Segundo Bayley (2002), poder é um conceito que se torna significativo apenas quando posto em relação à capacidade da força policial de cumprir com sua finalidade precípua.
Para o autor, uma força pode ser efetiva na prevenção do crime, outra em investigação, uma terceira pode ser efetiva em controlar distúrbios civis, e assim por diante (BAYLEY, 2002, p. 89). Essas diferenças na efetividade operacional de cada polícia variam conforme vários aspectos da organização, e, dentre esses, os principais para mensurar o poder da polícia seriam: a quantidade de pessoal empregada e o orçamento aplicado na instituição.
Nesse sentido, o efetivo da PMERJ possui 60.471 policiais militares previstos por lei (RIO DE JANEIRO, 2009b) para atuarem na ativa, ou seja, é o quantitativo máximo com o qual a Instituição pode estabelecer seu planejamento estratégico.
A lei que fixa esse número detalha quantos policiais devem existir em cada quadro, graduação e posto, o que nos permite verificar que nem todos os profissionais que integram a PMERJ atuam diretamente na atividade de policiamento.
Descontando-se do número total os quadros de oficiais que raramente atuam nas ruas, especialmente após atingirem o posto de oficial superior, e de praças que atuam nas áreas de saúde, manutenção e banda de músicos, o saldo se resume aos profissionais do Quadro de Praças Policiais Militares Combatentes (QPMP-0), que
abriga os que efetivamente trabalham no policiamento diuturno e que prevê os seguintes quantitativos:
Quadro 4 – Profissionais que trabalham no policiamento diuturno Quadro de Praças Policiais Militares Combatentes
Subtenentes 560
1º Sargentos 970
2º Sargentos 2.286
3º Sargentos 3.514
Cabos 9.302
Soldados 37.486
TOTAL 54.118
Fonte: RIO DE JANEIRO, 2009b.
Entretanto, como os policiais que trabalham na área operacional atuam em sistema de escala, esse número não representa a quantidade de policiais militares que atuam todos os dias e noites no estado. A fim de oferecer uma estimativa o mais realista possível, tendo em vista a dificuldade em apurar o número de profissionais em licença e atuando em atividades administrativas internas, bem como, que existem diferentes escalas de serviço, consideraremos que o regime de trabalho mais comum é o de Radiopatrulha: 12h (trabalho) x 36h (descanso); e 12h (trabalho) x 24h (descanso). Assim, em média, temos o efetivo dividido por quatro partes para permitir o rodízio entre os turnos de serviço.
Com isso, o efetivo total previsto de praças do quadro operacional de 54.118 é repartido por quatro para permitir os rodízios, indicando que por turno de doze horas de serviço temos no estado um efetivo total aproximado de 13.529.
Esse número precisa ser relativizado com o tamanho do estado fluminense, que possui 43.750,423 km², e uma população levantada no último censo em 2010 de 15.989.929 pessoas. Isso gera uma densidade demográfica à época do censo de 2010 de 365,23 hab./km2.
Se analisarmos apenas a cidade do Rio de Janeiro, temos uma população em 2010, ano do último censo, de 6.320.446 pessoas, com uma densidade demográfica no mesmo ano de 5.265,82 hab./Km2. Em 2018, a área territorial da cidade do Rio de Janeiro era de 1.200,255 km2 (IBGE, 2020b).
Não dispomos do efetivo policial alocado na cidade do Rio de Janeiro, mas considerando o número de OPMs na região, onde estão 16 dos 41 Batalhões,
acrescidos de unidades especiais, podemos inferir que a densidade seja maior que a prevista para todo o estado.
Entretanto, em que pese o número máximo de policiais militares fixado em lei, a realidade aponta para um número menor que o legalmente previsto. Entre outros motivos, é necessário considerar que anualmente um quantitativo de profissionais ingressa na reserva remunerada (o equivalente à aposentadoria), outra parte é licenciada por invalidez decorrente de acidente em serviço ou por serem considerados incapazes para o serviço policial por problemas relacionados a saúde, e existem ainda os que são excluídos da Corporação por desvios de conduta. Junte-se a isso o longo tempo sem concursos públicos para reposição de efetivos, em que o último certame para ingresso de soldados foi em 2014.
A proposta de lei orçamentária anual para 2020, indicada na Figura 10, sinalizou que o quantitativo existente de policiais militares na ativa é de 44.493.
Figura 10 – Quantitativo de servidores por órgão de governo - 2020
Fonte: GOVERNO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, 2019, p. 145.
Por outro lado, observa-se que o efetivo policial na ativa só é inferior no Estado do Rio de Janeiro ao quantitativo de servidores na Secretaria de Educação.
Em relação ao investimento feito na PMERJ, de acordo com a Tabela 1, o montante dos gastos na função segurança pública dentro do orçamento total do Estado do Rio de Janeiro é muito expressivo. A proposta de orçamento para 2020 é
R$ 12,7 bilhões, equivalente a 15,79% do orçamento estadual previsto de R$ 80 bilhões.
Tabela 1 – Resumo de despesa por função – LOA 2020
Fonte: RIO DE JANEIRO, 2020b, p. 18.
É importante considerarmos que se forem somados os gastos com aposentadorias e pensões destinados à área da segurança – que, conforme a Tabela 2, chegam a R$ 8,5 bilhões, isto é, mais de um terço dos R$ 23,7 bilhões destinados para a função previdência social –, o valor dedicado à função segurança chega a R$
21,2 bilhões ou 26,3% do orçamento do Estado, de mais de R$ 83 bilhões.
Tabela 2 – Total de despesas previstas para 2020 para pagamento de pessoal e encargos sociais dentro da função segurança pública
Fonte: GOVERNO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, 2019.
A parcela do montante de recursos destinados a função segurança pública que cabe à PMERJ é de R$ 5,7 bilhões, conforme podemos observar na Tabela 3.
Tabela 3 – Síntese da aplicação por fonte de recursos – função segurança pública
CÓD. Identificação Total Pessoal e
Encargos Sociais
Juros e Encargos da Dívida
Outras despesas correntes
Investimentos Inversões Financeiras
Amortização da dívida 100 Ordinários provenientes de impostos 4.603.278.587 4.257.744.978 ... 315.626.548 28,907.061 ... ...
108 Receita desvinculada Tesouro EC 93/2016
1.019.239.263 1.019.239.263 ... ... ... ... ...
120 Ressarcimento de Pessoal 61.295.243 29.154.006 ... 32.141.237 ... ... ...
212 Transferências Voluntárias 53.930.448 41.930.448 ... 12.000.000 ... ... ...
Total Geral 5.737.743.541 5.348.068.695 ... 359.767.785 29.907.061 ... ...
Fonte: RIO DE JANEIRO, 2020b.
Sobre o investimento, podemos observar que a maior parte dos recursos da PMERJ é utilizada para custeio do pessoal e encargos sociais, restando para investimento pouco além de R$ 389 milhões do total de mais de R$ 5,7 bilhões. Esse contexto nos revela que a PMERJ se encontra limitada em sua capacidade de investimento, considerando que a maior parte de seus recursos é destinada para o custeio de remunerações e pensões.
Ao mesmo tempo, embora o segundo maior contingente de servidores seja da segurança pública, o número de policiais ainda pode ser considerado baixo, considerando a extensão e complexidade do território fluminense.
Coloca-se um dilema em relação a essa questão, posto que os recursos com pessoal tomam a maior parte do orçamento, mas o último concurso de ingresso foi em 2014, o que torna urgente a necessidade de novas entradas. Ao mesmo tempo esse dado indica que projetos que demandem maior efetivo policial dificilmente serão realizados com base em novos concursos, em função da limitação financeira com gastos de pessoal.