• Nenhum resultado encontrado

Lima Barreto, leitor de João Ribeiro

No documento LIMA BARRETO E A CULTURA HISTÓRICA: (páginas 153-167)

Já vimos no item 1.1 como Lima se utiliza de um trecho da obra História do Brasil de João Batista Ribeiro de Andrade (1860-1934) como epígrafe de seu romance Clara dos Anjos. Esse autor fazia parte das leituras barretianas durante a sua formação escolar e continuou como referência durante o seu processo de produção literária. Em carta enviada a João Ribeiro de 3 de junho de 1917, Lima Barreto, a fim de comentar a crítica que o filólogo e historiador sergipano havia feito a seu romance Numa e Ninfa, apresentou-se como um de seus leitores mais assíduo:

[...] De há muito que tenho habituado a estudar nos seus livros. E criança, no primeiro ano de sua gramática, mais tarde no segundo, depois no terceiro; em história da mesma forma e li tantas vezes a sua do Oriente e Grécia, que ainda hoje tenho de cor certos trechos. A suaHistória do Brasil (eu já estava há três anos na Escola Politécnica), quando apareceu, logo a comprei e a li e reli; os seus artigos na Revista Brasileira, sobre “A democracia na Alemanha”, foram muitas vezes lidos por mim e com diversos pensamentos, conforme os anos meus1.

A História do Brasil foi justamente a que mais, nessa trajetória de produção intelectual de João Ribeiro, teve impacto nas reflexões de Lima Barreto. Se retomarmos seus estudos acerca da “teoria das raças” registrados nas suas anotações pessoais, perceberemos que não era apenas admiração que Lima nutria por Ribeiro. Como um pensador crítico que era, Lima, apresentando aquela sua desconfiança em relação a certas premissas do determinismo racial, novamente fez uso, em 1905, de trechos daquele livro de história, lançado em 1900.

É que senti que a ciência não é assim um cochicho de Deus aos homens da Europa sobre a misteriosa organização do mundo.

Quando há dias li numa das lições das histórias do Brasil do Senhor João Ribeiro, pag.214: “Não podemos pensar que o homem de cor, conseqüência semi-híbrida do contato heterogêneo de raças tão distanciadas que, até por eminentes cientistas como Haeckel, são consideradas como espécies diversas, seja a peste da cultura americana, como sentenciam os sociólogos”, ri-me com uma espontaneidade, que até eu mesmo me admirei.

Lobriguei no período, debaixo daquele – “eminentes cientistas como Haeckel”- uma excomunhão em regra para os miscigênicos2.

Contudo, Lima Barreto não utilizava essa obra de João Ribeiro apenas para fundamentar suas reflexões contrárias ao racialismo. A sua leitura também era atenta às possíveis “incoerências” do historiador sergipano, sinalizando aspectos

1BARRETO, Lima.Correspondência: ativa e passiva. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1956c (Tomo II), p.32.

2Id.Diário íntimo: memórias. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1961a, p.112.

que iam de encontro ao seu pensamento acerca do cientificismo predominante naquele início de século XX. Em carta enviada a Gregório Fonseca de 18 de novembro de 1906, um dos pertencentes à roda de literatos formada em torno de Alcides Maia da qual Lima também fez parte, este apresentou os motivos que o impediam de visitá-lo.

Ando cheio de trabalho e de especulações. [...]. Estou monomaníaco.

Medito uma refutação a um trecho da história de João Ribeiro, não ao que dizem as palavras, mas ao espírito que as ditou e que se esconde debaixo delas.

Imagine você que trato de indagar se a ciência, dado o seu grau de probabilidade, pode ter juízos formais e condenatórios; e se em face do grau de probabilidade dela, esses juízos condenatórios não são equivalentes a anátemas, a excomunhões religiosas.

Eu queria me alongar mais, não posso, porém fazer, a menos que te quisesse escrever o próprio opúsculo que pretendo “perpetrar”.

Desculparás a cacetada. Essas coisas não te interessam senão remotamente, mas para mim são vitais. Boa razão para aborrecer os amigos!...3

A compreensão dos significados dessas referências à obra História do Brasil será possível se observarmos a inserção de seu autor no meio intelectual do distrito federal e, consequentemente, a recepção de seu trabalho bem como o posicionamento de Lima Barreto em relação a esse cenário. João Ribeiro, no momento de publicação daquela obra, já era um intelectual reconhecido.

Institucionalmente, pertencia a dois lugares de grande prestígio entre a elite letrada.

Ribeiro era professor de História Universal do Ginásio Nacional, antigo Imperial Colégio de Pedro II, para o qual havia sido nomeado no início da República e membro da Academia Brasileira de Letras cuja eleição se dera em 1898. Ao longo das décadas de 1880 e 1890, colaborou em diversos periódicos, defendendo o abolicionismo e o regime republicano. E, como o próprio Lima havia assinalado na carta acima que lhe enviou, já possuía uma produção intelectual, antes de 1900, voltada para os temas da língua nacional e também na área de História.

Por sinal, dois estudos que não eram vistos de maneira desvinculada por João Ribeiro. Hansen afirma que a perspectiva que esse autor adotou em relação aos seus estudos da língua e da história demonstrava sua coerência intelectual. Assim

3BARRETO, Lima.Correspondência: ativa e passiva. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1956a (Tomo I), p.130.

como José Veríssimo (tratado acima), um dos expoentes da geração de 1870, defendia a necessidade de conhecer os “assuntos nacionais”.4

O ensino da língua e da história pátria seria um dos pilares para o fortalecimento da nacionalidade, fazendo com que Ribeiro se empenhasse em pesquisar as transformações na língua devido a fatores históricos bem como empregasse os conhecimentos da filologia para a compreensão do passado brasileiro. A História do Brasil seguiu essa busca pela formação da nacionalidade e utilizou, em certos momentos, da filologia para fundamentar sua argumentação.

Essa obra, originalmente voltada para o público escolar, teve uma recepção entusiasmada entre a elite intelectual. João Ribeiro foi considerado um dos grandes historiadores brasileiros e seu texto foi citado por outros intérpretes reconhecidos da sociedade brasileira como Euclides da Cunha.5 Dentre as consequências imediatas da recepção positiva de sua obra, podemos destacar o seu desdobramento em três versões dirigidas às diferentes faixas de escolaridade (os cursos primário e médio, voltados para escolas primárias, e a História do Brasil. Curso Superior, para os ginásios e escolas normais, todas pela editora Jacinto Ribeiro Santos).6

A versão denominadaCurso Superior foi a que apresentou maior êxito e, ainda naquele ano de 1900, a Livraria Francisco Alves tornaria pública uma edição comemorativa do centenário do Descobrimento do Brasil, expressando a vocação do livro para transcender seu público originário. Araripe Júnior, no prefácio da 2ª edição de História do Brasil, elogia as qualidades intelectuais do autor, destacando sua formação durante o período em que, comissionado pelo governo federal, esteve na Alemanha estudando “os processos de ensino superior da História” bem como o método proposto pela obra para a aprendizagem da História, o qual familiarizaria “o espírito infantil com a ciência”.7

Essa passagem pela Alemanha contribuiu para a sua apropriação de fundamentos de uma vertente da produção historiográfica alemã do século XIX denominada Kulturgeschichte (história cultural), a qual orientou a produção do manual de História em destaque. Percebemos já na introdução da obra elementos

4 HANSEN, Patrícia Santos. Feições e Fisionomias: a História do Brasil de João Ribeiro. Rio de Janeiro: Access, 2000, p. 18.

5Ibid., p. 9.

6Ibid., p. 8-9.

7 ARARIPE JÚNIOR, Tristão de Alencar. João Ribeiro: filólogo e historiador. In: Ribeiro, João.

História do Brasil.20 ed. revista e completada. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2001, p. 19-24.

dessa escolha teórica de Ribeiro ao apontar uma de suas grandes diferenças em relação aos outros manuais.

Quando me propus escrever este pequeno livro pensei em retornar à antiga tradição dos nossos cronistas e primeiros historiadores, que às suas histórias chamavam de Notícia ou Tratado do Brasil. Com isso queriam significar o modo como supriam a escassez de fatos políticos com o estudo da terra e das gentes que a habitavam.

Este belo costume logo se perdeu, porque, adquirindo o Brasil os foros de nacionalidade, a sua história começou a ser escrita com a pompa e o grande estilo da história européia; perdeu-se um pouco de vista o Brasil interno por só se considerarem os movimentos da administração e os da represália e da ambição estrangeira, uns e outros agentes da sua vida externa. [...]

[...] nas suas feições e fisionomia própria, o Brasil, o que ele é, deriva do colono, do jesuíta e do mameluco, da ação dos índios e dos escravos negros. [...] Esta história, a que não faltam episódios sublimes ou terríveis, é ainda a mesma presente, na sua vida interior, nas suas raças e nos seus sistemas de trabalho, que podemos a todo instante verificar. Dei-lhe por isso uma grande parte e uma consideração que não é costume haver por ela, neste meu livro.

Em geral, os nossos livros didáticos da história pátria dão excessiva importância à ação dos governadores e à administração, puros agentes (e sempre deficientíssimos) da nossa defesa externa.8

Hansen afirma que esse pensamento de Ribeiro está fundamentado na noção de típico daquela vertente historiográfica alemã. Para Burckhardt, grande modelo dessa historiografia na Alemanha de início da década de 1870, a história cultural, diferentemente da história política, não se limitaria à narração cronológica dos fatos.

Sua preocupação era com algo “constante”, mais instrutivo que o fato particular e individual”. O detalhe, o acontecimento que seja, seria considerado como testemunho de um sentido geral, pois se o “fato tinha valor para o historiador da cultura era por causa do típico de sua representação; [...] a constante” que se destacaria “ de todos estas representações” constituiria o “conteúdo real”, chegando assim “a conhecer uma forma.9

Esse aspecto daHistória do Brasilde João Ribeiro, presente no seu objetivo de representar o país em “suas feições e fisionomia própria” e rompendo com uma historiografia mais voltada para os fatos políticos e administrativos, também teve repercussão na produção de Lima Barreto. O romance satírico Os Bruzundangas, a coletânea de relatos e tradições populares Mágoas e Sonhos de um povo e os contos reunidos na obra História e Sonhos – sendo que o segundo trabalho será mais detalhado e discutido no último capítulo desta tese - sinalizam em muitos dos

8 RIBEIRO, João. História do Brasil. 20 ed. revista e completada. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2001, p. 31.

9 HANSEN, Patrícia Santos. Feições e Fisionomias: a História do Brasil de João Ribeiro. Rio de Janeiro: Access, 2000, p. 73-75.

seus trechos a preocupação barretiana de aproximar seu leitor da discussão acerca da necessidade dos intelectuais explorarem em suas narrativas aspectos da cultura de grupos populares bem como sua percepção da preservação e possíveis mudanças de elementos presentes no cotidiano do povo que revelam traços de sua formação ao longo do tempo.

Aquela citação de parte da introdução da obra de Ribeiro também nos convida a tratar de um tema, muito caro a Lima Barreto como vimos no primeiro capítulo, que é a formação da nacionalidade brasileira a partir da composição racial. Araripe Júnior, no seu prefácio, afirma que João Ribeiro declarou numa nota final do livro que havia seguido “à letra as indicações de Martius, que incontestavelmente foi o iniciador da filosofia do Brasil no admirável trabalho Como se deve escrever a História do Brasil”.10

A monografia do intelectual alemão Carl Friedrich Philip Von Martius (1794- 1868), vencedor do concurso promovido pelo IHGB em 1840 e parte das leituras de Lima Barreto durante o seu processo de escrita de uma de suas obras mais voltadas para o diálogo com a tradição nacionalista no Brasil que é Triste fim de Policarpo Quaresma11, apresenta um receituário para quem se interessasse pela escrita da história nacional. Esse autor asseverava:

[...] O sangue português, em um poderoso rio, deverá absorver os pequenos confluentes das raças índia e etiópica. Na baixa classe tem lugar esta mescla, e como em todos os países se formam as classes superiores dos elementos das inferiores, e por meio delas se vivificam e fortalecem, assim se prepara atualmente na última classe da população brasileira essa mescla de raças, que daí a séculos influirá poderosamente sobre as classes elevadas, e lhes comunicará aquela atividade histórica para a qual o império do Brasil é chamado.

Eu creio que um autor filosófico, penetrado das doutrinas da verdadeira humanidade, e de um cristianismo esclarecido, nada achará nessa opinião que possa ofender a susceptibilidade dos brasileiros. Apreciar o homem segundo o seu verdadeiro valor como a mais sublime obra do Criador, e abstraindo da sua cor ou seu desenvolvimento anterior, é hoje em dia uma conditio sina qua nonpara o verdadeiro historiador.12

João Ribeiro não apresentou o mesmo teor favorável à mescla das raças no Brasil que o naturalista Martius. A continuidade daquele trecho, selecionado por Lima para apresentar que até entre os deterministas raciais – Haeckel (1814-1919) foi um darwinista social - havia argumentos contrários à ideia do negro como

10 ARARIPE JÚNIOR, Tristão de Alencar. João Ribeiro: filólogo e historiador. In: Ribeiro, João.

História do Brasil.20 ed. revista e completada. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2001, p. 22.

11BARRETO, Lima.Diário íntimo: memórias. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1961a, p.147.

12MARTIUS, Carl von. Como se deve escrever a História do Brazil.Revista Trimensal de História e Geographia, Rio de Janeiro, v.6, n.24, p.383, jan. 1845.

elemento depreciador da cultura americana, traz elementos que apontam o compromisso de Ribeiro com o cientificismo de sua época, o qual o impedia de seguir “à letra” Martius e o aproximava de seu conterrâneo Silvio Romero com quem estabeleceu uma amizade ao chegar ao Rio de Janeiro na década de 1880, facilitando seu ingresso no círculo dos intelectuais da época.

[...] Mas não cremos com Martius, que aliás com grande atenção observou essas raças, serem elas suscetíveis de toda a perfectibilidade;

evidentemente e como naturalista Martius pensava no cruzamento crescente pela imigração européia que viria afinal suplantar o caráter das camadas primitivas; felizmente ainda na raças mestiças há sempre um escol intelectual e moral que consegue subjugá-las e dirigi-las.

As raças miscigêneas no seu todo, porém, quais no-las representa a América Latina, não parecem nesse estado possuir a capacidade do self- government. Embalde adaptam as ideias da civilização a seu organismo;

falta-lhes o sentimento que aquelas ideias pressupõem e as qualidades morais que, ao contrário das teorias, só a educação secular da história consegue a custo verter no espírito humano. [...]

Em geral, assimilam e preferem as teorias e os sistemas mais radicais porque esses são possíveis só com a demolição da sociedade; cortejam assim a civilização e ao mesmo tempo satisfazem o instituto fundamental que é, como o das crianças, puramente destrutivo. [...] Aqueles que descendem diretamente da escravidão ou da floresta viva nada têm com o passado que a prole deles, não tendo nobreza, não a estima. Nada aceitam da história, que naturalmente lhes é suspeita ou indiferente, buscam remédio impossível nas utopias do futuro que a sua frágil moral não comporta; assim sorriem dos reis que a história consagrou e ainda escarnecem mais dos deuses falsos que eles próprios fabricam e se propõem inutilmente a venerar. Não sabem governar nem ser governados, [...].

O único remédio para esses povos é o mesmo da antiga colonização, o povoamento contínuo e a imigração europeia [...].13

Silva, no seu estudo sobre a construção da brasilidade na obra de João Ribeiro, aponta que na citação acima se percebe a grande contradição na concepção racial do autor. Se, em páginas anteriores da obra, indica a raça nacional mestiça como o agente construtor da nacionalidade, apresenta ao mesmo tempo receio e pessimismo quanto a isto.14 Notamos como Ribeiro via na imigração europeia a saída para os males trazidos pela miscigenação no Brasil, corroborando o pensamento de Sílvio Romero sobre o branqueamento da nação pela introdução desse elemento externo. Como vimos, algo que representava a forma como muitos intelectuais se apropriaram do racialismo para justificar seu racismo e manter a desigualdade social naquele pós-abolição e início republicano brasileiro.

13RIBEIRO, João. História do Brasil. 20 ed. revista e completada. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2001, p. 199-200.

14 SILVA, Roberto Candido da. O polígrafo interessado: João Ribeiro e a construção brasilidade.Orientadora: Miriam Dolhnikoff. 2008. 200f. Dissertação (Mestrado em História Social) – Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2008, p.

180.

O trecho acima da História do Brasil de Ribeiro pode ter sido o objeto da reflexão de Lima, destacada naquela carta escrita em 1906. Contudo, pela trajetória de seus estudos que acompanhamos no primeiro capítulo, outros trechos devem ser considerados a fim de compreendermos o desejo de Lima Barreto em refutar - “não ao que dizem as palavras, mas ao espírito que as ditou” – determinado aspecto dos argumentos do autor sergipano. Além disso, na década seguinte ao lançamento do livro, Lima ainda apresenta, em textos publicados na imprensa, ideias que procuram dar continuidade a sua contestação ao “espírito” que ditou as palavras utilizadas por Ribeiro naquele sucesso editorial que foi seu manual.

A influência da escravidão negra na formação do povo brasileiro deve ter sido um aspecto da obra de João Ribeiro que atraiu a atenção de Lima Barreto. Em muitos trechos referentes ao negro, Ribeiro o apresenta de uma forma que justifica/abranda a sua escravização e o inferioriza, mesmo reconhecendo sua contribuição para a construção do povo brasileiro.

Já no primeiro capítulo, subtítulo “A terra e os habitantes”, ao abordar os indígenas e suas relações com os colonizadores portugueses, Ribeiro aponta que estes pensaram “logo em transformá-los em escravos; a escravidão não era uma injúria para a consciência dos negros, muito menos para os índios; mas era um ato e o principal efeito da guerra”.15Mais adiante, num dos capítulos que constitui o cerne da obra que é “A formação do Brasil: a) História comum”, o autor dedica um subtítulo à “escravidão negra”.

A princípio, Ribeiro apresenta a falta de proteção que os negros tiveram contra a escravização se comparado aos indígenas e a importância do tráfico negreiro para o incremento da economia colonial. Nesse momento do texto, também aponta os lugares de origem de muitos escravizados bem como os horrores vividos desde sua captura em solo africano até sua chegada ao Brasil. Informações, portanto, que devem ter sido utilizadas pelo próprio Lima Barreto para a elaboração daqueles primeiros manuscritos nos quais narrava o cotidiano de escravizados (contos incompletos, esboço de uma peça e alguns trechos da primeira versão de Clara dos Anjos).

O segundo momento da narrativa de Ribeiro referente à escravização do negro certamente já ia de encontro ao pensamento que Lima estava construindo no início

15RIBEIRO, João. História do Brasil. 20 ed. revista e completada. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2001, p. 49.

do século XX acerca das mazelas que a população negra vivenciava na sociedade brasileira, situação influenciada pela experiência do seu passado escravocrata.

Ribeiro justifica que as mazelas da escravidão eram comuns entre os africanos. Os traficantes apenas se aproveitaram dessa situação.

Para o autor, “o resgate dos negreiros é apenas o triste epílogo das grandes conflagrações, cujo rastilho eles acendiam de longe na foz deserta dos rios ou à beira do Oceano”.16 A escravidão no Brasil, diante desse contexto, era considerada um desfecho desejado pelos escravizados.

[...] Daqui em diante, a vida dos negros regulariza-se, a saúde refaz-se e com ela a alegria da vida e a gratidão pelos novos senhores, que melhores eram que os da África e os do mar. Sem dúvida alguma, ainda muitos dos horrores e crimes ressurgem no cativeiro novo, e aqui e ali, não falham, entre senhores cruéis, rigores monstruosos.

A escravidão, porém, sempre era corrigida entre nós pela humanidade e pela filantropia. [...]

[...] Costumes belíssimos instituem-se entre os senhores; como os de apadrinhar os remissos ou fugitivos [...]. O costume de ceder um dia ou dois (sábado ou domingo) ao trabalho do negro [...] e também o reconhecimento da propriedade privada do escravo. Outro costume é o das alforrias na pia o que fazia com uma espórtula insignificante [...] que nunca era recusada;

esse hábito era frequente , sobretudo quando as crianças traziam a pele mais clara. A religião concedia-lhes uma parte no culto, e santos negros [...]

protegiam irmandades numerosas de pretos. [...].

Todos esses costumes testemunham em favor de nossa índole e liberalidade.

Não é nosso intento fazer apologia da escravidão, cujos horrores principalmente macularam o homem branco e sobre ele recaíram. Mas a escravidão no Brasil foi para os negros a reabilitação deles próprios e trouxe para a descendência deles uma pátria, a paz e a liberdade e outros bens que pais e filhos jamais lograriam gozar, ou sequer entrever no seio bárbaro da África.17

O abrandamento da experiência escravocrata no Brasil pelo autor dever ser inserido no contexto da produção da obra. Como vimos, a reorganização política e social advinda da abolição da escravidão e proclamação da República fez com que a categoria cidadão fosse estendida a um maior contingente populacional. Como arrefecer tensões oriundas do período escravista e tentar definir uma identidade nacional que fizesse frente às outras nações consideradas civilizadas?

A adoção do ideário cientificista era um dos critérios vistos como sinalizador do caminho para se alcançar o patamar de nação civilizada. Por outro lado, o racialismo, ponta aparente do iceberg cientificismo nas palavras de Todorov18, constituiu um

16RIBEIRO, João. História do Brasil. 20 ed. revista e completada. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2001, p. 142.

17Ibid., p. 143-145.

18TODOROV, Tzvetan.Nós e os outros: a reflexão francesa sobre a diversidade humana. Tradução:

Sérgio Goes de Paula. Vol. 1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993, p. 111.

No documento LIMA BARRETO E A CULTURA HISTÓRICA: (páginas 153-167)