O problema principal de Lísias é pensar as consequências para um coletivo (uma sociedade) que não dá lugar público e politicamente fundamental para as suas tensões internas.
Nesse sentido, sua abordagem lembra uma espécie de psicanálise selvagem, sugerindo que o retorno do nazifascismo é uma espécie de retorno do recalcado (sugestão muito presente em variadas análises sociais e políticas dos últimos anos), com a significativa diferença de que Lísias se concentra na relação das artes, mais especificamente a literatura, com a sociedade.
Uma de suas teses é de que a arte não representa nenhuma realidade, mas intervém sobre a realidade: ―um romance não representa a realidade, como se fosse algo separado dela.
O gênero não é um espelho na sala ou o lado onde Narciso se enxerga. A literatura faz parte da realidade, intervindo nela, o que sempre a coloca em lugar de conflito‖ (LÍSIAS, 2020, p.336).
A esse propósito, são exemplares sua leitura das memórias de Alfredo Sirkis e Fernando Gabeira (Os carbonários e O que é isso companheiro?, respectivamente), juntamente com sua análise da recepção da obra de Rubem Fonseca. Quanto aos primeiros, demonstra como, ao mesmo tempo que se representam como ―narradores fortes e robustos‖
em suas memórias da ditadura (LÍSIAS, 2020, p.292), também ostentariam certa inescrupulosidade, o que, por sua vez, emprestaria um caráter canhestro e inconsequente aos movimentos de resistência ao regime militar, movimentos de que tais livros se encarregam de dar alguma espécie de testemunho.
Sirkis e Gabeira ganham ambos o Jabuti, conferindo a suas obras importância hegemônica na história da literatura brasileira da redemocratização, ―foram vozes reconhecidas‖ (LÍSIAS, 2020, p.292), em particular a propósito daquilo sobre o que se debruçam. Lísias argumenta:
Os dois principais livros de memórias surgidos logo no final da ditadura militar utilizaram vários procedimentos literários para aderir ao desejo da ditadura e com isso colaboraram para que nenhum abuso cometido pelo Estado fosse levado à justiça. Narradores fortes constituindo uma democracia fraca. É esse um exemplo do que tenho chamado de adesão ao discurso do poder… (LÍSIAS, 2020, p.296)
Adesão ao discurso do poder se relaciona com certa calmaria interna que, segundo Lísias, caracteriza o cenário cultural brasileiro hegemônico: ―É uma questão de sobrevivência.
A disposição para o acordo e a tentativa de agradar espectros amplos acabam contaminando as próprias obras e explicam a sobrevivência da literatura realista entre nós‖ (LÍSIAS, 2020, p.297-298).
A ideia de um paradigma estético que carrega a ideologia dominante ou que aspira a se tornar hegemonia é algo afim à tese de Flora Süssekind em seu Tal Brasil, qual romance (1984). O que é particularmente grave a propósito do naturalismo como paradigma é a transformação da linguagem em transparência, isto é, desprovê-la de sua especificidade inventiva, tensa, dotada de potência de diferir (ao contrário da função de refletir ou representar). A autora escreve, a propósito do naturalismo no Brasil:
Ao invés de proporcionar um maior conhecimento do caráter periférico do país, o texto naturalista, na sua pretensão de retratar com objetividade uma realidade nacional, contribui para o ocultamento da dependência e da falta de identidade próprias ao Brasil. Pressupõe que existe uma realidade una, coesa e autônoma que deve captar integralmente. Não deixa que transpareçam as descontinuidades e os influxos externos que fraturam tal unidade. Como o discurso ideológico, também o naturalista se caracteriza pelo ocultamento da divisão, da diferença e da contradição.
E não é muito difícil reparar que não é só uma estética, mas uma ideologia naturalista o que se repete na ficção brasileira. (SÜSSEKIND, 1984, p.39)
O argumento de Lísias caminha em sentido análogo, ao propor que quando algo se apresenta como imprimindo caráter realista a dado testemunho ou entrecho, apaga-se, assim, o caráter inventivo e interventor daquela história ou ideia ou relato sobre a realidade. Nesse sentido, não apenas está concernido o naturalismo, mas qualquer forma de arte que não se tome por um gesto carregado de tensões – que nada representa, e cuja força é de intervenção e transformação.
Para reforçar este ponto, tomemos a análise de Lísias da obra de Rubem Fonseca: cita uma reportagem recente da revista Piauí que trata de certo tom dito profético da obra de Fonseca ou de mimetização do presente através de sua linguagem, caracterizada sobretudo pela violência urbana. Lísias argumenta que
Antes de fazer qualquer profecia, uma obra basicamente existe. Ela se coloca em um determinado momento histórico. Se uma obra é considerada atual décadas (ou mesmo séculos) depois de ter sido publicada, na verdade ela colaborou para que tal realidade acabasse surgindo ou persistindo. Uma obra de arte (e suas interpretações) não prevê, nem antecipa e muito menos mimetiza a realidade. Ela é parte da realidade (LÍSIAS, 2020, p.286)
Aqui está novamente sua hipótese da intervenção sobre a realidade: obras que, sem o explicitarem, intercedem em favor de uma calmaria interna que, se não a garantem, fortalecem-na (ou seja, cuja intervenção apaga-se enquanto tal para aparecer enquanto
―apenas arte‖): trata-se de obras ativamente conservadoras, ou, no mínimo, de obras sem potência de dissenso, para falar como Rancière. Isto é, não procuram ensejar nenhuma espécie de ruptura para os modos de perceber hegemônicos, trabalham, ao contrário, para o consenso – que não quer ―sujeitos divididos e divisores característicos da política‖ (RANCIÈRE, 1996, p.381).
O consenso se depara com um daqueles paradoxos [...]: os atores sociais chamados a assumir suas responsabilidades para o tratamento concertado dos problemas são sobretudo convidados a verificar que a solução ―mais razoável‖ é na verdade a única solução possível, a única autorizada pelos dados da situação tais como os conhecem os Estados e seus especialistas. O consenso então não é nada mais que a supressão da política. (RANCIÈRE, 1996, p.379, grifo meu)
Como veremos, mas já podemos ao menos intuir, Lísias se afina consideravelmente com a perspectiva de ruptura de consensos.