O ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO E O PROCESSO PENAL BRASILEIRO
2.3 O SISTEMA PROCESSUAL PENAL .1 Noções iniciais
2.3.2 Modalidades de sistemas processuais penais
Três são os sistemas processuais utilizados na evolução histórica do direito para identificar qual a diretriz seguida por determinado Estado para orientar a aplicação do direito penal: o sistema inquisitivo, o sistema acusatório e o sistema misto.
Muito embora não haja um exato entendimento doutrinário quanto ao conceito e abrangência de cada um deles, principalmente no que concerne ao sistema misto263, bem como há embates doutrinários quanto as suas origens históricas, passa-se a expor de forma individualizada os principais elementos que caracterizam cada um.
2.3.2.1 Sistema inquisitivo
O sistema inquisitivo, segundo Castanho de Carvalho264, têm como características o sigilo dos atos processuais, a concentração das funções de acusar e julgar no juiz, a inexistência do contraditório, além da “total participação do magistrado na obtenção das provas, de forma que, ao decidir, já não tem o menor sinal da imparcialidade indispensável à função de julgar”.
262 RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal; p. 47.
263 Na opinião de Aury Lopes Jr: “Ora, afirmar que o ‘sistema é misto’ é absolutamente insuficiente, até porque não existem mais sistemas puros (são tipos históricos), todos são mistos. A questão é, a partir do reconhecimento de que não existem mais sistemas puros, identificar o princípio informador de cada sistema para então o classificar como inquisitório ou acusatório, pois essa classificação feita a partir do seu núcleo é de extrema relevância.” (LOPES JR., Aury. Introdução Crítica ao Processo Penal; p. 152).
264 CARVALHO, Luis Gustavo Grandinetti Castanho de. Processo Penal e Constituição; p. 23.
Iniciado em Roma, na época em que já se permitia ao Juiz dar início ao processo ex officio, o processo inquisitivo prorrogou-se ao longo dos anos em muitas sociedades antigas. Ao atingir a idade Média, após sofrer grande influência da Igreja, principalmente após o Concílio Lateranense de 1215, passou a se alastrar por toda a Europa continental, conforme leciona Fernando da Costa Tourinho Filho.265
Segundo o referido autor266, tal processo teria sido “introduzido, na verdade, pelo Direito Canônico, mas, em seguida, viram os soberanos, nesse tipo de processo, uma arma poderosa, e por isso espalhou-se entre os Tribunais seculares”.
Mais como uma “forma autodefensiva de administração da justiça do que um genuíno processo de apuração da verdade”, explica Mirabete267 que ele alastrou- se por toda a Europa a partir do século XV, em decorrência da influência do Direito Penal da Igreja, entrando em declínio com a Revolução Francesa.
Ressalta, ainda, o mencionado doutrinador268, que neste sistema não existem regras de liberdade e igualdade processuais. Destaca, por fim, que o processo normalmente é escrito e secreto, desenvolvendo-se por impulso oficial, no qual a confissão seria um elemento suficiente para a condenação, muitas vezes obtida por tortura.
Em apertada síntese, Paulo Rangel269 aponta algumas características próprias do sistema inquisitivo:
a) as três funções (acusar, defender e julgar) concentram-se nas mãos de uma só pessoa, iniciando o juiz, ex officio, a acusação, quebrando, assim, sua imparcialidade;
b) o processo é regido pelo sigilo, de forma secreta, longe dos olhos do povo;
265 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal. vol. 1. 32ª ed. rev. e atual. São Paulo:
Saraiva, 2010; p. 122.
266 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal; p. 122.
267 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo Penal. 18ª ed. São Paulo: Atlas, 2008; p. 21.
268 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo Penal; p. 21.
269 RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal; p. 48 – grifos no original.
c) não há o contraditório nem a ampla defesa, pois o acusado é mero objeto do processo e não sujeito de direitos, não se lhe conferindo nenhuma garantia;
d) o sistema de provas é o da prova tarifada ou prova legal e, consequentemente, a confissão é a rainha das provas.
2.3.2.2 Sistema acusatório
Ao contrário do inquisitivo, o sistema acusatório, conforme explica Castanho de Carvalho270, tem como características a maior publicidade dos atos processuais, a tripartição das funções de acusar, defender e julgar em três sujeitos processuais diferentes, bem como a possibilidade do contraditório, além do maior grau de isenção do julgador na condução do processo.
Em termos históricos, o sistema acusatório “campeou na Índia, entre os atenienses e entre os romanos, notadamente durante o período republicano”, conforme comenta Tourinho Filho.271
Já em tempos modernos, “floresceu na Inglaterra e na França após a revolução, sendo hoje adotado na maioria dos países americanos e em muitos da Europa.”272 Esclarece Mirabete, inclusive que:
No direito moderno, tal sistema implica o estabelecimento de uma verdadeira relação processual com o actum trium personarum, estando em pé de igualdade o autor e o réu, sobrepondo-se a eles, como órgão imparcial de aplicação da lei, o juiz. 273
Em resumo, pode-se elencar como principais características do sistema acusatório, segundo Paulo Rangel274:
a) há separação entre as funções de acusar, julgar e defender, com três personagens distintos: autor, juiz e réu (ne procedat iudex ex officio);
b) o processo é regido pelo princípio da publicidade dos atos processuais, admitindo-se, como exceção, o sigilo na prática de determinados atos (no
270 CARVALHO, Luis Gustavo Grandinetti Castanho de. Processo Penal e Constituição; p. 23.
271 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal; p. 119.
272 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo Penal; p. 22.
273 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo Penal; p. 21.
274 RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal; p. 50-51 – grifos no original.
direito brasileiro, vide art. 93, IX, da CRFB c/c art. 792, §1º, c/c art. 481, ambos do CPP);
c) os princípios do contraditório e da ampla defesa informam todo o processo. O réu é sujeito de direitos, gozando de todas as garantias constitucionais que lhe são outorgadas;
d) o sistema de provas adotado é do livre convencimento, ou seja, a sentença deve ser motivada com base nas provas carreadas para os autos. O juiz está livre na sua apreciação, porém não pode se afastar do que consta no processo (cf. art. 155 do CPP com a redação da Lei 11.690/08 c/c art. 93, IX, da CRFB);
e) imparcialidade do órgão julgador, pois o juiz está diante do conflito de interesse de alta relevância social instaurado entre as partes, mantendo seu equilíbrio, porém dirigindo o processo adotando as providências necessárias à instrução do feito, indeferindo as diligências inúteis ou meramente protelatórias (cf. art. 130 do CPC).
2.3.2.3 Sistema misto
O sistema misto, de acordo com Castanho de Carvalho275, acaba por aproveitar as algumas características dos citados sistemas, em fases distintas do processo.
Tendo surgido após a Revolução Francesa, foi introduzido na França de Napoleão com o Code d’Instruction Criminalle de 1808, espalhando-se pelas legislações da Europa Continental.276
Também conhecido como sistema acusatório formal, “é constituído de uma instrução inquisitiva (de investigação preliminar e instrução preparatória) e de um posterior juízo contraditório (de julgamento)”, conforme disciplina Mirabete.277
No mesmo sentido, Paulo Rangel278 divide este sistema em duas fases, a saber:
1ª) instrução preliminar: nesta fase, inspirada no sistema inquisitivo, o procedimento é levado a cabo pelo juiz, que procede às investigações,
275 CARVALHO, Luis Gustavo Grandinetti Castanho de. Processo Penal e Constituição; p. 23.
276 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal; p. 119.
277 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo Penal; p. 22.
278 RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal; p. 52 – grifos no original.
colhendo as informações necessárias a fim de que se possa, posteriormente, realizar a acusação perante o tribunal competente;
2ª) judicial: nesta fase, nasce a acusação propriamente dita, onde as partes iniciam um debate oral e público, com a acusação sendo feita por um órgão distinto do que irá julgar, em regra, o Ministério Público.
E, como características próprias, elenca o referido autor279 as seguintes:
a) a fase preliminar de investigação é levada a cabo, em regra, por um magistrado que, com o auxílio da polícia de atividade judiciária, pratica todos os atos inerentes à formação de um juízo prévio que autorize a acusação. Em alguns países, esta é chamada de “juizado de instrução”
(v.g. Espanha e França). Há nítida separação entre as funções de acusar e julgar, não havendo processo sem acusação (nemo judicio sine actore);
b) na fase preliminar, o procedimento é secreto, escrito e o autor do fato é mero objeto de investigação, não havendo contraditório nem ampla defesa, face à influência do procedimento inquisitivo;
c) a fase judicial é inaugurada com acusação penal feita, em regra, pelo Ministério Público, onde haverá um debate oral, público e contraditório, estabelecendo plena igualdade de direitos entre a acusação e a defesa;
d) o acusado, na fase judicial, é sujeito de direitos e detentor de uma posição jurídica que lhe assegura o estado de inocência, devendo o órgão acusador demonstrar a sua culpa, através do devido processo legal, e destruir este estado. O ônus é todo e exclusivo do Ministério Público;
e) o procedimento na fase judicial é contraditório, assegurada ao acusado a ampla defesa, garantida a publicidade dos atos processuais e regido pelo princípio da concentração, em que todos os atos são praticados em audiência.
No direito contemporâneo, explica Mirabete, o referido sistema “combina elementos acusatórios e inquisitivos em maior ou menor medida” de acordo com cada ordenamento processual local.280
De modo diverso, não há como fechar os olhos para a crítica esposada por Lopes Jr. acerca da inexistência de um sistema calcado em um princípio dito misto. Segundo o autor281,
279 RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal; p. 52 – grifos no original.
280 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo Penal; p. 22.
281 LOPES JR., Aury. Introdução Crítica ao Processo Penal; p. 164.
É lugar-comum na doutrina processual penal a classificação de “sistema misto”, com a afirmação de que os sistemas puros seriam modelos históricos sem correspondência com os atuais. Ademais, a divisão do processo penal em duas fases (pré-processual e processual propriamente dita) possibilitaria o predomínio, em geral, da forma inquisitiva na fase preparatória e acusatória na fase processual, desenhando assim o caráter
“misto”.
E, ao final de suas explanações, conclui que:
Ainda que todos os sistemas sejam mistos, não existe um princípio fundante misto. O misto deve ser visto como algo que, ainda que mesclado, na essência é inquisitório ou acusatório a partir do princípio que informa o núcleo. Então, no que se refere aos sistemas, o ponto nevrálgico é a identificação de seu núcleo, ou seja, do princípio informador, pois é ele quem vai definir se o sistema é inquisitório ou acusatório e não os elementos acessórios (oralidade, publicidade, separação de atividades etc).282
De igual modo, embora sob uma ótica um pouco mais simplistas, Eugênio Pacelli de Oliveira283 expõe que “a definição de um sistema processual há de limitar- se ao exame do processo, isto é, da atuação do juiz no curso do processo”. Desse modo, entende que, presente na fase investigativa, o inquérito policial não é processo e, consequentemente, “misto não será o sistema processual, ao menos sob tal fundamentação”.
Ante todo o desvelado, certo é que não há consenso na doutrina pátria acerca da exata divisão entre os sistemas históricos, muito menos com relação aos sistemas atuais em vigência. Dependendo da abordagem realizada por cada autor, vão existir dois ou três tipos de sistemas, cujas características também podem variar, dependendo do fundamento empregado.