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Monocultivo e a segurança alimentar

No documento A COZINHA POPULAR DO LITORAL SUL POTIGUAR (páginas 88-91)

e estes devem fazê-lo em obrigatória articulação com a sociedade civil, cada parte cumprindo suas atribuições específicas (VALENTE, 1997).

As estatísticas internacionais mostraram, desde os anos 90 do sécu- lo XX, que, enquanto o sistema financeiro obteve grande lucratividade, houve também crescimento da pobreza. Diante disso, o Estado contempla mecanis- mos de proteção para os projetos empresariais internacionais enquanto se veri- fica deterioração da qualidade de vida em setores médios e populares, fazendo emergir maior pobreza urbana, violência e precarização dos serviços sociais.

Como resultante, houve redução do investimento nas áreas sociais e persistên- cia da alta concentração de renda e pobreza e, com isto, o fortalecimento da ampliação do apartheid social (SANTOS, 2004).

Associado a isso, surgiram situações de insegurança alimentar, carac- terizadas por diferentes tipos de problemas, tipos de problemas, tais como:

fome, doenças associadas à má alimentação e ao consumo de alimentos de qualidade prejudicial à saúde. Além desses, temos a produção predatória de alimentos em relação ao meio ambiente, preços abusivos e a imposição de pa- drões alimentares que não respeitam a diversidade cultural.

Para Pipitone (2005) e Garcia (2003), o contínuo processo de indus- trialização trouxe significativas mudanças na forma de se alimentar, espe- cialmente no que diz respeito às grandes cidades. As transformações foram intensificadas com a profissionalização, independência das mulheres e com a Revolução Verde, que fez com que a alimentação “tradicional” perdesse espa- ço para novas práticas alimentares que simplificam o trabalho e economizam o tempo de preparo.

sionada através da criação de um pacote tecnológico que previa, entre outras exigências, grandes extensões de terra.

A Revolução Verde irrompe no Brasil com a promessa de modernização do campo, de erradicação da fome, de aumento da produção e, sobretudo, como a nova era da agricultura e a busca de desenvolvimento aos países sub- desenvolvidos. É aqui que começam a ser delineados os traços do agronegócio com a difusão de tecnologias agrícolas que, como anteriormente citado, pro- curavam espaço no mercado de consumo, a exemplo dos agrotóxicos e fertili- zantes químicos.

Santilli (2009) menciona outras revoluções que teriam antecedido a Revolução Verde. Destarte, a primeira revolução agrícola seria atrelada à Revolução Industrial e se ateve ao plantio de cereais e forrageiras sem a in- terrupção de cultivo de uma área por determinado período (pousio), subs- tituindo este sistema por forrageiras bem como atrelou o cultivo de plantas à criação de gado. Já no que tange à segunda revolução da agricultura, o autor menciona que se caracterizou pelos novos meios de produção agrícola derivados da Revolução Industrial como a motorização, a mecanização e a introdução de produtos químicos (adubos, fertilizantes, agrotóxicos). Carac- terizou-se, também, pela seleção de plantas e raças de animais, adaptados aos novos meios de produção agrícola, e pela especialização das propriedades rurais.

Essa simplificação de trabalho trouxe também o emprego do mono- cultivo nas áreas agrícolas. A monocultura é o cultivo de uma única espécie agrícola em determinada área ou região, ocorrendo, com maior intensidade, nas grandes propriedades rurais. No Brasil, esse modelo é bastante conheci- do, pois, desde que iniciou seu desenvolvimento como país agrário, concentrou seus esforços em culturas específicas, como foi o caso da cana-de-açúcar, do café e, atualmente, da soja. Essas produções em grande escala, em geral, são destinadas à comercialização, especialmente para o mercado externo. (ZIM- MERMANN, 2009).

Através dessa técnica de plantio, a variabilidade das cultivares foi redu- zida dramaticamente e, com isso, houve uma diminuição significativa da oferta de alimentos na mesa dos consumidores. Como reflexo, temos um quadro epi- demiológico e nutricional do país, em que se convive com números cada vez

mais crescentes de doenças e mortes relacionadas à má qualidade da alimen- tação. Além disso, persistem quadros de carências de vitaminas e minerais e de desnutrição em grupos populacionais vulnerabilizados, que atingem – de maneira diferenciada, mas igualmente significativa – todos os grupos etários, extratos de renda e regiões.

Paradoxalmente aos dados indicativos de desnutrição no país, o sobre- peso e a obesidade, assim como as doenças não transmissíveis delas decorren- tes, passaram a compor o quadro da saúde pública no Brasil, sendo frequentes também em populações de baixa renda. Diante disso, percebe-se que o perfil alimentar reproduz um padrão globalizante de oferta de alimentos com baixo custo, mas deficientes em qualidade nutricional (RIBEIRO; PILLA, 2014).

A diversidade é sufocada pela monocultura, uma das máximas da Revo- lução Verde. A especialização em uma só área de cultivo faz com que a policultu- ra seja abandonada e, junto com ela, todas as práticas passadas de geração em geração. Compra-se a ração, o agrotóxico, o fertilizante e o próprio alimento e se produz para as necessidades do mercado exterior. Os agricultores não partici- pam mais dos processos de seleção de sementes, melhoramento genético, produ- ção e desenvolvimento dos novos bens de produção, funções de responsabilidade de instituições públicas e privadas que desprezam as técnicas milenares utilizadas pelas populações e vendem a alto custo as novas técnicas de modernização que nem todos podem comprar (MENEGHINI; SOUZA, 2017).

Na ausência da biodiversidade, os animais enfrentam problemas para se alimentar, encontrar abrigos e, consequentemente, reproduzir. Exis- tem casos em que os animais que sobreviveram procuraram áreas urbanas para se abrigar, tornando-se presas fáceis. Além disso, a monocultura atin- ge também a economia e a sociedade, torna o sistema vulnerável a pragas e doenças e potencializa preços mais baixos do produto no mercado, co- locando a cadeia produtiva regional em perigo. Desse modo, temos uma maior incidência do êxodo rural, devido à redução das ofertas de trabalho no campo e à expansão dos latifúndios.

Os centros urbanos não possuem infraestrutura necessária para abri- gar todas essas pessoas que estão chegando, o que ocasiona sérios problemas de infraestrutura e de segurança. O inchaço urbano gera precariedade da ofer-

ta de serviços à população e, principalmente, marginalização ou periferização.

A marginalização é um processo que ocorre nos centros urbanos, onde as áreas centrais são hipervalorizadas pelo comércio e tornam-se propriedades de pes- soas que detêm maior poder aquisitivo. Assim, os pobres são deslocados para as regiões mais periféricas, ocupando áreas marginalizadas. É neste contexto que surgem as favelas e ocupações irregulares, onde os problemas sociais tor- nam-se ainda mais complexos, principalmente pela ausência do poder público, negligenciando os serviços básicos tais como: água encanada, energia elétrica, transporte público, coleta de lixo e saneamento básico.

No documento A COZINHA POPULAR DO LITORAL SUL POTIGUAR (páginas 88-91)