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IDENTIDADE MILITAR SOB A PERSPECTIVA SEMIOLINGUÍSTICA

No documento pdf (páginas 196-200)

Luciana Cavalcante Matos de Mello1

Considerações iniciais

A guerra constitui um ambiente adverso que demanda preparo e tomada de decisões rápidas. A fim de obter êxito nesse cenário, todo cida- dão, ao ingressar no Exército Brasileiro (EB), passa por um período de formação (básica e específica), momento em que terá a oportunidade de adaptar-se à vida na caserna e de aprender noções essenciais ao combate.

Entretanto, a instituição possibilita a seus integrantes, por meio de cursos de especialização, aprimoramento de seus conhecimentos e suas habilidades operacionais. Dentre os cursos operacionais oferecidos pelo EB, podemos citar: Guerra na Selva, Caatinga, Montanha, Paraquedismo, Comandos, entre outros.

Cada curso possui seus símbolos próprios, que marcam a identi- dade dos militares que o realizam. Esses símbolos materializam-se nos uniformes (com suas peças e brevês), nas suas canções e orações, for- mando a mística desses cursos e, consequentemente, definindo uma iden- tidade coletiva.

O presente artigo tem por objetivo, então, verificar a construção do ethos militar, sob a perspectiva Semiolinguística, a partir da análise das

1 Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem da Universidade Federal Fluminense (UFF), sob orientação da Professora Doutora Rosane Santos Mauro Monnerat. Professora da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN).

orações próprias de cada curso operacional do Exército Brasileiro (EB). O corpus desta pesquisa é constituído por duas peças dos seguintes cursos:

Guerra na Selva e Caatinga.

Pressupostos teóricos

Para proceder à análise proposta, recorreu-se, prioritariamente, aos pressupostos da Teoria Semiolinguística de Análise do Discurso. Nela, pro- põe-se a integração de aspectos linguísticos e de fenômenos relacionados à situação de comunicação. Dentre as noções dessa teoria, optamos por destacar três: o contrato de comunicação, o duplo processo de semiotização do mundo e a perspectiva de ethos na Semiolinguística.

O termo contrato (CHARAUDEAU, 2014, p. 56), oriundo do domínio jurídico, é trazido à teoria Semiolinguística como uma de suas noções centrais. O contrato de comunicação baseia-se em dois pilares: o das restrições e o das estratégias.

O primeiro pilar, o das restrições, nos permite entender e agir em conformidade com o que se espera em determinada situação comunicativa, correspondendo à parcela do contrato que precisa ser satisfeita. É o que nos possibilita reconhecer o que é uma oração, por exemplo. Também é esse pilar que nos permite identificar o que é uma oração própria desse domínio discursivo militar dos cursos operacionais.

O segundo pilar, por sua vez, traz à tona a individualidade (ou “cole- tividade”) daquele que enuncia. É o que confere ao sujeito comunicante a possibilidade de imprimir sua marca no enunciado, trazendo as peculiari- dades de sua área de atuação e revelando sua intencionalidade.

A segunda noção da Semiolinguística que gostaríamos de salientar nessa pesquisa diz respeito à forma como a realidade (mundo a significar) é transformada no real (mundo significado) (CHARAUDEAU, 2017). Será preciso que o enunciador considere um duplo processo de semiotização do mundo: o de transação e o de transformação (CHARAUDEAU, 2015), cada um com seus princípios.

O primeiro deles, o processo de transação, lida com quatro princípios: a alteridade, o outro a quem o projeto é direcionado; a pertinência, o que é apro- priado à finalidade da situação de comunicação; a influência, a intencionali- dade do projeto e o resultado esperado; e a regulação, a manutenção do projeto.

O segundo processo, de transformação, compreende as seguintes operações: a identificação, a nomeação de um objeto; a qualificação, a apre- sentação das características do objeto nomeado; a ação, a apresentação das ações realizadas ou sofridas pelo objeto; e a causação, a exposição dos moti- vos pelos quais o objeto realiza ou sofre determinada ação. Esse processo é regido pelo anterior na medida em que é a partir da relação com o outro que as escolhas do processo de transformação são realizadas.

A terceira noção que abordaremos diz respeito ao ethos. O estudo sis- temático dessa noção teve início com o filósofo Aristóteles que propôs três tipos de provas de persuasão: o logos, o ethos e o pathos. O logos, ligado ao domínio da razão, corresponde àquilo que é demonstrado no discurso, por meio da argumentação. O ethos e o pathos, por sua vez, ligados ao domínio da emoção, direcionam-se, respectivamente, ao orador (na promoção de si no discurso) e ao auditório (despertando empatia e identificação).

Charaudeau (2015) retoma esse conceito na Teoria Semiolinguística.

O teórico ressalta a existência de três posicionamentos em relação à noção de ethos. O primeiro posicionamento, partilhado pelos retóricos da Idade Clássica, propõe o ethos como um dado preexistente ao discurso, sendo, por isso, chamado de ethos prévio ou pré-discursivo, centrado na figura do sujeito comunicante, ser social. O segundo posicionamento, do qual par- tilham Aristóteles e os analistas do discurso, apresenta o ethos como uma construção discursiva (ethos discursivo), centrado no sujeito enunciador e, portanto, desconsidera a opinião prévia do ser social. Essa concepção discursiva pode ser percebida em:

Persuade-se pelo carácter quando o discurso é proferido de tal maneira que deixa a impressão de o orador ser digno de fé. Pois acreditamos mais e bem mais depressa em pessoas honestas, em todas as coisas em geral, mas, sobretudo, nas de que não há conhecimento exato e que deixam mar- gem para dúvida. É, porém, necessário que esta confiança seja resultado do discurso e não de uma opinião prévia sobre o carácter do orador (ARISTÓTELES, 2005, p. 96, grifo nosso)

O terceiro posicionamento, por sua vez, corresponde ao enten- dimento dessa noção na Teoria Semiolinguística, que postula que as

“identidades discursiva e social fusionam-se no ethos (CHARAUDEAU, 2015, p. 116). Segundo Charaudeau,

[...] para construir a imagem do sujeito que fala, esse outro se apoia ao mesmo tempo nos dados preexistentes ao discurso - o que ele sabe a priori do locutor - e nos dados trazidos pelo próprio ato de linguagem. [...] O sentido veiculado por nos- sas palavras depende ao mesmo tempo daquilo que somos e daquilo que dizemos (CHARAUDEAU, 2015, p. 115).

Esse posicionamento nos permite entender que, antes que o dis- curso seja proferido, um ethos prévio do orador é construído e esse ethos poderá ser ratificado, ou não, no discurso. No que concerne aos guerreiros, o conhecimento das dificuldades envolvidas, tanto na preparação para um curso operacional, como em sua realização, possibilita ao sujeito interpre- tante construir uma imagem do sujeito comunicante anterior ao discurso, confirmando a noção de um ethos prévio. O conhecimento a priori que se tenha sobre o ser social que profere um dado enunciado traz essa percepção de um ethos pré-discursivo.

Maingueneau (2013) ressalta que a construção do ethos não está sob o total controle do sujeito comunicante/enunciador e destaca duas facetas dessa noção: o ethos visado, que corresponde à imagem de si que o locutor deseja passar, revelando sua intencionalidade; e o ethos produzido, a imagem que o interlocutor efetivamente constrói, muitas vezes distinta à esperada.

Charaudeau postula, ainda, que a construção do ethos envolve aspec- tos verbais e não verbais:

Não se pode dizer que existam marcas específicas do ethos.

Tanto pelos diversos tipos de comportamento do sujeito (o tom da voz, os gestos e as maneiras de falar) quanto pelo conteúdo de suas propostas, ele mais transparece do que aparece. Não se pode separar o ethos das ideias, pois a maneira de apresentá-las tem o poder de construir imagens (CHARAUDEAU, 2014, p. 118).

O autor nos apresenta, ainda, duas categorias de ethé: a de credibili- dade (ethé de sério, de virtude e de competência), construída mediante um

No documento pdf (páginas 196-200)