As iniciativas de mandato aberto, em especial desenvolvidas pelos mandatos coletivos estudados, compreendem as ações e experimentações de participação popular direta impulsionadas pelas respectivas equipes. Essas iniciativas assumem diferentes formatos, podendo adquirir a conformação de oficinas formativas voltadas para a educação popular, espaços deliberativos para vincular decisões políticas do mandato, encontros de “pedagogização” política e de prestação de contas – promovendo transparência, espaços para a produção de novas tecnologias e metodologias, formatos plurais de audiências públicas, entre outros (MARQUES, 2019). Nesse sentido, enquanto o mandato coletivo “representa[ria] a tentativa de tradução das lutas [...] para a institucionalidade, o mandato aberto garant[iria] a porosidade da construção, mantendo o vínculo permanente com os territórios e as lutas” (MARQUES, 2019, p. 125).
Desta forma, pudemos evidenciar que a Gabinetona compreende as ações de participação popular como constituindo estratégias que envolvem colaboração voluntária e radicalização democrática; e que contam com a atuação de membros da equipe formal e de agentes corresponsáveis externos. Assim, essas atividades e encontros aconteciam de forma autogestionada e descentralizada. Para o grupo, o princípio do mandato aberto é promover: a mobilização social, a educação popular, a cultura viva, a alteridade com as lutas, a performatização da política, a articulação de arenas, a indução de conectividades, confluências, e a escuta afetiva, efetiva e responsável (MARQUES, 2019).
Uma das principais iniciativas da Gabinetona, a nível municipal, foi a gestação dos Grupos Fortalecedores, ou GFortes, que são espaços de interlocução e diálogo
177 permanentes mantidos com a sociedade, acionados para se debater múltiplas temáticas. Esses grupos foram formados por ativistas, pesquisadores, representantes de associações, instituições, coletivos e fóruns, que contribuíam para com a orientação política dos mandatos. Outra iniciativa importante foi o Laboratório Popular de Lei, ou os LabPops, nos quais a população participa diretamente da atuação parlamentar, integrando debates, audiências públicas, participando da elaboração de projetos de lei e incidindo sobre o posicionamento político do grupo (ENTREVISTADX 7, 2019).
A dinâmica de mandato aberto assumida pelo coletivo se tornou um dos pilares da atuação da Gabinetona e um resguardo à sua posição de independência, já que as decisões políticas do mandato dependem dos processos espiralados, que passam pelo compromisso com a participação popular direta:
Por exemplo, os nossos projetos de lei […] a gente tem, até hoje, 6, 7 projetos de lei, todos eles construídos em laboratórios populares de lei, com os movimentos da cidade, e depois a gente vai cuidar de cada um deles com afinco, fazendo debates profundos com as secretarias, com tudo. Então, essa seriedade é um pouco que nos resguarda a ter essa posição de independência (ENTREVISTADX 7, 2019, n.p.).
Outras iniciativas do grupo incluem as Zonas de Confluências e as Zonas Megafônicas, que constituem eventos abertos na cidade para promover campos de confluência máxima das lutas urbanas na cidade e no país; e para “megafonizar” as lutas, através de parcerias com movimentos sociais e ativistas da cidade, em espaços de diálogo entremeados por performances artísticas. Já os Balanços do Mandato se constituíram em encontros abertos de prestação de contas e de comunicação direta com a população (ENTREVISTADX 7, 2019).
Além disso, a Gabinetona criou um grupo de teatro, chamado Diferentonas, que realizava performances em espaços da casa legislativa e também em territórios da cidade, a fim de provocar debates e a pedagogização política. Assim, a atuação das Diferentonas é entendida como uma forma de “hackear o espaço institucional” e de fortalecer o trabalho popular e as lutas sociais (ENTREVISTADX 7, 2019). Por fim, podemos citar o “CÊ FRAGA?”, um fundo criado com a doação de parte dos salários das parlamentares, que realizava chamadas públicas para o mapeamento e o apoio a iniciativas sociais e culturais da cidade:
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[...] eu acho que é uma das coisas legais também do mandato, que tem a função, o prêmio, ele é quase simbólico, 5.000 reais, mas o mapeamento, e como isso ajuda dar visibilidade “pra” várias ações que ficam invisíveis na cidade, na área de cultura, de meio ambiente, de agroecologia, educação […]
(ENTREVISTADX 8, 2019, n.p.).
Com a expansão da Gabinetona, em 2018, algumas iniciativas de mandato aberto foram reajustadas, atribuindo-se uma maior autonomia a cada um dos mandatos e redimensionando-se a extensão de algumas ações. Assim, os LabPops, por exemplo, se tornaram instâncias vinculadas aos mandatos individuais, e não à Gabinetona como um todo. Já o “CÊ FRAGA?” passou a receber um percentual menor dos salários de cada parlamentar eleita:
[…] a gente começa com compromisso de cartório, que colocava de, eu não me lembro exatamente se era de 30 a 70 por cento dos salários das vereadoras iam ser doados, a gente…desses 30 a 70, 20% obrigatoriamente já vão pro partido, então a gente já previa isso lá, todo mês a gente, porque é uma exigência estatutária. Então, todo mês a gente deposita 20% de salário pro PSOL. Então, a gente começa com uma cifra maior, se eu não me engano de 20%, além do que era do partido, para o fundo do CÊ FRAGA?, no começo nem tinha esse nome, né, mas depois virou CÊ FRAGA?. Só que a Cida e eu, como vereadoras, fomos entendendo que, assim, a gente tinha despesas muito altas, a gente não tinha como ficar bancando tanta coisa do bolso, principalmente eu, que fazia muitas viagens, comecei a fazer viagens internacionais, de repente eu “tava” ficando no cheque especial pra pagar coisas de trabalho, assim, “a gente vai ter que rever essa porcentagem”, aí a gente vai para 15%, algo assim, agora a gente tá em 10%, que é o limite mínimo do nosso compromisso, e eu acho que tá funcionando bem, assim, mas tem a ver também com aquela inventividade louca “‘ah’ não, vamos dar salário mínimo pras parlamentares”, né, e não condiz com a nossa função, nós temos despesas muito altas, e a gente foi entendendo isso, conversamos sobre isso abertamente também (ENTREVISTADX 10, 2019, n.p.).
Apesar dessa mudança, o “CÊ FRAGA?” continuou funcionando como uma iniciativa aberta e integrada dos três níveis da Gabinetona. Além disso, a partir do acesso a emendas parlamentares, a Gabinetona promoveu chamadas públicas através do
“Emenda com a Gente”, construindo processos abertos, com a participação de uma comissão externa, para destinar recursos à população (ENTREVISTADX 10, 2019).
A Mandata Ativista, em São Paulo, também lançou mão de uma iniciativa de mandato aberto, a fim de promover a “pedagogização” e a participação popular. O Laboratório Legislativo, de forma parecida com os LabPops, foi criado como um espaço para garantir a participação de ativistas e de movimentos sociais na elaboração
179 de projetos de lei, estimulando a incidência política desses grupos em temas que lhes são caros; assim como o aprendizado sobre como o processo legislativo funciona na prática. O Laboratório propiciou a elaboração de projetos de lei, emendas parlamentares e outros projetos alternativos ligados a temáticas como maternidade, direitos LGBT* e os direitos dos povos indígenas (BRITTO; SANTOS, 2019).
Além disso, as/os codeputadas/os da Mandata realizaram eventos abertos, audiências públicas em formatos alternativos e oficinas de formação, promovendo a transparência, a prestação de contas, a “pedagogização” e a “devolução” da política em diversos territórios:
A gente fez algumas ações nesse sentido, a gente fez, nos nossos 100 dias a gente fez um encontro no centro da cidade, numa praça pública, e a gente fez uma prestação de contas ali na praça. Eu também fiz uma prestação de contas no meu território, que eu chamei, que foi uma experiência bem, bem interessante também, tinha vários movimentos, entidades, né, “pra” falar um pouco que eu “tava” fazendo, né, como “tava” funcionando o mandato, tentando também animar essas lideranças “pra” disputar 2020, né, em mandatos também coletivos e tal […]. Agora a gente vai fazer uma formação, né, essa semana mesmo, começa amanhã, dia 17, a gente vai fazer uma formação sobre emendas parlamentares, né, que eu acho que mais de 800 pessoas se inscreveram “pra” participar. É um tabu ainda, né, o que que é uma emenda, como que destrava uma emenda, como acessar, como que funciona, como que acessa. Então a gente “tá” também nesse processo com as emendas (ENTREVISTADX 5, 2019, n.p.).
No entanto, apesar de algumas iniciativas compartilhadas, integrantes do mandato coletivo percebiam que as disputadas internas por recursos e por priorização de pautas engessavam a realização de ações integradas; sendo que muitas atividades foram organizadas de forma autônoma pelas/os codeputadas/os:
Então, na verdade, as atividades que a gente quer fazer é muito assim: eu organizo sozinho o que eu quero fazer, ou busco voluntários pessoais para me ajudar nesse processo. Isso é uma grande crise, assim, porque a gente fez algumas atividades abertas, mas muito menos do que a gente gostaria, porque aí tem que contemplar todos, aí é um de cada vez […] (ENTREVISTADX 1, 2019, n.p.).
Ainda, há a percepção, a partir da atuação em rede das/os 9 ativistas da Mandata, de que a tecnologia do mandato coletivo, com o protagonismo das/os deputadas/os, configura por si mesma uma ferramenta de participação popular. Assim, a partir da articulação, com maior ou menor intensidade, das/os deputadas/os com as
180 suas bases, diferentes organizações e movimentações ativistas são convidadas a participar dos processos políticos conduzidos pela equipe:
[...] o mandato coletivo já é um mecanismo de participação, porque a [...] ela é efetivamente uma pessoa, isso não acontece necessariamente com todos os codeputados, tem codeputados que simplesmente ter uma ideia e vai lá e faz e acha que por ser quem é já está representando, e no campo representativo isso faz sentido, no campo participativo não. Tem alguns codeputados que são ultra participativos, que é tipo assim “cara, eu não vou dar um passo enquanto eu não falar com as minhas redes” e, de novo, isso não é necessariamente “você falou com todos os hortelões de São Paulo ‘pra’
tomar essa decisão”, mas “cê” consultou especialistas, “cê” consultou ativista,
“cê” deu um passo, “cê” é, de fato, uma extensão e uma interlocução participativa, você é o mecanismo de participação, entendeu, você, codeputada, é o mecanismo de participação daquelas redes todas dispersas […] que você conhece por razões e de jeitos diferentes […] com o mandato.
Então essa “pra” mim, é uma percepção recente, e que eu acho que é muito poderosa (ENTREVISTADX 6, 2019, n.p.).
As Juntas, em Pernambuco, por sua vez, adotaram como uma de suas principais estratégias de mandato aberto a realização de plenárias, de temáticas diversas, em várias regiões do estado. As plenárias funcionavam como espaços abertos, que estimulavam a participação de grupos e coletivos da sociedade civil e possibilitavam a construção de ações para serem incorporadas pela mandata. A partir desses encontros, a equipe das Juntas realizava o encaminhamento das agendas elaboradas, tendo em vista os 12 eixos temáticos e as 8 sujeitas:
[...] gente fez uma plenária pra 200 pessoas no auditório Sérgio Guerra, lá na Assembleia Legislativa, pra apresentar o que era a mandata e tal, a gente fez plenária no sertão, a gente fez plenária no agreste, a gente fez plenária feminista, juventude, LGBT, cultura, quilombola, trabalhadores informais, evangélicos progressistas, moradia, teve 10 plenárias, tem mais, é porque eu acho que eu esqueci, ouvindo as pessoas. Aí a gente, por exemplo, o movimento feminista, aí a gente botou os nossos eixos de saúde, de violência e trabalho, e aí elas começaram a dar opinião, e aí quando chegou no fim, agora do semestre pro novo planejamento a gente pegou todas as ações, de todas as plenárias, e a gente saiu vendo, o que era do poder legislativo e como [inaudível] nos eixos. Então tá tudo lá como atividade, a fazer ou já feita (ENTREVISTADX 12, 2019, n.p.).
A realização das plenárias, espalhadas pelo território pernambucano, permitia às Juntas multiplicar as suas frentes de atuação, já que as codeputadas conseguiam estar, simultaneamente, nos espaços institucionais formais e nos espaços de diálogo aberto com a população:
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A gente anda o estado todo, do ao sertão ao agreste pernambucano, a gente tem uma van que a gente alugou, né, pela ALEPE, pelo nosso gabinete, a gente entra na van, sempre duas co, quando a gente vai pro interior, porque a gente passa 5 dias, então Jô tem que tá no plenário, mais oficialmente, mais duas de nós tem que estar no gabinete, né, pra gente atender quem chega, porque a gente acha que isso é essencial, não deixar ser por nossos assessores, a gente confia muito nos assessores, mas as pessoas muitas vezes, quando chega no gabinete, quer ver a gente, quer um abraço nosso, diz que a gente é uma esperança política pra eles, então a gente acha essencial, pelo menos ficar uma lá e outra no plenário, e uma pra atender alguma demanda fora do gabinete, que a gente sempre deixa. Então duas vai ser pro interior, duas ou três, a gente faz plenárias [...] (ENTREVISTADX 14, 2019, n.p.).
Além das plenárias, as Juntas recorreram à criação do Conselho Político, que atuava em todas os eixos e se reunia a cada dois meses. A iniciativa do Conselho foi a forma encontrada pelo grupo para construir ações políticas com as movimentações próximas das codeputadas, possibilitando a participação de mais de 40 organizações do estado (ENTREVISTADX 14, 2019). Essa participação colocava os grupos para legislar, permeando a tomada de decisão da mandata e acompanhando de perto a formulação e votação de projetos de lei; assim como a proposta de emendas parlamentares:
Então, e fora isso, o Conselho Político, que aí chega e decidiu junto com a gente a independência, decidiu junto com a gente essas ações dos 100 dias.
E ainda tem uma outra coisa, quando chega um PL lá, por exemplo, chegou o PL da nova política de drogas em comunidade terapêutica, a gente chamou a frente antimanicomial e disse “vem cá, vamos analisar o PL com a gente”, item por item, cadê o pulo do gato aqui, onde é que eles estão…e aí a gente tá colocando as pessoas para legislar, isso é incrível, eu acho isso incrível, as pessoas pra legislar! A gente foi dar entrada no PL, mandei pro Conselho Estadual de Política Cultural, pra galera da música “ó, manda aí”; chegou um PL lá de agroecologia, de agricultura, na verdade, é um plano de agricultura, a gente mandou pras mulheres da agroecologia, casa da mulher do nordeste,
“faz emenda, faz a emenda, não dá tempo da gente ter uma reunião, não sei o que, mas olha isso aqui”, sabe. A gente não decide nada, mesmo porque a gente não tem competência técnica, às vezes, sabe, e aí a gente tá aproximando os movimentos do legislativo, mesmo. Eu acho isso incrível, eu nunca fui chamada pra ler um projeto de lei, sabe (ENTREVISTADX 12, 2019, n.p.).
Outra estratégia utilizada pelas Juntas foi a realização de audiências públicas diversas, a partir da participação de sujeitas e da ocupação da casa legislativa por corpos que são historicamente excluídos da esfera política. Além da inclusão, da escuta e da promoção da participação, as Juntas monitoravam os encaminhamentos das audiências para, na medida do possível, efetivar ações e propostas legislativas:
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A gente fez uma audiência pública aqui que foi histórico, foi lindo pro estado, assim, pro país, porque foram mais de 300 indígenas que ocuparam, sabe, a gente teve todo um diálogo com a polícia da casa pra dizer “olha, eles vão vir com as vestes deles, com a pintura corporal e eles vão entrar dessa forma”, porque eles precisam ser respeitado, né, por essa manifestação cultural, e aí eles vieram, foi lindo, assim, e a gente tá tentando, agora, dar encaminhamento ao que saiu da audiência, porque a gente se preocupa muito com isso, acho que o fato da gente fazer audiência, a gente tem feito muitas, é a preocupação em fazer com que os encaminhamentos da audiência possam acontecer, possam ser efetivado, se não, não vai valer de nada, né, vierem de longe, teve povos indígenas que passaram a madrugada pra chegar aqui. Então a gente tem que fortalecer esses povos (ENTREVISTADX 14, 2019, n.p.).
Por fim, de modo semelhante à iniciativa do “CÊ FRAGA?”, da Gabinetona, as Juntas assumiram o compromisso de doar parte dos salários, garantindo isonomia salarial entre as codeputadas e compondo um fundo compartilhado. Esse fundo permitia a distribuição de recursos para ações da sociedade civil (ENTREVISTADX 12, 2019).