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Lobato do ferro e do petróleo

No documento Emerson Tin - Monteiro Lobato (páginas 169-193)

Sou um soldado que nasceu para morrer na sentinela.

Carta a Charlie W. Frankie, 15 de junho de 1935

“Aqui jaz um que se julgou literato e era metalurg

de novembro de 1928, respondendo a uma possível e que os interesses comuns dos dois amigos estavam se distanciando:

Lamentas que estejam a desaparecer as nossas preocupações comuns. Em parte é certo. Distanciamo-nos bastante em nossas órbitas, você seguindo uma muito coerente com os começos, com a vocação e as idéias centrais, e eu...

Quando olho para trás fico sem saber o que realmente sou. Porque tenho sido tudo, e creio que a minha verdadeira vocação é procurar o que valha a pena ser. Aquela minha fúria literária de Areias e da fazenda: quem visse aquilo proclamava-me visceral e irredutivelmente “homem de letras”. E errava, porque o Lobato que fazia contos e os discutia com você está mortíssimo, enterradíssimo e com pesada pedra sem epitáfio em cima. O epitáfio poderia ser: “Aqui jaz um que se julgou literato e era metalurgista.” Porque a minha vocação pela metalurgia é muito maior que a literária. Jamais conversei com qualquer literato mais atentamente e mais encantado do que converso com Mr. William H. Smith, o anjo Gabriel anunciador

Eis a beleza suprema. Perto do “sponge iron”, todos os livros de Camilo e Machado de Assis só valem materialmente pelo papel, porque o papel contém carbono e o carbono é necessário à Reação diante da qual todos devemos nos ajoelhar porque é a mãe da Civilização: FeO – O + C = FeC.

M

ur Neiva, Lobato relataria sua aproximação com o staff da Ford:

Minhas relações com o Ford estão rendendo. Vai ele receber-me em Dearborn em Outubro. Já mandou-me dizer. E para o Brasil vai talvez render muito.

Imagine que fiz relações com Mr. Smith, o homem que há 20 anos dir

310 LOBATO, Monteiro. A Barca de Gleyre. São Paulo: Brasiliense, 1964, t.2, p.311-2.

exigia uma temperatura tão alta que só os povos ricos em carvão podiam obter ferro em condições industriais. E nós estávamos com o problema siderúrgico metido num impasse: sem capitais próprios para montar os caríssimos fornos de produzir alto calor e sem animo de entregar essa indústria a capitalistas de fora. Mas mesmo nesta hipótese não obteríamos ferro em condições econômicas porque teríamos de importar o coque para agente redutor. Donde, se criássemos a indústria com dinheiro dos outros, necessidade de proteger essa siderurgia com taxas contra o ferro importado. Quer dizer teríamos ferro

que vi e aprendi – e de que maneira eu, este caboclinho de Taubaté ou o o

Prepare-se para ler a carta mais importante que ainda foi escrita daqui p e chegar de Detroit e vou atamancá-la a tempo de pegar a mala de aman

rifo a todos porque um país que resolve seu problema do ferro resolve ipso-facto todos os demais problemas que o atormentam. 313

caro – e só o ferro barato é ferro que presta. 311

Já de 1928 é a carta ao cunhado, Heitor de Morais, em que Lobato demonstra também o entusiasmo com a recepção que recebera nos círculos da indústria automobilística norte-americana. Apresenta-se ao cunhado como um “caboclinho de Taubaté ou Buquira” que estava decidindo “os destinos da metalurgia no Brasil”:

Sou persona grata em Detroit, essa cidade-cérebro que hoje está liderando a metalúrgica do mundo. Estou com um pé dentro da Ford e outro dentro da General Motors Corporation. Que coisas imensas, meu caro Heitor! Dizem que o brasileiro tem imaginação, mas duvido que haja aí alguém capaz de imaginar o que essas duas companhias são. Passei lá uma semana maravilhosa, almoçando, jantando, conversando durante toda ela com as mais altas potências financeiras deste país. Almocei com Edsel e o staff dos executivos da Ford – e nesse dia lidei com tanto milionário que à noite, ao somar as fortunas pessoais de cada um, achei uma vertigem perto de 2 bilhões de dólares.

Eu precisaria de escrever um livro para contar tudo o que lá se passou, tud Buquira, decidi dos destinos da metalurgia no Brasil e dei as bases e os nomes da empresa que vai operar aí em conexão com a General Reduction Corporation, uma empresa nova composta de cinco aggressif men que vão inverter nela, cada um, cem milhões de dólares. Só de viva voz, meu caro. Por carta, é impossível.312

Entusiasmado com uma visita à fábrica da Ford, em Detroit, Lobato escreve uma longuíssima carta a Alarico Silveira, datada de 03 de maio de 1928, contando em detalhes o que viu e ouviu, às pressas, segundo diz, para alcançar a mala postal:

ara aí. Acabo hã.

dPassei em Detroit a semana mãe da minha vida, a mais rica de ensinamentos e altas impressões – e de capital importância para a solução de todos os problemas brasileiros, você verá. G

311 Pasta AN C 18-06.21, documento de nº 36, datado de 09 de setembro de 1927 (CPDOC/FGV).

312 Cartas escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1964, t.1, p.248-9.

313 Id., ibid., t.1, p.233.

A carta é tão lo o como um bom pretexto

314

para – que Lobato não escrevesse para outro destinatário, possivelmente Arno Konder (1882- 1942), a quem Lobato substituía interinamente como adido comercial: “Adeus. Diga ao Konder

porque não tínhamos ferro.

s, só dão origem a civilizações os países – que têm ferro e carvão – Inglaterra, Alemanha, E. Unidos. Os que não possuíam esses

base d

nga que acabou fazendo com – ou servind

que ia escrever-lhe hoje, mas esta saiu longa demais e não tenho tempo. / Adeus, adeus, adeus!”

315

Nessa mesma data, Lobato escreveria uma outra longa carta, mas a Arthur Neiva. A abertura da carta é muito semelhante à escrita a Alarico Silveira: “acabo de chegar de Detroit onde passei uma semana e apresso-me em fazer esta para pegar a mala de amanhã.”

316

O parágrafo seguinte segue semelhante ao tom da carta a Alarico, com a explicação da importância do que vira e ouvira e a conseqüente solução dos problemas brasileiros:

Meu caro amigo, escreva o que vou lhe dizer: o problema da siderurgia do Brasil está afinal resolvido. Quer isto dizer que o problema do Brasil está solvido. Todos os nossos problemas, até os morais, são uma conseqüência da nossa inominável miséria, e essa miséria veio

Só se criam riqueza

elementos ficaram a funcionar de satélites, sempre dependentes e pobres.

Nós tínhamos ferro e tão mau carvão que equivalia a não tel-o. E por isso tivemos de marcar passo até agora. Não preciso me estender nisto dirigindo- me a uma inteligência como a sua. O sr. sabe que o ferro é e tudo.

A “inteligência como Lobato se coloca

Alarico, Lobato descreve a “semana maravilhosa” de Detroit: “em Detroit passei a semana mais mar

ndo a célebre visita à fá

” de Neiva permite a abreviação da carta. Nessa consideração, vemos numa postura de grande admirador do destinatário. Como na carta a avilhosa da minha vida e vi todas as grandezas possíveis e imagináveis.”

Importante, nesse passo, confrontar essas longas cartas-relatório a Alarico e Neiva com um pequeno bilhete, escrito em inglês, sem data, em que Lobato, empreende

brica da Ford em Detroit, escreveria à esposa:

Dear Purity I am here and begin to visit the Ford plant. Too big! Today I have seen 1/1000, and I must spend one thousand days to see all. But don’t worry. I will see only 5/1000...

314 Isso porque Lobato escreve carta semelhante, na mesma data, a Arthur Neiva, como veremos em seguida.

Teria Lobato privilegiado os amigos, em detrimento da comunicação oficial?

315 Cartas escolhidas, cit., t.1, p.248.

316 Pasta AN C 18-06.21, documento de nº 40, datado de 03 de maio de 1928 (CPDOC/FGV). Como vimos, para Alarico Silveira Lobato escreveu: “prepare-se para ler a carta mais importante que ainda foi escrita daqui para aí.

Acabo de chegar de Detroit e vou atamancá-la a tempo de pegar a mala de amanhã.”

Go to the movies and don’t worry about me

Juca Till to Monday or 3ça. 317

Traduzindo: “Q Muito grande! Hoje eu

Verei somente 5/1000.. egunda ou

3ça.” No

osas cartas a Alarico Silveira e a Arthur Neiva. Talvez porque o que interessasse à esposa era ter notícias do marido, talvez porque Lobato pudesse

um curto bilhete, aconse

mesmo em angel. A visita a Detroit é

restrita à

staff, ou dos Simonsen. Ao Ford velho não vi. Estava na Escócia.

Lobato318

Note-se que a d

narrar o que viu, devido a Britânica; portanto, adeus”

Já na carta a N pois pretendia alcançar pressa com que a escrev parece condicionar-se (o

relação dos correspondentes. Nesse sentido, Lobato resolve sintetizar o essencial a ser dito:

uerida Pureza, / Estou aqui e começo a visitar a fábrica da Ford.

vi 1/1000, e devo gastar mil dias para ver tudo. Mas não se preocupe.

. / Vá ao cinema e não se preocupe comigo. / Juca / Até S

te-se que não há menção alguma a todas as maravilhas que Lobato estava vendo na Ford, diferentemente do que veremos, adiante, nas longas e minuci

contar pessoalmente, quando voltasse, todas as novidades. Por isso, lhando que não se preocupasse, era suficiente.

relação ao amigo literário Godofredo R O

conclusão da carta datada de 17 de agosto de 1928, com uma pequena nota sobre seus sucessos com a campanha do ferro:

Estive em Detroit oito dias, vendo só duas coisas: a Ford e a General Motors. Mr. Smith, o meu hospedador, manda nas duas. O que vi lá dá um livro maior que a Enciclopédia Britânica; portanto, adeus.

Lobato P. S. – Na Ford almocei com Edsel Ford na mesa redonda da

“executivos”. Sorensen é muito parecido com o Roberto

escrição da visita a Detroit, para Rangel, restringe-se apenas a uma recusa em o excesso de assunto – “o que vi lá dá um livro maior que a Enciclopédia – e a um post-scriptum de cunho muito mais social que técnico.

eiva, contudo, por mais que quisesse ser minucioso, Lobato tinha pressa, a mala postal – pelo menos esse era o motivo exposto na carta para a ia – e nesse ponto, é interessante observar como o discurso epistolar u aproveitar-se deles como pretexto) também por fatores externos à

317 Bilhete publicado em reprodução fac-similar no livro organizado por Eliane Maria Teixeira Lopes et al. (Lendo e escrevendo Lobato, Belo Horizonte: Autêntica, 1999, p.117).

318 A barca de Gleyre, cit., t.2, p.311.

O que ouvi, o que se debateu nesses almoços e jantares e visitas aos laboratórios não cabe em carta. Dava um livro. Caí no gosto daquela gente.

solução do problema brasileiro. A idéia está em caminho. Dei uma série de nomes nossos dos mais representativos como base de discussão. Eles só querem fazer negócio com

lurgia de Boston, que ele tem como o melhor do mundo, e depois especializar-se em Detroit com ele. Tudo facilitado. Quando for

E a carta se co Bulcão para orientar-se q

Contudo toda a como afirma. Assim, apro postal – para formular um efetivamente apressado pa remetente se utiliza desse e

amento e tenho que discutir este ponto com Detroit. Mas estou sem elementos e sei que se os pedir pelas

cionista da Falida 320 e eu estou desmoralizado perante o é muito sério. Pelo que lá debatemos vi como se ligam as duas coisas – ferro e pau. A obra do Navarro321 na Paulista322 é coisa de

Tenho formidáveis amigos lá, entre eles Mr. Smith que tem por mim uma simpatia que não sei explicar.

Resumindo tudo: lançamos ali as bases da

um grupo de aggressif men, isto é, homens de muito brain – não com sacos de dinheiro. O dinheiro não os interessa. Possuem-no demais...319

Apesar da pressa pretextada para concluir a carta, Lobato não se esquece do filho de Arthur Neiva, que pretendia estudar metalurgia nos Estados Unidos:

Falei sobre o caso do seu filho. Mr. Smith acha que ele deve cursar o Instituto de Meta

ocasião escreva-me que far-se-á pelo melhor.

nclui com um último conselho sobre Arthurzinho: “Converse com o uanto ao Arthurzinho”.

pressa de Lobato na redação da carta não o impediu de perder a mala postal, veita esse providencial contratempo – se é mesmo que havia perdido a mala pedido a Neiva, no post-scriptum. Note-se que pouco importa se Lobato estava ra que a carta alcançasse a tempo a mala postal. O que importa é como o lemento factual para a construção do discurso epistolar:

P.S.

Afinal perdi a mala e foi bom porque vai mais este apêndice. Meu caro dr.

Neiva, tenho muita necessidade aqui de coisas do Navarro sobre eucalyptus.

Os dois problemas se ligam, metalurgia e reflorest

vias oficiais não me chegam nunca. Elas sofrem de obstrução crônica. Venho recorrer ao seus bom ofícios e boa vontade. Mande-me o que puder, relatórios da Paulista, livros, o que houver. Não peço isso ao Navarro diretamente porque ele foi um a

todos eles. Mas o cas

muitos maiores conseqüências para o Brasil do que o próprio Navarro pode imaginar. Creia: foi o único passo que se deu no Brasil, desde D. João Sexto, o

umento de nº 40, datado de 03 de maio de 1928 (CPDOC/FGV).

319 Pasta AN C 18-06.21, doc

320 A Monteiro Lobato & Cia. Editores, que havia falido em julho de 1925.

321 Edmundo Navarro de Andrade (1881-1941) era engenheiro da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, onde começou a trabalhar em 1903 como diretor do Horto Florestal que a empresa pretendia criar entre Jundiaí e Cordeiro. Para a sua biografia, v. MELO, Luís Correia de. Dicionário de Autores Paulistas. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1954, p.53-4.

322 Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

Sulfuroso, para a solução do problema siderúrgico. Navarro atirou no dormente e acertou no ferro. Navarro é um Detroiter!

Mande o seu filho para cá quanto antes. Aqui está tudo. O resto do mundo is

William H. Smith à imprensa brasileira:

ou desconhecer a terra onde mora até esse ponto? Já que descobriu a fórmula de que é preciso adivinhar, porque não adivinhou que dentro

A mesma adve da preocupação de que condição de que nada di

over. É palha, bagaço, miquia. Com um ano de Detroit ele faz mais do que com vinte de Europa. A speedway está cá.

L. 323

À margem esquerda da primeira folha da carta, vem datilografado o seguinte lembrete: “nada de bisbilhotice de imprensa, meu caro. Façamos como os chefes da indústria fazem. Construção, não discussão. A imprensa do Brasil não merece dar notícias destas.” Basta lembrar que, em carta anterior, de 10 de abril de 1928, Lobato justamente censurava Neiva, já na abertura da carta, pelo fato de ter divulgado detalhes do processo de produção de aço de

Bem feito! Quem o mand

de todo brasileiro há um mineiro miúdo, mesquinho, malévolo e desconfiado?

Quando vi no Estado a nota a respeito do processo Smith, confesso que esfriei. “Temos encrenca,” pensei comigo. O brasileiro, que no fundo não passa de português degenerado, não compreende os Estados Unidos, não acredita neles, a ponto de ter inventado a definição clássica que só define o definidor: “Aquilo é um bluff.” Bluff quer dizer uma coisa que parece que é mas não é. O Woolworth parece que tem 58 andares, mas não tem, é mentira.

O Ford finge que faz tantos mil carros por dia, mas não faz. O Rockfeller banca o benfeitor do mundo, mas não é nada disso. Tudo mentira, exagero, bluff. Ora, com tais portugueses quem se mete sai mijado, e por isso eu limitei- me a mandar o relatório de Mr. Smith ao Washington, já que o autor queria que eu o transmitisse ao governo, e não piei a respeito em jornais nem para ninguém, exceto, incidentalmente, na carta que lhe escrevi. Mas o seu ardor patriótico (que a derrota de Ruy não foi suficiente para curar) deu publicidade à coisa – e veja como já está se aborrecendo. No Brasil só não se aborrece o egoísta que só cuida de si e nina-se para o resto. 324

rtência viria em carta de 05 de dezembro de 1928

325

em que, a despeito o negócio não prosperasse, decide compartilhá-lo com o amigo, sob a ssesse à imprensa:

Sobre o ferro li as notícias que apareceram por aí – todas mal feitas, inexatas, incompletas. Só duas pessoas aqui podem mandar notícias exatas, mas andam mudos como peixes porque negócio muito falado é negócio estragado. Vou lhe dizer alguma cousa certa com a condição de nada pôr nos jornais. Ando

323 Pasta AN C 18-06.21, documento de nº 40, datado de 03 de maio de 1928 (CPDOC/FGV).

324 Pasta AN C 18-06.21, documento de nº 39, datado de 10 de abril de 1928 (CPDOC/FGV).

325 Pasta AN C 18-06.21, documento de nº 42, datado de 05 de dezembro de 1928 (CPDOC/FGV). Essa carta foi publicada por Cassiano Nunes em Monteiro Lobato vivo..., cit., p.156-9.

com tal nojo dos nossos jornais que há oito meses não leio nenhum – e tenho passado maravilhosamente depois que adotei esta medida higiênica.

Lobato afirma que “só duas pessoas aqui podem mandar notícias exatas”, sendo ele próprio uma dessas pessoas. Ademais, diz ter abandonado a leitura dos jornais do Brasil como uma “me

speito das notícias c

escreve ao cunha

o no bojo a solução integral de todos os nossos problemas, visto como se radique na MIQUIA crônica que anemiza os países que não produzem ferro. Sobre as excelências do processo já não

Brasil.

As últimas experiências que se fizeram em Detroit com minérios do Brasil e

meçará com uma produção diária de 200 toneladas e será aumentada de da procura. Todos os estudos

edifício e disse: A corda e a caçamba. Carneggie e Schwab. Rimo-nos convencidamente e murmuramos: SO BE IT. 326

dida higiênica”. A escolha de tal expressão não pode ser creditada à mera casualidade se lembrarmos que Neiva e Lobato se conheceram justamente ao participarem de uma campanha pelo saneamento do Brasil. A advertência é reforçada na despedida da carta: “adeus, meu caro Dr. Neiva. Mande o Arthur para cá quanto antes – e bico calado a re

ertas que lhe dei. Que circulem só as incertas”.

Numa seqüência de cartas ao cunhado Heitor de Morais, vemos o entusiasmo com que Lobato levava o que ele chama “o negócio do ferro”. A 17 de novembro de 1928,

do, reforçando a certeza de sucesso:

Felizmente, meu caro, o negócio do ferro está a parir-se formidavelmente e a cabeça já está de fora. O processo é o que te mandei dizer – maravilha pura, trazend

não há um só entre eles que não

resta a menor dúvida e a inauguração este mês, em Detroit, da primeira fábrica de ferro por esse processo veio demonstrar que ele é industrialmente tão certo como laboratoriamente. O meu amigo Bulcão já regressou do Brasil e não cuida de outra coisa. Next week deve ele assinar o contrato com Mr. Smith, o dono da patente, contrato que o autoriza a empregar esse processo no

casca de café em substituição do coque como agente redutor deram um resultado de encher o olho do... É tão notável a coisa, tão fulminantemente certa que não temos, eu e Bulcão, os únicos brasileiros iniciados na coisa, coragem de deixar transpirar na imprensa daí senão vagabundas notícias ou twisted ones. É de boa política que quando os outros acordarem, Bulcão esteja já com a sua usina funcionando e em tal dianteira que ninguém o possa mais alcançar. A usina que ele vai construir em Anchieta, arrabalde do Rio, comodo a estar sempre em dia com as exigências

estão feitos, atendendo-se a todas as condições locais da nova usina. O ferro vai sair ao custo de 100 réis o quilo e o aço (e que aço! queria que visses as amostras) a 130 réis. Um sonho! E como estou sócio de Bulcão creio que não escapo de ficar milionário. Ontem ao sair do Consulado onde tenho meu office, em companhia de Bulcão, o Sebastião Sampaio cruzou conosco no lobby do

326 Cartas escolhidas, cit., t.1, p.261-2.

Observe-se qu processo Smith, mas som mandou dizer talvez po para caber em carta.

Dois meses dep peça musical que teria si

“Cuidemos de um remé cansado de

guerra. Só ele, só ferro cura realmente anemias – tudo o mais é panacéia, paliativo”.

327

dos “escombros de uma falência arrasadora” – e o motiv

animadamente prognost

ue eu não perdesse?

e Lobato, na carta ao cunhado, não descreve minuciosamente o ente alude a ele ao dizer “o processo é o que te mandei dizer”. O que r meio de um amigo comum, já que todo o assunto era extenso demais

ois, em carta datada de 24 de janeiro de 1929, Lobato, após elogiar uma do composta e enviada pelo cunhado, conclui pela supremacia do ferro:

dio indireto e seja ele o remédio nº1 – FERRO, ferro velho

Heitor de Morais, anarquista, talvez acalentasse idéias revolucionárias, as quais Lobato afasta com a idéia do “negócio do ferro”, alegorizado aqui não mais em sua importância econômica, mas numa alusão a sua relevância química para a saúde do corpo humano.

Já em carta de 12 de março de 1929, Lobato infunde ânimo no cunhado, soterrado por dívidas, mostrando-se como um exemplo, após sair

o para não desanimar não é outro que o ferro, cujo sucesso Lobato icava:

Coragem, Heitor. O ferro vem vindo. Breve estaremos todos ricos. A senha é agüentar firme. Há muita coisa plantada e bem plantada. Resista que vencerás.

Lembre-se de mim, saído debaixo dos escombros de uma falência arrasadora...

com dívidas. Não foi perder o que tinha; foi perder o que tinha e o que não tinha. E perdas materiais e morais. Que houve q 328

Segundo Cavalheiro, “ainda nos Estados Unidos, por volta de 1927, quando deliberou ‘ferrar’ o Brasil, não se esquecera do grande problema paralelo: o petróleo. O ferro produz a máquina, mas para que esta se movimente é preciso o combustível”.

329

Nesse sentido, é a longuíssima carta-relatório

330

enviada ao novo chefe do poder, Getúlio Vargas, a 09 de dezembro de 1930:

Acho de meu dever apresentar a Vossa Excelência algumas das conclusões a que cheguei, com respeito a vários problemas brasileiros, durante minha estadia na América. Como são conclusões meditadas e baseadas em fatos, espero que não redundará em perda de tempo os minutos que Vossa

327 Cartas escolhidas, cit., t.1, p.271.

328 Cartas escolhidas, cit., t.1, p.279.

329 CAVALHEIRO, Edgard. Monteiro Lobato: vida e obra, cit., t.2, p.2.

330 Cópia carbono de datiloscrito original sem assinatura. Biblioteca Monteiro Lobato, São Paulo, pasta 26A, documento 2985. Publicada por Cassiano Nunes, com ligeiras modificações, em Monteiro Lobato Vivo... (cit., p.128-36).

No documento Emerson Tin - Monteiro Lobato (páginas 169-193)

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