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Implicâncias com a historiografia oficial

No documento LIMA BARRETO E A CULTURA HISTÓRICA: (páginas 167-195)

Lima Barreto, atento às bases que norteavam a escrita da história e suas relações com as questões políticas de sua época, não deixou de observar como a historiografia oficial procurava representar o país. Destacamos acima a necessidade do recente regime republicano em consolidar-se e a elaboração de narrativas que o legitimasse. Atrelada a isso, havia a tentativa de conformar uma imagem da

32BARRETO, Lima. Toda crônica: Lima Barreto. Organização: Beatriz Resende & Rachel Valença.

Vol. I (1890-1919). Rio de Janeiro: Agir, 2004a, p. 174.

33Ibid., loc.cit.

34 SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 32.

identidade nacional que apresentasse o Brasil como uma nação que evoluía rumo ao nível das consideradas nações civilizadas.

Nesse contexto, a divulgação de uma narrativa histórica que apresentasse o país e seu regime republicano como sinais da evolução da sociedade brasileira foi uma das preocupações dos homens de letras, principalmente daqueles inseridos em instituições oficiais do governo ou por ele subvencionadas. A construção de heróis que simbolizassem valores cívico-patrióticos e republicanos fez parte da elaboração daquela narrativa oficial.

Em Os Bruzundangas, notamos como Lima Barreto satirizou vários aspectos constitutivos da nação brasileira. No capítulo XII, intitulado “Os herois”, o narrador fez considerações acerca dos sujeitos que, naquela república fictícia, eram vistos como representativos da identidade coletiva. Já no início da narrativa, essa encarnação dos anseios de toda a população do país pela figura do herói nacional é questionada.

A República da Bruzundanga, como toda a pátria que se preza, tem também os seus heróis e as suas heroínas.

Não era possível deixar de ser assim, tanto mais que a prática sempre foi feita para os heróis, e estes, sinceros ou não, cobrem e desculpam o que ela tem de sindicado declarado.

Um país como a Bruzundanga precisa ter os seus heróis e as suas heroínas para justificar aos olhos do seu povo a existência fácil e opulenta das facções que a têm dirigido.35

“Heróis são símbolos poderosos, encarnações de ideias e aspirações, pontos de referência, fulcros de identidade coletiva”. Instrumentos, portanto, eficazes para construção de um imaginário entre os membros de uma nação com vistas à legitimação de um dado regime político. A criação de um símbolo, no entanto, “não é arbitrária, não se faz no vazio social”. O heroi tem “de responder a alguma necessidade ou aspiração coletiva, refletir algum tipo de personalidade ou de comportamento que corresponda a um modelo coletivamente valorizado”.36

Quando há a falta de envolvimento real do povo na implementação de um regime, a mobilização simbólica se faz mais urgente para compensá-la. Além disso, a disputa dos grupos políticos pela memória de sua efetivação a fim de garantir sua legitimidade à frente dele adensa mais a procura por determinados sujeitos que

35BARRETO, Lima.Os Bruzundangas. São Paulo: Ática, 1985 (Série Bom Livro), p. 71.

36 CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 55.

representem aquele modelo. Daí a dificuldade entre os republicanos na edificação de um herói para o novo regime.

Como sabemos, existiam modelos diferentes de república defendidos entre os envolvidos com a defesa do fim da monarquia. Os esforços de jacobinos, republicanos históricos e positivistas em erigir como herói nacional seus respectivos líderes tiveram pouco êxito, pois seus candidatos a herói bem como a própria proclamação da república careciam de densidade histórica. Desse modo, a figura de Tiradentes foi, naquele momento, idealizada como representante daquele novo regime por sua luta contra a monarquia e sua imagem aproximada à de Jesus Cristo, apelando para a tradição cristã do povo brasileiro.37

Esses elementos da realidade político-cultural da recente república brasileira foram transfigurados na narrativa de Os Bruzundangas, levando Lima a questionar, por meio do seu narrador/jornalista/viajante, a “fabricação” de heróis nacionais e sua suposta encarnação de aspirações de toda uma coletividade. Para que seu pensamento possa ficar mais claro ao leitor, o narrador, fazendo uma alusão à trajetória política do Brasil, afirma que se deve recordar “alguns pontos da história política da Bruzundanga”.38

A atual república consta de territórios descobertos pelos iberos e povoados por eles e por outros povos das mais variadas origens.

Os colonizadores fundaram feitorias; e, quando fizeram a independência da Bruzundanga, essas feitorias ficaram sendo províncias do Império que foi criado.

Feita a República, elas ficaram mais ou menos como eram, com mais independência e regalias. Portanto, é claro que a evolução política da Bruzundanga tinha por extensão a unidade dessas províncias, e era mesmo o seu fim. Qualquer pessoa que tenha tentado, ou venha a tentar, o desmembramento dessas províncias, não pode ser tido como herói nacional.39

Ao considerar como critério para escolha de um herói nacional a manutenção da unidade das províncias, o narrador põe em questão uma heroína bruzundanguense. Esta não se enquadrava naquele critério, pois lutou pela separação de uma das províncias ao lado de “um aventureiro estrangeiro”, pelo qual se apaixonou, no “tempo do Império”.40 A alusão que Lima pretendeu realizar pelo narrador, provavelmente, é a Anita Garibaldi e sua participação na Revolução Farroupilha ao lado de Giuseppe Garibaldi.

37 CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 57-67.

38BARRETO, Lima.Os Bruzundangas. São Paulo: Ática, 1985 (Série Bom Livro), p. 71.

39Ibid., loc.cit.

40Ibid., p. 71-72.

A produção dos Institutos Históricos no início do século XX, darão importância primária, referente a história de Anita Garibaldi, precisando seu papel no amalgama de uma certa identidade nacional, projetada para atuar como referência da Nação brasileira reconhecendo-a como continuadora do processo civilizador da metrópole portuguesa. Assim Anita Garibaldi, torna- se também símbolo de civilização e progresso, já que é o modelo a ser seguido por “gerações vindouras para o engrandecimento da pátria”.41

O IHGB, com sua função de contribuir para a preservação da memória nacional, teve, desde a sua fundação em 1838, como destaque na sua produção a escrita de biografias de brasileiros “distintos por letras, armas e virtudes” que constituía uma forma de fazer história pautada em “nomes e personagens”.42 Com o início do regime republicano, essa instituição, marcada pelo seu passado de fortes ligações com a Monarquia e tendo como protetor Dom Pedro II, se viu com a necessidade de buscar sua manutenção diante dos novos governantes.

Mesmo sem abandonar a glorificação do nome de Dom Pedro II, o Instituto procurou, desde o inicio da República se aproximar dos membros do novo governo a fim de garantir apoio financeiro para manutenção e legitimidade de seus trabalhos.

Essa aproximação se deu por meio da aceitação de homens pertencentes ao regime recém instaurado nos seus quadros, silenciamento quanto aos momentos conturbados do regime43e prestação de serviços a órgãos governamentais.

“Procurava-se ligar a experiência do Instituto com as expectativas do país e com as de um projeto político, mesmo que republicano. Com isso, o Instituto Histórico não só se submetia, mas também se adequava à nova ordem das coisas”.44 A divulgação da história dos heróis nacionais, que servissem de modelos para a formação da nacionalidade por apresentarem valores cívicos e valorizadores do regime republicano, foi tomada pelos institutos históricos na sua construção de uma memória nacional.

Nesse sentido, podemos compreender a tentativa de inserção de Anita Garibaldi no panteão republicano, questionada por Lima Barreto. Em 1911, o

41ELÍBIO JÚNIOR, Antônio Manoel.Uma heroína na História:representações sobre Anita Garibaldi.

Orientador: Sérgio Schmitz. 2000. 140 f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós- Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2000, p. 31.

42 42SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1914. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 109.

43 “Pelos discursos, o IHGB assemelhava-se a uma ilha serena num oceano revolto”. Diante das críticas ao novo regime, o instituto se mostrava mudo. Cf. HRUBY, Hugo. Obreiros diligentes e zelosos auxiliando no preparo na grande obra: a História do Brasil no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1889-1912). Orientador: Charles Monteiro. 2007. 233 f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2007, p.46

44HRUBY, Hugo. Op.cit., p. 49.

marechal João Vicente Leite de Castro lança pela livraria Garnier a obra Anita Garibaldi: história da heroína brasileira. Esse autor - membro do IHGB, da Sociedade Geográfica do Rio de Janeiro e Presidente honorário da União Garibaldina de Nice – apresenta como objetivo principal de sua obra “a formação do caráter de seu povo, base de toda a felicidade”.

A escrita dessa biografia, portanto, visava não só imortalizar o nome de Anita como também criar modelos de conduta e comportamento. A heroína é apresentada como uma figura sagrada e seus atos próprios de homens “são permitidos pois o amor a Garibaldi é a força que faz elevar sua alma e encher-se de coragem”.45 O autor corroborava os valores até então vigentes quanto à figura feminina. Esta era simbolizada pela imagem da mãe carinhosa, símbolo da reprodução da humanidade, e intrépida guerreira, defensora da pátria.

O imaginário republicano no Brasil que então se conformava tinha como referência o republicano francês. Neste, o uso da alegoria feminina para representar a República foi um traço marcante, substituindo a figura do rei, símbolo da monarquia derrubada. No Brasil, os pintores positivistas “foram os únicos a levar a sério a tentativa de utilizar a figura feminina como alegoria cívica”,46 não conseguindo, entretanto, respaldo no campo social. Segundo Carvalho, o imaginário precisa de uma comunidade de imaginação para criar raízes, que, diferentemente do Brasil, havia na França.

Mesmo assim membros dos institutos históricos tentaram construir a imagem de heroína nacional para Anita, associando sua trajetória à narrativa sobre a República Juliana, relacionando-a, por sua vez, como berço do ideal republicano no Brasil. Em 1914, por exemplo, inicia-se uma série de publicações nas revistas do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina acerca da República Juliana, Revolução Farroupilha e Anita Garibaldi.47 Vale ressaltar, nesse sentido, a tentativa de inserção da história regional na constituição da memória nacional.

[...] O sul no início da república buscava um lugar no contexto republicano nacional, sobretudo para enfrentar os grandes de participação política como o Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, nesse sentido a construção de uma memória nacional através dos heróis republicanos que lutaram na

45ELÍBIO JÚNIOR, Antônio Manoel.Uma heroína na História:representações sobre Anita Garibaldi.

2000. 140 f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2000, p. 34-35.

46 CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 86.

47ELÍBIO JÚNIOR, Antônio Manoel. Op.cit., p. 44.

Revolução Farroupilha, representavam um importante papel na política nacional.48

Contudo, como o próprio narrador de Os Bruzundangas havia destacado, a marca de separatismo atribuída àquela revolta no sul do país não favorecia a imagem de Anita. O fator geográfico também não, pois, a partir de meados do século XIX, a área de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, já podia ser considerada o centro político do país e na qual também era mais forte o republicanismo e mais difundidos os clubes Tiradentes. O que beneficiou a vitória do personagem da Conjuração Mineira, o qual, mesmo tendo em vista a libertação das três capitanias, não foi tachado de separatista, pois isso se “devia a um calculo tácito”: “libertadas as três, as outras seguiriam com maior facilidade”.49

O narrador barretiano atribui à heroína da fictícia república as mesmas características que o marechal Leite de Castro considerou para Anita Garibaldi.

Entretanto, o narrador não as vê como algo excepcional que a destacasse na memória nacional. A heroína de Bruzundanga, segundo o narrador, não apresentava

“nada de notável”, exceto a sua

dedicação até ao sacrifício pelo seu amante, mais tarde seu marido. Isto mesmo, porém, não é virtude que torne uma mulher excepcional, pois é comum nelas, a menos que tal dedicação sirva de moldura às qualidades excepcionais do seu marido ou do seu amante. No caso, porém, encarando- o estritamente sob o aspecto da evolução política da Bruzundanga, o seu marido não era mais que um aventureiro.50

O narrador corrobora o modelo de mulher cidadã republicana, valorizado nas.

narrativas daquele momento, o qual coloca a figura feminina em posição de subalternidade à masculina, sendo suas ações destacadas se representarem dedicação ao seu esposo e família. Contudo, isso só a tornaria “memorável” se favorecesse as ações de destaque de seu marido. Como o narrador não considera o esposo da heroína bruzundanguense um sujeito que se encaixe na marcha da evolução política daquela república, a dedicação dela se mostra um lugar comum esperado para todas as mulheres.

Percebemos, dessa forma, uma paródia do discurso oficial produzido pelos institutos históricos que o desautoriza quanto a sua pretensão de construir modelos

48ELÍBIO JÚNIOR, Antônio Manoel.Uma heroína na História:representações sobre Anita Garibaldi.

2000. 140 f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2000, p.28

49 CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 69.

50BARRETO, Lima.Os Bruzundangas. São Paulo: Ática, 1985 (Série Bom Livro), p. 72.

a serem seguidos na conformação da identidade nacional. Lima, através do seu narrador, procura salientar o objetivo de certos grupos em legitimar sua participação à frente do regime republicano, construindo, para isso, uma interpretação do passado que apresente seus interesses como aspirações de toda uma nação.

Essa prática de “sindicato declarado” é novamente ironizada quando o narrador questiona outro herói da Bruzundanga. A alusão agora é à figura do presidente Floriano Peixoto, a qual Lima Barreto já havia ridiculizado no romance Triste fim de Policarpo Quaresma. Peixoto não era unanimidade entre os republicanos. “Apagado no início [dos acontecimentos que levaram à proclamação da República], suspeito a monarquistas e republicanos”, esse personagem veio a ter uma maior dimensão a partir da Revolta da Armada no Rio de Janeiro e da Revolta Federalista no sul do país.

A sua resistência a essas revoltas inspirou o jacobinismo republicano da capital federal. “Para os jacobinos, civis e militares, era ele sem dúvida o herói republicano por excelência”.51 Já na narrativa barretiana, outros aspectos do herói nacional que faz alusão ao militar Floriano são trazidos à tona. Após sinalizar o descontentamento de militares e alguns civis com o regime monárquico, o narrador afirma que “as suas vagas aspirações” se resumiam na “palavra República”.52

“Os amigos do Império”, como última tentativa de salvá-lo, buscaram auxílio num “velho general que vivia retirado nas suas propriedades agrícolas”.53 Havia a suspeita de que o general “confabulasse com os inimigos que vinha combater”, a qual foi depois confirmada. Para dar autenticidade ao que afirmava, o narrador salienta que foram os “próprios companheiros do general que o haviam informado da traição.

Ainda há meses, recebi um jornal da Bruzundanga, em que um grande e notável fabricante da República de lá contava como as coisas se tinham passado. Narra esse senhor, como o condestável,54 nas vésperas da proclamação da República, enganara aqueles que tinham depositado confiança nele, para servir os contrários, Eis aí os começos de um herói da República dos Estados Unidos da Bruzundanga!55

A alusão à traição do herói se refere ao fato de que Floriano Peixoto era o encarregado da segurança do ministério do Visconde de Ouro Preto. Porém, quando

51 CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 56.

52BARRETO, Lima.Os Bruzundangas. São Paulo: Ática, 1985 (Série Bom Livro), p. 72.

53Ibid., loc.cit.

54Refere-se ao título de primeiro oficial da coroa, o qual tinha o comando de todo o exército.

55BARRETO, Lima. Op.cit., p. 72

esse estava sendo ameaçado pelos revoltosos, houve a recusa por parte de Peixoto em atacá-los, aderindo ao movimento, em seguida, deu voz de prisão ao chefe do governo – Visconde de Ouro Preto – e, quando da instalação do Governo provisório republicano, assumiu a sua vice-presidência.

O narrador ainda acrescenta mais alusões a Floriano quando este já estava como presidente da república, após a renúncia do marechal Deodoro da Fonseca. O questionamento do heroísmo parte agora das suas ações que o levaram ao epíteto de Consolidador da República. “Sabem por quê? Porque não consolidou coisa alguma”. Segundo o narrador, aquele general não poderia ser considerado herói da Bruzundanga, pois foi o mandachuava que mais desrespeitou as leis.56

Ao longo da narrativa de Os Bruzundangas, o cargo de presidente da República é sempre mencionado como mandachuva, frisando o mandonismo como um aspecto marcante dos governos republicanos. Este traço não ficaria ausente justamente naquele visto como quem havia moralizado e mantido o regime livre de possíveis ameaças. Ou seja, o narrador sinaliza que, desde o seu início, a República já se mostrava autoritária, contrariando os discursos dos seus defensores de que sua proclamação representaria tempos de liberdade e democracia para o povo brasileiro.

Quando afirma que aquele herói havia saltado por cima de todas as leis, governando “a seu talante”, o narrador alude às medidas autoritárias e violentas tomadas por Floriano durante sua resistência às revoltas acima destacadas. Nesse período, o “marechal de ferro”, decretou estado de sítio e autorizou prisões arbitrárias como bem representou Lima no enredo deTriste fim. Carvalho afirma que as atitudes de Floriano “exaltadas pelos jacobinos como reveladoras de pureza e bravura republicanas eram tachadas de sanguinárias e despóticas pelos republicanos liberais”. Novamente, o narrador explicita o caráter de “sindicato declarado” nas práticas de consolidação de uma memória nacional a partir da trajetória de certos personagens alçados à categoria de heróis.

Além da historiografia nesse papel, o narrador também questiona outra dimensão da rememoração histórica que é a construção de monumentos. Ainda se referindo ao general de Bruzundanga, afirma que esse herói foi eternizado por um escultor “que lhe fez um monumento, ereto em uma das praças da capital, monumento tão curioso que precisa de um guia, de um tratado escrito, para ser

56BARRETO, Lima.Os Bruzundangas. São Paulo: Ática, 1985 (Série Bom Livro), p. 72.

compreendido”.57 Lima Barreto deve ter selecionado da paisagem urbana do Rio de Janeiro o monumento a Floriano Peixoto de Eduardo de Sá, inaugurado em 1910 para elaborar essa afirmativa de seu narrador.

Fonte: Apud CARVALHO, 2014, p. 47. Fonte:

www.google.com/search?q=monumento+a+floriano

O monumento traz muitos elementos que compunham o imaginário republicano propagado pelos positivistas que, exigia, de um visitante não informado dos ensinamentos de Comte, um grande exercício de interpretação.58 Além disso, o monumento provocou controvérsia. “Reclamava-se do caráter sectário de sua concepção”. O monumento era uma tentativa positivista de se apropriar da memória de Floriano, o qual não era positivista. Lima se mostrava atento a essas disputas em torno da memória do início republicano no Brasil, procurando, na sua narrativa, desmitificar, como vimos no capitulo anterior, a suposta harmonia social que a defesa do nacionalismo desejava representar para a população local e como imagem do Brasil no exterior.

57BARRETO, Lima.Os Bruzundangas. São Paulo: Ática, 1985 (Série Bom Livro), p. 72.

58A figura de Floriano fica no alto do pedestal e a bandeira republicana compõe o pano de fundo da estátua. Em baixo relevo, as cabeças de Tiradentes e José Bonifácio e busto de Benjamin Constant.

Já à esquerda, temos uma figura de jovem mulher que estende a mão direita, abençoando o passado e apontando para o futuro. Na base do monumento, numa forma de altar cívico, há referências aos altares erguidos em Paris após a Revolução de 1789, na qual se encontra quatro grupos em bronze e uma estátua. Os grupos representam as três raças formadoras da população brasileira e a religião católica,; já a estátua é uma figura de mulher, com uma rosa na mão, representado a raça mista surgida da fusão daquelas três. Cf. CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p.47-48.

Vale ainda salientar a dificuldade de interpretação daquele monumento destacada pelo narrador para endossarmos a crítica à narrativa histórica que o autor Lima Barreto procurou realizar nesse capítulo de Os Bruzundangas. Rüsen esclarece que a memória histórica e sua realização pela consciência histórica contêm elementos e fatores que não são genuinamente narrativos. Contudo, esses possuem também uma função narrativa, pois “são absorvidos e fazem parte da narrativa”.59

O autor alemão trata justamente de imagens e símbolos que estimulam a atividade memorativa da consciência histórica e através da qual ela é realizada.

Mesmo ainda não sendo narrativas, eles a geram, suscitando a interpretação histórica. Lima, pela forma como representa o monumento, dar continuidade a sua perspectiva negativa em relação à narrativa histórica que se propunham produzir alguns membros dos institutos históricos ao elegerem certos heróis nacionais. Para o literato carioca, essa narrativa, voltada para o enaltecimento de grupos políticos, era confusa e distante da veracidade da realidade nacional passada.

Notaremos mais dessa perspectiva de Lima quando, ainda nesse capítulo de Os Bruzundangas, trata da imagem do Brasil a ser divulgada nas outras nações por meio do olhar de seu narrador/viajante acerca de mais outro herói daquela república.

Este se chamava Visconde de Pancome e, diferente dos dois primeiros heróis, não se notabilizou pela atuação em conflitos armados ou políticos. O Visconde era embaixador e depois ocupou o cargo de “Ministro de Estrangeiros”. A critica do narrador a esse herói era dirigida a sua falta de “senso do tempo” e do “sentimento do seu país”.60

Era um historiógrafo; mas não um historiador. As suas ideias sobre história eram as mais estreitas possíveis: datas, fatos estes mesmos políticos. A história social, ele não a sentia e não a estudava. Tudo nele se norteava para a ação política e, sobretudo diplomática. Para ele (os seus atos deram a entender isto) um país existe para ter importância diplomática nos meios internacionais. Não se voltava para o interior do país, não lhe via a população com suas necessidades e desejos. Pancome sempre tinha em mira saber como havia de pesar, lá fora, e ter o aplauso dos estrangeiros.61

Notamos que a escolha dos heróis nacionais pelo narrador segue o modelo destacado numa das partes da revista do IHGB, a qual era destinada às biografias de brasileiros “distintos por letras, armas e virtudes”. Parafraseando essa

59RÜSEN, Jörn. ¿Qué es la cultura histórica?: reflexiones sobre uma nueva manera de abordar la historia. Disponível em:www.culturahistorica.esAcesso: 01 jul. de 2014, p. 9.

60BARRETO, Lima.Os Bruzundangas. São Paulo: Ática, 1985 (Série Bom Livro), p. 73.

61Ibid., loc.cit.

No documento LIMA BARRETO E A CULTURA HISTÓRICA: (páginas 167-195)