Gisele Arruda Eckhardt1
Introdução
A todo o momento temos acesso a uma quantidade cada vez maior de informações disponíveis, através do discurso midiático, seja na inter- net, jornais ou revistas, por exemplo. Todavia, isso não significa que haja uma ausência de interferência do sujeito comunicante diante dos acontecimentos. Isso porque, segundo Nilton Hernandes (2006), há um recorte ideológico, isto é, o que a mídia nos transmite é a transformação dos fragmentos da realidade em notícias. Dessa forma, quando lemos ou escutamos uma notícia, caso não tenhamos um olhar analítico, seremos inocentes a ponto de reputarmos que aquele discurso é verdadeiro e se constitui como um fato.
Sendo assim, com base na Semiolinguística, uma teoria que busca depreender a linguagem, levando-se em consideração os com- ponentes comunicacional, psicossocial e intencional (ou discursivo) (CHARAUDEAU, 2001), bem como todos os sujeitos envolvidos nesse ato de linguagem, mediante um contrato de comunicação, iremos analisar a capa da revista ISTOÉ, edição do dia 9 de setembro, ano 43, nº 2643, sob um olhar semiolinguístico.
1 Doutoranda em Estudos de Linguagem (UFF). Orientanda da professora Dra. Beatriz Feres.
À luz do que foi mencionado, o presente artigo também pretende identificar a presença dos imaginários sociodiscursivos - conceito cunhado por Charaudeau (2018) – na análise, visto que a edição em questão traz inú- meras referências a elementos que circulam nos discursos sociais, trazendo uma polêmica na maneira em que retrata o atual presidente, Jair Bolsonaro, em comparação ao ex-presidente, Lula.
A Teoria Semiolinguística e os imaginários sociodiscursivos
A Semiolinguística é formada por um amálgama de correntes teóri- cas, tanto da linguagem, como por exemplo, Barthes, Benveniste e Austin, quanto das contribuições de pesquisas em sociologia, etnometodologia, psicologia social etc. Sob esse viés, o ato de linguagem é reputado levando- -se em conta não somente a sua dimensão psicossocial (CHARAUDEAU, 2001), mas também os sujeitos que o compõem.
Ampliando essa noção, ao contrário da visão muitas vezes tradicio- nal da linguagem que a resume a uma relação unidirecional do emissor ao receptor, a perspectiva semiolinguística vê o ato de linguagem como uma relação produtiva, na medida em que postula a existência de, no mínimo, quatro protagonistas nesse ato de linguagem (CHARAUDEAU, 2016), a saber: o sujeito comunicante (EUc) e o sujeito interpretante (TUi), que são pessoas reais ou seres sociais; o sujeito enunciador (EUe) e o sujeito destinatário (TUd), que são entidades do discurso, ou seja, seres de fala.
A fim de compreendermos melhor quem são esses protagonistas, convém esclarecermos que:
• O EUc é aquele que fala ou escreve e evidencia o EUe.
• O TUi é aquele que ouve/ lê e, por conseguinte, interpreta o texto.
• O EUe é a imagem que o EUc almeja transmitir para o TUi.
No entanto, é essencial ressaltarmos que o TUi poderá aderir ou não.
• O TUd é a imagem que o EUc possui do TUi, isto é, sua hipótese, que como vimos, poderá se concretizar ou não.
Desse modo, o ato de linguagem procede de um jogo entre o implícito e o explícito e é visto como uma encenação linguageira, que ocorre em um deter- minado contrato de comunicação. A esse respeito, Charaudeau elucida que:
Denominamos Contrato de comunicação o ritual sociolingua- geiro do qual depende o Implícito codificado e o definimos dizendo que ele é constituído pelo conjunto das restrições que codificam as práticas sociolinguageiras, lembrando que tais restrições resultam das condições de produção e de inter- pretação (Circunstâncias de Discurso) do ato de linguagem.
O Contrato de comunicação fornece um estatuto sociolingua- geiro aos diferentes sujeitos da linguagem (2016, p. 60, grifos do autor).
Como o excerto acima demonstra, em todos os momentos estamos inseridos em um contrato de comunicação, e para ter êxito, é necessário que o sujeito utilize máscaras nessa mise en scène (ou encenação da lingua- gem), além de considerar os seguintes componentes da relação contratual:
comunicacional, psicossocial e intencional. O primeiro elemento, segundo Charaudeau (2001), seria o quadro físico da situação interacional, isto é, se os parceiros estão presentes ou ausentes, e o canal empregado (gráfico ou oral); o segundo engloba características como “idade, sexo, categoria socio-profissional, posição hierárquica, relação de parentesco, fazer parte de uma instituição de caráter público ou privado, etc” (CHARAUDEAU, 2001, p. 31). E o terceiro, o intencional, compreende os conhecimentos que os parceiros têm acerca do outro, invocando saberes partilhados e, como o nome sugere, busca refletir sobre a intenção da informação, a forma que está sendo divulgada e a possível intenção de manipulação.
Tendo dito isso, outro aspecto importante a ser aludido é, que sob o olhar semiolinguístico, reputamos que há um duplo processo de semio- tização do mundo (CHARAUDEAU, 2005): o processo de transformação, que basicamente parte da premissa de que há um mundo a significar, que é transformado em um mundo significado pelo sujeito falante; e o pro- cesso de transação, no qual esse sujeito interpretante (TUi) já se defronta diante de um mundo significado e, portanto, interpreta-o, de acordo com os seguintes princípios: alteridade, pertinência, influência e regulação, con- forme observamos abaixo:
Figura 1: Princípios de transação Princípio de
alteridade Princípio de
pertinência Princípio de
influência Princípio de regulação
Baseia-se no reconhecimento
do outro e na diferenciação.
Diz respeito à apropriação dos atos de linguagem
à finalidade e ao contexto.
O sujeito que produz um ato de linguagem tem como objetivo afetar seu parceiro, seja para motivá-lo a agir ou nortear seu
pensamento.
Relaciona-se ao princípio de influência, pois o regula, a fim de que não haja confrontos. Consiste
de estratégias utilizadas pelo sujeito com o intuito
de garantir uma intercompreensão.
Criação nossa, a partir de Charaudeau (2005, p.15)
Ademais, dentro do princípio de influência, encontramos as estra- tégias de legitimação, credibilidade e captação. Dentro das estratégias de credibilidade, temos atitudes de neutralidade, distanciamento ou engaja- mento e, nas estratégias de captação, podemos ter atitudes de polêmica, sedução e dramatização. Parece oportuno lembrar ainda que o processo de transformação abarca quatro operações: a identificação, a qualificação, a ação e a causação (CHARAUDEAU, 2005). Tais categorias são definidas por Charaudeau (2005, p. 14, grifos do autor) do seguinte modo:
(...) a identificação, pois é necessário apreender no mundo fenomênico os seres materiais ou ideais, reais ou imaginários, conceitualizá-los e nomeá-los para que se possa falar deles. Os seres do mundo são transformados em ‘identidades nominais’.
- a qualificação, pois estes seres têm propriedades, caracterís- ticas que, a um só tempo, os discriminam, os especificam e motivam sua maneira de ser. Os seres do mundo são transfor- mados em ‘identidades descritivas’.
- a ação, pois estes seres agem ou sofrem a ação, inscrevendo- -se em esquemas de ação conceitualizados que lhes conferem uma razão de ser, ao fazer alguma coisa. Os seres do mundo são transformados em ‘identidades narrativas’.
- a causação, pois estes seres, com suas qualidades, agem ou sofrem a ação em razão de certos motivos (humanos ou não humanos), que os inscrevem numa cadeia de causalidade.
A rigor, isso significa, numa linguagem simples, que podemos asso- ciar a identificação ao uso de substantivos, a qualificação aos adjetivos, a ação aos verbos e advérbios e a causação aos modalizadores e operado- res lógicos. Entretanto, quando partimos do princípio semiolinguístico, o emprego dessas categorias permite-nos um olhar que ultrapassa a questão gramatical e contempla a organização discursiva, dado que essas operações são representações linguageiras de práticas sociais que integram determina- dos sujeitos, sejam individuais ou coletivos.
Antes de abordar especificamente o que são os imaginários socio- discursivos, convém situar que Charaudeau (2018) parte do conceito de representações sociais, da área da Psicologia Social, cujo maior represen- tante atualmente é Serge Moscovici.
Sob esse viés, “o sujeito se constitui nas e pelas representações com fins de adaptação ao seu meio ambiente e de comunicação com o outro”
(CHARAUDEAU, 2018, p. 195). Ou seja, essas representações fazem parte da vida em sociedade a tal ponto que é difícil percebê-las ou saber em que momento elas surgiram, mas o fato é que elas regem as práticas sociais con- cretas e, além do exposto, o indivíduo, por meio delas, interpreta o mundo que o rodeia e lhe confere significados.
Consoante Moscovici (2015), essas representações podem ocorrer entre duas pessoas ou dois grupos, a título de exemplificação, dado que onde houver intenções humanas, ali há representações.
Vale ainda ressaltar que elas não são estáticas: podem mudar no decorrer do tempo e novas representações também podem surgir. São sim- bólicas, visto que interpretam o real; ideológicas, porque atribuem valores e determinam nossas atitudes e conceituações, devido à percepção que o sujeito tem da realidade.
No que tange a sua estruturação, Charaudeau (2018) salienta que as representações sociais são constituídas por tipos de saberes, os quais não se configuram como classes abstratas, mas sim como “maneiras de dizer configuradas pela e dependentes da linguagem que ao mesmo tempo con- tribuem para sistemas de pensamento” (CHARAUDEAU, 2018, p. 197, grifo do autor).
Nesse encaminhamento, podemos sublinhar dois tipos de saberes:
de conhecimento e de crença. O primeiro almeja o estabelecimento de uma verdade sobre os fenômenos que acontecem, oferecendo uma explicação que ultrapassa a subjetividade do sujeito.
Ainda no saber de conhecimento, é possível classificá-lo em saber científico e saber de experiência (CHARAUDEAU, 2017). A distinção con- siste em que há uma teoria ligada ao saber científico, capaz de provar o que se diz, mediante postulados, instrumentos e procedimentos. Já o saber de experiência, embora proponha explicações sobre o mundo que nos cerca, não oferece meios de fundamentar o discurso.
Por outro lado, o saber de crença relaciona-se a julgamentos e avalia- ções realizadas pelo sujeito sobre o que ocorre no mundo. Logo, vincula-se aos valores que ele atribui, isto é, o seu olhar sobre os fenômenos e as ações;
o saber provém desse sujeito, que realiza o julgamento. Em se tratando do tema, Charaudeau (2017) acrescenta que o saber de crença ocasiona outros tipos de saber: o de revelação e o de opinião.
O saber de revelação pressupõe uma verdade que é exterior ao sujeito, porém que não pode ser averiguada. Isto porque, geralmente, pos- sui um caráter sagrado ou transcendental, que requer uma aderência com- pleta do sujeito. A título de elucidação, as religiões com suas doutrinas reproduzem bastante esse tipo de saber, uma vez que partem sempre do pressuposto de que alguém teve uma iluminação e aquele dogma não aceita contestações. As ideologias também se associam a esse saber.
E o saber de opinião advém de um parecer realizado pelo sujeito, no que diz respeito a seu engajamento acerca dos fenômenos que acontecem.
Todavia, diverge do saber de revelação porque não se constitui como um discurso absoluto, isto é, há inúmeras possibilidades de julgamentos, con- forme as escolhas, apropriações e experiências do sujeito. Logo, tem uma função identitária.
Tendo isso em vista, Charaudeau (2017) postula que os imaginários advêm dessa estrutura das representações sociais, levando-se em considera- ção que assim como elas permitem a construção acerca do mundo que nos cerca e dos seus fenômenos, por conseguinte, comportamentos, ocasionam
“um processo de simbolização do mundo de ordem afetivo-racional atra- vés da intersubjetividade das relações humanas, e se deposita na memória coletiva” (CHARAUDEAU, 2017, p. 578). Desse modo, o semiolinguista francês corrobora que o imaginário traz consigo duas aplicabilidades: ao mesmo tempo em que fundamenta a ação, também permite que novos valores sejam criados.
Postas essas bases, Charaudeau (2017) explica que a distinção que faz em sua nomenclatura, ao utilizar o termo social, justifica-se porque as
práticas ocorrem em um domínio social. Ademais, convém mencionar que a acepção de imaginário social que Charaudeau (2018) depreende não é aquela usualmente trazida pelos dicionários como algo irreal ou inventado.
Na realidade, o criador da Semiolinguística concebe que “o imaginário é efetivamente uma imagem da realidade, mas imagem que interpreta a reali- dade, que a faz entrar em um universo de significações” (CHARAUDEAU, 2018, p. 203).
Decorre daí que a expressão sociodiscursivo resulta do entendimento de que esses imaginários se materializam através dos discursos que estão presentes em diversos campos da sociedade, em um espaço de interdiscursi- vidade, (CHARAUDEAU, 2018, p. 207) ou até mesmo mediante compor- tamentos, atividades coletivas ou na atribuição de valores a determinados objetos que são sustentados por uma racionalização discursiva.
Pelas considerações feitas, podemos agora lançar um olhar mais atento à capa da revista analisada com o intuito de identificar a presença desses imaginários sociodiscursivos na construção do discurso e os valores que estão subjacentes, além do papel de justificação da ação social e o pro- cesso de semiotização do mundo.
O processo de semiotização de mundo na capa da ISTOÉ e a presença dos imaginários sociodiscursivos
A capa em análise faz alusão a duas figuras públicas políticas em evidência: o atual presidente, Jair Bolsonaro, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, popularmente conhecido como Lula.
Bolsonaro, que por meio da incitação ao ódio ao Partido dos Trabalhadores, conseguiu conquistar votos e vencer seu oponente em 2018, Fernando Haddad (candidato apoiado por Lula), representou para muitos uma oportunidade de mudança no país. Todavia, devido a seus discursos polêmicos, viu sua popularidade diminuindo.
Controvérsias à parte, o fato é que o presidente divulgou algumas políticas públicas para os mais pobres – não se sabe por quais motivações –, mas esse acontecimento bruto ocasionou a transformação pela revista ISTOÉ em um mundo significado, no qual a ótica do jornalista e dos demais envolvidos na produção da notícia é visivelmente parcial e engajada, conforme veremos a seguir.
Conforme podemos observar a seguir na capa em análise, houve toda uma escolha cautelosa não só da disposição e cor das imagens, mas também da cor das fontes do texto, das categorias linguísticas, semânticas etc. e da maneira como cada político é representado. No entanto, devido à extensão do trabalho, não seria possível lançar um olhar minucioso sobre todas as particularidades:
Figura 2: Capa da revista ISTOÉ
Revista IstoÉ, edição 9 de setembro de 2020, ano 43, nº 2643
Sendo assim, podemos observar a identificação quando a capa de revista declara o suposto desejo de Bolsonaro em ser Lula, sintetizando toda a manchete e o lead nesse propósito: na perspectiva do sujeito comu- nicante, as atitudes do atual presidente têm esse caráter de réplica e de autopromoção.
Dito em outras palavras, o sujeito comunicante postula a desquali- ficação de Bolsonaro frente ao Lula e revela que ele não conseguirá realizar
esse querer. Somam-se a isso as imagens utilizadas na capa da revista: a figura de Lula, embora esteja como sombra ao fundo, tem uma dimensão maior do que a de Bolsonaro, a qual aparece colorida.
Tal diagramação não é em vão e serve para reforçar a mensagem veiculada por essa mídia de que por mais que Bolsonaro esteja em desta- que atualmente, o ex-presidente permeia o imaginário do povo brasileiro e possui um prestígio inigualável.
Dessa forma, ao adquirir essa revista, na esteira dos postulados de Hernandes (2006), o qual embora não pertença à Semiolinguística dialoga com essa teoria ao apontar os truques da mídia, existe uma diferença entre fato e acontecimento. Para o supracitado autor, o primeiro “é a manifestação de qualquer fenômeno que passou a ter significado para um ser humano”
(HERNANDES, 2006, p. 23). Já o segundo consiste na apropriação que se faz de determinados acontecimentos, fazendo com que eles tenham visibili- dade, ou seja, há uma escolha baseada em uma visão de mundo, de acordo com o valor argumentativo que se atribui a um acontecimento específico.
Em outros termos, no acontecimento ocorreu o processo de semioti- zação do mundo, no qual o sujeito o significa, de acordo com suas percep- ções. E a notícia, conforme vemos na ISTOÉ, traz essa hierarquização dos fatos, porém, baseada em uma determinada perspectiva e com o intuito de induzir o público a consumi-la. Para atingir seu objetivo, a notícia precisa atender a alguns critérios: ser inédita, apresentar improbabilidade, desper- tar o interesse, produzir empatia e ter proximidade.
Desse modo, percebemos que, na capa em análise, a improbabili- dade permeia a manchete e o lead, quando o sujeito comunicante postula que Bolsonaro almeja ser Lula – algo totalmente inesperado e que serve, ao mesmo tempo, para captar a atenção do público, incitando a curiosidade.
Por outro lado, parece oportuno lembrar que Hernandes (2006, p. 23) pontua que a neutralidade não existe, pois “não é possível o acesso ao real sem um recorte ideológico”; o que há são estratégias para criar esse efeito de neutralidade e, no caso específico dessa revista, não houve a preo- cupação em omitir sua interpretação da realidade.
E a estratégia de captação (CHARAUDEAU, 2010) é acionada quando o sujeito não se encontra em uma relação de autoridade, logo necessita recorrer a estratégias que façam o parceiro de comunicação a se interessar e a crer naquilo que ele diz. Sob esse enfoque, o sujeito pode recorrer ao apelo à razão (persuasão) ou à emoção (sedução).
Dando prosseguimento à análise da capa da revista, além do pro- cesso de semiotização do mundo e dos truques empregados pela mídia, podemos atentar para a presença dos imaginários sociodiscursivos, os quais permeiam, principalmente, na escolha das imagens para representar os políticos.
Além disso, atribui uma suposta identidade nordestina a Bolsonaro, ironizando-o, e reforça o prestígio de Lula, o qual seria um representante autêntico dessa cultura, tendo em vista sua origem pernambucana e os programas sociais voltados para a população do Nordeste.
Em primeiro lugar, cabe ressaltar que há um contexto por trás da escolha das imagens com os chapéus de cangaceiro ou de couro. De acordo com Santos (2016), a utilização desse objeto configura-se como um compo- nente icônico do cangaço, uma vez que reúne símbolos místicos e mágicos do movimento.
A título de esclarecimento, convém mencionar que o uso desse item com fins identitários deve-se à Virgulino Ferreira da Silva ou mais popularmente conhecido como Lampião, líder do movimento cangaceiro e que almejava que seu grupo fosse reconhecido através de suas vestimen- tas distintas, além de que estivessem protegidos no sertão e preparados para a batalha.
Sendo assim, longe de se disfarçarem, os cangaceiros se enfeitavam e onde chegavam eram reconhecidos pela indumentária. Era uma questão de identidade, posto não ser somente um jeito de vestir, e sim um modo de viver.
E com o passar do tempo, tal acessório incorporou-se à cultura da região.
Na mesma linha de raciocínio, Chevalier e Gheerbrant (2019, p. 232) partilham da visão de que o chapéu é um símbolo de identificação e ainda concebem que “o papel desempenhado pelo chapéu parece corresponder ao da coroa, signo do poder, da soberania”, isto é, aquele que usa esse item assume uma responsabilidade.
Com este entendimento, voltando à capa da revista, a foto de Bolsonaro portando o chapéu de couro é desconstruída pelo gesto de arma realizado e pelo seu traje (um terno), os quais não corroboram com a cons- trução do ethos de governante populista que intenta construir. Além desse ponto, há o título da manchete em caixa alta e em letras brancas (“Quero ser Lula”) ao lado do presidente, ou seja, o sujeito comunicante pretende desmantelar esse imaginário sociodiscursivo que Bolsonaro deseja mobilizar nos cidadãos.
Em contrapartida, temos Lula ao fundo, em uma proporção maior e em destaque, mesmo estando na cor cinza, como se fosse uma sombra que sempre irá intimidar o atual governante, e o qual servirá de motivos para um aparente desprezo e, ao mesmo tempo, inspiração, segundo a ótica do produtor dessa notícia.
Merece atenção a escolha cuidadosa da imagem de Lula, a qual reflete um semblante de ternura e credibilidade de um líder que se importa com os necessitados, contrapondo-se à de Bolsonaro, que tem legitimidade, mas na visão da ISTOÉ, precisa construir sua credibilidade com a parcela mais humilde da população, a fim de permanecer no poder.
Gostaríamos de acrescentar também que, em consonância com Hernandes (2006), a fotografia está associada ao gerenciamento do nível de atenção, portanto contribui na construção dos sentidos, conforme notamos nessa edição da ISTOÉ. Nesse sentido, o potencial leitor da revista é atraído pelo contraste na capa entre Bolsonaro e Lula, o qual arrebata e sustenta a atenção, direcionando-o para o texto verbal.
Ademais, a fotografia “tem um papel de servir de prova ao que se reporta, de parecer mostrar fragmentos de uma realidade inquestionável”
(HERNANDES, 2006, p.216) e, também, disseminar o teor das ideias con- tidas na reportagem. Desse modo, mais uma vez, as imagens que aparecem representam os imaginários sociodiscursivos implícitos no sujeito comuni- cante. E, em diálogo com Rebello (2017), frisamos que as imagens não são elementos meramente ilustrativos.
Para entendermos um pouco mais os imaginários mobilizados nas fotografias apresentadas, é essencial voltarmos no tempo e contextualizar- mos o percurso de Bolsonaro em sua candidatura. Em 2018, após rejeição no Nordeste no primeiro turno das eleições, o presidenciável buscou con- quistar essa região e apareceu em uma coletiva de imprensa com um chapéu de couro.
Cabe salientar que o candidato não chegou a visitar a região nordes- tina. Já o seu oponente, Fernando Haddad, apoiado por Lula, não somente utilizou esse objeto como também teve a participação de nordestinos em seu programa eleitoral, apoiando-o, e visitou o município de Caetés (PE), a terra natal do ex-presidente Lula.
Em junho de 2020, Bolsonaro inaugurou a obra de transposição do rio São Francisco, a qual se iniciou no governo de seu adversário, Lula, e após isso tem realizado inúmeras viagens ao Nordeste. Entretanto, para os