Os investimentos que materializam no espaço urbano as estratégias do projeto de cidade transformada para os Jogos Olímpicos precisam ser pautados por meio de uma racionalidade organizadora de ações moldadas dentro do mercado global de cidades. Dessa forma, os produtos e os serviços criados para atender à nova realidade urbana também foram inseridos no planejamento de comunicação como ações promovidas para realização do megaevento esportivo. O Centro de Operações Rio (COR) foi apresentado aos jornalistas credenciados pelo RMC como “o primeiro equipamento olímpico entregue pela Prefeitura do
Rio”, de acordo com o release “Centro de Operações Rio”, incluído no press kit e veiculado no site do centro de mídia. Inaugurado em dezembro de 2010, seis anos antes da Olimpíada, o COR funciona até hoje, reunindo cerca de 30 órgãos (secretarias municipais e concessionárias de serviços públicos) que, juntos, são responsáveis pelo monitoramento das operações da cidade, principalmente em grandes eventos, no que se refere ao trânsito e casos de emergências, como chuvas fortes e deslizamentos. O compartilhamento dessas narrativas estimula a percepção do paradigma da gestão pública eficiente. Isso leva a crer que, de fato, a cidade alcançou a inserção mundial prometida pelos Jogos, na medida em que os processos de controle dos espaços urbanos contam um aparato tecnológico compatível com padrões internacionais. Ou seja, ao lado das belezas naturais já consagradas no imaginário da “Cidade Maravilha”, a “Cidade Olimpíca” apresenta a elevação desse estágio, passando a ser percebida como uma beleza construída. Dessa forma, as práticas comunicacionais direcionam a mídia na produção de sentido em torno do projeto de transformação urbana. Pensando nisso, o planejamento de comunicação do RMC dedicou especial atenção às atividades do COR, tendo em vista a atuação central do órgão no monitoramento do espaço público, o que também reforçou a ideia de vocação para sediar megaeventos e, sobretudo, da capacidade de preparação do Rio desde a sua escolha como sede dos Jogos. As principais ações organizadas foram: coletiva de grande porte sobre a preparação da cidade para o início da Olimpíada, no dia 29 de julho de 2016; visitas guiadas à sede do COR; e divulgação diária de boletins, com transmissão ao vivo pelo Youtube, sobre o serviço municipal de operação urbana.
Figura 35 - Transmissão de entrevista do COR em 12 de setembro de 2016.
Fonte: Reprodução da página do Youtube com o vídeo.
Figura 36 - Visita dos jornalistas credenciados do Rio Media Center ao Centro de Operações Rio (COR).
Fonte: Registro fotográfico feito pela autora.
As narrativas em torno da capacidade do megaevento em recriar espaços de lazer podem ser observadas no release “Prefeitura apresenta planejamento para turismo e live sites”, divulgado em 28 de julho de 2016. A região do Porto Maravilha foi apresentada pelo RMC como um novo cartão-postal, promissor para aumentar o potencial turístico da cidade, sendo a experiência coletiva e o desejo do “estar junto” valorizados como diferenciais naquele patrimônio recém-inaugurado. Especialmente durante o período dos Jogos, a Prefeitura promoveu diversas atividades na região portuária, com destaque para o Boulevard Olímpico, que, resumidamente, nada mais era do que uma área destinada ao entretenimento em três localidades da cidade (Porto Maravilha; Parque Madureira, na Zona Norte do Rio; e Centro Esportivo Miécimo da Silva, em Campo Grande). Além da transmissão ao vivo de competições esportivas, a programação incluiu atrações artísticas, gastronômicas, festas comandadas por DJs e shows. As atividades, promovidas de 9h às 00h, prometiam oferecer estrutura operacional para receber turistas nacionais e estrangeiros durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos, que englobavam operação especial de trânsito, proibição de estacionamento e bloqueio de ruas. O detalhamento das ações foi minuciosamente apresentado à imprensa nas 22 páginas de release. Na ocasião a Riotur, empresa municipal de turismo da cidade do Rio de Janeiro, estimou que um milhão de turistas passariam pelo Rio
durante as competições olímpicas. De acordo com o texto, a expectativa era que esse fluxo de visitantes gerasse uma receita de US$ 1,8 bilhão na economia da cidade. O aparato para receber tantas pessoas, sobretudo estrangeiras, mostra o tamanho da operação, conforme trecho destacado a seguir. Observa-se que junto à noção de cidade-espetáculo está a compreensão da influência da imagem urbana transformada em narrativa, que, fundamentalmente, consegue expressar o impacto do megaevento no ambiente social, bem como a lógica competitiva do modelo global de cidade projetada para alavancar sua economia através do turismo.
[...] -Durante a coletiva de imprensa, ele apresentou ainda dois dos dois mil
“anfitriões” que vão atuar como agentes de informações bilíngues para receber os visitantes nas chegas e saídas dos eventos. Eles estarão munidos com megafones, setas indicativas de direções, lanternas, mapas e materiais gráficos informativos para orientar os espectadores nas rotas de acesso aos locais de competição e sobre os atrativos da cidade.
- Os anfitriões se somam ao nosso time para gerar mais conforto e para que o visitante tenha uma boa história pra contar quando sair do Rio de Janei–o - disse o secretário.
Outros serviços oferecidos pela secretaria incluem o aplicativo Visit.Rio, disponível para download gratuitamente e pontos de atendimento remoto para os turistas, além de um vasto material gráfico com informações turísticas e culturais [...]. (RIO MEDIA CENTER, 2016).
A construção da imagem do espetáculo urbano também se faz presente no aparato comunicacional montado pelas cidades para que a apresentação institucional de cada uma delas esteja compatível com o padrão internacional de outras cidades concorrentes. De acordo com o Relatório do RMC, a equipe de comunicação da Empresa Olímpica Municipal elaborou o planejamento a partir das considerações observadas na montagem de outros centros abertos durante a realização de megaeventos. A principal referência foi o London Media Centre (LMC), erguido para os Jogos Londres 2012, ocasião na qual representantes do departamento de comunicação da EOM participaram de um intercâmbio, na capital do Reino Unido, ainda durante o período olímpico, em busca de detalhes da organização da instalação dedicada à imprensa. O mesmo aconteceu em 2014 quando a EOM enviou um grupo de comunicadores aos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi para acompanharem o funcionamento do centro de mídia organizado pela cidade russa. A equipe de comunicação também participou do programa de observação dos centros abertos de imprensa da Copa das Confederações, em 2013; Copa do Mundo, em 2014; e da Jornada Mundial da Juventude, em 2015. Todos esses centros de imprensa estiveram sediados no Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, sendo que os dois primeiros foram organizados pelo governo federal. Os principais pontos analisados foram: instalação física, recursos tecnológicos, programação de interesse
jornalístico e atividades culturais. Entre as iniciativas desenvolvidas com base na experiência do LMC estão as chamadas “Press Areas”, espaços reservados em pontos estratégicos da cidade com fundo livre e privilegiado, em geral pontos turísticos tradicionalmente conhecidos, para transmissões ao vivo de emissoras de televisão.
Figura 37 - Press Area da cobertura da UERJ com vista panorâmica para o Maracanã, instalação olímpica para as cerimônias de abertura e de encerramento dos Jogos de 2016.
Fonte: Acervo pessoal da autora.
Figura 38 - Press Area localizada na Praia de Copacabana.
Fonte: Acervo pessoal da autora.
Ainda no que se refere à estrutura operacional do RMC, o aparato tecnológico, aliado a uma programação diversa, buscou trazer para primeiro plano a percepção de uma cidade preparada para receber a Olimpíada. Nesse quesito, o site do RMC viabilizou um processo relacional pela internet, que, nos dias de hoje, funciona como uma vitrine virtual de exposição institucional. Vale ressaltar que o acesso ao site era exclusivo aos jornalistas credenciados por meio de autenticação e senha. Em face disso, torna-se quase obrigatória a presença de corporações na grande rede, uma vez que a comunicação digital alterou sobremaneira a forma de comunicação e de relacionamento das empresas com seus públicos de interesse. Diante disso, a tecnologia da informação também foi utilizada na atividade de comunicação do Rio Media Center, permitindo o relacionamento à distância com os jornalistas credenciados, que tinham acesso à inscrição para as atividades da programação cultural (passeios turísticos, viagens, etc), ao credenciamento, à transmissão ao vivo das coletivas, à divulgação de releases e fotos das coletivas de imprensa realizadas na instalação física e à utilização de estúdios de rádio e de televisão, o que está exemplificado na figura a seguir.
Figura 39 - Aba do site do Rio Media Center para agendamento dos estúdios de televisão e de rádio.
Fonte: Reprodução do site do Rio Media Center.
A diversidade dos fluxos de informações e do engajamento virtual foi associada à estratégia de valorização da narrativa da marca “Cidade Olímpica”, uma vez que todo o material produzido pelo centro de mídia estava disponibilizado no site, como mostra a figura a seguir que destaca a inauguração de escolas que receberam nomes de atletas olímpicos vitoriosos nos Jogos Rio 2016.
Figura 40 - Aba “Últimas” do site do Rio Media Center com as notícias mais recentes.
Fonte: Reprodução do site do Rio Media Center.