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Monteiro Lobato nos Estados Unidos

No documento Emerson Tin - Monteiro Lobato (páginas 135-167)

Monteiro Lobato nos Estados Unidos

Eu sou um peixe que esteve fora d’água desde 1882, quando nasci, e só agora caiu nela. Isto aqui é o mar do peixe Lobato.

Monteiro Lobato.

Carta a Godofredo Rangel, Nova Iorque, 17 de agosto de 1927

Após um curto período no Rio de Janeiro, onde decidira residir logo depois da falência de sua casa editora, em 1925, Monteiro Lobato seria nomeado adido comercial da embaixada brasileira em Nova Iorque, para onde partiria no navio American Legion, a 25 de maio de 1927.

Recém-chegado à Big Apple, Lobato passaria a residir em Jackson Heights. “Um apartamento ajardinado em Jackson Heights foi alugado por J. B. Monteiro Lobato, Adido Comercial da Embaixada Brasileira, através da Queensboro Corporation”

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. É o que diz um anúncio dos classificados de imóveis do The New York Times de 17 de agosto de 1927. Note-se: o adido comercial alugou o apartamento, não o editor, não o escritor. Pois quem era J. B. Monteiro Lobato na Nova Iorque dos anos 1920? Era o adido comercial brasileiro e, se veio a se tornar um pouco conhecido em alguns ambientes da sociedade norte-americana – sobretudo no meio industrial ligado à siderurgia e à indústria automobilística –, foi como adido comercial, e não como editor, nem como escritor.

Não que não tenha tentado surgir nos Estados Unidos como escritor: extenuou-se para publicar o seu Choque das raças, romance futurista que toca fundo na questão racial norte-americana, recusado prudentemente pelos editores: diria William David Ball, editor-chefe da Palmer Literary Agency, em carta a Lobato datada de 17 de novembro de 1927, que “The clash of the races” era uma história lida com interesse crescente e que indicava uma rica imaginação criativa;

“infelizmente, entretanto, o tema central é baseado num assunto que é particularmente difícil de se apresentar a este país, pois é provável que desperte o mais amargo tipo de sectarismo e, por essa razão, os editores detestam apresentá-lo ao público leitor.”

250

249 Apud LAJOLO, Marisa. Um brasileiro em New York. Relatório de pesquisa, 2006, p.43.

250 No original datiloscrito: “It has been with more than an average degree of interest that I have read your story

‘THE CLASH OF THE RACES’ for the material has been entertainingly presented and indicates a rich creative imagination. Unfortunately, however, the central theme is based on subject matter that is particularly difficult to present in this country for it is likely to awaken the bitterest kind of partisanship, and for that reason, publishers are invariably loathe to present it to the reading public.” (Álbum de recortes de jornais, 1, São Paulo, Biblioteca Monteiro Lobato, Acervo Monteiro Lobato, p.309-10).

Não que não tenha tentado ressurgir como editor, ao idealizar a Tupy Publishing Company, sem ter avançado muito do mundo das idéias para o mundo real, indo repousar a Tupy ao lado da fábrica de geléias e da rua suspensa, imaginada para substituir o Viaduto do Chá, como constataria a 05 de setembro de 1927, em carta a Godofredo Rangel: “meu romance não encontra editor. Falhou a Tupy Company. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, combater a sangue frio o belo crime que sugeri”.

Tentou, mas Monteiro Lobato nos Estados Unidos não era Monteiro Lobato, pelo menos não o editor, não o escritor. Monteiro Lobato nos Estados Unidos era tão-somente J.

B. Monteiro Lobato, Adido Comercial da Embaixada Brasileira. E parece ser investido das funções de adido comercial que Lobato escreve a alguns dos amigos do Brasil, como é o caso de Cândido Fontoura. Surpreso ante a grandiosidade da nova terra, talvez uma das primeiras cartas escritas de Nova Iorque seja a seguinte, de 24 de junho de 1927:

Cá estou, na maior cidade do mundo. É bem a maior! Tudo imenso, desconforme, acima de tudo quanto podemos imaginar. A nossa mentalidade brasileira só vendo é que pode alcançar a proporção desta cidade infinita. Tudo diferente daí. A ordem, a disciplina, a facilidade da vida, a riqueza do povo...

[...] Tudo é assim, de proporções desmesuradas. Você não deve deixar de vir.

[...] Estou cá com o Biotônico, mas ainda é cedo para eu te dar alguma notícia a respeito. Tudo é tão grande e novo que custa um pouco tomar pé neste oceano. Mas logo que possa te darei uma opinião fundamentada.251

O crescimento dos Estados Unidos – sempre vazado por informações de cunho comercial ou econômico – é de tal ordem que “só vendo” é que se pode ter a dimensão das coisas. Quase cinco meses depois, a 10 de novembro, Lobato escreveria a Oliveira Vianna

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, refinando a tese da grandiosidade dos Estados Unidos:

Sabe por que não escrevo? Porque há assunto demais. Pego da máquina e desanimo. O reservatório é um açude de Quixadá, mas o buraquinho de saída tem meia polegada de diâmetro. Como escrever, meu caro amigo?

Afogado desta maneira num excesso de temas, assuntos e impressões?

Para te dizer o que penso disto precisaria despejar em cima de V. todo um livro de 500 páginas. Impossível...

Tudo grande demais, tudo fora da medida a que o nosso pobre cérebro sul- americano está afeito. A altura das casas, os algarismos, a pernas das mulheres, tudo tonteia. [...] Ora, isto me tonteia, caro Vianna. Quando olho para um arranha-céu minha imaginação vai fundo e procura penetrar nas

251 Cópia xerográfica de manuscrito original. Biblioteca Monteiro Lobato, São Paulo, pasta 33, documento 3498.

252 Todas as cartas a Oliveira Vianna pertencem ao acervo da Casa de Oliveira Vianna, em Niterói, RJ.

causas. Se ando por baixo da terra algumas léguas perco-me em cismas sobre a realidade deste minhoquismo e do que ele ainda promete. [...] Eu ainda não fiz nada porque vim muito fraco em “entender inglês”. Meus ouvidos ainda resistem e aqui, sem falar inglês, ninguém se arranja. Creio que sem um ano de treino não ficarei no ponto. Depois, veremos. Mas a minha sensação é de que nasci aqui. Se antes de vir já não me adaptava ao marasmo brasileiro, como será agora, meu caro amigo? Há dentro de mim um grave erro da natureza. Erraram de alma no momento do meu fiat. Puseram um americano do norte dentro de um corpo sulista. Este terrível handicap talvez me faça fracassar aqui – além de que acordei muito tarde. Estou velho e inda [mais]253 o pareço nesta terra de só moços. Mas farei tudo para v[encer] e vencerei se conseguir dominar a língua.

Frente da carta de Monteiro Lobato a Oliveira Vianna, danificada pela ação do tempo (Casa de Oliveira Vianna, Niterói – RJ)

253 Nesse ponto o papel da carta se rasgou pela ação do tempo. O que vai entre colchetes é uma hipótese, a partir do contexto.

Tudo é motivo para o deslumbramento, “a altura das casas, os algarismos, a pernas das mulheres, tudo tonteia”. A partir dessa tese, Lobato apresenta ao sociólogo Oliveira Vianna um quadro bastante rico da sociedade norte-americana dos anos 1920. Contudo, Lobato acaba defrontando-se com a limitação do gênero epistolar: “para te dizer o que penso disto precisaria despejar em cima de V. todo um livro de 500 páginas. Impossível...” E, ao final, conclui: “Ficas sabendo que se não escrevo é por excesso de coisa a dizer. Um dia conversaremos...”

A tese do “extrapaisamento” desenvolve-se na carta a Oliveira Vianna de 15 de abril de 1928:

As medidas que o mundo conhece já não servem para medir um país que está deixando de ser país para ser todo um mundo novo dentro do velho.

Em matéria de riqueza, por exemplo. A Broadway tem 18 milhas de extensão – uma rua... O valor predial do seu casario margeante sobe a 7 bilhões de dólares. A riqueza do nosso riquíssimo Brasil é de 10 milhões de contos, isto é, a sétima parte da Broadway... [...] Há um livro que te recomendo, André Siegfried254 – Les États Unis d’aujourd’hui255. Com toda a amargura do europeu que vê um por um dos cetros da Europa mudarem de continente, esse francês estuda o colosso, friamente, sem entusiasmo, melancolicamente e não conclui – deixa que o leitor conclua que o ciclo europeu da humanidade vai-se lentamente encerrando para abrir lugar ao ciclo novo.

Tenho a impressão que o cataclisma de 1914 na Europa marcará o termo da hegemonia de um continente. No começo era a Ásia. Depois veio a Europa.

Depois a Europa esclerosou-se e surgiu a América. Assim dirão as bíblias sociológicas do ano 3000 por boca dos Oliveiras Viannas de então.

Infelizmente por América não se entenderá também o Brasil, mas apenas a América anglo-saxônica e nórdica. Nós, do México para baixo, pertencemos ao ciclo europeu, e apodrecemos com ele.

O que vim buscar neste país, sabes o que foi? Um desânimo infinito – a certeza do que eu suspeitava, que a raça é tudo e que não temos raça...

Gobineau256, Gobineau... [...] Que campo, Vianna, a vis sociológica que possuis encontraria neste mundo que está extravasando do mundo...

254SIEGFRIED (André), geógrafo, historiador e sociólogo francês (Le Havre 1875 – Paris 1959). Um dos fundadores da ciência política moderna, foi o promotor da sociologia na França (Quadro político da França ocidental, 1913; Quadro dos partidos na França, 1930).” (GRANDE ENCICLOPÉDIA LAROUSSE CULTURAL. São Paulo: Nova Cultural, 1998, v.22, p.5368).

255 SIEGFRIED, André. Les États-Unis d'aujourd'hui, par André Siegfried... Avec 8 cartes et figures.

Paris, A. Colin, 1927.

256GOBINEAU (Joseph Arthur, conde de), diplomata e escritor francês (Ville-d’Avray 1816 – Turim 1882).

Jornalista e romancista, tornou-se um dos pais do racismo moderno ao escrever o ensaio A desigualdade das raças humanas (1853-1855), onde propôs uma teoria pseudocientífica sobre a superioridade da chamada raça nórdica, loura e dolicocéfala, originária do norte da Europa Ocidental. Essa doutrina teve enorme influência na formação do racismo oficializado na Alemanha pelo nazismo. Gobineau foi embaixador no Brasil, onde tornou-se amigo do imperador D. Pedro II; defendeu a tese de que o Brasil não poderia se desenvolver devido ao enorme contingente de indivíduos pertencentes a ‘raças inferiores’ em sua população, tese que – apesar de sua falsidade científica – exerceu enorme influência no pensamento social brasileiro da primeira metade do século XX, especialmente na obra de Oliveira Viana. Escreveu também o romance Les Pleiades (1874) e as novelas Nouvelles asiatiques (1876).”

(GRANDE ENCICLOPÉDIA LAROUSSE CULTURAL. São Paulo: Nova Cultural, 1998, v.11, p.2734).

É importante observar o recorte sociológico que Lobato procura dar na carta a Oliveira Vianna, inclusive com a alusão a Gobineau, à obra do qual certamente o destinatário não seria infenso.

Ademais, o trecho seria aproveitado, em 1932, no livro América, na boca de Mr. Slang: “Não meça as coisas americanas com as medidas da sua terra. As velhas medidas européias, que são as mesmas da América do Sul, não medem mais a América do Norte. Ela não só criou coisas novas, como também criou medidas novas”.

257

Por fim, a tese do “extrapaisamento” atinge o ápice em 22 de dezembro do mesmo ano, em nova carta ao autor de Populações Meridionais do Brasil:

É tal a vertigem do progresso econômico, é tão rápido e constante o enriquecimento geral do povo que a evolução, sob todos os seus aspectos, tem de trotar largo. E tão largo tem trotado que não temos símile na história que aproveite para comparações ou ponto de referência para as coisas americanas. Meus estudos – e têm sido árduos, levaram-me a esta fórmula:

Não é mais país. País é França, Alemanha, etc. States não é mais país.

Extrapaisou-se. Virou mundo dentro do mundo e Central Station que fatalmente terá de manobrar todos os outros países. Em vista disso sua evolução está tomando rumos inéditos, imprevistos e impossíveis de serem bem apreendidos pelos pensadores de fora. Há um terrível óbice para isso:

falta de medidas. A desproporção das coisas americanas está criando cada dia medidas novas e inéditas porque as velhas, as européias, não work. [...] É tal o número de autos em perpétua circulação que, visto o quadro de longe, de aeroplano ou dum skyscraper, dá uma singularíssima impressão: um novo animal, um besourão invadiu a terra e vive em simbiose com a velha criatura que Jeová concebeu à sua imagem e semelhança. Você pode conceber, por exemplo, uma cidade como esta onde 800.000 autos correm sem parar?

Outro eterno assombro meu é a undercity. New York cresceu e cresce em todas as dimensões a tanto bota coisas para cima como para baixo. Constrói arranha-céus e arranha-inferno. O número de trens subterrâneos é incrível.

Há dias em que o tráfico subtérreo sobe a 5 milhões. O movimento geral do ano passado ascendeu a 5 bilhões de pessoas. E a subcidade não é coisa só de trafegar. Você poderá viver a vida inteira minhocalmente sem sentir nunca necessidade de vir à tona e sem se privar de nenhum dos maravilhosos confortos da civilização. E dia a dia mais fundo desce a cidade. Estações há onde para você alcançar o andar desejado ou descerá por escada rolante ou por elevador, (descedor seria a palavra), porque a pé você não agüentaria.

Deve-se observar, ainda, nessas cartas americanas de Lobato, o grande número de palavras em inglês que vão sendo salpicadas aqui e ali – no trecho transcrito acima, por exemplo, temos work,

skyscraper, undercity, além dos topônimos States e Central Station –, o que

poderia dar uma “cor local” ao texto da carta, já que, na maior parte das vezes, Lobato utiliza concomitantemente os termos equivalentes – existentes ou neologismos – em português (no

257 América. São Paulo: Brasiliense, 1962, p.96.

trecho acima, por exemplo, temos a convivência entre skyscraper e arranha-céu – além do jocoso neologismo antônimo arranha-inferno – e undercity e o neologismo subcidade).

Também na abertura da carta a Lino Moreira, datada de 18 de setembro de 1927, Lobato ressalta a insuficiência do gênero para expressar tudo o que precisaria ser dito sobre um país das dimensões dos Estados Unidos:

Que te dizer deste maravilhoso país? As impressões são tantas que não cabem em carta, nem em livro. Só uma daquelas longas palestras na saudosa Copacabana, com o Dr. Toledo ao lado de D. Dulce258 toda ouvidos é que seria possível dizer deste avesso do Brasil. Para ter uma idéia imagine tudo ao contrário daí – e consulte o cinema.259

Lobato, deslumbrado, descreve uma viagem que fizera a Washington:

A semana passada fui a Washington de auto. Que estradas! Que conforto, que maravilha... Vim besta pelo resto da minha vida e com tristeza imensa do Brasil não ser assim. Em 650 milhas de ida e volta, cortando inúmeras cidades do interior, lindas como sonhos, não vi um pobre, um esfarrapado, um mendigo...

E o que mais me assombra aqui – a riqueza, o bem-estar do povo. 260

É interessante, nesse passo, confrontar esse trecho com parte de uma carta escrita nove dias antes a Arthur Neiva:

Que estradas, que culturas, que gado, que cidades, que riqueza generalizada que povo imensamente feliz! Nem um pobre pelo caminho a pedir esmola pelo amor de Deus, nem um estropiado, nem um esfarrapado. Todos felizes, todos nos seu job bem remunerado. Isto é positivamente um assombro. Leio o Times e vejo na grande Inglaterra mais de um milhão de sem trabalho pesando nos encargos do estado. Vejo a Alemanha arcando com terríveis problemas, vejo a França a bracejar, vejo por toda a parte o eterno quadro da miséria ao lado da riqueza. Mas aqui vejo todos os problemas resolvidos e uma média de felicidade individual que nunca nenhum sociólogo julgou possível. É positivamente o primeiro país que acertou a mão na ciência do viver coletivo. 261

Nessa mesma carta, encontramos o diagnóstico do Brasil, em confronto com a situação norte-americana:

Neste ponto de vista vejo bem o Brasil em conjunto e posso julgar da sua mentalidade. É o caso perdido que eu já supunha aí. Para curá-lo era preciso uma campanha tremenda que o convencesse de 4 coisas. 1) Que não é um país

258 Pedro Manuel de Toledo (1860-1935), sogro de Lino, e Dulce, esposa de Lino.

259 Cartas escolhidas, cit., t.I, p.207.

260 Id., ibid., p.207-8.

261 Pasta AN C 18-06.21, documento de nº 36, datado de 09 de setembro de 1927 (CPDOC/FGV).

novo como os jornais e todo o mundo vivem a proclamar, e sim um país dos mais velhos do mundo. Idade se conhece pelos sinais da ação do tempo no organismo, rugas, cabelos brancos, arteriosclerose etc. e não vejo povo que apresente mais destas coisas. Herdou em 1500 a decrepitude de Portugal e aperfeiçoou-a a ponto que importa português para ronçar o sangue. 2) Que o que o brasileiro chama inteligência é uma coisa muito velha no mundo e conhecida por burrice. Somos imensamente burros, tão burros que não nos apercebemos disso. Inda não vi um jornal daqui falar na inteligência do americano. No dia em eles descobrirem que são inteligentes é possível que comecem a desandar a emburrecer, do mesmo modo que no dia em que nos convencermos da nossa burridade hereditária é possível que comecemos a ficar inteligentes. Sempre o nosce te ipsum. 3) Convencer-se que é pobre, talvez mesmo o mais pobre de todos os países pobres do mundo, pobre de pedir esmola a quanto povo souber ganhar e juntar dinheiro. Essa convicção será o primeiro passo para o enriquecimento. 4) Convencer-se que é um doente. Neste pormenor vejo uma doença nova que aí não me chamou muito a atenção: paralisia. Um país onde um sujeito para ir de um ponto a cem milhas de distância precisa, salvo honrosíssimas exceções, montar num nosso irmão cavalo e gastar 150 horas da sua vida é positivamente um país paralítico.

O americano faz essas 100 milhas com o dispêndio de 2 horas de vida.

O tema apresentado a Arthur Neiva é praticamente o mesmo que vimos nas cartas a Oliveira Vianna: o avanço tecnológico dos Estados Unidos frente ao atraso brasileiro.

Contudo, se nas cartas a Oliveira Vianna os argumentos expendidos eram sociológicos, aqui vemos um esforço no sentido do biológico: ao sanitarista Neiva, Lobato diagnostica os males do Brasil e conclui pela doença, pela paralisia crônica.

As cartas americanas de Lobato apresentam, assim, em sua maioria, esse deslumbramento com a terra nova, e são muito semelhantes entre si na escolha dos fatos a serem narrados. No que se diferenciam, contudo – é a nossa hipótese –, é em pequenos elementos escolhidos em função de cada destinatário.

Na já citada carta a Lino Moreira, de 18 de setembro de 1927, lado a lado com o deslumbramento pela grandiosidade norte-americana, vemos a nostalgia dos tempos da faculdade:

Tenho estado sempre com o Sebastião Sampaio262, e recordamos o nosso tempo de S. Paulo. Sebastião foi um dos novos do Cenáculo, um dos da última fase, de modo que olha com grande respeito de calouro para os velhos. E assim matamos saudades da pátria revivendo a boa vida daquele tempo, ou de antanho, como diria o Raul. 263

262 Sebastião Sampaio (1884-?), cônsul do Brasil em Nova Iorque no período em que Lobato esteve nos Estados Unidos. Obras: A tortura do real, contos (Rio de Janeiro, Typ. Leuzinger, 1907); O café do Brasil neste século, um rápido ensaio histórico – memórias de um embaixador repórter – no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa – de 1892 a 1958 (Rio de Janeiro, 1958).

263 Cartas escolhidas, cit., t. I, p.208.

Diferentemente, nas cartas a Cândido Fontoura, Lobato ressaltará sobretudo as relações comerciais, pondo em primeiro plano a satisfação dos interesses do amigo. Fontoura teria interesse em ingressar no mercado norte-americano com o seu mais célebre produto, o Biotônico, e pedira a ajuda do amigo adido comercial para obter as informações necessárias. É o que vemos no trecho seguinte, de carta de 25 de agosto de 1927:

Quanto ao Biotônico já verifiquei o seguinte. Não há produto que não tenha saída neste país, se anuncia. A base de tudo é o anúncio, e os retalhistas chegam a não receber nem se quer em consignação produto nenhum se acaso não os vêem muito anunciados. De modo que a base para o lançamento do Biotônico é um forte capital para atrair os ouvidos do público com o reclame – o mesmo que fez v. aí. A diferença é que aí com pouco dinheiro se anuncia mas aqui sem um dispêndio inicial de 100.000 dollars nada se faz. Em compensação o volume das vendas torna-se logo tão grande que o difícil é saber o que fazer do dinheiro.

O país está cada vez mais rico. Há bancos que quebram por excesso de fundos.

Como a lei restringe ou regula o emprego de capitais dos bancos, impedindo-os de os empregarem em títulos especulativos, eles ficam com o dinheiro parado e quebram. Por isso andam dando dinheiro para quanto país há pelo mundo;

calcula-se que cada americano, inclusive as crianças já estão empatando em empréstimos externos 15 dol. por ano. Isto para começar...

A outra hipótese de encontrar aqui quem queira associar-se ao Biotônico para explorá-lo com um royalty para os donos da fórmula é possível, mas não fácil. Só com o tempo podemos ver isso. Mas já dei uns passos e espero umas respostas.264

Contudo, não vemos somente os interesses comerciais nessas cartas a Fontoura.

Lobato convida o destinatário a conhecer os Estados Unidos:

E... quando vens? porque é preciso que venhas. Não podes ficar por mais tempo sem conhecer um país perfeitamente estandardizado. Ontem fui ao teatro com P. e lá nos lembramos de V. Havia um ator que era o teu jeitinho escarrado. Como as peças daqui ficam no cartaz anos, e esse apesar de já estar há dois anos talvez ainda fique outro tanto, é possível que você quando vier ainda possa ver-se no Ziegfield Theatre.265

Mas nota predominante é dada mesmo pelos objetivos comerciais e industriais de Fontoura nos Estados Unidos. Além do interesse em introduzir o Biotônico no mercado norte-americano, Fontoura também manifestara curiosidade pelo funcionamento das farmácias nos Estados Unidos, no que foi prontamente atendido pelo adido comercial Lobato que responde, em carta de 10 de julho de 1930, longamente a um questionário proposto por Fontoura, cujas informações complementaria em carta de 05 de setembro do mesmo ano

264 Cópia xerográfica de datiloscrito sem assinatura. Biblioteca Monteiro Lobato, pasta 33, documento 3499.

265 Cópia xerográfica de datiloscrito sem assinatura. Biblioteca Monteiro Lobato, pasta 33, documento 3499.

No documento Emerson Tin - Monteiro Lobato (páginas 135-167)

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