Teichler (2004) diz que todas as universidades devem ser internacionais. A educação internacional não é um tema qualquer e sim faz parte da administração e da tomada de decisão das instituições, ou seja, não é tema apenas para os especialistas em internacionalização e toca todas as áreas de estudo e pesquisa até certo ponto. Para o autor, a mobilidade é uma das principais formas de internacionalização.
A mobilidade não é algo recente. Desde o século XVII, na Europa, estudantes realizavam intercâmbios de estudo. O nível de mobilidade de estudantes dentro da Europa, agora de aproximadamente 3%, foi aproximadamente 10% no século XVII (TEICHLER, 2004).
No continente europeu, a mobilidade acadêmica perdurou por aproximadamente 500 anos, porém decaiu significativamente a partir do século XVIII. Um dos fatores responsáveis por isso foi o movimento da contrarreforma, que encarava a peregrinação acadêmica como responsável pelo desenvolvimento e disseminação de ideias revolucionárias e contestadoras (KNIGHT, 2004).
No entanto, segundo dados da OCDE (2009) - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, desde a década de 1970 o número de estudantes matriculados em instituições fora do seu país de origem aumentou mais do que quatro vezes, sendo de aproximadamente 2,7 milhões. Este fenômeno é bem aceito pelas instituições de ensino por três motivos preponderantes:
Em primeiro lugar, oferecer vagas a estudantes estrangeiros pode ajudar na promoção da compreensão mútua internacional, tanto entre países como no seio das atuais sociedades cada vez mais multiculturais. Em segundo lugar, os estudantes estrangeiros representam grandes negócios. E em terceiro lugar, estudar no estrangeiro pode ser apenas o primeiro passo para uma estadia mais longa no país de acolhimento, que poderá ter um papel, a mais longo prazo, no preenchimento da necessidade de imigrantes qualificados (OCDE, 2009, p. 5).
A mobilidade dos estudantes – principal manifestação da internacionalização no âmbito educacional (KNIGHT, 2005) – figura um tema incluído na agenda internacional dos pesquisadores, e não são modestos aqueles empenhados em localizar e entender os aspectos que influenciam uma verdadeira legião de jovens a decidir por uma formação internacional. Entre outros, quatro autores/textos são particularmente contributivos para a discussão da questão: Larsen e Vincent-Lancrin (2002); Muñoz (2004); Harfi (2004); Harfi e Mathieu (2006). Pelo fato de convergirem em algumas conclusões é possível consolidar os respectivos resultados em vinte aspectos e distribuí-los em quatro categorias:
motivações de ordem sociocultural, acadêmica, econômico-comercial e político-administrativo.
Fatores Aspectos
Sociocultural
1 Língua oficial do país de destino (preferencialmente a língua inglesa).
2 Proximidade geográfica e cultural entre o país de origem e de destino, assim
como ligações históricas pré-existentes.
3 Presença de grupos de referência capazes de estimular a formação de redes de relacionamento e de aproximar antigos, atuais e potenciais acadêmicos do país de origem no país de acolhimento (ex.: associações de ex-alunos, ex-bolsistas,
estudantes, professores, pesquisadores etc.).
4 Qualidade de vida e atratividade cultural existente no país de destino:
estabilidade política, segurança pública, aspectos climáticos, diversidade de ecossistemas, atividades culturais e turísticas etc.
Acadêmico-cultural
5 Limitações na oferta de programas e cursos no sistema de educação do país de origem.
6 Equivalência do diploma expedido pelo país de origem, no país de destino.
7 Efetiva possibilidade de estudantes internacionais terem acesso aos cursos desejados no país de destino (inexistência de numerus clausus).
8 Reputação e percepção de qualidade do sistema educativo, em geral, e dos estabelecimentos educacionais, em particular, existentes no país de destino, em
relação ao país de origem.
9 Existência de programas bi/multilaterais entre instituições de educação, países ou regiões (a exemplo do Erasmus, Sócrates, Leonardo, Tempus, Língua, entre outros).
10 Existência de política de bolsa de estudo, bolsa de pesquisa e estágio.
11 Validação do diploma expedido pelo país de destino, no país de origem
Econômico-comercial
12 Ligações econômicas pré-existentes entre os países que enviam e acolhem acadêmicos.
13 Custo de vida no país de destino.
14 Comparação entre os custos financeiros envolvidos (taxas de inscrição, mensalidade escolar, material escolar etc.) na formação oferecida nos países de
origem e de destino.
15 Existência e acesso à infraestrutura destinada a estudantes internacionais:
política de financiamento da mobilidade estudantil (concessão de bolsas ou de estágio remunerado), seguro de saúde, alojamento para estudante, restaurante universitário, oferta de curso de língua etc.
16 Valorização das competências desenvolvidas pelas instituições do país de destino.
17 Valor dos diplomas expedidos pelo país de destino no mercado de trabalho.
18 Possibilidade de trabalhar durante o séjour de estudo e obter algum recurso financeiro.
19 Existência de oportunidades no merca
Político/Administrativo 20 Política de imigração que facilite a obtenção de visto de estudante no país de destino
Quadro 3. Aspectos que influenciam na mobilidade internacional dos estudantes
Fonte: Adaptado de Larsen; Vincent-Lancrin (2002, p.20-22); Muñoz (2004); Harfi (2004, p.2); Harfi; Mathieu (2006, p. 36)
Algumas pesquisas descreveram o impacto da experiência de estudar fora do país de origem.
Segundo Salisbury, Umbach, Paulsen e Pascarella (2009), estudos tem demonstrado que os jovens que realizam intercâmbios estudantis desenvolvem um entendimento mais profundo e respeitoso acerca dos problemas do mundo (Carsello e Creaser, 1976), uma maior aceitação de outras culturas (Carlson e Widaman, 1988), melhoras nas habilidades de comunicação intercultural (Anderson et AL. 2006, Williams, 2005) e uma melhor habilidade na língua estrangeira (Brecht er AL. 1993, Freed, 1995).
De forma semelhante, Teichler (2004) diz que aprender e pesquisar em outros países é uma das formas mais eficientes de se adquirir conhecimento, ter perspectivas mais complexas, pensar comparativamente, expandir horizontes, refletir melhor sobre os temas estudados, e causa avanços de formas inesperadas: quando se pesquisa no país de origem, há grande previsibilidade de fatos, já
pesquisar em terras forâneas pode provocar surpresas (mesmo que estas sejam limitadas). Nesse sentido, pesquisar fora de seu país de origem é simultaneamente positivo e negativo (TEICHLER, 2004, p. 10- 11).