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Observações iniciais

No documento RAZÃO E FÉ (páginas 44-48)

44 3 Os limites da razão nas falas de Johannes de Silentio

45 aparente contradição seria proposital, como “um disfarce estético”101 tanto do filósofo como do humano piedoso.

Corroborando essa idéia, convém lembrar que as obras do filósofo, enquadradas na categoria estética, são assinadas por alônimos, isto é, personagens simbólicos que expressam as idéias do pensador dinamarquês. Essa estratégia é explicada pelo autor como um convite ao leitor a desvendar seu enigma ou a participar do jogo proposto nas e pelas personagens:

[...] quando uma mistificação, uma reduplicação dialética é posta ao serviço da seriedade, este procedimento supõe que se recorra a ele simplesmente de maneira a evitar os equívocos e os acordos provisórios, deixando ao investigador honesto o cuidado de encontrar a explicação verdadeira102.

Para alguns estudiosos das obras de Kierkegaard, o significado da utilização dos alônimos kierkegaardianos nas obras estéticas tem como finalidade mostrar as diversas facetas da identidade do próprio filósofo103. É como se Kierkegaard oferecesse a seus pensamentos a possibilidade de tomarem vida própria, através de outros nomes e imagens de si, de forma não rígida ou sistemática. Ele vive como pessoa interposta em cada um de seus personagens. Ele se diverte em colocar em cena, graças a eles, a pluralidade de suas aspirações contraditórias104.

A utilização kierkegaardiana dos alônimos é uma espécie de recusa ao absoluto da única verdade perfeita em relação a si e ao humano, em última instância. Afinal, “um único homem não pode dizer toda a verdade”105. Tão múltiplos quanto seus alônimos, são os pensamentos de Kierkegaard e vice-versa.

101 KIERKEGAARD, S.A. Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor. São Paulo: Edições 70, 1986, p.30.

102 KIERKEGAARD, S.A. Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor. São Paulo: Edições 70, 1986, p. 31.

103 GUSDORF,G. Kierkegaard. Paris: Ed. Seghers, 1963, p.75.

104 GUSDORF,G. Kierkegaard. Paris: Ed. Seghers, 1963, p.75

105 GUSDORF,G. Kierkegaard. Paris: Ed. Seghers, 1963, p.76.

46 A essa estratégia do filósofo dá-se, contemporaneamente, o nome de “método indireto”106 ou “comunicação existencial”107. Esse método tem o objetivo de oferecer, nas vozes pseudônimas, um espelho da existência e da natureza humana, “pois cada personagem tem a capacidade de representar internamente os vários estádios da existência humana”108. Pode-se então compreender o método da comunicação indireta como um esforço de refletir em múltiplas imagens as diversas possibilidades de existir.

Assume-se, como pressuposto para esta reflexão, que a pseudonímia em Kierkegaard é uma estratégia literária consciente e um método por meio do qual o filósofo deseja refletir sobre um tema e que ele precisa de outras vozes e instâncias estéticas, dadas as complexidades e demandas desse tema.

Além da questão da pseudonímia, é relevante compreender a relação da estética e do religioso em Temor e Tremor. Kierkegaard utiliza a retórica como metodologia de caráter estético como autor religioso. Com essa elaboração, há dois movimentos, em que o segundo exige o primeiro, ao tempo que também o reforça e prepara. Primeiramente, ele atrai e seduz o leitor. Encantado o leitor, paulatinamente desconstrói-lhe as ilusões, demonstrando a falácia de suas convicções, e, simultaneamente, oferece-lhe uma concepção, a religiosa, que é superior à estética. Tais são suas palavras:

[...] uma ilusão nunca é dissipada directamente, só se destrói radicalmente de uma maneira indirecta. O ataque directo não faz mais do que ancorar o homem na ilusão, exasperando-o. O autor religioso deve, portanto, em primeiro lugar, entrar em contacto com os homens. Por outras palavras, deve começar por uma produção estética que lhe servirá de preço a pagar. E quanto mais brilhante é o seu trabalho, melhor se sente com ele.

Seguidamente, deve estar seguro de si, ou antes (e é o meio mais seguro e até o único certo), deve permanecer sob o olhar de Deus no temor e no tremor, a fim de evitar o resultado inverso e de não se tornar um animador do poder daqueles que estimula, para se atolar finalmente no estético. Deve, portanto,

106 KIERKEGAARD, S.A. Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor. São Paulo: Edições 70, 1986, p. 39.

107 ALMEIDA, Jorge M. VALLS, Álvaro L.M. Kierkegaard. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2007, p.33.

108 ALMEIDA, Jorge M. VALLS, Álvaro L.M. Kierkegaard. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2007, p.13

47 estar totalmente pronto para produzir o religioso, sem qualquer impaciência, mas tão depressa quanto possível no exacto momento em que conquistou os leitores, de modo a que embatam contra o religioso à velocidade com que se abandonam do estético109.

Nesse método retórico, Kierkegaard acentua a responsabilidade daquele que conduz a reflexão acerca dos efeitos sobre seus leitores “conquistados”, ou seja, dos efeitos estéticos que a reflexão deve necessariamente chegar a produzir em ambos, leitor e escritor.

Tem, pois, significado religioso a conjunção da metodologia estética de produção da reflexão religiosa com o uso da estratégia da pseudonímia. Na obra Temor e Tremor percebem-se muitas características estéticas, mas não é o intuito desta pesquisa descrevê-las.

Pretende-se ressaltar uma das características marcantes nesta obra, ou seja, a utilização do alônimo. Daí a necessidade de compreender Silentio como figura representativa do pensamento de Kierkegaard.

A função de cada alônimo nas obras kierkegaardianas é, como já citado, um espelho existencial, no qual cada leitor pode enxergar-se110. O efeito sobre o leitor que é seduzido ao diálogo com Don Juan, Margarida, Fausto, Asvero, Jó, Climacus, Abraão, Guilherme, Victor Eremita, Anti-Climacus, Johannes de Silentio, Nicolaus NTabene, Frater Taciturnus ou Constantin Constantius111 é se deparar com várias visões da existência e, com todas essas possibilidades, deixar-se levar ao que é superior.

Nessa perspectiva, Johannes de Silentio, como alônimo de Kierkegaard, torna-se a imagem e a voz responsável pela obra Temor e Tremor. Por meio da compreensão dessa personagem tão enigmático e ao mesmo tempo tão revelador percebem-se caminhos para refletir sobre a razão e a fé na agenda kierkegaardiana.

109 ALMEIDA, Jorge M. VALLS, Álvaro L.M. Kierkegaard. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2007, p. 40.

110 ALMEIDA, Jorge M. VALLS, Álvaro L.M. Kierkegaard. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2007, p.12.

111 ALMEIDA, Jorge M. VALLS, Álvaro L.M. Kierkegaard. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2007, p. 33.

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