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Sppjiçada mais especialmente ,£a maierias criminaes (3) a prova offerece particularidades notateis.
1.° No crime trata-se de demonstrar a evidencia dos factos passados, que por conseguinte nao podera mais na sua prirài-tiva pureza ser submettidos ao exame material do juiz, e cuja realidade nao pode ser estabelecida senao por via de indacçSo, tomando-se por ponto de partida os effeitos, os signaes caracte- rîsticos, os vestigios de toda a sorte.
Mesmo no caso de delicto factipermanentis, no caso de assa- sinato por exemple, o exame sô tem importancia por permittir a verîfieaçâo da existencia de uni cadaver, mas o facto Consti- tutive do crime nao pôde ser reprodusido perante o juiz. O exame nao lhe fornece mais do que os dados, dos quaes lhe é possivel tirar por indueçao uma relaçao de causalidade entre certes factos primordiaes, e a morte da victima. Em resumo, as fontes de convicçao, que auxiliâo ao historiador, que vai procurar a verdade nos factos do passade, sao as mesmas, nas quaes o juiz vem buscar a sua convicçao, qùando se occupa da existencia, e das circunstancias de um crime.
2." Além disso em materia criminal encontrSo-se maioreà diffieuldades, do que em materia civil. No processo civil as partes esforçao-se por demonstrar os factos constitutives de um vinculo de direito entre ellas existante : fazem comparecer testemunhas expressamente para certificar o compromisso do adversario, quando este vinculo se formou pelo contracto, e exhibem os titulos enunciativos das suas mu tuas obrigaçOes >
mas, no crime, o autor do delicto tomou todas as precauçoees imaginaveis para tornar impossivel a prova délie, e para fazer desapparecer todos os seus vestigios.
(S) Sobre a deftniçâo da prova em materia criminal vide Rolin. de Probal delïct., p, 34; Stubel da eorpo de delicto, p. 281; Tittmann, Mariual de dir, yen., p.838. ¥ide o Procès, crim. çomp.. 1.1, cap. 87, t. 3, 'cap, 157. •
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3.° No eivel, de ordinario, tràta-se de demonstrar factoa, que sao do dominio dos sentidos, e que o testemtinlio oral pôde dé- terminât facilmente : no crime o juiz é obrigado a esclarecer oircunstaiieias impalpaveis para os sentidos, e que pertencem ao fôro-interior.
A imputa bilidade moral do indiciado, a situaçao do seu es- pirito no momento do crime, a lucides de suas faculdad.es de conaciencia, a ma intenç&o e a sua intensidade : eis outrés tantos objectes, sobre os quaes é preciso dirjgiv os instrumen tas de prova, mas cujos resultados nao podem ser obtidos pelos meios ordinariameute applicaveis nos factos exteriores, nao se podendo obter a certeza senao por via de inducçao. I
4.* Finalmente, resta-nos ainda assignalar uraa particule*
ridade ; o magistrado encarregado da instrucçao do processo tem por missao especial indusir o indiciado a uma confissao espontanea e compléta da verdade ;, da quab(desapparecendo todas as duvidas sobre a veracidade da sua confissao) dimana para o juiz definitivo mais uma garanti» a favor da sua con- vicçao, que séria difficil obter de outro modo ; com effëito quanto mais franco fôr o autor do delictô sobre todos os factos de cohsciencia, tanto mais lhe sao prejudiciaes as suas pala- vras, e tanto menos se pôdesnppor, que o interesse as dicte.;
de outro lado divulgando todo o seu procedimento, da lugar a que o juiz possa facilmente pelas suas confîssoes verificar os depoinientos proferidos no processo, os das testemunhas, dos peritos, ou quaesquer outros.
CAPITULO VII
DA VERTtADB, DA* CERTEZA E DA CONYICÇÂO
Jà demonstramos que fazer prova é em fundo querer demons- trar a verdade, e convencer o juiz, o quai, para decidir, tem necessidade-de adquirir plana certeza ; convém agora exami-
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nar a fundo a natureza de prqva, e pot consequencia entrât em, alguns desenvolvimentos do que se chama : verdade, con-
vicçâo, certeza. .-,
Verdade (1) é a. concordancia entre um facto real, e a idéa délie representada em. ,nosso.espirito. Supponhamos um indi- viduo querendo conveneer-se da realidade de uraa cousa, e pesq.uisando-a. j a verdade apparece, quando a convieç&o ad- quirida se acba em correlaçào perfeita com o seu objecte. Nao ca,be aqui o examinar, se a verdade propriamente dita, ou antes, a verdade absohita dos çousas pâde ser submettida as investi- gâçCes do. espirito humano, ou se este é obrigado a conten-tar- se com a simples apparencia (2). Séria completamente inutil um detido exame das divisôes da escola (3). N&o nos demoraremos em expUcar a verdade logica, à quai, ao contrario da verdade matériel.,- chegamos pelo raciocinio, e que résulta do facto de estarem em harmonia com as leis conhecidas as noçGes, ;qué concebemoa das causas ; e de passagem classifi-caremos nesta divisao a crivel e possivel logicamente. Nem mesmo discutiremos a natureza da verdade traitscendental, que é do dominio da philosophia, por ser o conhecimento do mundo
(1| Kmg, da-oonviccâo, dos sens grdos e dos seus moàos diversoa. Iena 1797. Stubel, do cargo de delicto, 1166, etc. Relatorio da commissBo imme- diata prussiana sobre o jury. 1819, part. 1.; Grœvell.Kacama deste Relatorio, tït. 11, p. 117 ; Weber, Arch. do Mr. Crim., tit. 8. p. 562 ; Weiland, Ensaios sobre a natnreta dajustiça critnimal. Délit., 1836, p. 34; ArUgos na Renista de Jurixprudencia Crim. prussiana, a. 17. p. 150; n. 19, p.. 131, n. 42, p. 239.
(2) Os glozadores raciocinSo como os nossos philosophos, quando ua Gloza sobre a-Novel. 78. cap.l.' estabelecem esta questào : Quid est veritas ? ipse Deus. Veritas vero humanitatis polest diei notUia certes rei maxime per visum.
(3) Weber, Arch- precitados, 8, p. 963.
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pfiîèafàmsG ajffi&Mtatiàto iaititihâb tvHètoet, e pk rim é
«ufficientepara nelle dirigfr uossas acçoes. Deixamosde parte s verdade matfamatka, sem tôdavia deixar dé reennheéw^que adpèradiO do e»pirito,qne ittnx appareeer (4j, 'édftetsada que condtiz'"âo eonhedmentb da vtttAktffi'WtitMca ;qfte éftta JPo total He rnûttâ»sommas,-eiÉéapplfoa prinéipalraeiité & nftÇSsv das quantïdades.
À'Vefâade hiètbrica ei»'' o ofijecto dos "nossos estuddff (l^5; eis o alvo, que tfàtarao* de attingfosempre quèièmos em Vfsta;
asBegûrarrao-nos da realidade de cefto* acontecimentos, e de certes acte» praticados no tempo e no espaco.
Percotrendo o tempo e o espa^o, eolhemo» em 'rtttwo eaminho uma'maltfdio de circutwtancias isoladàa, e as encâdeiatitox uma's na« outras ; entas por seu turnonos gniao,gqua'ndo com o «eu auxillo chcgamos ao fi m das nomas in ve»tigaç/fe«, pode- mos julgar com confiança, se os accmteeimentba passades de que se trata, sao eom effeito reaes, e quai é a sua nàtureza^'î âcreditamos possuir a vérdade no moment/) êm que as nossas idéais sobre oobjecto das nossas ïnvést%aço'efl nos pareeem os-|
tarera perfeita concordancia com elle. Em ontros termoa, ha nesta- operaçao do nosso espirito correlacao «ntre o sujeito que jiilga, e oobjeito julgado; d'an, ni procède a «egiiinte quentao tao controvertida (0) : a verdade sera aubjectiva ou objectiva S
(4) Weber, 1, 0„ p. 589; Jarke, na ttevUla de Hiizig,tU>. 19, pi 147:Œin*
«III M,dajuvi.liM pénal, p. 142.
' (Sf Hfcafoel, do cofpo de fi.Mir.io, % 181, Video Procttto aomp. M. 1,1
(S) OracvcJ, î. G., llfi.Vidc Feuerbflçh, OomidcraçTiea sobre o )ury, p. 135;
Wefland 1, C; p. 70, Jarke, IleKlstàpréfiUada de BiM/j, M^J^jj/99.
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Dé todfis as disetis'soes sobre o sentido destasexpressOesdimana àô' menos no îùndo, umâ conclusao importante, ë a quest&o dèvé ein riôss'â Ôpiniâo, redùsir-sô aos seguintes termos : a vér- daHë pode sèr denominada objectiva no sentido de ser comple- tameâté independente do sujéito, que a jufga ? Funda-se ella em
"bazes fixas de tal sorte, que' deva imprimir os mesmos iîfipùlsos, os mesmas ima^èns1 em todos os espiritos a séîi pe-sar
* ou convira antes detiomraa-la subjectiw no sehtid'o de depender a sua noçao de aptidoes especiaes do individuo, que tem de ser cbnvencido, do espirito que ifata de examina* a fundo, dé sorte que para qualquer nada haja de vefdadeiro se-nâo 0 que elle tem por vefdadeiro ? A questao assira formulada dévia preoccupar vivàmente o legislador, e, com a sua reso-Iuçflo, dévia tambem forçosamente decidir, se pôde ser decre-tada nma theona légal da prcva ; e depois quai dos dous System as deveter a preferencia, se o jury, se o que attribue a sen-tença a juizes regulares e jurisconsultes.
Sendo a verdade denominada objectiva o legislador è obri- gado logo a erigir uma Iheoria daprova, é de appoia-la nas raesmas bases, nas quaes se funda a ' pretendida verdade obje- ctiva. Desde que for admittida esta theoria, a decis&o do ponto de facto sô pôde ser confiada a juizes regulares. Lancemos as nossas vistas para a vida habituai ; n&o vemos ahi o vefdadeiro exercer pouco a pouco o seu poder sobre todos os espiritos ? e nâô disemos frequentemente, que é impossivel desconhecer a realidade de certos factos, salvo se de todo se impossibilita o ac- cesso à convicçao, ou se se tem aintelïigencia obtusa*? tomemos, porexemplo, o caso em que tivessemos verificado com nôssos proprios olhos os ditos factos. Da mesma sorte observemos o que se passa em um tribunal criminal allemâo compostode seisjuises : nelle veremos frequentemente tal prova produsir em todos elles uma impressâo identica ; e por todos unani-mimente ser decretada a culpabilidade do individuo. Quando
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dous homens dignes de fé nos attest&o uni facto, a que assis- tirfto, podemos recusar-nos a admittir a sua verdade? Ijî.' pois fora de duyida, que ha na verdade uma força de impulso, cujo effeito nao falha em todos os homens, e que entre os meios que auxiliao a sua manisfestaç&o, algunsha, cuja influencia se propaga igualmente em todos os espiritos-, e lhes imptie uma irijesistivel convieçao. Observàmos ainda, que em tal caso o in- dividuo çonyencido, quera quer seja, pôde mqtivar a sua con- vieçao, e que esses motivps sâo sempre os mesmos, ainda que os individuos sejao diversos. Nao parece résulter de tudo isso certas lois de correlaçao necessaria entre o sugeito que julga, e p objecta que é julgado '? e da perfeita concordancia entre as idéas do primeiro e o seu objecto nao resultâo certas garantias ? em concluaao a convieçao nao surge das proprias entranbas da verdade ; e plenamente independente do espirito, que julga, e a seu pesar, nao lhe impoe ella a sua lei ? Neste sentido seguraroente se pôde dizer que a verdads é objectiva.
De outrolado, séria desconheçer a existenciadephenomenos nao menos évidentes, equererviver em uma illus&o compléta {!), o esquecer que em toda a causa,em que se trata de decidir em fundo onde esta a verdade, a convieçao procède da iudi- vidualidade do juiz. Sua missao obriga-o a examinar os pontes isola dos, nos quaes a prova se funda, a liga-los uns aos outros, a deduzir as suas consequencias, e, depois de ter minu- ciosamente aferido uns pelos outros, com o auxilio dos motivps pro e contra, a assentar uma conclusao definitiva sobre os re- sultados diversos de todos estas operaçoes mentaes ; mas todos os nossos actos contém o sello do nosso caracter pessoal, da nossaindividualidade, e a nossa physionomie se reproduz até nos trabalhos do nosso espirito. Ora, quera poderia sustentar que o mesmo nao acontecerâ com o juiz, qne investiga a ver- dade nos factos submettidos a sua decisao ?
(7) Relatorio da Oommissâo de Justiça prussiana sobre o jury, p. 1—17.
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Indubitavelmente ha cevtos processos efficases, que permit- tem ao homem attingir o fim ; concedemos que aigu mas vexes (querri frequenfou por muito tempo os Tribunaes dejustiça poderâ dizer se acontece militas vezes) as provas sâo tao for- tes, e de tal natureza, que todos os juizes.por ëllas se conven- cem inteiramente. Todavia mesmo neste caso a individualidade de cada nm se faz sentir, quando se profère a sentença. Sup- ponbamos o caso bastante raro, em que a convicçao se produz uniformemente em todos os espiritos, quando por exempta hou- ver concordancia perfeita nas declaraçCes de duas testemu- nbas ; cada um dos juizes considerarà demonstrada a culpa- bilidade por différente motivo ; este, que conhece a primeira testemunba cpmo homem de bem, nem um instante poderâ snppor que ella tenha perjurado ; aquelle observou as particu- laridades intimas e circumstanciadas, nas quaes entrou a se- gunda testemunba ; outro ficou convencido vendo o depoi- mento de ambas combînar exactamente com as circumstancias consignadas nos autos, e fiualmente nm outro vendo-as com- binar entre si até nas minimas circumstancias. Se pois fosse pos- sivel assistir, no espirito de todos, ao nascimento e aos pro- gresses das convicçOes, que nelle se desenvolvem, quando o tribunal tem de julgar sobre as provas artificiaes, que lbe sao apresentadas, reconbecer-se-bia a diversidade dos seus moti- vos. Quando um raagïstrado tem uma longa experiencia da perversidade humana, da leviandade ordinaria dos juramentos, do cornplexo do idéal e da realialidade, que no fim de certo tempo se apossa da memoria, seu juizo, habituado a um exame severo das cousas, besita em face de taes ou taes provas, e nao se deixa arrastar a proferir sua decisao tao depressa, como o faria um collega menos experimentado, raenos iniciado nos segredos da consciencia e da vida. O numéro das testemunbas nao defeituosas, cla$dens (se assim podem ser denomiuadas), é extremamente restricto; quasi sempre na causa ha alguma
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difficuldade cm, relaçao a ejlas, e p juiz deve autes de tudo examinar, se se lhes deve dar crédite; e até que ponte. QuBo delicadas sao algûmas vezes as questOes, que elle tem de resol- ver ! Vio-se uma moça depôr a favor de seu amante centra seu irmao : quai das vozes do coraçao era aqui a mais forte? a que fallava pelo irmao, ou a que fallava' pelo amante? E o juiz, tendo de decidir tal questao, nao ouvirâ ao seu proprio cora- çao? nao consultarâ os sentimentos de sua vida privada? Era uma palavra, o seu juizo nao sera subjective ?
De toda a discussao précédente conclue-se,que a investigaçao da verdado esta subordinada a certas regras decisivas ; que ella deve seguir certes e determinados camiuhos, que a razao e a experiencia demonstrao serem 03 mais aptes para fazer chegar ao fim ; que a verdade assim estabelecida funda-se em bases de tal natureza,que convencem infallivelmente 0 espfrito de todos os juizes; mas é, licite concluir tambem, que antes de decidir dos factos, cada um dos juizes soffre "s influencia do seu caracter individual, de sorte que a sentença profer-ida é evidentemente subjectiva.
Jâ se disse (cap. 6) que a verdade, ou os motivos dos quaes ella dériva, imprimem um movimento à balança da çonsçiençia, e que a este movimento corresponde um estado determinado do nosso espirito. Entao acontece algumas vezes,que sentimos em nos mesmos a certeza, que em nosso espirito poderia produzir 0 exacte rigor da deducçao mathematica ; julgamos possuir a mais elevada evidencia, a verdade absoluta;em outros casos as bacias da balança sâo apenas agitadas, e entâo sô podemos for- mar urne conjectura, entramos em desconfiança, conceberaps uma suspeita, etc. ; mas entre estes dous estados extremos ha uma multidao de outros possiveis Em um délies espe- cialmente o espirito, sem poder perfeitamente explicar por- que motivos, sem os ter sufficientes para a conviççao, vai até o ponto de considerar como verdadeiros os factos da
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causa. Nao é raro vêr tambem o juiz déclarai1, que, subjec- tive/mente fallando, esta plenamente convencido da culpa do accusado, ou que considéra verdadeiros os artigos da accusaç&o, mas que ver-se-hia em apuros se tivesse de deduzir os motivos sufficientes da sua convicçfto. Da mesma sorte o publico, que assiste as audiencias, nos lugares em que s&o pu- blicas, mostra-se frequentemente convencido da culpabilidade, e todavia muitos dos espectadores, que pretendem estar conven- cidos, se fossem obrigados a uma analyse minuciosa dos moti-.
vos que os arrast&o, ver-se-hi&o na impossibilidade de os pro- duzir, e reconheceriao. que obedecerao a um sentimento obscuro e mal definido ; uns confessariao ter sido abalados pela attitude do accusado ; ontros, para o declarar culpado, recorreriào à sua vida, aos seus funestos accidentes. Neste ponto sômente a con- vicç&o ê facilmente fallaz ; as influencias do momento, as pa- lavras persuasivas de um terceiro podem dar-lbe origem ; mas como ella nao tem base solida, nao poderia, mesmo nas causas habituaes da vida, satisfazer ao homem prudente e conscien- cioso, nem fornecer-lhe uma regra de conducta. Ainda menos deveria satisfazer ao juiz, que tem de decidir de direitos dis- putados, ou da cupabilidade deum accusado, e cujo erro pôde destruiros mais preciosos bens, os mais sagrados direitos dos cidad&os. Mas se a opini&o do juiz tem por base motivos suffi- cientes, e dos quaes tem elle, sonsciencia, sô entao pôde decidir affirmativamente, e a sua sentença passai* por justa aos olhos do publico.
Ora o estado do espirito, que considéra os factos como ver- dadeiros, appoiando-se em motivos plenamente solidos é a con- vicç&o propriamente dita (8).
(8) Tambem existent controversias sobre o sentido desta palavra. Vide par exemplo Weber, ArW. de direito crim,, 8, p. 567 ; Jarke, Revitta de Hitsig, n, 19, p. 138; Heinroth, id. n. 48. p. 241.
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Jâ dissenios mais de unïa vez,que até o raomento em que se fir- me, a convicçao, em que a decisao se profère, trava-se em nosso espirito uma especie de combate entre os motivos pro e contra.
Ora estes motivos podem pesar diversamente uns relativamente aos outros.
1.° Assim,os motivosaffirmativos,por exemplo quando se trahi de dizer se o indiciado é o autor do facto, tomados em «Le iso- lados de todas as razoes contrarias, podem parecer nao sufficien- temente concludentes, quando por outvo lado naja du vidas so- bre a existencia mesmo do facto;eé oque acontece quando uma testemiinha singular os attesta, quando o indiciado retracta-se da sua confiss&o, quando cedeu ao constragimento illegp&l—
mente empregado na instrucçao.
2.° Assim, recorrendo a outra combinaçao, os motivos, dos quaes se conclue a culpabilidade, podem ser poderosos por si sôs. Concordantes até nas suas circunstancias as mais intimas, complètes, e adaptando-se a todos os factos da causa, parecem autorisar plenamentd a convicçao. Mas ao lado destes motivos, outros contrarios podem surgir, edespertar a duvida : 1." Ao lado das razoes, que dao existencia â convicçao, outras vem es- tabelecer positivamente o contrario ; tal séria o caso por exem- plo, em que em face de testemunhas classicas uma terceira viesse affimar,que o autor do delicto é pessoa diversa do accusado. 2.°
Mesmo o processo pôde fornecer motivos contrarios estabele- cendo a impossibilidade dos factos da accusaçao, quando por exemplo duas testemunhas affirmao,que no dia do crime o in- diciado estava em um lugarmuito distante da quelle, em que o crime foi commettido. 3.° Outras vezes motivos fornecidos pé- los autos tornao inverosimil a accusaçao ; supponhamos o caso de ter o indiciado o maior interesse, em que vivesse o assassi- nado, por ser este o seu unico bemfeitor ; supponhamos aiuda o caso de n&o ser-lhe a sua morte proveitosa em cousa alguma.
4.° Os motivos de defesa podem tambem basear-se em uma
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simples possibilidade que, nas suas circunstancias especiaes, nao seja extraordinaria por sua natureza, e seja facilmente concebivel
; figureraos uraa hyphothese : as teatemunhas affir-rnào ter reconhecido o accusado na obscuridade, a este nega obstinadaraente ; ora aqui era possivel o engauo das testemu- nhas. 5-.° Esses mesraos motivos fînalmènte podem ser admissi- veis aos olhos da razao, e nao serem provaveis : duas tesrau-nhas depoem contra o accusado ; ora em rigor é possivel que sejao animadas pelo odio, que tenhao juntas tramado o crime, que falsamente imput&o ao accusado, e que tenhao de proposito combinado entre si as circunstancias concordantes dos seus de- poimentos.
Quando a convieçâo chega ao pontp de repellir victoriosa- mente todos os motivos contrarios, e quando estes nao podem mais abalar a massa importante dos motivos affirmatîvos, en- t&o toma o nome de certeza (9). Sô a certeza nos parece bastante poderosa para servir de regra aos nossos actos, e a razao ap- prova esta conclus&o, poisque o homem, nos seus esforços para attingir a verdade bistorica, n&o pôde esperar ir mais longe, do que alla.
A certeza (10), para existir (11), exige o preenchimento" de certes condiçoes essenciaes.
1.° Exige dm complexo de motivos, sanccionados pela razao e pela experiencia, para servir de base â convicç&o.
(9) Canz de Probabilitale juridicâ, g 12; Klein, Annaes, vol. 26, p. 43 -Rolin de Delictis, p. 32; Tittmann, Manual, § 225.
(10) A palavra ingleza évidence significa ao mesmo tempo prova e.certega. Vide sobre este assumpto: Bentham, Tratado da Prova judiciaria, vol. 1. p. 17—24. '
(11) Weber. Areh. 8, p. 573; Jarke, 1, c, na Revista e Hitzig, n, 19, p. 132. ,
108 • -&°. Exige que seja precedida por um esforçô série, e impar- cial, qne tenba estudado afundo, e desviado osmeios, que ten- dessem a fazer admittir a soluçao contraria. Quem deseja ad- quirir a certeza, nao cerra a porta â duvida: pelo contrario de- tem-»se no exame de todos Os indicios que a ella poderiao con- dnsi-lo ; e sô quando tem conseguido faze-la desapparecer com- pletamente, é que a sua decisao se firma, e esta appoia-se na base indestructivel dos motivos da convicçao affirmativa. Estes principios, seja dito de passagem, dao ao precesso inquisito- rial nm poderoso alcance, um caracter imponente, quando a sua organisaçâo é prudentemente combinada : porque o ins- tructor dedica-se com igual ardor à investigaçao dos materiaes, que mais tarde poderao auxiliar a defesa. Faria notar comçui- dado o mais ligeiro indicio, mesmo contra uma testemunha da accusaçao, se délie se podesse deprehender, que aquella vive menos honradamente, ou que a sua veracidade deve ser sus- peita, ou finalmente que é inimigo pessoal do accusado.
3.° A certesa nao pôde existir antes de terem sido repellidos todos os motivos constantes dos autos, que tendessem a fazer considerar a accusaçao como baseando-se em uma impossibili- dade, ou a estabelecer um resultado positivamente contrario ao fornecido pelos outros motivos. 0 juiz ousaria por ventura condemnar, mesmo quando duas testemunbas affirmassem ser o accusado autor do crime, se uma terceira viesse affirmar, que em tal época o accusado residia em lugar bem distante daquelle
que foi theatro do crime î .
4." 0 espirito quer ver repellidos, antes que a certeza pré- domine, mesmo os motivos, que nâo tenhao por base senao uma possibilidade em sentido contrario. Assim se explicao as inves- tigaçdes minuciosas do instructor ; assim quando elle examina os lugares, o corpo de delicto, tendo em consideraçao o lugar, em que se achavfto as testemunbas, e notando o tempo e a hora, deve perguntar a si mesmo, seera possivel, que aquellas
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