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NARRATIVAS DE MEMÓRIAS

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 75-79)

interculturalidade pressupõe o reconhecimento recíproco e a disponibilidade para enriquecimento mútuo entre várias culturas que partilham um dado espaço cultural”.

A proposta de ação política deve ser amparada pelo desenvolvimento da cultura da paz e da não violência evidenciada pela UNESCO. Neste sentido, a punição, nas escolas e na sociedade, de crianças e jovens que se envolvem em atos tidos como violentos não soluciona o problema e não traz a tão desejada paz. Vale destacar a importância emadmitir que a miséria, os preconceitos e as intolerâncias também são atos violentos. Convém ao Estado agir e assumir sua responsabilidade, para que novas realidades sejam construídas.

Um grande desafio para a escola caminhar em direção a uma cultura de paz é o fato de ela reproduzir pensamentos advindos de outras instâncias da sociedade. A escola precisa ser mais autônoma para conseguir superar essas reproduções que acabam afetando a vida social de cidadãos e cidadãs em formação nos mais variados âmbitos. Vale ressaltar que conseguir a autonomia das escolas não significa que todos os conflitos nela existentes serão solucionados.

Ao contrário, na escola autônoma há uma constante insatisfação com o saber adquirido e uma busca permanente por um novo saber.

No que diz respeito à cultura escolar, os(as) professores(as) precisam procurar novos caminhos para que atitudes, crenças e comportamentos sejam alterados. Em relação aos novos fazeres:

ao mesmo tempo que reproduzimos o que aprendemos com as outras gerações e com as linhas sociais determinantes do poder hegemônico, vamos criando, todo dia, novas formas de ser e fazer que, “mascaradas”, vão se integrando aos nossos contextos e ao nosso corpo. (ALVES, 2003, p. 66)

Promover uma educação para a paz é tarefa urgente para as escolas. Fazer com que crianças e jovens percebam a importância em cultivar hábitos da cultura da paz e da não violência, convivendo num ambiente de respeito e harmonia, abre possibilidades para a escola conseguir atingir um ensino significativo e uma aprendizagem de qualidade.

No que diz respeito à memória, existem concepções que são antagônicas quanto a esta questão. Os sofistas15, por exemplo, reduzem a memória às técnicas de memorização. Já a perspectiva platônica é muito mais ampla e estabelece uma visão em que a memória não representa apenas uma técnica, mas sim um reconhecer-se e um posicionar-se sobre as questões da realidade. O pensamento de Platão (1974)é comentado por Frances Yates, ao afirmar que há um:

[...] bloco de cera em nossas almas – de diferentes qualidades, de acordo com os indivíduos – e isso é „o dom da Memória, a mãe das Musas‟. Quando vemos, ouvimos ou pensamos em algo, submetemos essa cera às percepções e aos pensamentos, e os imprimimos nela, assim como imprimimos com sinetes (YATES, 2007, p. 57).

Para Yates (2007), Platão(1974)considera a memória como um bloco de cera onde as impressões ficam gravadas, por isso, sempre que for necessário tomá-las de volta, basta evocá-las. O filósofo grego defende a ideia de que a memória seria a “representação presente de uma coisa ausente”.

Há quem conceitue memória como um fator biológico, “[...] um modo de funcionamento das células do cérebro que registram e gravam percepções e ideias, gestos e palavras” (CHAUÍ, 2002, p. 128). Nessa perspectiva, o conceito de memória recai à gravação (de fatos, acontecimentos, relatos etc.) feita, automaticamente, pelo cérebro. No entanto, a memória não pode ser considerada um simples registro. É importante tratar a “memória”

como uma forma de influência do mundo sobre os indivíduos, como afirmou Jonathan Foster (2011).

Em vista disso, buscaremos saber, no presente estudo, que expressões foram diagnosticadas nas memórias dos sujeitos participantes de nossa pesquisa, cujas narrativas serão aqui interpretadas. Pensando numa sociedade que nos forma a partir de preconceitos de gênero, raça, atributos físicos, entre outros, e que possui profundas marcas de violência, tentaremos analisar que vestígios transparecem nessas narrativas de memórias, já que as relações violentas no espaço escolar mencionadas por estudantes e ex-estudantes da Educação Básica, provavelmente, derivam das próprias relações de poder.

Desse modo, conhecer as ações humanas no tempo e no espaço pode nos ajudar a compreender como estudantes e ex-estudantes percebem as manifestações do bullying nas

15Os sofistas se compunham de grupos de pensadores na Grécia Antiga que viajavam de cidade em cidade realizando discursos públicos para atrair estudantes, de quem cobravam taxas para oferecer-lhes educação.

escolas. Sobre o fato de a instituição escolar ser um local onde a violência se faz presente, nota-se que:

As discussões, brigas e até mesmo atos de vandalismo e delinquência, presentes entre os jovens, não podem ser dissociados da violência mais geral e multifacetada que permeia a sociedade brasileira, expressão do descontentamento dos jovens diante de uma ordem social injusta, de uma descrença política e de um esgarçamento dos laços de solidariedade, entre outros fatores. (DAYRELL, 2007, p. 1111)

Deste modo, muitos elementos cabem dentro da violência. A desigualdade social, por exemplo, pode ser referida como violência. No cotidiano escolar, a violência manifesta-se de diferentes formas. Nesta conjuntura, a escola como espaço social reproduz essas relações desiguais. Segundo Bourdieu(1998):

para que sejam favorecidos os mais favorecidos e desfavorecidos os mais desfavorecidos, é necessário e suficiente que a escola ignore, no âmbito dos conteúdos do ensino que transmite, dos métodos e técnicas de transmissão e dos critérios de avaliação, as desigualdades culturais entre as crianças das diferentes classes sociais (BOURDIEU, 1998, p.53)

Na perspectiva bourdieusiana, a forma tradicional como o ensino se dá nas escolas exige que o(a) aluno(a) tenha, como pré-requisito para a aprendizagem, o domínio de habilidades linguísticas e referências culturais que somente os membros da classe dominante possuem. Assim, a escola acaba privilegiando quem de fato já é privilegiado devido à sua cultura familiar.

De acordo com o pensamento de Rousso (2002), a memória é a presença do passado e, ao mesmo tempo, da atualidade, pois é o momento atual que lança ao passado as perguntas em busca de compreensão, permitindo aos sujeitos que narram, uma reconstrução permanente de si e do universo que habitam. Portanto, as memórias representam “[...] um elemento essencial das identidades, da percepção de si e dos outros” (ROUSSO, 2002, p. 95). Para o autor, a memória busca uma representação seletiva do passado e esse passado não é apenas daquele que recorda, mas também do coletivo. Por esse motivo, as memórias são componentes fundamentais para a construção/desconstrução/reconstrução das identidades dos sujeitos, das percepções de si e dos outros.

Este referencial teórico dá um suporte para que nós, pesquisadores(as), possamos entender que quando o passado é anunciado outras questões precisam ser relevadas.Ferraço (2007, p. 86) diz que “trabalhar com narrativas coloca-se para nós como uma possibilidade de fazer valer as dimensões de autoria, autonomia, legitimidade, beleza e pluralidade de estéticas

dos discursos dos sujeitos cotidianos”.Logo, é importante haver cautela na pesquisa, para que o trabalho seja realizado com reflexão, localizando as memórias dos sujeitos num tempo e espaço específicos.

Ainda que o nosso estudo esteja inclinado a interpretar atentamente as narrativas de memórias dos sujeitos participantes/protagonistas da pesquisa, temos consciência de que se trata de uma interpretação possível, algo construído, fabricado sobre o objeto do estudo.

Reconhecemos que:

o que realizamos é, portanto, fruto do nosso „olhar‟, do nosso „ouvir‟ e do nosso „escrever‟. Em outras palavras, é fruto de nossas buscas de uma interpretação antropológica, de uma „leitura‟ possível da experiência em pauta (GEERTZ, 1978, p.13 apud CANDAU; KOFF, 2015, p.333)

Entendemos que a memória reconstrói o passado, sendo mediada pelas experiências do presente. Com isso, os sujeitos participantes da pesquisa narram suas experiências de vida, trazendo diversidade para as interpretações de seus significados. Da mesma forma, os fatos por eles vivenciados também podem demonstrar contradições em suas narrativas na reconstrução do passado.

Muitos fatores influenciam na memória do indivíduo: o relacionamento com a família, com a escola, com outros grupos sociais etc. O que conduz a atividade da memória é a função social desempenhada no presente pelo sujeito que recorda.

Não é possível recompor o passado em sua totalidade. No entanto, há a possibilidade de fazer uma análise parcial para tentar compreendê-lo. Cabe à memória tal tarefa.

Conhecer o passado é uma façanha tão extraordinária quanto alcançar o infinito ou contar estrelas, já que, mesmo bem documentado, ele tende a se tornar fugidio e imenso em sua extraordinária dimensão e variedade de situações (LOWENTHAL, 1981, p.73, apud DELGADO, 2003, p.13).

Com abundância em suas apresentações, “a memória é esse lugar de refúgio, meio história, meio ficção, universo marginal que permite a manifestação continuamente atualizada do passado” (Pinto, 1998, p. 307). Nesta continuidade, recorrer à memória é como buscar refúgio dentro de nós mesmos, num movimento de reconstrução da identidade.

Na rememoração reencontramos a nós mesmos e a nossa identidade, não obstante muitos anos transcorridos, os mil fatos vividos (Bobbio, 1997). A memória é considerada um importante suporte para solidificar consciências e construir identidades.

“Na memória se entrecruzam a lembrança e o esquecimento; o pessoal e o coletivo; o indivíduo e a sociedade, o público e o privado; o sagrado e o profano” (Neves, 1998, p. 218).

Ao narrar uma memória, garantimos sua permanência reatualizada e ressignificada no presente.

Sendo assim, este estudo pretende fazer com que as narrativas registradas,oralmente ou por escrito, traduzam em palavras a consciência de memória no tempo e enunciem a possibilidade de mudança no atual cenário educacional. A investigação realizada no presente trabalhoprovoca indagações ao passado dos sujeitos participantes da nossa pesquisa.

Legitimar os discursos desses sujeitos é fundamental como forma de transmissão das experiências vividas no cotidiano escolar de épocas e contextos diferentes.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 75-79)