• Nenhum resultado encontrado

I MPLICAÇÕES AO MANEJO

No documento Richard Schwarz.pdf - Univali (páginas 79-82)

5. DISCUSSÃO

5.4 I MPLICAÇÕES AO MANEJO

entre os 300 – 400 m sobre influência da ACAS (Madureira et al., 2005; Castro et al., 2006) e por isso tornam-se vulneráveis as atividades da pesca de arrasto profundo durante meses de inverno e primavera (Perez & Pezzuto, 2006; Perez et al., no prelo b). Estas evidências associadas à estrutura populacional encontrada através do retrocálculo das datas de nascimento enfocam o efeito desta diversidade populacional na exploração comercial da espécie no sudoeste do Atlântico, reforçando a necessidade de considerar estratégias de manejo sobre estoques compartilhados entre os países da região.

O presente estudo apresenta uma análise da estrutura populacional de I. argentinus proveniente de capturas comerciais realizadas no sudeste e sul do Brasil entre os anos de 2001 e 2008. Os padrões de idade, períodos de eclosão das paralarvas e ritmos de crescimento encontrados demonstram que existe sobre a plataforma sudeste e sul do Brasil a presença de grupos de I. argentinus com período de desova e eclosão de paralarvas durante todo o ano, e de um possível grupo migratório, o qual sustentaria as capturas da pesca comercial de arrasto profundo em meses de inverno e primavera como defendido por diversos autores (Santos &

Haimovici, 1997; Santos, 2003; Schwarz & Perez, 2007; Perez et al., no prelo b). Uma comprovação definitiva, no entanto, depende de (a) estudos a respeito das fases iniciais do ciclo de vida em águas de plataforma do sudeste e sul do Brasil, os quais são escassos e poderiam revelar como acontece o desenvolvimento do ciclo de vida dos possíveis grupos regionais; (b) um programa de marcação com colaboração entre os países vizinhos e (c) a avaliação da diversidade genética da espécie dentro de toda área de ocorrência da espécie (22º S a 54º S). Estas análises aumentariam o entendimento dos processos de recrutamento e ciclo de vida de Illex argentinus no sudoeste do Atlântico.

66 ciclo de vida e taxas de mortalidade (O’Dor, 1998). A utilização da microestrutura do estatólito para a estimativa de idade permite que além da análise de VPA se façam estimativas dos parâmetros de crescimento de distintos grupos populacionais. Tais parâmetros podem ser utilizados como dados de entrada em modelos matemáticos que estimam o potencial de rendimento da espécie, ou seja, a porção do estoque que poderia ser pescada garantindo o recrutamento no próximo ano (Perez, 2006). Este tipo de análise pode servir como ferramenta para o dimensionamento da frota pesqueira que poderá atuar sobre o recurso.

Ações de manejo para I. argentinus, assim como para outras lulas Ommastrefídeas devem seguir o “princípio da precaução” evitando estratégias que possam por os estoques em risco. No entorno das Ilhas Malvinas/Falkland o manejo é baseado no percentual de escape de desovantes no final de temporada (Beddington et al., 1990) que vai de janeiro a junho.

Mesmo que não exista uma relação estoque - recrutamento direta estabelecida, este tipo de manejo é uma ação precautória que vem apresentando bons resultados.

Deve-se ressaltar, no entanto, que o impacto de pressão pesqueira sobre lulas ommastrefídeas não apenas pode ser avaliado em termos de remoções totais da biomassa do estoque natural, mas também no nível de alteração da diversidade/ estrutura populacional fortemente relacionada com a resiliência dessas populações. Assim, por exemplo, existe a possibilidade que os possíveis grupos desovantes do sudeste e sul do Brasil, com períodos de desova ao longo do ano atuem como “reservas genéticas” fornecendo ovos e larvas para regiões ao sul de 42º S de maneira continua. Possivelmente em anos que não favoreçam a migração de indivíduos de grande tamanho para áreas ao norte de 34º S, os grupos “locais” do sul do Brasil forneceriam descendentes que poderiam alcançar águas temperadas ao sul e desenvolver a expressão fenotípica típica dos indivíduos daquela região, com maiores tamanhos de maturação e aptos a realizar a migração sentido norte novamente.

Ainda que tal estratégia não esteja de fato comprovada, fica evidente que a pesca de arrasto no sudeste e sul do Brasil tem promovido uma remoção sistemática da parcela da população composta por indivíduos de grande tamanho capturados principalmente em meses de inverno, período que favorece a dispersão de ovos e larvas para águas ao sul de 42º S. Se as conexões entre grupos desovantes do sul do Brasil e os da plataforma patagônica são reais e necessárias para a resiliência de todo o complexo da espécie no Sudoeste do Atlântico, a adoção de medidas de manejo no Brasil direcionadas a Illex argentinus deve ser guiada por um contexto biológico-populacional geograficamente mais amplo. Esse parece ser o típico caso onde se justificam medidas compartilhadas entre países que visem proteger uma parcela

do estoque desovante e criem áreas de pesca comuns para as ZEEs envolvidas na distribuição da espécie.

O’Dor & Coelho (1993) apontam que colapsos em pescarias de lulas estão freqüentemente associados ao estabelecimento de frotas locais durante períodos de alta abundância dos estoques, seguidos de pesca excessiva em anos de baixa abundância, regida por interesses financeiros e políticos. Uma alternativa para o manejo de pescarias instáveis compostas por espécies anuais como a lulas ommastrefídeas, seria o arrendamento de embarcações estrangeiras que migram atrás destes recursos (frotas móveis, e.g. Espanha, Taiwan, Rússia). Esta estratégia permitiria evitar a sobre-capitalização de frotas locais, uma vez que em anos de alta abundância seriam oferecidas licenças de pesca a embarcações estrangeiras altamente eficientes na captura do recurso em questão e mantendo o esforço de pesca local em anos de baixa abundância.

As capturas da frota nacional de arrasto em fundos de talude além dos 300 metros de profundidade (Perez & Pezzuto, 2006) até o momento parecem não justificar a implementação de uma frota voltada à exploração específica do calamar-argentino (embarcações de jigging).

O acompanhamento dos desembarques nacionais deste recurso futuramente deverá fornecer melhores informações sobre o comportamento sazonal da biomassa da espécie em águas nacionais, o que poderá favorecer ou não a implementação de uma frota pesqueira específica para esta atividade.

68

No documento Richard Schwarz.pdf - Univali (páginas 79-82)

Documentos relacionados