Tominaga et al (2012) relatam que os escorregamentos são os processos mais frequentes na região sudeste do Brasil e principalmente na Serra do Mar. Os estados brasileiros mais afetados por esse fenômeno são: Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Paraíba (KOBIYAMA et al, 2006). A seguir serão dados exemplos de casos antigos e recentes ocorridos no Brasil.
2.4.1 Vale do Itajaí – SC (20 a 24 de novembro de 2008)
O desastre de 2008 se constituiu da combinação de variáveis naturais e sociais. Como variáveis naturais tem-se os eventos de precipitação intensa, solos frágeis e relevo acidentado que depende muito da cobertura vegetal para sua estabilidade. Como variáveis sociais a região apresenta o desenvolvimento baseado na derrubada da floresta, na ocupação das margens dos rios e das encostas para habitação e instalação de indústrias, na retificação e canalização dos ribeirões (FRANK & SEVEGNANI, 2009).
De acordo com os mesmos autores, em Santa Catarina, 63 municípios decretaram situação de emergência e 14, estado de calamidade pública. O número de mortos contabilizado foi de 135, sendo 97% por soterramento; 2 desaparecidos, 78.656 desabrigados e desalojados, e cerca de 1,5 milhão de pessoas afetadas.
O pico máximo de chuvas (intensas e concentradas) que ocorreu nos dias 22 e 23 de novembro foi antecedido por um período de cerca de três meses de precipitações contínuas que provocaram a saturação do solo e consequentes movimentos de massa. Em Blumenau e Joinville, os totais do mês ficaram em torno de 1000 mm (equivalente a 1000 L/m²). Dados das precipitações diárias registradas pela rede pluviométrica do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (EPAGRI/CIRAM) e das estações que utilizam o Sistema de Coleta de Dados (SCD) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostram que a precipitação acumulada, nos dias 21 e 22, alcançou o valor de 100 mm, no dia seguinte 150 mm e nos dias 22 e 23 os registros somam até 300 mm no Vale do Itajaí; no dia 24 a intensidade decresceu, mas chegou a acumular 150 mm (CEPED, 2009).
Foi evidenciada a ocorrência de rastejos, corridas de massa (lama, solo, detritos), escorregamentos e quedas (Figura 6).
Figura 6. (a) Evidência de rastejo no Parque Municipal das Nascentes, em Blumenau/SC; (b) corrida de massa (detritos) ocorrida no Braço do Baú, em Ilhota/SC; (c) escorregamento
rotacional (ou circular) ocorrido na rua 1° de Maio, em Brusque/SC.
Fonte: Frank & Sevegnani (2009).
O CEPED realizou, através de equipes multidisciplinares, vistorias em 25 municípios afetados pelo desastre, onde foram avaliadas a geologia e geomorfologia; os danos relacionados às edificações; e os aspectos humanos e sociais das famílias atingidas.
A figura 7 (a) mostra o local de ocorrência e (b) a tipologia dos movimentos de massa ocorridos. A maior parte dos eventos nos locais vistoriados ocorreu em encostas com taludes de corte ou aterro, sendo aproximadamente 78% relacionados a cortes na encosta. Os movimentos de massa foram classificados pelo CEPED (2009) de acordo com parâmetros de velocidade e mecanismos do movimento, o tipo de material, a geometria do movimento e o conteúdo de água, podendo-se observar que o tipo de movimento de maior ocorrência foi o deslizamento.
Figura 7. (a) Local de ocorrência e (b) a tipologia dos movimentos de massa ocorridos no Vale do Itajaí/SC no desastre de 2008.
Fonte: CEPED (2009).
Ainda afirmado pelo CEPED (2009), diversos movimentos tiveram características classificadas como “corridas” por causa da grande velocidade da massa deslizante. Tais corridas criaram enxurradas que destruíram pontes e drenagens, causando algumas vezes o barramento de corpos de drenagem, o que agravou, por sua vez, as enchentes.
Frank & Sevegnani (2009) apontam quatro causas imediatas do desastre: topografia acidentada, geologia frágil, precipitação intensa e prolongada que saturou o solo, e ocupação desordenada. As três primeiras são causas naturais, já a ocupação desordenada é uma ação humana e engloba os seguintes fatores:
a) Cortes: os cortes na base, meio ou topo dos morros fragilizaram as encostas, desencadeando os escorregamentos através das chuvas intensas e prolongadas, destruindo casas, bloqueando rodovias, matando pessoas e animais domésticos e arrasando cultivos agrícolas;
b) Aterros: constatados em numeroso locais, os aterros em encosta, sem compactação ou dispostos sobre vegetação pré-existente e sem boa drenagem, localizados às margens de rodovias ou em loteamentos, são instáveis e tendem a escorregar durante ou após períodos de chuva;
c) Vazamento de água: a saturação do solo com água proveniente de sumidouros ou de vazamentos de fossas sépticas, de tubulações de esgoto e rede de abastecimento de água sobrecarrega o solo e pode favorecer os escorregamentos de encosta;
d) Alterações na cobertura vegetal: representadas pelos desmatamentos, cortes seletivos antigos e plantios homogêneos e pastagens. Os desmatamentos retiram o conjunto de troncos, ramos e folhas que protegem o solo da erosão superficial, e com o passar dos anos, as raízes das árvores cortadas apodrecem, deixando espaços vazios dentro do solo que são preenchidos pela água que, por sua vez, sobrecarrega o solo. Os plantios homogêneos de bananeiras, de pinus ou de eucaliptos apresentam, em cada um, a predominância de um tipo de copa e de um tipo de sistema radicular, contrastando com a heterogeneidade de tipos existentes em uma floresta nativa. Essa homogeneidade altera a dinâmica da água nas encostas e a resistência destas aos escorregamentos. As pastagens apresentam solo compactado e sistema radicular superficial, o qual não desempenha função de ancoragem profunda do solo nas encostas, Nos períodos de chuva intensa, a água predominantemente escoa superficialmente, favorecendo a erosão e o alagamento das planícies abaixo.
2.4.2 Região Serrana – RJ (11 e 12 de janeiro de 2011)
Entre os dias 11 e 12 de janeiro de 2011, chuvas de grande intensidade caíram na Região Serrana do Rio de Janeiro, provocando inundações e deslizamentos, causando quase mil mortes em sete cidades e afetando mais de 300 mil pessoas, ou 42% da população dos municípios atingidos, o que representa 1.9% da população do estado do Rio de Janeiro (BANCO MUNDIAL, 2012).
De acordo com informações do Departamento de Recursos Minerais do Rio de Janeiro (DRM- RJ) (2011), a entrada de massas de ar provenientes da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS)3 na Região Serrana do Rio de Janeiro, associada ao uso e ocupação do solo, bem como às chuvas antecedentes e erosões fluviais e pluviais, culminaram nos deslizamentos e
3 A Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) é caracterizada como sendo uma banda persistente de precipitação e nebulosidade orientada que se estende desde o sul da Amazônia até o Atlântico Sul- Central por alguns milhares de quilômetros, e é considerada o principal sistema de grande escala responsável pelo regime de chuvas sobre o Brasil durante o verão austral, que vai de outubro a março (COLTRI et al, 2008).
inundações na região. Segundo o INPE, em dois dias a estação do INMET registrou 166 milímetros de chuva em Nova Friburgo, mais de 70% do valor médio histórico para o mês (BANCO MUNDIAL, 2012).
Segundo o DRM-RJ (2011), os fatores predisponentes ao desastre foram a geologia, geomorfologia, hidrologia de superfície e hidrogeologia e clima; os fatores efetivos foram o uso e ocupação do solo (cortes e aterros), as chuvas antecedentes e a erosão fluvial e pluvial;
e o fator deflagrador foram as chuvas de grande intensidade em 15 minutos e horárias. Dentre os movimentos de massa ocorridos, evidenciaram-se corridas (detritos, terra ou lama) e escorregamentos (translacional e rotacional) (Figura 8).
Figura 8. (a) Corrida de massa registrada em Teresópolis/RJ; (b) escorregamento translacional, em Nova Friburgo/RJ; (c) escorregamento rotacional, em Teresópolis/RJ.