Monteiro Lobato do cárcere
Under a government which imprisons unjustly, the true place for a just man is also a prison.
Henry David Thoreau (1817-1862).
Civil Disobedience
28 de janeiro de 1941. Monteiro Lobato é surpreendido por um mandado de prisão. O motivo: uma longa carta, datada de 05 de maio de 1940, escrita ao chefe do Estado Novo, Getúlio Vargas, denunciando questões relativas ao petróleo do Brasil, como vimos no capítulo anterior.
Recolhido incomunicável à Casa de Detenção de São Paulo, seria solto dali a quatro dias. Mas seria preso no
todas as cartas escritas por um encarcerado adotam esse tom. É possível encontrar uma seleção de fatos relatados ou temas tratados que varia de acordo com o destinatário.
364Outro elemento que as unifica é o local de endereçamento. É interessante notar que, das cartas escritas por Lobato a partir da prisão, a maioria delas aponta especificamente o local de sua origem: “Casa
vamente, a 20 de março do mesmo ano, sendo condenado a seis meses de prisão, dos quais cumpriu três até, devido à pressão e mobilização de vários intelectuais
363, ser indultado por Getúlio Vargas.
Fruto, o mais das vezes, de períodos ditatoriais, as cartas escritas no cárcere trazem, em geral, características comuns que as constituem num autêntico subgênero do gênero epistolar. Isso porque podemos, por um lado, pressupor na elaboração de cartas escritas em prisão elementos que de certo modo as unificam: em geral, as cartas de prisão são escritas, como é de se esperar, em tom melancólico, em que o encarcerado relata os sofrimentos do recolhimento, repassa os acontecimentos de sua vida, demonstra preocupação com os familiares. Por outro lado, percebe-se que nem sempre
363 Entre estes, sobressai o nome da escritora Rosalina Coelho Lisboa (1900-1975) que, segundo as palavras de Hilário Freire, um dos advogados de Lobato no processo criminal, numa carta que lhe dirigiu de São Paulo a 11 de julho de 1941, foi “a que mais converteu a amizade em ação efetiva e realizadora”. Essa carta se encontra depositada no CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro (pasta RCL 41 – 07.11).
364 Exemplares desse procedimento, no século XX, são as cartas de Gramsci à esposa e à mãe, ambas datadas de 20 de novembro de 1926, mas cada uma delas escritas de maneiras e sobre assuntos diversos, a despeito de serem redigidas sob as mesmas condições de tempo e lugar. Para as cartas de Gramsci, v. GRAMSCI, Antonio. Cartas do cárcere. Seleção e tradução de Noênio Spínola. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p.16-8; GRAMSCI, Antonio.
Cartas do cárcere. Organização, introdução e tradução de Luiz Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, v.1, p.74-7. Excelente exemplo no Brasil são as cartas de Luiz Carlos Prestes (Anos tormentosos: Luiz Carlos Prestes: correspondência da prisão (1936-1945). Apresentação, seleção e notas de Anita Leocadia Prestes e Lygia Prestes.
Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 2002, 3v.), as cartas de Frei Betto (Cartas da prisão. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2ª edição, 1977) e as escritas por Joel Rufino dos Santos a seu filho Nelson, reunidas no livro intitulado Quando eu voltei tive uma surpresa (Rio de Janeiro: Rocco, 2000).
de Detenção”, por vezes adotando a variante “Cadeia”. É possível ver essa indicação aqui como um sutil lembrete de que o remetente permanecia preso, a despeito do tom irônico e divertido que algumas das cartas adotam.
urante todo o período de cárcere, Lobato não deixa de escrever cartas. Conhecemos atualmente quinze cartas escritas da Detenção
365. A primeira
366desse conjunto é dirigida a D. Maria da Pureza Natividade Lobato, ou simplesmente Purezinha (1885-1959), a esposa do escritor. Recolhido à prisão, incomunicável, em 28 de janeiro de 1941 – conforme se depreende da leitura da guia de identificação acostada aos autos do processo movido em face de Lobato
367–, a carta, sem data, deve ter sido escrita em 29 de janeiro
368, eis que Lobato afirma: “O Ernani, aquele em cuja casa você esteve anteontem (27) mostrou-se muito camarada. Pedi-lhe que telefonasse a você ontem (28) e agora espero-o ansioso, para saber se telefonou.”
nha” –, abre-se em tom de confidência, como numa conversa sussurrada num canto: “Só contarei o que é a vida em prisão.” O advérbio “só”, ao mesmo tempo que restringe o assunto da carta, pode ser interpretado como uma reserva do assunto apenas a esta destinatária, ou seja, “somente a ti contarei o que é a vida em prisão”. Por outro lado, num alargamento da interpretação, “só” também poderia ser lido como um adjetivo, que seria uma forma de intensificar a solidão do remetente, preso incomunicável: “sozinho contarei o que é a vida em prisão”.
Essa última interpretação é reforçada pelas duas cópias datiloscritas da carta, depositadas no Fundo Monteiro Lobato do CEDAE/UNICAMP, em que lemos: “só, contarei o que é a vida em prisão”. A palavra “só”, isolada e destacada pela vírgula, passa a ser um adjetivo, de acordo com essa última interpretação.
369
D
A carta, após um vocativo simples – “Purezi
365 Certamente existem outras cartas que, até o presente momento, não nos foi possível localizar. Da biografia de Cavalheiro conclui-se, ainda, que ele teria escrito cartas a Abelardo Vergueiro César, Menotti del Picchia, D. Yaynha Pereira Gomes, entre outros. (Monteiro Lobato: vida e obra. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2ª ed. revista e aumentada, 1956, t.2, p.71)
366 Essa carta foi publicada por Edgard Cavalheiro no volume Cartas escolhidas (São Paulo: Brasiliense, t.2, 1964, p.70-3). O original, escrito em papel de embrulho cor de rosa, encontra-se depositado no Fundo Monteiro Lobato do CEDAE (Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio), da UNICAMP. No mesmo Fundo há ainda duas versões datiloscritas da mesma carta, com algumas correções anotadas à mão.
367 RIBEIRO José Antônio Pereira. As diversas facetas de Monteiro Lobato. São Paulo: Roswitha Kempf Editores, Secretaria de
Cultura Município de São Paulo, s/d, p.153. Datado de 29 de janeiro de 1941, lê-se no documento: “faço apresentar a V. S., a fim de ser identificado, o detento MONTEIRO LOBATO (Dr.) [...] que deu entrada nesta Casa de Detenção, em data de ontem”.
368 Há confusão quanto à data dessa carta. Edgard Cavalheiro, no volume Cartas escolhidas, registra a seguinte nota em relação a essa carta: “Monteiro Lobato foi preso no dia 20 de março de 1941” (Cartas escolhidas, cit., t.2, p.70). Ocorre que 20 de março de
1941 é a data da segunda pri s não mais incomunicável.
369 A diferença entr hece – se explicaria
em razão do acent oduzida na página
seguinte. Isso pode ter motivado um erro de transcrição, que explicaria a presença da vírgula nas versões datiloscritas.
,
são de Lobato, período em que o escritor fora recolhido à Detenção, ma o manuscrita e as versões datiloscritas – cuja identidade do datilógrafo se
e a versã descon
o do verbo “é” que aparece logo na linha de baixo, como pode ser visto na imagem repr
Parte da primeira página da carta escrita da prisão a D. Purezinha (Fundo Monteiro Lobato – CEDAE – IEL – UNICAMP, MLb 3.1.00175)
eira página da carta escrita da prisão a D. Purezinha – versão datiloscrita nteiro Lobato – CEDAE – IEL – UNICAMP, MLb 3.1.00175) Parte da prim
(Fundo Mo
, a existência, os entes queridos falecidos – represen
Segue a descrição da vida na prisão, agravada pela incomunicabilidade, que força Lobato a pensar todo o tempo. E o primeiro objeto de seu pensamento é a esposa. O segundo objeto do pensamento passa a ser a vida e a morte
tados pelo filho Guilherme, falecido em 1938, e pelo cunhado Heitor de Moraes, que se suicidou em 1936:
Depois de pensar e repensar em você e de convencer-me que apesar de todas as aparências, e da nossa eterna divergência, é você a única pessoa que eu amo no mundo, pulo para outra estação. Há a estação da Morte, penso na sobrevivência, no Além, em promessas de espiritismo, etc. Penso em Guilherme e Heitor, e acho-os tremendamente felizes por já terem morrido,
A “estação”
370nto de Lobato é sua própria condição, a prisão, os motivos pelos quais t
epois penso no meu caso – na vingança que os homens de cima que eu insultei hão de querer tirar de mim. Que tolice dar soco em faca de p
recebeu o pacote com objetos pessoais enviados pela esposa:
isto é, feito uma coisa que nós ainda vamos fazer.
seguinte do pensame
eria sido preso e o temor pelo que poderia ainda ocorrer:
D onta!
Espetei a mão e a faca ficou no que era. Meu soco não a quebrou.
A vida aqui me tem feito pensar no horror que V. sempre teve pela prisão, pela condenação de um homem ao confinamento por anos e anos. Agora vejo como, sem ter experiência própria, V. adivinhou o certo. Não há castigo maior. Mil vezes cadeira elétrica ou a forca – dores de um momento.
Daí a reflexão sobre o tempo e a incomunicabilidade da prisão. Como que marcando a alegria que sentiu, Lobato subitamente muda o tom da carta ao descrever o momento em que
370 Interessante observar a escolha da palavra “estação” por Lobato que, em sua polissemia, enriquece a interpretação da carta: estação pode significar tanto o local de parada de um meio de transporte qualquer (p. ex., estação de trem, de ônibus etc.), como um período de tempo (p. ex., estação das flores), como as quatro partes do ano (ou seja, as estações do ano), como, ainda, as chamadas quatorze “estações” da Via Sacra do Calvário de Cristo.
Imagine agora o meu prazer quando ontem recebi um pacote. Abri e vi logo você ali – 2 ceroulas, lenços meias, pijama novo e aspirina. Que presente, Purezinha! Como qualquer coisinha é todo um mundo para quem está sem nada!
Repeti mil vezes o teu nome, e hoje de manhã, ao acordar e ver em cima da mesa as coisas, peguei nas meias e beijei-as... Imagine agora a que fica reduzida uma criatura depois de anos de prisão se eu só com 2 dias já estou assim.
Foi o primeiro contato com o m
Que alegria imensa me causou! undo externo, esse presente que v. me mandou.
Foi o mesmo que receber a tua visita.
Note-se que, tal como a carta que, por definição, torna presentes os ausentes
371, o pacote recebido por Monteiro Lobato tem o condão de tornar presente a esposa. A carta segue com a descrição do tratamento recebido e das instalações da prisão:
Tratam-me muito bem aqui. Os guardas e o diretor são pessoas delicadíssimas, que vêm ver-me todos os dias e conversar. Estou num apartamento otimozinho, com um banheiro de 1ª ordem, com lavatório, bidé, privada e banheiro novinho com água quente. Sou servido no quarto pelo João, um mulato que está preso há já 3 meses. Cinco refeições, imagine!
para eu que só fazia três. Café com leite, pão e manteiga às 7h. Almoço com 6 pratos às 11 Chá mate, pão e manteiga às 2. Jantar às 5 e chá à noite. Creio que vou engordar.
Veremos adiante, noutras cartas, que a descrição do tratamento recebido e das instalações da prisão é muito semelhante ao transcrito acima. Contudo, o tom que Lobato adota nessas outras cartas será totalmente diverso.
Retornando à
sofrimento do filho Edg ncólico do início da carta. Segue-se, então, a conclusão da carta e a
– e que não teria como entregar, devido à incomunicabilidade –, e a assinatura da carta, com o familiar “
lado é o que não falta.
Estou escrevendo por escrever, para dar vazão aos sentimentos, porque não
lembrança da inação a que o cárcere o obriga, Lobato recorda o ard, para recair no tom mela
despedida, com uma consideração sobre a própria carta que escrevera
Juca”:
Adeus, minha querida, minha cada vez mais querida Purezinha. Um apertadíssimo abraço, e outro em Rute e Edgard. Coragem aí, que cá do meu
há jeito de fazer este papel chegar a você.
Incomunicável! Agora compreendo o horror desta palavra.
Juca
371 Atribuída a Libânio, a fórmula “epistola est absentis ad absentem colloquium” (em português, a carta é uma conversa entre ausentes) foi repetida exaustivamente ao longo dos séculos por inúmeros tratadistas do gênero, como por exemplo Erasmo de Rotterdam (em sua Breuissima maximeque compendiaria conficiendarum epistolarum formula, de 1520) ou Juan Luís Vives (no De conscribendis epistolis, de 1534). Essa presentificação dos correspondentes por meio da carta é mais patente nas cartas que Lobato dirigiu à Purezinha durante o noivado, como vimos no capítulo 1.