A escolha das/os integrantes das candidaturas e mandatos coletivos estudados passou por prioridades relacionadas a questões de gênero, de raça e ao compromisso com lutas das amplas maiorias sociais. No geral, as mulheres correspondem a 89%
dos integrantes, de um total de 18 coparlamentares. São elas que ocupam, oficialmente, as cadeiras parlamentares, sendo que das 6 titulares de mandato, 4 são mulheres negras. As mulheres negras, como podemos observar no Quadro 7, também representam 56% das mulheres coparlamentares, que também contam uma mulher indígena – Chirley Pankará. Além disso, em relação a questões de identidade de gênero e orientação sexual, os mandatos contam com duas mulheres transexuais – Erika Hilton e Robeyoncé Lima – e três mulheres lésbicas – Bella Gonçalves, Kátia Cunha e Joelma Carla.
Quadro 7: Raça/Cor das/os integrantes dos mandatos coletivos
Integrante Função Cor/Raça
Gabinetona (MG)
Áurea Carolina Deputada Federal Parda
Andreia de Jesus Deputada Estadual Negra
Cida Falabella Vereadora (BH) Branca
Bella Gonçalves Vereadora (BH) Branca
Bancada Ativista (SP)
Mônica Seixas Deputada Estadual Preta
Erika Hilton Codeputada Preta
95
Paula Aparecida Codeputada Parda
Raquel Marques Codeputada Parda
Chirley Pankará Codeputada Indígena
Claudia Visoni Codeputada Branca
Anne Rammi Codeputada Branca
Jesus dos Santos Codeputado Preta
Fernando Ferrari Codeputado Parda
Juntas (PE)
Jô Cavalcanti Deputada Estadual Negra
Robeyoncé Lima Codeputada Negra
Kátia Cunha Codeputada Negra
Carol Vergolino Codeputada Branca
Joelma Carla Codeputada -94
Fonte: elaboração própria a partir das respostas concedidos nas entrevistas realizadas, da autodeclaração de Vereadoras e Deputadas disponibilizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE,
2021), e por heteroclassificação para as(os) demais codeputadas(os).
A entrada, portanto, desses corpos diversos na institucionalidade, evidenciou a dimensão descritiva da representação interseccional, que compõe a experiência dos mandatos coletivos estudados. No entanto, ela é importante também pela sua dimensão simbólica, já que carrega um sentimento de reparação histórica tanto em relação aos corpos que “ocupam a política”, quanto às pautas que são representadas por estes, aumentando a percepção de representação por parte dos representados/as.
Para as Juntas, que contam com a atuação política de pelo menos três mulheres negras e uma mulher trans no mandato, a presença do grupo na Assembleia Legislativa representa uma enorme conquista:
E a gente se coloca como uma mandata feminista, antirracista, né?
LGBTfóbica, e é uma reparação histórica, porque tem 3 mulheres negras, né?
A gente tem a Assembleia Legislativa de Pernambuco, que existe há 184 anos, mais de 1.000 deputados passaram pela casa e apenas 47 mulheres ocuparam essas cadeiras, e quando a gente vê a questão da mulher negra, apenas 3 mulheres de 47 mulheres, 3 mulheres eram mulheres negras, que
“tavam” ocupando. Então, hoje, nas Juntas tem 3 mulheres negras, Kátia Cunha, Robeyoncé Lima e Jô Cavalcanti, é um orgulho, sabe, é uma reparação histórica no estado, mas no país também, tem como ter outras candidaturas coletivas, como a Bancada Ativista, como as Muitas, que têm mulheres negras no poder (ENTREVISTADX 14, 2019, n.p.).
[...] o fato da gente estar na Assembleia Legislativa é uma conquista muito marcante, né, porque a gente tá num espaço institucional que foi
94 A marcação “-” foi utilizada quando as/os participantes não quiseram, não souberam responder, ou quando foi necessário retirar alguma informação para proteger o anonimato da/o respondente. Joelma Carla, afirmou durante a entrevista realizada, que ainda está em busca da sua identidade de raça.
96
historicamente renegado pra gente, né? O prédio da Assembleia Legislativa, por exemplo, tem mais de 180 anos, sabe, meus ancestrais, minhas ancestrais escravizados, escravizadas, construíram aquele prédio, e quando aquele prédio estava pronto foram convidados a se retirar e não voltaram mais, sabe.
E a gente volta, nós parlamentares negras voltamos pra Assembleia Legislativa não mais pra construir paredes, mas pra tomar decisões, pra ficar nos espaços enquanto parlamentares, né? E aí, o fato da gente, mulher também, estar ali, né, ocupando essa representação política, sabe, ocupando esse espaço, também é muito simbólico, principalmente no contexto que a gente tem um machismo muito forte na política, né […]? Então eu acho que assim, é uma conquista muito forte, sabe, o fato da gente tá ali, […] porque já é um ato político, sabe, isso quer dizer muita coisa, quer dizer muita coisa (ENTREVISTADX 16, 2019, n.p.).
A construção de campanhas e candidaturas coletivas diversas conseguiram, ainda, criar campos de confluências entre diversas lutas, processo que fica evidente na experiência da Gabinetona, que aos poucos foi se expandindo e aglutinando forças:
[...] eu acho que principalmente na outra virada [em 2016], em que eles também fizeram esse movimento “olha, não, vamos fazer explosões programáticas nos territórios de resistência” e aí eles foram conseguindo trazer grupos que expressam de maneira mais potente essas lutas da cidade.
Então, Avelin trazendo essa questão dos indígenas em Belo Horizonte, Áurea, Dú Pente, trazendo a questão das juventudes, Crystal trazendo a questão das mulheres negras trans, a gente entrando com essa questão da luta popular pelo direito à cidade, e aí foi se conformando mais a cara do que as lutas em Belo Horizonte recentes tinham sido. Então, eu acho que eles conseguiram, fazer ali, criar um campo de confluência amplo, onde se expressava essa diversidade das lutas recentes na cidade, e as candidaturas foram poucos um certo espelho disso. Em 2018, foi um processo parecido, embora aí aglutinou outras lutas, né, “pra” mim é muito incrível a gente ter a Sandra na nossa movimentação, uma figura que tá construindo ali a luta quilombola há muitos anos, né, da Federação Quilombola. Então, eu acho que essa capacidade de confluir ela continuou se expandido, e essa é que é a força das Muitas, não é o método, o desenho é a capacidade de confluir (ENTREVISTADX 7, 2019, n.p.).
Em relação às pautas que cada coparlamentar representa, apesar de haver sobreposições de temas e da atuação parlamentar, na prática, demandar o envolvimento de coparlamentares em múltiplas temáticas, podemos identificar as pautas que motivaram a entrada dessas/es ativistas na corrida política. Como veremos adiante, é possível aproximar as agendas de luta das/os coparlamentares com a atuação parlamentar dos mandatos. Na Gabinetona, Áurea Carolina tem uma trajetória ligada aos movimentos da cultura hip hop, na periferia de Belo Horizonte, aos direitos da juventude, às políticas públicas para mulheres e em vários coletivos de incidência
97 nacional; a partir da articulação das Muitas, se orienta por um fazer político radicalmente democrático. Cida Falabella tem a sua atuação ligada à cultura, em especial ao teatro popular em Belo Horizonte. Bella Gonçalves é ativista das ocupações urbanas, das lutas pela moradia, atuando a partir das Brigadas Populares95. Andréia de Jesus também vem das Brigadas, além do seu compromisso intrínseco com as lutas antirracistas (CAMPOS, 2019).
Na Mandata Ativista, Mônica Seixas é militante do PSOL, vinculada à tendência do Movimento Esquerda Socialista (MES). Chirley Pankará é ativista indígena e da pauta da educação. Paula Aparecida, também professora, é ativista da causa animal e defensora do ecossocialismo. Claudia Visoni é ativista da agroecologia, da água e do meio-ambiente. Anne Rammi e Raquel Marques são ativistas dos movimentos ligados ao parto humanizado e à maternidade. Fernando Ferrari e Jesus dos Santos são ativistas das lutas dos territórios, das periferias de São Paulo e da cultura. E Erika Hilton é ativista pelos direitos da população negra e LGBT* no Brasil (CAMPOS, 2019).
Já nas Juntas, Jô Cavalcanti é ativista do MTST, dos movimentos de moradia, dos trabalhadores ambulantes e de rua. Carol Vergolino se considera ativista feminista e da pauta da cultura. Joelma Carla é ativista dos movimentos estudantis e dos direitos LGBT*. Kátia Cunha é ativista pelos direitos dos professores e profissionais da educação. E Robeyoncé é a primeira mulher trans advogada de Pernambuco, ativista pelos direitos da população negra e LGBT* (CAMPOS, 2019).
Ainda sobre a composição dos perfis dos mandatos coletivos estudados, o Quadro 8 (abaixo) sintetiza as categorias de raça/cor, idade, gênero/sexo, orientação sexual e grau de escolaridade do/as entrevistados/as, que inclui coparlamentares e alguns membros das equipes de gabinete. Assim, apesar da diversidade de marcadores de raça e gênero, na composição dos mandatos coletivos, observamos que pelo menos 81% dos participantes possuem alto grau de escolaridade, sendo que 50% possuem ensino superior completo e 31% possuem pós-graduação. Assim, das/os integrantes entrevistadas/os apenas Jô Cavalcanti e Joelma Carla não possuíam ensino superior, evidenciando uma composição mais popular da candidatura das Juntas. Além disso, a média de idade dos/as participantes das
95 Organização de caráter nacional e popular que tem o objetivo de contribuir com a edificação de uma pátria soberana e socialista.
98 entrevistas foi de 38 anos, evidenciando o recorte etário que aglutina pessoas jovens nas experiências dos mandatos.
Quadro 8: Perfil das/os entrevistadas/os Entrevistada/o Raça/Cor Idade Gênero/Sexo Orientação
Sexual Grau de Escolaridade
1 - - - - -
2 Branca 39 Mulher - Ensino
Superior Completo
3 Branca 53 Feminino Heterossexual Ensino
Superior Completo
4 Indígena 45 Mulher - Pós-
Graduação
5 Parda 42 Homem Heterossexual Ensino
Superior Completo
6 Branca 35 Homem Heterossexual Ensino
Superior Completo
7 Branca 30 Mulher Lésbica Pós-
Graduação
8 Branca 59 Feminino Heterossexual Pós-
Graduação
9 Negra - Feminino - Ensino
Superior Completo
10 Parda 36 Mulher Heterossexual Pós-
Graduação
11 Preta 31 Homem Gay Pós-
Graduação
12 Branca 41 Feminino - Ensino
Superior Completo 13 Negra 37 Feminino Heterossexual Ensino Médio
Completo
14 - 21 Feminino Lésbica Ensino
Superior Incompleto
15 Negra 44 Mulher Lésbica Ensino
Superior Completo
99 16 Negra 30 Mulher Trans Heterossexual Ensino
Superior Completo
Fonte: elaboração própria a partir das respostas concedidos nas entrevistas realizadas. A marcação “-
” foi utilizada quando as/os participantes não quiseram, não souberam responder, ou quando foi necessário retirar alguma informação para proteger o anonimato da/o respondente.