3.4 O programa
3.4.1 Linguística histórica e comparativa
Na introdução do atlas histórico África: o despertar de um continente, Jocelyn Murray toca em uma das maiores controvérsias e em um dos debates mais apaixonantes dos estudos africanos, qual seja, o da existência ou não de uma unidade cultural africana. De um lado a África foi o berço de uma das primeiras civilizações da história da humanidade, o Egito
156 SALL, Babacar. Op. cit. P. 20.
157 O texto em língua estrangeira é : « Mais nous ne parlerons qu’accessoirement d’anthropologie. Au delà de la valeur de ses critères, il y a que la race n’est pas un facteur d’explication historique. Sur la base de seuls faits culturels (outillage, instrumentation, ethnographie et linguistique), il nous semble qu’ont peut cerner le rôle de l’Éthiopie dans le noyautage de l’Égypte et de la Libye. [...] C’est dire que sur la base des faits matériels et psychiques, l’étude des relations Égypte-Éthiopie-Libye peut-être menée sans s’encombrer des considérations anthropologiques dont la pertinence pour l’établissement racial et sexuel d’un squelette reste entière. Il nous faut donc rester historien, chercher à analyser les élaborations culturelles et la mentalité en tenant compte de la tradition, des conditions d’existence et des utopies des hommes dont on étudie la societé en un lieu, en un moment ».
158 SOMET, Yoporeka. L’Égypte ancienne: un système africain du monde. Le Plessis-Trévise, Gif-sur-Yvette : Teham Éditions, Khepera, 2018. P. 22.
159 Cf. BILOLO, Mubabinge. Aristote et la mélanité des anciens Egyptiens. Ankh – Revue d’égyptologie et des civilisations africaines, Gif-sur-Yvette, n°6-7, 1997/1998, p. 139-161. Cf. também OBENGA, Théophile.
Peigne et concept de « cheveu » en égyptien ancien. Ankh – Revue d’égyptologie et des civilisations africaines, Gif-sur-Yvette, nº 16, 2007, p. 8-27.
faraônico, do outro os caçadores do Kalahari continuam vivendo a mesma “precária existência” de seus antepassados da Idade da Pedra. No século XIX, o rei zulu Shaka organizou seus exércitos para construir com eles uma das mais eficientes máquinas de guerra já vistas no mundo, ao passo que a beleza serena das cabeças de bronze do Benin revela uma dimensão espiritual de índole totalmente oposta. Nas palavras da autora:
Diante destes contrastes, nos vemos obrigados a perguntar se existe, de fato, um elemento “africano” ainda por ser descoberto – a “negritude”, a autenticidade da República Democrática do Congo, o ujamaa da Tanzânia – que pudesse unir num mesmo tronco ou encontrar o parentesco entre representantes de povos e culturas tão distantes. Contudo, se fecharmos questão em favor da variedade que a África oferece, corremos o perigo de desconsiderar sua unidade160.
Abramos o Atlas National Geographic: África. O acaso nos leva à página dedicada à República de Camarões. Acerca de sua população, somos informados de que ela pertence a vários grupos étnicos, dentre os quais se destacam os camarões (31% dos habitantes), os bantos (19%), os quirdis (11%) e os fulanis (10%). As religiões são igualmente múltiplas e variadas, sendo as mais importantes o catolicismo, as crenças tradicionais, o protestantismo e o islamismo. No que tange os idiomas, o francês e o inglês são os oficiais, mas são falados ao lado de inúmeras línguas regionais, entre as quais se destacam o fangue, o bamilequê e o duala161.
Para Cheikh Anta Diop e seus seguidores existe uma unidade cultural na África. Essa unidade resulta da peculiaridade das migrações realizadas nesse espaço. Durante a pré- história, o vale do Nilo teria concentrado os primeiros agrupamentos humanos do continente, de onde saíram as populações que povoaram gradativamente as outras regiões. Uma série de traços culturais originados entre as primeiras populações nilóticas teria permanecido em maior ou menor medida entre os povos que se estabeleceram nas outras regiões. Essa unidade cultural nilótica poderia ser apreendida a partir da organização familiar, das cosmovisões, das práticas culturais, das instituições políticas e, também, através das línguas162.
160 MURRAY, Jocelyn (org.). África: o despertar de um continente. Tradução: Miguel Gil, Francisco Manhães, Alexandre Martins, Carlos Nougué, Michel Teixeira e Maria Cristina Zamboto. Catalunha: Ediciones Folio, 2007. P. 8.
161 ATLAS National Geographic: África. Volume II (volume 10). São Paulo: Abril, 2008. P. 34.
162 A noção de “unidade cultural” implica na coexistência de semelhanças e diferenças, rupturas e continuidades ao longo da história cultural africana. No capítulo “O nascimento do mito do negro”, de Nações negras e cultura, Diop afirma que no período pós-faraônico houve uma ruptura na história da África. Populações estabelecidas ao longo do vale Nilo migraram para outras regiões do continente e estabeleceram diferentes relações com os novos meios geográficos em que se estabeleceram. Dessas relações emergiram sociedades dotadas de alta organização social, política e moral, mas de baixo desenvolvimento técnico, o que as tornaram presa fácil da Europa expansionista moderna. Cf. DIOP, Nações negras e cultura. Paris: Présence Africaine. P. 51-54.
A classificação das línguas atuais e antigas da África que desfruta da maior credibilidade e aceitação entre os estudiosos foi feita pelo linguista norte-americano Joseph Harold Greenberg em meados do século XX. Segundo ele, com exceção do malgaxe, língua falada em Madagascar, todas as línguas africanas podem ser classificadas em quatro famílias principais. Trata-se da afro-asiática, níger-kordofaniana, nilo-saariana e khoisan, cada qual compreendendo línguas ou grupos de línguas internas. A família afro-asiática, também conhecida como camito-semítica, compreende cinco divisões, uma delas é o berbere, as outras são o egípcio antigo, o semítico, o cuchítico e o chádico. Atualmente ou no passado, essas línguas cobrem uma vasta região que vai da África do Norte e o Chifre da África até o Oriente Médio163.
A Escola Africana de Egiptologia opõe-se à classificação das línguas da África feita por Greenberg e insere-se em outra tradição linguística. O artigo assinado por Théophile Obenga para a primeira edição da revista Ankh oferece um exemplo elucidativo da perspectiva linguística dessa escola histórica e pode ser apreendida como parte do seu programa comum.
Segundo Obenga, a linguística histórica e comparativa é uma disciplina que estabelece regras e procedimentos metodológicos para o estabelecimento do parentesco das línguas.
Entre elas está a demonstração das correspondências morfológicas, gramaticais, lexicológicas e, sobretudo, as leis de correspondências fonéticas entre duas ou mais línguas reputadas como parentes. Cita o exemplo de línguas como o sânscrito, o grego e o latim que, ao lado de outras, foram consideradas geneticamente aparentadas e membros da família “indo-europeia”
após a demonstração das referidas correspondências. Desse modo, o indo-europeu, que nomeia a família, seria o ancestral comum pré-dialetal, a língua mãe que deu origem a todas elas. Sob o título “O camito-semítico não existe”, Obenga defende a hipótese de que a classificação proposta pelo linguista norte-americano, no que tange especificamente à família afro-asiática, falhou ao não respeitar aquelas regras e procedimentos. Em suas palavras:
No caso do “camito-semítico” ou “afro-asiático” nenhum pesquisador conseguiu, até agora, estabelecer as correspondências morfológicas, gramaticais, lexicológicas e principalmente as leis de correspondência fonética entre todas as línguas do domínio
“camito-semítico” ou “afro-asiático”. [...] Porque o ancestral comum pré-dialetal, isto é, o “camito-semítico” ou “afro-asiático”, não foi reconstruído, é abusivo e falso falar de línguas “camito-semíticas” ou “afro-asiáticas” 164.
163 GREENBERG, Joseph Harold. Parte I: Classificação das línguas da África. In: KI-ZERBO, Joseph (org.).
História Geral da África. Volume I: Metodologia e Pré-História da África. Brasília: Unesco, 2010. P. 326.
164 OBENGA, Théophile. Le chamito-sémitique n’existe pas. Ankh – Revue d’égyptologie et des civilisations africaines, Gif-sur-Yvette, nº 1, 1992, p. 51-58. P. 51-52.
Enquanto a comparação do egípcio antigo com as línguas semíticas não permite estabelecer as correspondências necessárias para classificá-las, juntas, em uma mesma família, tal como propunha Greenberg, a comparação da língua faraônica com as da África preenche os requisitos da linguística histórica e comparativa, o que segundo Obenga fundamenta a hipótese de uma família “negro-africana” abarcando todas elas165.
Além de Obenga, muitos outros egiptólogos da Escola Africana de Egiptologia dedicaram-se ao estudo comparativo do egípcio antigo e das línguas faladas na África negra contemporânea. Dentre eles destaca-se Gilbert Ngom. Sem contestar claramente a existência da família afro-asiática – como fez Obenga –, Ngom considera a classificação de Greenberg equivocada por restringir-se ao egípcio antigo, chádico, cuchítico, berbere e semítico, excluindo as línguas bantas. A seu ver, estas últimas apresentam igual ou maior afinidade com o egípcio antigo, algo que não foi notado pelo linguista norte-americano.
Dentre as línguas bantas, Ngom concentrou-se no duala, falada atualmente na República de Camarões. A comparação entre duala e egípcio antigo, em suas variantes hieroglífica e copta, permitiram a demonstração de correspondências fonéticas e semânticas regulares ao nível do vocabulário e da gramática. Isso quer dizer, em síntese, que as duas línguas consideradas são aparentadas, provindo uma da outra, ou ambas de uma língua comum ancestral. Nas palavras do autor:
É o parentesco genético entre o egípcio e o duala – língua banta – que explica as correspondências que se manifestam entre os dois idiomas ao nível do vocabulário e da gramática. Trata-se de fatos indestrutíveis, “estáveis (sólidos) como o céu sobre seus quatro pilares” [...] 166.
O parentesco linguístico entre o duala e o egípcio antigo indica um parentesco cultural mais amplo entre os falantes dos dois idiomas, portanto entre África negra e Egito faraônico.
Tendo como referência Ferdinand de Saussure, para o qual a língua é um fenômeno cultural e social, Ngom adverte que as palavras nunca se aplicam às coisas, mas às noções que os homens fazem das coisas. Assim,
Podemos dizer com razão que uma palavra é um microcosmo da consciência humana e social. Através do seu sentido, do conteúdo dos vocábulos, é todo um sistema de pensamento, de concepção do ser, da sociedade e do universo que
165 O principal livro escrito por Obenga a respeito do parentesco do egípcio antigo com as línguas negro- africanas contemporâneas é L’origine commune de l’égyptien, du copte et des langues négro-africaines modernes. Paris: L’Harmattan, 1993.
166 NGOM, Gilbert. Parenté génétique entre l’égyptien pharaonique et les langues négro-africaines modernes : exemple du duala. Ankh – Revue d’égyptologie et des civilisations africaines, Gif-sur-Yvette, n°2, 1993, p.
29-83. P. 80.
transparece. No plano da unidade cultural profunda entre Egito antigo e África negra, o testemunho das línguas prima sobre todos os outros167.
A comparação do egípcio antigo com as línguas negro-africanas contemporâneas foi seguida pela comparação das culturas dos falantes desses idiomas. Desse modo, o que no começo era linguística histórica e comparativa evoluiu para a história cultural comparada.