Tão duvidoso é o mérito, devido não só à sua natural obscuridade como também à vaidade de todo indivíduo, que nenhuma norma definida de conduta jamais poderia dele resultar.
DAVID HUME* O bem-estar, no entanto, não. tem princípio, nem para quem o usufrui, nem para quem o distribui (para um, ele consiste nisto; para outro, naquilo), porque se trata aqui do conteúdo material da vontade, que depende de fatos particulares, não podendo, portanto, ser expresso por uma norma geral.
IMMANUEL KANT* O conceito de 'justiça social'
Enquanto no capítulo anterior procurei defender a concepção de justiça como fundamento e limitação indispensáveis de toda lei, devo agora voltar-me contra um abuso da palavra que ameaça destruir a concepção de lei que fez dela a salvaguarda da liberdade individual. Talvez não seja surpreendente que os homens tenham aplicado aos efeitos conjuntos das ações de muitas pessoas, mesmo quando estes nunca foram previstos ou pretendidos, a concepção de justiça que tinham desenvolvido com relação à conduta dos indivíduos uns para com os outros, A justiça 'social' (ou, por vezes, a justiça 'econômica') passou a ser considerada um atributo que as 'ações' da sociedade, ou o 'tratamento' dado pela sociedade a indivíduos e grupos, deveriam possuir. Como em geral o faz o pensamento primitivo ao perceber, pela primeira vez, algum processo regular, interpretaram-se os resultados do ordenamento espontâneo do mercado como se algum ser pensante os dirigisse deliberadamente, ou como se os benefícios ou o prejuízo específicos que diferentes pessoas deles derivavam fossem determinados por
* A primeira citação é de David Hume em An Enquiry Concerning the Principies of Morais, seção III, parte II, Works IV, página 187, e deve ser apresentada aqui em seu contexto: a idéia mais óbvia seria atribuir os maiores bens â maior virtude, e dar a cada um o direito de fazer o bem de acordo com sua inclinação. (...) Mas se a humanidade pusesse em prática essa lei, tão duvidoso é o mérito, devido não só à sua natural obscuridade como também à vaidade de todo indivíduo, que nenhuma norma definida de conduta jamais poderia dele resultar; e a conseqüência imediata seria a total dissolução da sociedade. A segunda citação é a tradução de um trecho de Immanuel Kant [Der Streit der Fakultáten (1798), seção 2, parágrafo 6, nota 2], assim formulado no original: 'Wohlfahrt aber ha kein Prinzip, weder für den der sie empfãngt, noch für den der sie austeilt (der eine setzt sie hierin, der andere darin); weil es dabei auf das Materiale des Willens ankommt, welches empirisch und so einer allgemeinen Regei unfãhig ist'. Uma versão inglesa deste ensaio, em que esta passagem recebe tradução um pouco diferente, pode ser encontrada em Kanfs Political Writings» org. H. Reiss, trad. H. B. Nisbett (Cambridge, 1970), página 183, nota.
98 atos deliberados de vontade, podendo, assim, ser regidos por normas morais. Essa concepção de justiça 'social* é, pois, uma consequência direta desse antropomorfismo ou personificação com que o pensamento ingênuo procura explicar todo processo auto- ordenador. É um sinal da imaturidade de nossas mentes que ainda não tenhamos superado esses conceitos primitivos e continuemos a exigir que um processo impessoal que propicia uma maior satisfação dos desejos humanos do que qualquer organização humana intencional o poderia fazer se conforme aos preceitos morais desenvolvidos pelos homens para orientar suas ações individuais1.
O uso da expressão 'justiça social' com este significado remonta a uma data relativamente recente; ao que parece, não mais de cem anos. Antes disso, a expressão foi utilizada algumas vezes a fim de designar os esforços organizados para fazer cumprir as normas de conduta individual justa2 , e até hoje ê às vezes empregada por certos autores para avaliar os efeitos das instituições sociais existentes3 . Mas o sentido em que é hoje geralmente empregada e constantemente invocada no debate público e em que será examinada neste capítulo é, em essência, o mesmo em que, por muito tempo, se empregara a expressão 'justiça distributiva'. Com este sentido, a expressão parece ter entrado em uso corrente à época em que (e talvez em parte porque) John Stuart Mill tratou explicitamente as duas expressões como equivalentes em proposições como esta:
A sociedade deveria tratar igualmente bem os que dela igualmente o mereceram, isto é, que mereceram de modo absolutamente igual. Este é o mais elevado padrão abstrato de justiça social e distributiva, para o qual todas as instituições e os esforços de todos os cidadãos virtuosos deveriam ser levados a convergir o máximo possível4 .
É universalmente considerado justo que cada pessoa obtenha o que merece (seja bom ou mau), e injusto que obtenha um bem ou seja submetida a um mal que não merece. Esta é talvez a mais clara e mais enfática forma em que a ideia de justiça é concebida pelo senso comum. Como envolve a ideia do merecimento, surge a questão do que constitui o merecimento5.
1 Cf. P. H. Wicksteed, The Common Sense of Political Economy (Londres, 1910), página 184: 'È inútil presumir que resultados eticamente desejáveis serão necessariamente produzidos por um instrumento eticamente neutro'.
2 Cf. G. dei Vecchio, Justice (Hdimburgo, 1952), página 37. No século XVIII a expressão 'justiça social' foi por vezes empregada para designar a aplicação de normas de conduta justa numa dada sociedade; assim, e. por Edward Gibbon, Decline and Fall of the Roman Empire, capítulo 41 (ed. World's Classics, vol. IV, página 367).
3 E. g. por John Rawls, A Theory of Justice (Harvard, 1971)
4 John Stuart Mill, Utilitarianism (Londres, 1861), capítulo 5, página 92; em H. Plame-natz, org., The English Utilitarians (Oxford, 1949), página 225.
5 lbid.> páginas 66 e 208 respectivamente. Cf. também a resenha, por J. S. Mill, da obra de F. W. Newman, Lectures on Political Economy, publicada originalmente em 1851 na Westminster Review e reeditada em Collected Works, vol. V (Toronto e Londres, 1967), página 444: 'A distinção entre rico e pobre, que pouquíssima relação tem com o mérito e
99 É significativo que a primeira destas passagens apareça na descrição de uma das cinco acepções de justiça distinguidas por Mill, das quais quatro se referem a normas de conduta individual justa, enquanto esta define um estado factual de coisas que pode ter sido ocasionado por decisão humana deliberada, mas que não o foi necessariamente.
Contudo, Mill parece não se ter dado conta de que, nesta acepção, o termo justiça se refere a situações inteiramente diversas daquelas a que se aplicam as outras quatro, ou de que esta concepção de 'justiça social' conduz diretamente ao pleno socialismo.
Essas proposições, que vinculam explicitamente a 'justiça social e distributiva' ao 'tratamento? dado pela sociedade aos indivíduos segundo seu 'merecimento', revelam com a máxima clareza o quanto ela difere da pura e simples justiça, evidenciando, ao mesmo tempo, a causa da vacuidade do conceito: a reivindicação de 'justiça social' é dirigida não ao indivíduo, mas à sociedade. No entanto, a sociedade, no sentido estrito em que deve ser distinguida do aparelho governamental, não age com vistas a um propósito específico, e, assim, a reivindicação de 'justiça social' converte-se numa reivindicação de que os membros da sociedade se organizem de modo a possibilitar a distribuição de cotas do produto da sociedade aos diferentes indivíduos ou grupos. A questão básica passa a ser então saber se há o dever moral de se submeter a um poder capaz de coordenar os esforços dos membros da sociedade com o objetivo de atingir determinado padrão de distribuição considerado justo.
Admitindo-se a existência desse poder, o modo como devem ser partilhados os recursos disponíveis para a satisfação das necessidades torna-se, de fato, uma questão de justiça embora não uma questão a que a moral vigente forneça uma resposta. Mesmo o pressuposto do qual parte a maioria dos teóricos modernos da 'justiça social', a saber, o de que ela exigiria cotas iguais para todos desde que considerações especiais não impusessem um afastamento desse princípio, pareceria então estar justificado6*. Mas a questão precedente é saber se é moral que os homens sejam submetidos aos poderes de direção que teriam de ser exercidos para que os benefícios obtidos pelos indivíduos pudessem ser significativamente qualificados de justos ou injustos.
com o demérito, ou mesmo com o esforço ou com a falta de esforço, é sem dúvida injusta'. Também Principies of Political Economy, livro II, cap. I, §, org. W. J. Ashley (Londres, 1909), páginas 211 e seguintes: 'O ajuste da remuneração ao trabalho feito só é realmente justo na medida em que trabalhar mais ou trabalhar menos for uma questão de escolha: quando isso depende de diferenças naturais de força e capacidade, esse princípio de remuneração constitui ele próprio uma injustiça, visto que dá aos que tém'.
6 Ver e. g. A. M. Honoré, 'Social Justice', em McGill Law Journal. VIII, 1962, e versão revista em R. S. Summers, org., Essays in LegalPhilosophy (Oxford, 1968), página 62 da reedição:4 A primeira [ das duas proposições em que consiste o prindpio da justiça social] é a asserção de que todos os homens considerados simplesmente homens, sem se levar em conta sua conduta ou escolha, têm direito a uma parcela igual de todas essas coisas, aqui chamadas de vantagens, que são desejadas por todos e propiciam de fato o bem-estar' Também W. G. Runciman, Relative Deprivation and Social Justice (Londres, 1966), página 261.
100 Deve-se admitir, é claro, que o modo pelo qual os benefícios e ônus são distribuídos pelo mecanismo do mercado deveriam, em muitos casos, ser considerados muito injustos se resultassem de uma alocação deliberada a pessoas específicas. Mas não é este o caso. Essas cotas são resultado de um processo cujo efeito sobre pessoas específicas não foi nem pretendido nem previsto por ninguém quando do surgimento das instituições as quais puderam então continuar existindo por se ter constatado que proporcionavam a todos, ou à maioria, melhores perspectivas de satisfação das suas necessidades. Exigir justiça de semelhante processo é obviamente absurdo, e selecionar algumas pessoas numa tal sociedade como fazendo jus a uma parcela específica é evidentemente injusto.
A conquista da imaginação popular pela ideia de 'justiça social'
A invocação da 'justiça social' converteu-se, no entanto, em nossos dias, no argumento mais amplamente utilizado no debate político, e o mais eficaz. Quase toda reivindicação de ação governamental em benefício de grupos específicos é promovida em seu nome, e, se é possível fazer com que pareça que determinada medida é exigida pela 'justiça social', a oposição a ela perderá rapidamente a força. Discute-se se determinada medida ê ou
deve nortear a ação política e que a expressão tenha um significado definido.
Consequentemente, é provável que não existam hoje movimentos políticos ou políticos profissionais que não apelem, de imediato, para a 'justiça social' em apoio às medidas específicas que advogam.
Tampouco se pode negar que a reivindicação de 'justiça social' já transformou consideravelmente a ordem social e continua a transformá-la numa direção jamais prevista por seus pioneiros. Embora a expressão tenha, sem dúvida, ajudado por vezes a tornar o direito mais equitativo, é ainda duvidoso que esta reivindicação de justiça na distribuição da riqueza tenha, de alguma forma, tornado a sociedade mais justa ou reduzido a insatisfação.
Evidentemente, a expressão traduziu desde o início as aspirações que constituíam a essência do socialismo. Embora o socialismo clássico se tenha em geral caracterizado pela exigência da socialização dos meios de produção, isso era, para ele, sobretudo um meio considerado essencial para a realização de uma distribuição 'justa' da riqueza; e, visto que os socialistas descobriram mais tarde que essa redistribuição poderia ser efetivada, em grande parte e com menor resistência, por meio da tributação (e de serviços governamentais por ela financiados), relegando muitas vezes, na prática, suas exigências anteriores, a realização da 'justiça social' tornou-se sua principal
101 promessa. Pode-se, de fato, dizer que a principal diferença entre a ordem social a que visava o liberalismo clássico e o tipo de sociedade em que ela vem agora sendo transformada é que a primeira era regida por princípios de conduta individual justa, ao passo que a nova sociedade se destina a satisfazer as reivindicações de 'justiça social' ou, em outras palavras, que a primeira exigia ação justa dos indivíduos, enquanto a segunda atribui cada vez mais o dever de fazer justiça a autoridades dotadas do poder de ordenar às pessoas o que fazer.
A expressão pode exercer esse efeito porque foi sendo, pouco a pouco, arrebatada aos socialistas não só por todos os outros movimentos políticos, mas também pela maioria dos professores e pregadores de moral. Parece, em particular, ter sido abraçada por amplo segmento do clero de todas as tendências do cristianismo, as quais, à medida que perderam a fé numa revelação sobrenatural, parecem ter buscado refúgio e consolo numa nova religião 'social' que substitui uma promessa celeste de justiça por outra temporal, e esperam poder assim prosseguir na sua missão de fazer o bem. A Igreja Católica Romana, especialmente, fez da meta de 'justiça social' parte de sua doutrina oficial7; mas os ministros da maioria das religiões cristãs parecem competir entre si com essas ofertas de objetivos mais mundanos que, ao que tudo indica, fornecem também o principal fundamento de renovados esforços ecumênicos.
Os vários governos autoritários ou ditatoriais de hoje também não deixaram, é claro, de proclamar a 'justiça social' como seu principal objetivo. Baseamo-nos na autoridade de um homem como Andrei Sakharov, para dizer que milhões de pessoas na União Soviética são vítimas de um terror que 'se disfarça por trás do lema de justiça social'.
A dedicação à causa da 'justiça social' tornou-se, com efeito, o principal meio de expressão da emoção moral, o atributo distintivo do homem bom, e o sinal reconhecido da posse de uma consciência moral. Embora as pessoas possam por vezes ter dificuldade em dizer quais das reivindicações conflitantes apresentadas em nome desse lema são válidas, praticamente ninguém duvida de que a expressão tenha um significado definido, designe um ideal elevado e aponte graves falhas na ordem social vigente a exigir reforma imediata. Mesmo que até há pouco tempo se pudesse procurar inutilmente na vasta literatura uma definição inteligível da expressão8, parece ainda que
7 Cf. especialmente as encíclicas Quadragesimo Anno (1931) e Divini Redemptoris (1937), e Johannes Messner, 'Zum Begriff der sozialen Gerechtigkeit', no volume Die soziale Frage und der Katholizismus (Paderborn, 1931), publicado em comemoração ao quadragésimo aniversário da enciclica Rerum Novarum.
8 A expressão 'justiça social' (ou melhor, seu equivalente em italiano) parece ter sido usada pela primeira vez, em seu sentido moderno, por Luigi Taparelli d'Azeglio, Saggio teo- retico di diritto naturale (Palermo, 1840), e ter sido difundida por Antonio Rosmini- Serbati, La constitutione secondo la giusttzia sociale (Milão, 1848). Para estudos
102 nem as pessoas comuns nem as pessoas instruídas duvidam de que ela tenha um sentido preciso e bem compreendido.
Mas a aceitação quase universal de uma crença não prova que seja válida, ou mesmo significativa, assim como a crença generalizada em bruxas ou fantasmas tampouco provava a validade desses conceitos. Aquilo com que nos defrontamos no caso da 'justiça social' é simplesmente uma superstição quase religiosa, do gênero que deveríamos respeitosamente deixar em paz na medida em que apenas traz felicidade aos que nela creem, mas que temos obrigação de combater quando se torna pretexto para a coerção de outros homens. E a crença reinante na 'justiça social' é provavelmente, em nossos dias, a mais grave ameaça à maioria dos valores de uma civilização livre.
Quer Edward Gibbon estivesse errado ou não, é indubitável que as crenças morais e religiosas são capazes de destruir uma civilização e que, onde tais doutrinas prevalecem, não só as crenças mais prezadas, mas também os líderes morais mais reverenciados às vezes santas figuras cujo altruísmo é inquestionável podem
mais recentes, cf. N. W. Willoughby, Social Justice (Nova Iorque, 1909); Stephen Leacock, The Unsolved Riddle of Social Justice (Londres e Nova Iorque, 1920); John A. Ryan, Distri- butive Justice (Nova Iorque, 1916); L. T.
Hobhouse, The Elements of Social Justice (Londres e Nova Iorque, 1922); T. N. Carver, Essays in Social Justice (Harvard, 1922); W. Shields, Social Justice, The History and Meaning of the Term (Notre Dame, Indiana, 1941);
Benevuto Donati, *Che cosa è giustizia sociale?', Archivio giuridico% vol. 134, 1947; C. de Pasquier, 'La notion de justice sociale', Zeitschrift für Schweizerisches Recht, 1952; P. Antoine, 'Qu'est-ce la justice sociale?', Archives de Philosophie, 24, 1961. Para uma relação mais completa dessa literatura, ver G. dei Vecchio, op. cit., páginas 37-9.
Apesar da abundância de escritos sobre a questão, quando, há cerca de dez anos, escrevi o primeiro manuscrito deste capítulo, tive grande dificuldade em encontrar qualquer análise séria do que queriam as pessoas dizer quando usavam essa expressão. Mas quase imediatamente depois publicaram-se vários estudos importantes sobre a matéria, em especial os dois trabalhos citados na nota 6 acima, bem como os de R. W. Baldwin, Social Justice (Oxford e Londres, 1966), e N. Rescher, Distributive Justice (Indianapolis, 1966). A abordagem mais perspicaz do problema pode ser encontrada numa obra em alemão do economista suíço Emil Küng, Wirtschaft und Gerchtigkeit (Tübingen, 1967), e muitos comentários sensatos são feitos por H. B. Acton em The Morais of the Market (Londres, 1971), particularmente na página 71; 'Pobreza e infortúnio são males, não injustiças*. Muito importante também é Bertrand de Jouvenel,. The Ethics of Redistribuíion (Cam- bridge, 1951), bem como certas passagens de seu Sovereignty (Londres, 1957), duas das quais podem ser citadas aqui. Página 140: 'A justiça hoje preconizada é uma qualidade não de um homem ou das ações de um homem, mas de uma certa configuração de coisas numa geometria social, não importando por que meios seja produzida. A justiça é agora algo que existe independentemente de homens justos'.
Página 164: 'Nenhuma proposição tem maior probabilidade de escandalizar nossos contemporâneos que esta: é impossível estabelecer uma ordem social justa. No entanto, cia é uma decorrência lógica da própria idéia de justiça, que, não sem dificuldade, conseguimos elucidar. Fazer justiça é aplicar, ao proceder a uma partilha, a ordem seriada pertinente. Mas é impossível à inteligência humana estabelecer uma ordem seriada relevante para todos os recursos e em todos os aspectos. Os homens têm necessidades a satisfazer, méritos a recompensar, possibilidades a realizar;
mesmo que consideremos apenas esses três aspectos e suponhamos o que não é o caso que existem indícios precisos que lhes podemos aplicar, ainda assim não seriamos capazes de avaliar corretamente o peso relativo dos três conjuntos de indícios adotados'.
O ensaio ao mesmo tempo célebre e influente de Gustav Schmoller sobre 'Die Gerechtigkeit in der Volkswirtschaft', em Jahrbuchfür Volkswirtschaft etc. vol. V, 1895, desse autor, é, do ponto de vista intelectual, extremamente decepcionante uma pretensiosa exposição da confusão típica do reformador bem-intencionado mas irrealista, prenunciando alguns desagradáveis desdobramentos posteriores. Sabemos hoje o que significa, deixar as grandes decisões aos 'jeweilige Voiksbewusstsein nach der Ordnung der Zwecke, die im Augenblick ais die richtige erscheint'!
103 tornar-se graves ameaças aos valores que o próprio povo que os cultua considera inabaláveis. Só podemos protegermos dessa ameaça submetendo até nossos mais caros sonhos de um mundo melhor a uma implacável dissecação racional.
moral a ser acrescentado aos que foram consagrados no passado, podendo ser inserido na presente estrutura de normas morais. O que não é suficientemente compreendido é que, para se dar significado a essa expressão, será preciso efetuar uma completa mudança de todo o caráter da ordem social, e que alguns dos valores que antes a norteavam precisarão ser sacrificados. É uma tal transformação da sociedade em outra, de tipo fundamentalmente diverso, que está atualmente ocorrendo pouco a pouco, sem que ninguém tenha consciência do resultado a que levará. Foi por acreditarem que algo como a 'justiça social' poderia ser assim alcançado que as pessoas confiaram ao governo poderes que este não pode agora se recusar a empregar para atender às reivindicações do número sempre crescente de grupos de pressão que aprenderam a se valer do 'abre-te sésamo' da 'justiça social'.
Acredito que a 'justiça social' será, finalmente, identificada como uma miragem que induziu os homens a abandonarem muitos dos valores que inspiraram, no passado, o desenvolvimento da civilização uma tentativa de satisfazer um anseio herdado das tradições do pequeno grupo, que é, no entanto, desprovida de significado na Grande Sociedade de homens livres. Infelizmente, esse vago desejo, que se tornou uma das maiores forças aglutinadoras a impelir pessoas de boa vontade à ação, está fadado não só ao malogro. Isso já seria lamentável. Mas, como a maior parte das tentativas de perseguir uma meta inatingível, a luta por esse ideal produzirá também consequências extremamente indesejáveis e, em particular, levará à destruição do único clima em que os valores morais tradicionais podem florescer, ou seja, a liberdade individual.
A inaplicabilidade do conceito de justiça aos resultados de um processo espontâneo Torna-se agora necessário estabelecer uma clara distinção entre dois problemas inteiramente diversos que a reivindicação de 'justiça social' suscita numa ordem de mercado.
O primeiro é o de apurar se, numa ordem econômica baseada no mercado, o conceito de 'justiça social' tem qualquer significado ou conteúdo.
O segundo é o de definir se é possível preservar uma ordem de mercado impondo-lhe ao mesmo tempo (em nome da 'justiça social' ou sob qualquer outro pretexto) algum padrão de remuneração baseado na avaliação do desempenho ou das