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Johannes de Silentio

No documento RAZÃO E FÉ (páginas 48-53)

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49 Portanto, encontrar Kierkegaard em Silentio exige, inicialmente, desvelar a função e a importância de Silentio na obra Temor e Tremor.

3.2.1 O alônimo esteta

A metodologia da comunicação indireta utilizada na obra Temor e Tremor, possibilitada pela figura existencial de Johannes de Silentio, procura mostrar aos leitores contemporâneos de Kierkegaard “a inadequação entre o viver a vida e o existir no interior da própria vida”.115

O pseudônimo esteta é figura que serve de espelho ao escritor e ao leitor, forma alegórica que revela realidade outra, além da estrita representação que encena, de forma dramática, cômica, irônica e, até mesmo, trágica, como o explica Valls:

Eis a importância da comunicação indireta: mostrar pelas alegorias que o homem do seu tempo, bem como o do nosso, tornou-se um “cadáver ambulante”, uma máscara, um fardo pesado, e que existir é demasiado, preferindo ser um “simples espectador” da existência116.

Johannes de Silentio é a imagem que tem como objetivo dissipar a ilusão que limitou a filosofia às categorias do pensamento hegeliano. Para Silentio, quando o assunto é a existência, os sistemas e conceitos se tornam impotentes, pois o existente é contraditório e contingente.

Compreendida a função de Johannes de Silentio, a questão que se apresenta é identificar o que Kierkegaard constrói por meio dessa personagem. A citação de Hamann

115 ALMEIDA, Jorge M. VALLS, Álvaro L.M. Kierkegaard. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2007.p. 33.

116 ALMEIDA, Jorge M. VALLS, Álvaro L.M. Kierkegaard. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2007, p.34.

50 indica um caminho: “O que Tarquínio o Soberbo pretendia designar com as papoulas do seu jardim, compreendeu-o o filho, não o mensageiro”117.

De acordo com Gouvêa, Hamann exerceu influência significativa no pensamento de Kierkegaard. Alguns conceitos como angústia, paradoxo, ironia, comunicação indireta e humor foram extraídos da leitura das obras desse escritor”118.

Hamann foi um dos mais importantes pensadores do movimento Sturm und Drang na Alemanha119. “Para Hamann, o iluminismo absolutizou a razão e tendeu a dar ao homem uma falsa concepção de si mesmo”120. Sua crítica ao sistema filosófico e a denúncia às deficiências da abstração influenciaram Kierkegaard121. No entanto, sua maior influência terá sido a afirmação que Hamann faz, na existência humana, de um contraste entre razão e fé.

Para Hamann, a razão e a fé são partes constituintes da existência humana. O que de fato existe “não necessita ser demonstrado pela razão para ser experimentado e crido, ainda que se possa, a posteriori, construir estruturas racionais sobre isso”122. A crítica de Hamann está relacionada à tentativa de argumentar racionalmente em favor da fé cristã.

Outra característica de Hamann que influenciou o pensamento e a forma dos escritos de Kierkegaard foi o estilo literário. Hamann não fazia ataques diretos contra seus opositores.

Pelo contrário, utilizava a ironia, o humor e aforismos, cônscio de que, por meio de argumentos lógicos, não ganharia seus opositores, mas, por meio da comunicação indireta, atrairia seus corações123.

117 KIERKEGAARD, S. A. Temor e Tremor. São Paulo: Abril cultural, 1979, p.109.

118 GOUVEA, Ricardo Q. A palavra e o silêncio. São Paulo: Custom, 2002. p. 83.

119 O Sturm und Drang foi um movimento de caráter nacional que desencadeou o Romantismo. O movimento se opunha ao Iluminismo. Este conferia o predomínio da razão sobre os demais valores do ser humano e do mundo.

O Sturm und Drang colocou a vida como valor supremo e recusou todas as normas que, mesmo válidas racionalmente, pudessem limitar o desenvolvimento individual.

120 GOUVEA, Ricardo Q. A palavra e o silêncio. São Paulo: Custom, 2002. p. 84.

121 GOUVEA, Ricardo Q. A palavra e o silêncio. São Paulo: Custom, 2002, p.85.

122 HAMANN apud GOUVÊA, Ricardo Q. A palavra e o silêncio. São Paulo: Custom, 2002., p. 95.

123 GOUVEA, Ricardo Q. A palavra e o silêncio. São Paulo: Custom, 2002, P. 98.

51 Assim, no prólogo da obra Temor e Tremor foram encontrados pistas e rastros que parecem indicar Silentio/Kierkegaard e seu tema: a verdade não é comunicável diretamente nem conceitual, mas é silenciosa, individual, subjetiva e existencial. Passa necessariamente pelo “filtro da ironia, do humor etc”124, para encontrar o que é mais importante: a verdade do indivíduo.

3.2.2 O silêncio de Johannes de Silentio

É nessa perspectiva que, ao citar Hamann na abertura de Temor e Tremor, Silentio/Kierkegaard oferece pistas dos métodos e intenções que giram em torno da obra. A possibilidade de uma comunicação indireta a partir de Silentio revela os caminhos que Kierkegaard percorrerá em sua obra.

O prólogo é elaborado a partir de uma narrativa sobre o mundo agitado do mercado que afetou também o mundo das idéias. Como narra Silentio/Kierkegaard:

Processa-se nesta época uma verdadeira liquidação que tanto exige o mundo das idéias como o mundo dos negócios. Tudo se obtém por preços tão irrisórios que cabe perguntar-se, depois, se haverá ainda comprador. O arbítrio da especulação muito conscienciosamente aplicado em assinalar as etapas mais significativas da evolução da filosofia, o professor, o mestre de estudos, o estudante e enfim o filósofo, amador ou formado, não ficam na dúvida radical – vão ainda mais longe125.

Silentio/Kierkegaard, em sua reflexão, curiosamente, cita Descartes, símbolo da dúvida e do ceticismo na modernidade. Sua crítica à filosofia moderna diz respeito à relação da razão com a fé. “Ninguém hoje se detém na fé – vai mais longe”126, e ir mais longe não significa alcançar a fé. É o que compreende Silentio/Kierkegaard quando afirma que “embora

124 LE BLANC, Charles. Kierkegaard. São Paulo: Estação Liberdade, 2003, p.115.

125 KIERKEGAARD, S. A. Temor e Tremor. São Paulo: Abril cultural, 1979, p. 109.

126 KIERKEGAARD, S. A. Temor e Tremor. São Paulo: Abril cultural, 1979, p. 110.

52 se possa formular em conceito toda a substância da fé, não resulta daí que se alcance a fé, como se a penetrássemos ou ela se houvesse introduzido dentro de nós”127.

Kierkegaard, na figura de Silentio, nega-se como filósofo, já que não assume sistema filosófico algum, e questiona mesmo se existe algum. Sua identidade está na poética e no amadorismo. Mesmo que formule algo sobre a fé, nega a possibilidade de alcançá-la pela própria razão. Daí sua estratégia de utilizar o silêncio de Silentio e seu amadorismo, no qual assume que não desenvolverá sistema algum128. O seu próprio nome, Silentio, revela essa atitude frente à especulação racional de sua época. O silêncio é marca registrada do alônimo de Temor e Tremor.

A obra se inicia com o silêncio do significado de Silentio, o silêncio de Tarquínio e, por fim, se fecha com o silêncio de Abraão. Não há voz que fale à maneira da racionalidade especulativa da época, mas a voz que se quer fazer ouvida em Temor e Tremor é a da subjetividade, do indivíduo singular e da existência.

Silentio/Kierkegaard conduz seus leitores a uma escolha, que está relacionada com o que é a verdade para o indivíduo. Também está preocupado em como a verdade se torna significativa para uma existência concreta e real. Silentio/Kierkegaard não é o logos que busca uma verdade por meio da racionalidade e, sim, o pathos que alcança uma verdade que atende à situação existencial do indivíduo129.

Portanto, o alônimo esteta da obra Temor e Tremor é aquele que busca criticar a filosofia especulativa de sua época por ter rejeitado os dramas presentes na decisão e escolha do indivíduo concreto. Ao compreender que a razão possui os seus limites frente à existência humana, Silentio/Kierkegaard propõe mostrar a necessidade de uma nova razão possível no existente sem anular a sua interioridade.

127 KIERKEGAARD, S. A. Temor e Tremor. São Paulo: Abril cultural, 1979, p. 110.

128 KIERKEGAARD, S. A. Temor e Tremor. São Paulo: Abril cultural, 1979. p. 110.

129 LE BLANC, Charles. Kierkegaard. São Paulo: Estação Liberdade, 2003, p.115.

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No documento RAZÃO E FÉ (páginas 48-53)