar legítimo, desde que a autoridade saiba que aquele lugar só é legítimo se for um lugar de fala democraticamente ocupado para facilitar o ambiente e não para se colocar hierarquicamente fora daquele ambiente” (e.4, serviço público/membro)
do acordo restaurativo, apresentado para homologação. Diante disso, é uma proposição importante repensar e redesenhar a verticalidade e as formalidades que serão mantidas no início e no final do processo restaurativo, de modo a permitir que se adequem ao novo paradigma, embora tenham origem no modelo de justiça tradicional.
Por outro lado, verificou-se que iniciativas de modificação dessas dinâmicas de formalidades e verticalidade dentro da adesão da proposta restaurativa, no entanto, são recebidas com algum preconceito, tanto que algumas entrevistas reforçaram a necessidade de se demonstrar a seriedade e a viabilidade da justiça restaurativa, além de seu caráter científico (“não é o direito do hippie” -e.7, serviço público).
Há uma percepção de que profissionais que reproduzem essas dinâmicas muitas vezes são vistos, pelos colegas, como outsiders179 ou figuras caricatas180, de modo que esse tipo de compreensão contribui para diminuir a credibilidade no modelo e a adesão à pauta, um óbice tanto para a criação de projetos, quanto para a derivação de casos. O problema, aliás, não parece estar restrito aos participantes da pesquisa e já foi identificado de modo similar em outra pesquisa empírica qualitativa, envolvendo juízes que trabalham com justiça restaurativa voltada a crianças e adolescentes (TONCHE, 2016, p. 138).
Em contrapartida, uma descoberta importante foi que, para alguns servidores públicos, o modelo restaurativo poderia ser um caminho de redirecionamento profissional dentro da escassa mobilidade do serviço público e não uma perda de status e prestígio: “Eu acho que a justiça restaurativa não é uma coisa para fazer voluntariamente, eu quero assumir isso como meu trabalho no MPF” (e.3, serviço público).
Mais do que reforçar o discurso de horizontalidade, é indispensável, para uma implementação exitosa do paradigma restaurativo, que se reconheça que ela não existe de forma espontânea no Poder Judiciário e no Ministério Público brasileiros e que essa característica deve ser considerada tanto nas formulações teóricas nacionais, quanto na elaboração de projetos restaurativos.